domingo, 1 de setembro de 2013

Um dedo de prosa com Andréa del Fuego



Andréa e seus personagens

Por Alexandre Staut (*)

Você já ouviu falar em oneiros? Já visitou um? Em As Miniaturas, novo livro de Andréa del Fuego, eles conduzem o sonho das pessoas. A ideia para esses personagens, conta Andréa, surgiu quando a professora chilena Yolanda Gloria Gamboa lhe apresentou Artemidoro, autor grego do século II, que interpretava sonhos. Ele escreveu um manual para enfrentar opositores e ensinar a arte da onirocrítica ao filho. O manual se chama Sobre a Interpretação dos Sonhos e teria sido referência para Freud, séculos depois.

No caso de As Miniaturas, há um oneiro que se vê às voltas dos sonhos de uma taxista e seu filho, frentista de um posto de gasolina, dois personagens que seguem certa linhagem clássica de figuras da literatura brasileira, e, por isso - um palpite -, devem ficar para a história. Nesta entrevista, a autora fala dos seus personagens, daqueles que mais marcaram a sua formação, entre outros assuntos.


Quais os personagens da literatura nacional que mais te marcaram nos seus anos de formação?
Brás Cubas, de Machado de Assis, Macabéa, de Clarice Lispector, e também o personagem de um conto de Murilo Rubião, o "O Ex-mágico da Taberna Minhota". O personagem de Rubião me lembra também o "Bartleby, O Escrivão" de Melville, esse universo me levou ao livro As Miniaturas, de alguma maneira. O ex-mágico não tolera seu dom de fazer aparecer e desaparecer, a maneira que encontrou para embotar seu dom foi trabalhar com a burocracia numa repartição pública. Já Brás Cubas e Macabéa são os clássicos que passam a habitar você como alguém já conhecido, ficam como referências básicas, ficam na família. Brás Cubas e Macabéa registram tentativas frustradas durante a vida, das menores às maiores, os dois até a morte.

Alguma história curiosa que  relacione esses personagens aos da sua ficção?
Só agora, nessa entrevista, repensando os personagens que me marcaram, é que vi a relação do personagem do Rubião com o último romance que escrevi. Impressionante como a memória é ingrata. Estava até aqui colocando a inspiração do livro na conta da leitura de Sobre a Interpretação dos Sonhos, livro do século II, de Artemidoro, em que o autor analisa centenas de sonhos. Mas esse foi um gatilho que movimentou o que já estava previamente colocado.


Como os seus personagens surgem?
Aparentemente de forma espontânea, até me dar conta de que eles já eram velhos amigos. Em Os Malaquias surgiu de pessoas vivas e mortas da minha família, não há dificuldade em ver de onde surgiram. Já os outros livros se originaram de pontos difusos, de embaralhamento mesmo.

No caso do seu último romance, como nasceram o oneiro, a mãe e o filho?
No livro de Artemidoro vi o termo "onirocrítica", que é a intrepretação do sonho, tirei desse termo o oneiro. Mas, no caso do livro, esse elemento não entraria no pós-sonho, mas no pré-sonho. Tudo se passa no Edifício Midoro Filho, no centro da cidade, o ponto zero da concretude e, no caso, da burocracia que será o pilar do funcionamento desse pré-sonho. Oneiros trabalham no Edifício sugerindo sonhos para pessoa que não sabem que lá frequentam necessariamente, essas sugestões são feitas através de miniaturas ordinárias. A mãe e o filho são atendidos pelo mesmo oneiro e isso fere a regra do Edifício, mas o oneiro ficará obsessivo por eles. A questão é que as pessoas impactam mais os oneiros do que o inverso.

Seus personagens são mandões? O que eles costumam te pedir?
Sim, na medida em que são erguidos vão constituindo uma lógica que passa a ser a dona da casa. Costumam pedir mais espaço e o que faço é dar o menor espaço para que digam logo a que vieram.

O jornalismo te influencia na criação dessas figuras?
Não tenho formação em jornalismo e nem atuo como tal. Colaborei em algumas revistas, mas sempre com o pé na ficção, sou péssima repórter da realidade, nada confiável nesse sentido.

Quais os personagens que habitam, neste momento, os seus pensamentos?
Tenho o personagem do próximo romance, sei pouco sobre ele, estou pesquisando e me deixando afetar. É um artista marcial em busca de ascensão espiritual e que, durante um exercício, se surpreende com uma descoberta.

Quais personagens da nossa literatura são os mais injustiçados? Se pudesse fazer algo ou dizer uma frase para um deles, o que diria?
O ex-mágico de Rubião é um deles, o que significa dizer que os personagens dos contos são quase sempre esquecidos.


As Miniaturas

O Edifício sugere o sonho usando o próprio, assim como a gramática usa palavra para falar da frase, outro edifício. Minha sala tem uma mesa estreita, cadeira onde me sento e outra na frente onde o sonhante se ajeita. O cara abre a porta sem dizer um a, agem sempre da mesma forma. Um dia perguntei ao gerente por que não deitávamos os sonhantes, já que seria uma posição mais confortável. Ele respondeu que eu cuidasse da minha parte. Na minha gaveta há dezenas de miniaturas, sozinhas elas não funcionam, há o comando de voz, é preciso que eu diga uma frase-chave. Não se escolhe quem é atendido, o Edifício Midoro Filho faz uma triagem inicial. Calhou que eu atendesse uma mãe e seu filho, separadamente, é claro. Atendia a mãe uma vez por semana, o filho aparecia sempre. 
...
Logo que Napoleão Bonaparte morreu, nos foi permitido oferecer sua imagem aos sonhantes. A miniatura era seu chapéu. No caso de uma figura coletiva, seus dados não são mais preservados, pudemos conhecer seu relatório: um rato, um bule, um obelisco egípcio. Já na meia-idade, os dados descreviam uma mulher pedinte, metade de um pão, jornal com a tinta desgastada, um cobertor fino e uma observação: ver sonhos de sua mãe. 
....
Quando os olhos dão cambalhotas debaixo da pálpebra, é sinal de que o sonhante está apto, vendo sistemas solares, invadindo a Rússia, emagrecendo a mãe, perdoando cães, dando palestra em Mônaco. Vou além das miniaturas, embora eu não assista à palestra e nem saiba onde fica a Rússia.


Num prédio que pode ou não existir, as pessoas se acumulam em um vasto saguão, na fila por um elevador. É o Edifício Midoro Filho, um marco imponente no centro da cidade, dezenas de andares empilhados numa arquitetura sóbria e funcional. Conforme se espalham pelos corredores, funcionários e visitantes ocupam as salas burocraticamente decoradas dos oneiros.
Cada oneiro atende sempre as mesmas pessoas. Elas não podem se conhecer e tampouco manter algum parentesco. Mas o sistema não é infalível, e, naquela manhã, o oneiro percebe que o rapaz diante de si é filho de uma de suas clientes. Conforme conduz a sessão de sonhos, oferecendo ao rapaz as miniaturas plásticas que servirão de guia durante seu torpor, o oneiro decide não comunicar à administração sobre o erro.
A partir desse equívoco burocrático, o oneiro abandonará cada vez mais seu rigoroso código de conduta para se envolver na vida do rapaz e de sua mãe, uma taxista que sobrevive a duras penas após o sumiço do marido. Numa prosa de arrebatadora força poética, Andrea del Fuego levará o leitor a um universo onde a fronteira entre sonho e realidade é tratada com um misto de rigor kafkiano e minimalismo oriental. No jogo das pequenas esculturas plásticas que auxiliam os clientes durante as sessões com os oneiros, a autora ilumina as brechas que existem entre o real e o imaginado, o amor e a dedicação.

Adréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. Escritora e jornalista, publicou os volumes de contos Minto enquanto posso (O Nome da Rosa, 2004), Engano seu (O Nome da Rosa, 2007) e Nego fogo (Dulcinéia Catadora, 2009), além de diversos livros juvenis e infantis. Seu primeiro romance, Os malaquias (Língua Geral, 2010), foi ganhador do Prêmio Saramago de literatura. Fonte : http://www.companhiadasletras.com.br/


Os Malaquias de Andréa del Fuego
Tous rentrèrent se coucher, la nuit était épaisse, le vent soufflait contre les fenêtres. Les tuiles vibraient, dans peu de temps la tempête surgirait dans la maison. Les parents dormaient dans une chambre. Nico, Júlia et Antônio, dans une autre, recroquevillés dans le même lit.
         Un chat étendit ses pattes, les mûrs se raidirent. La pression de l'air aplatit les corps contre le matelas, la maison entière s'alluma et s'éteignit, telle une lampe au milieu de la vallée. Le tonnerre gronda longuement jusqu'à atteindre l’autre côté de la montagne. Sous la maison, la charge négative de la terre reçut du ciel un coup de foudre positif. Ces charges invisibles se concentrèrent chez les Malaquias 
         Le cœur du couple était en phase systolique, moment durant lequel l'aorte se ferme. La voie étant obstruée, la décharge ne put les traverser pour atteindre le sol et être neutralisée. Au passage de la foudre, le père et la mère inspirèrent, le muscle cardiaque reçut le coup sans pouvoir l'évacuer. L'éclair échauffa le sang à des niveaux solaires et se mit à consumer tout le système circulatoire. Un incendie intérieur qui fit cesser le galop solitaire des cœurs de Donana et d’Adolfo.
         Le cœur des trois enfants était en phase diastolique, la voie était toute ouverte. Le vaisseau dilaté ne perturba pas la course de l'électricité et la foudre poursuivit son chemin à travers les valves de l'aorte. Les trois subirent quelques brûlures imperceptibles sans que leurs organes fussent atteints. Nico se réveilla tendu, sans bouger il attendit le jour. La pluie n'empêcha pas la nuit de s'éclaircir, le coq resta muet. Dans la chambre des parents, le soleil entra par les tuiles détruites, le couple était raide sur le lit, mais nul n'aurait pu dire qu'une gerbe de feu les avait cuits de l'intérieur. Le matelas et le bord des tuiles étaient noircis. Nico s’approcha et remarqua le combat entre lumière et chair. Antônio ouvrit les yeux, en état de choc. Júlia était consciente, mais elle ne bougeait pas. Elle n’ouvrit pas les yeux. Nico crut qu’elle était morte. Il prit Antônio par la main, ils traversèrent le salon, puis, suivirent le chemin qui les mena au portail. Tous deux restèrent assis sous un arbuste.
         Antônio tapota le bras de Nico, la faim les tenaillait. Nico retourna dans la maison et ne trouva qu’une rapadura qu'il mit dans sa poche mouillée. Il entendit du bruit dans la chambre, c'était Julia, effrayée. A peine était-elle descendue du lit, que Nico l'attrapa, la prit dans ses bras, ses longues jambes battaient contre les genoux de Nico.
         Antônio mâcha la rapadura, les deux autres se serrèrent l'un contre l'autre. Des vaches se levèrent au bout de la route, derrière elles un adolescent tenait une branche dans ses mains, de l'eau glacée coulait de son chapeau. La pluie s’arrêta. Les frères tremblaient de froid, les lèvres violettes, les pieds gelés.
          - Nico !                                                    
         Timóteo était l’employé de Geraldo Passos, le propriétaire de la ferme Rio Claro. Timóteo se dirigea vers la maison des Malaquias, il y entra et en sortit en courant. Il ne dit rien, mit les trois enfants sur le cheval sans harnais qui venait avec le troupeau de bœufs et poursuivit son chemin. Dès que Geraldo vit les trois enfants, les uns derrière les autres, il demanda à la vieille bonne d'aller chercher du café.
-          Timóteo, demain tu emmèneras les petits à l'orphelinat de la Sœur française, en ville.Le plus grand reste avec moi.
         Les trois dormirent en boule sur le tapis à côté du lit de Timóteo. Avant de quitter la chambre, Nico mit le reste de la rapadura dans la poche de sa sœur.
         - Ne pleure pas, je viendrai vous chercher.
         La petite s'essuya le visage avec le bord de sa robe et la rapadura tomba par terre. Antônio la ramassa et la mit dans sa poche, en grondant sa sœur. Timóteo emmena Antônio et Júlia à cheval. Six heures de voyage jusqu'à la petite ville.
         - D'où viennent-ils ? dit Sœur Marie.
         - Leurs parents ont été électrocutés, la foudre s'est abattue sur leur maison. L’ainé est resté à la ferme, Monsieur Geraldo a gardé le garçon.
         Marie emmena les deux enfants dans une cour.  Ils y resteraient le temps de préparer un lit dans l'une des chambres.
Traduction réalisée par Marta Rodrigues, Marilyn Marcelino
Etudiantes en 3ème année LLCE  -  portugais
(Université Paris-Sorbonne)


Salon du Livre de Paris com Paloma Vidal, Leonardo Tonus, Andréa del Fuego e Ronaldo Correia e Brito
Andréa del Fuego est née à São Paulo en 1975. Son roman Os Malaquias, dont les droits ont été vendus en Allemagne, Italie, Israël, Croatie, Argentine et au Portugal, a reçu le Prix José Saramago en 2011 et a été finaliste des Prix São Paulo de littérature et Jabuti. Auteur de la trilogie de contes Minto enquanto posso, Nego tudo et Engano seu, elle a écrit aussi le roman jeunesse Sociedade da Caveira de Cristal, le recueil de chroniques Quase caio et le livre pour enfants Irmãs de pelúcia. Sa nouvelle Sofia, o cobrador e o motorista, publiée dans la revue Granta n˚ 10, lui a valu le Prix « Literatura para Todos » du ministère de l’Education.



(*) Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) em 1973. Jornalista, já trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França (em Brest, Tours e Arromanches-les-Bain). Ministrou oficinas de haikai na Oficina Cultural do Estado de São Paulo (Bauru/SP). É roteirista do documentário “O anjo da guarda de Caio F.” e autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toada Edições/2010) e Um lugar para se perder (Dobra/2012). No momento, trabalha em seu terceiro romance, num livro infantil e numa peça de teatro que está sendo escrita para a atriz cubana Phedra de Córdoba. Alexandre Staut é colaborador do Blog Études Lusophones.

Um comentário:

  1. Le livre existe en français depuis le 1er octobre.

    "Un chat s'étira, les murs se raidirent. La pression de l’air aplatit les corps contre le matelas, la maison entière s’alluma et s’éteignit, une ampoule au milieu de la vallée. Le grondement du tonnerre s’étendit jusqu’au côté opposé de la montagne. Sous la bâtisse la terre, de charge négative, reçut l’éclair positif d’un nuage vertical. Les charges invisibles se rencontrèrent chez les Malaquias.
    Le cœur du couple en était à la systole, le moment où l’aorte se ferme. La voie étant contractée, la décharge ne put la traverser pour rejoindre la terre. Au passage de l’éclair, le père et la mère inspirèrent, le muscle cardiaque reçut la secousse sans pouvoir l’évacuer. La foudre chauffa le sang à des températures solaires et entreprit de brûler tout l’arbre circulatoire. Un incendie interne qui obligea le cœur, ce cheval qui galope tout seul, à terminer sa course en Donana et Adolfo.
    Chez les enfants, les trois, le cœur en était à la diastole, la voie express était ouverte. Le vase dilaté ne fit pas obstacle au cours de l’électricité et le rayon passa par l’entonnoir de l’aorte. Sans affecter l’organe, tous trois ne reçurent que des brûlures infimes, imperceptibles."

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