terça-feira, 24 de setembro de 2013

Dona Sebastião

Mistério e ódio, duas realidades em 
A Legítima Dor da Dona Sebastião

À Angelina Sondo
meu berço.

Por que pensar no passado se o presente está presente
e o futuro é uma esperança?
Paulina Chiziane

            I
Não se trata de um substantivo qualquer. Não é Lilinho, Vera ou Joana. É Sebastião, primeiro nome de um dos mais importantes fotojornalistas do mundo, Sebastião Salgado Jr.; de um grande mártir cristão, São Sebastião; e de um rei afamado, cuja história é incapaz de o sepultar, Dom Sebastião. Para sermos francos, trouxemos estas três entidades ao acaso, a fim de demonstramos que Sebastião é um substantivo masculino, significando ingénuo ou pateta, mas também sagrado ou venerável. O nome provém do grego, Sebastiasnos, e, antes de ser empregado na língua portuguesa, passou pelo latim, Sebastianus.
            Em seu quarto livro, Lucílio Manjate[1] traz-nos uma personagem extremamente idónea, consequência de várias vivências e longos anos de trabalho em prol da (re)construção de uma sociedade com a qual, afinal, nem se identifica mais tarde. Mas nem é isto que logo de partida nos chama atenção nesta obra, e, sim, o género literário em, à imagem da emblemática obra de Ungulani ba ka Khosa, Ualalapi, ela se insere. Ou seja – esta é nossa opinião –, em nenhum dos até então (re)conhecidos pela crítica literária. Trata-se de uma obra que aparenta ser um conto longo, não um romance – embora possuidora de enredos característicos de romances policiais –, ou uma novela burlesca com um tom discursivo e hilariante semelhante às personagens desinibidas encarnadas pelos actores da Companhia Teatral Mutumbela Gogo. Aliás, o humor encontrado nas falas das personagens e do narrador em alguns casos fazem com que a obra de Manjate apresente o que Rosania da Silva designa (2012: 260) ao analisar As Visitas do Dr. Valdez, de João Paulo Borges Coelho :  “O jogo da representação ou a teatralização narrativa”. A diferença é que, enquanto no romance As Visitas do Dr. Valdez (2009) ou na novela Hinyambaan (2007)[2] a representação materializa-se quando as personagens Vicente, Caetana e Amélia, na primeira obra, e Djika-Djika e o casal Odendaal, na segunda, teatralizam a trama com um recurso permanente ao fingimento. Já em A Legítima Dor da Dona Sebastião, de Lucílio Manjate, o jogo instaura-se ora como resultado da embriaguez que envolve  personagens, nas afamadas barracas do Museu, ora como fruto de um diálogo astuto, orquestrado pelas mesmas e por outras personagens em momentos melindrosos, de grande êxtase da narrativa:

“… E então? ”.
“Falo do país. ”
“E ninguém sabe isso?”
“Aqui, a palavra não tem cor, não tem sabor, não cheira nem dói! ”
“Nunca te esqueças.”
“Mas de que vale essa retórica, se volta e meia a velha está aqui e não podemos falar?”, reclama Rafael, Rafael Malíngua, de nome verdadeiro.
“Sei onde pretendes chegar… conheço a tua estirpe: depois vais vender a ideia ou o idiota…”
“Ou a utopia…”
“… conforme o caso e o lucro. ” conclui Amade, trocista.
“Do idiota? ”
“Do idiota o quê? ”
“A utopia. ”
“Pode ser, também há utopias idiotas. ”
A velha, a velha! ”

 Por fim, chama-nos atenção o facto de em Lucílio Manjate a protagonista ostentar um nome masculino, Sebastião. Convictos de que a escolha do nome da personagem nuclear da história não foi fortuita, a nossa análise vai procurar, primeiro, explicar as razões da atribuição do nome em causa a uma personagem feminina e, em seguida, revelar os eventuais sentidos daí resultantes. Explicaremos também a relação recíproca entre o mistério e o ódio, duas realidades diegéticas sem as quais a trama não existiria.

II
            A Legítima Dor da Dona Sebastião é a história de uma velha senhora, Sebastião Jonas Mussuei. Ainda jovem, esta personagem dedicara-se à docência em Mandimba, no Centro de Formação de Majune (província de Niassa) e na Escola Primária 3 de Fevereiro, em Maputo. Foi nesta província do sul de Moçambique que, convicta da relevância da sua missão na formação do “Homem Novo” no rescaldo da guerra colonial e principiar da guerra dos dezasseis anos, educou e formou política e ideologicamente os seus alunos. Nesse processo de ensino e aprendizagem Sebastião sempre baseara-se na nova ordem de um regime em que o futuro, utopicamente, teimava em ser auspicioso.

Era uma senhora de porte forte e cuidada; a cútis, normalmente coberta em capulanas, tinha a cor de um bronze velho e pronunciava já a irremediável flacidez da idade. Os olhos pretos eram de uma estranha amargura [mais adiante nos debruçaremos sobre essas amarguras, dores legítimas], brilhavam segredos inconfessáveis até ao silêncio que a envolvia, segredos agora mortos. (p. 9)

Após a sua aposentadoria, Sebastião passa a maior parte da sua vida na rua José Mateus (Museu) onde instalara a sua barraca. As barracas do Museu tornam-se um espaço excepcional da narrativa na medida em que é nesse cenário – a partir da focalização interna[3] activada por Dona Sebastião – em que se revela o passado de seus quatro ex-alunos.   A vendedeira impõe-se assim como personagem e como unidade de significação construída progressivamente pela narrativa. Ela é suporte das transformações semânticas e, enquanto narrador, independentemente do seu estatuto, partilha o seu campo de conhecimento  de maneira a evitar episódios supérfluos, e a enriquecer o mundo imaginário por ela criado (Reis e Lopes, 2000: 314-322). Esta situação propicia “à” Sebastião uma certa autoridade na forma como ela manipula o presente dos quatro personagens, nomeadamente, Malfácio, Amade, Malíngua e Manguana.


A atribuição do substantivo masculino à professora aposentada, vendedeira de profissão nos tempos de crise, a escolha do número de personagens centrais, com as quais ela tem um compromisso marcado na mesma mesa de látex todas as sextas-feiras, e o espaço principal da acção têm aqui um efeito simbólico. Estes elementos ecoam  com a localização das barracas do Museu, apresentadas no prólogo através de uma descrição desapaixonada do narrador por não passarem de infra-estruturas desbotadas e situadas na Rua José Mateus, a qual faz o cruzamento com a Rua dos Lusíadas a Norte e com a Avenida Mártires da Machava a Sul. Embora se encontrem numa das zonas nobres da cidade de Maputo, as barracas simbolizam o subúrbio, funcionando como um local de hospitalidade às entidades de diferentes estatutos sociais, sobrevivendo ou suicidando-se na urbe: escritores/poetas, pintores, jornalistas, políticos em ascensão e gente jovem sem perspectivas nenhumas. Mais uma vez, à semelhança do cenário de O Contador de Palavras, terceiro livro do autor (constituído por treze contos), a escrita de Manjate revela uma tendência forte ao urbanismo e aos eventos típicos desse espaço, confirmando assim a hipótese de Salvato Trigo, seguundo a qual, a cidade é a meta dos que vêem nela a possibilidade de melhoria do seu estatuto social e económico (Trigo, 1984: 55). Numa passagem anterior àquela, Salvato Trigo afirma:

As literaturas africanas modernas, isto é, aquelas que se exprimem na língua de colonização, têm a sua emergência indubitavelmente ligada ao urbanismo, enquanto fenómeno semiótico que tem a ver com a organização social do espaço e que introduz, por isso mesmo, uma nova filosofia de vida tão diferente da do ruralismo característico da África pré-colonial (Trigo, 1984: 53).

Pode haver uma dose de exagero neste pensamento acerca da emergência do urbano nas literaturas africanas modernas, pois, mesmo materializando-se na língua de colonização, muitas obras literárias das modernas literaturas africanas, no geral, e da literatura moçambicana, em particular, transportam para escrita toda uma série de tradições literárias típicas da literatura oral, tendo como espaço privilegiado o campo ou a mundividência de narradores e personagens rurais. Não pretendemos pôr em causa os argumentos de Trigo, queremos sim problematizá-los e reivindicar o outro lado da matriz sobre as quais as literaturas em causa também revelam uma ligação acentuada. Seja como for, com as descrições dos espaços e das personagens que neles co-habitam, fica evidente o interesse de Lucílio Manjate pela cidade. Acima de tudo, as barracas do Museu funcionam como  ponto de encontro onde personagens podem expressar-se como quiserem. Porque, como diz Dona Sebastião, “a expressão é um acto libertário”, numa situação em que, como coloca Karl Liebknecht[4], “O inimigo mais poderoso está no nosso país!”. Mas não é bem isso o que acontece com os amigos que entre muitas coisas dirigem-se às barracas para falarem de política ao seu bel-prazer, uma vez que, Dona Sebastião interdita-lhes a liberdade de expressão. A atitude da vendedeira faz dela um símbolo da autoridade :

Agora que mochos são esses, Manguana? Aqui não quero ouvir falar de mochos (…) (p. 13)

E tu nunca mais tragas as tuas fofocas para esta mesa. Isso termina lá, no teu jornal, onde há       espaços para confusões, ouviste? (p. 48).

Já na altura que fora indigitada como professora para leccionar na escola pré-primária, Sebastião impunha na sala de aulas, no recinto escolar ou onde quer que fosse as regras institucionais e as condutas sociais, nem que para o efeito tivesse de recorrer à palmatória. A educação assumia nessa época um papel ideológico e cabia a Sebastião Jonas Mussuei incutir nos alunos uma formação política compatível ao tão almejado “Homem Novo”. Agora, velha e aposentada, Sebastião cuida  da barraca do Museu vendendo álcool e petiscos de cabrito a quem pudesse pagar. Ora, dos seus clientes, quatro deles, jamais pagariam a conta. Mas, curiosamente, ela não se incomoda com isso. Pelo contrário, notando o interesse de os seus ex-alunos, já amigos, a discutirem política, com a mesma pujança de outrora, intromete-se nas suas conversas e  usa o álcool para silenciá-los a fim de  evitar – quase na mesma proporção que o plano de Piter Botha na época do Apartheid que  questionem as políticas de um regime com o qual ela já não se identifica :

Tive o azar de viver num tempo em que vocês não tinham consciência do mundo, eram apenas    parte material desse mundo que ajudei a criar os alicerces e a moldar. Vocês são o que são porque nós assim vos fizemos e isso é o que me dói.” (p. 49).

Se antes as concepções político-ideológicas eram consideradas ferramentas indispensáveis para a edificação de um pensamento colectivo, volvidos alguns anos, a utopia transformara-se para Sebastião em dor : a dor de saber que, política e ideologicamente, estavam no caminho errado; de pensar que poderia ter reclamado uma educação para a liberdade;  e a dor de finalmente saber que :

o que vos espera é essa permanente desconfiança, essa permanente suspeita que vos arrasta às      barracas e vos embriaga a inteligência, por não haver espaços onde respirar nesta terra que os vossos avós libertaram e sonharam” (p. 49).

São estas as dores da Dona Sebastião, que, num sentido ambivalente, também são as de Malfácio, Amade, Malíngua e Manguana. Dores legítimas, mas que não a afastam do que a personagem julga ser o seu dever : o de vigiar e arbitrar as conversas, escolhendo os temas correctos em detrimento dos politicamente incorrectos. Na mesa de látex de sua barraca, Sebastião deixa de ser uma mera dona, vendedeira, ex-professora. Ela se torna uma voz autoritária com capacidade de formatar, manipular, silenciar os seus clientes com o que eles querem (álcool e petiscos) e com o que eles não querem (o passado). Por esta a razão tem  um nome masculino. Quanto à escolha do número dos ex-alunos (quatro), ele resulta de um plano também bem ponderado : Se Sebastião é símbolo das mazelas políticas e sociais do seu tempo e da sua geração, a sua morte significa o fim desta, o fim de um tempo, o fim dos tempos. Tal qual os anjos do Apocalipse, os amigos Malfácio, Amade, Malíngua e Manguana, têm aqui por missão exterminar um mal em favor próprio :  Dona Sebastião[5].

 
Nestas últimas linhas, cabe-nos explicar a relação recíproca presente no romance entre os mistérios e o ódio, realidades diegéticas sem as quais a trama de A Legítima Dor da Dona Sebastião seria impossível. Como já nos referimos, Dona Sebastião constitui um símbolo de autoridade político-ideológica, mesmo manifestando uma fobia acentuada a esse respeito. Dá-lhe esse estatuto o facto de “oferecer” bebidas alcoólicas a crédito aos quatro (4) clientes cujos passados conhece mais do que eles próprios. Quando o álcool revela-se incapaz de silenciá-los, recua a História de sua pátria para recuperar as histórias de cada personagem – assumindo que “somos personagens de uma história que não é nossa História” (p. 13) –, as quais nenhuma conhece na íntegra[6]. É a esta altura que os mistérios dos passados dos ex-alunos da Escola Primária 3 de Fevereiro são revelados, causando-lhes uma perturbação permanente ao ponto de um deles, Amade, resolver mudar de nome por se envergonhar da sua própria infância. As repercussões das revelações de Sebastião são tão fortes que qualquer um deles – com a excepção de Manguana, talvez – poderia ser o autor moral do assassínio. Assumimos, portanto, que o ódio em A Legítima Dorda Dona Sebastião aparece à medida que os mistérios são revelados. Sem a revelação desses mistérios, não poderia haver ódio de forma alguma. Logo, o(s) mistério(s) e o(s) ódio(s) são duas realidades que nesta narrativa estabelecem uma relação recíproca. Com esta relação a obra em análise pretende nos conduzir ao passado histórico de uma sociedade, através das personagens, pois é descortinando os mistérios de outrora, do ponto de vista histórico e político, que se obtêm explicações para as legítimas dores do presente, enfrentadas pelos moçambicanos a vários níveis sociais. E este jogo conturbado envolve Sebastião, os seus ex-alunos, Sthoe (seu ex-marido, agente policial) e o leitor.
                           José dos Remédios
                                                                                      Laulane, 23 de Julho de 2013
                                                                                                         09:27h
Referências bibliográficas

Coelho, J. (2007) Hinyambaan. Maputo: Ndjira.
Coelho, J. (2009) As Visitas do Dr. Valdez, 2ª Edição. Maputo: Ndjira.
Costa, J. e Melo, A. (1999) Dicionário de Língua Portuguesa, 8ª Edição. Porto: Porto Editora. 
David, D. (2012) A Narrativa de Paulina Chiziane e o Romance Moçambicano Contemporâneo. In Chaves, R. e Macêdo, T. (org.) Passagens para o Índico: Encontros Brasileiros com a Literatura Moçambicana, pp. 113 – 121. Maputo: Marimbique.
Manjate, L. (2011) O Contador de Palavras. Maputo: Alcance Editores.
Manjate, L. (2013) A Legítima Dor da Dona Sebastião. Maputo: Alcance Editores.
Matusse, G. (1998) A Construção da Imagem de Moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani ba ka Khosa. Maputo: Livraria Universitária.
Remédios, J. (2013) A Liberdade Como um Objecto da Ficcionalidade em O Contador de Palavras de Lucílio Manjate. Suplemento Cultural do Jornal Notícias, 20 e 27 de Fevereiro: p. 6.
Reis, C. e Lopes, A. (2000) Dicionário de Narratologia, 7ª Edição. Coimbra: Livraria Almedina.
Santos, J. (2008) O Último Selo, 16ª Edição. Lisboa: Gradiva.
Silva, R. (2012) Uma Leitura por Fora do Texto em As Visitas do Dr. Valdez, de João Paulo Borges Coelho. In Chaves, R. e Macêdo, T. (org.) Passagens para o Índico: Encontros Brasileiros com a Literatura Moçambicana, pp. 257 – 264. Maputo: Marimbique.
Trigo, S. (s/d) Ensaios de Literatura Comparada. Lisboa: Vega.
Trotsky, L. (1963) Revolução e Contra-Revolução. Rio de Janeiro: Laemmert.





[1] Para além de A Legítima Dor da Dona Sebastião (2013), Lucílio Manjate é autor dos seguintes livros: Manifestos (2006), Os Silêncios do Narrador (2010) e O Contador de Palavras (2011).
[2] Embora Rosania da Silva (2012) não se refira a obra Hinyambaan, de João Paulo Borges Coelho, resolvemos enquadrá-la às ideias da autora, pois, à semelhança de As Visitas do Dr. Valdez, nela “O jogo da representação ou a teatralização narrativa” também é presente.
[3] Forma de representação dos eventos da história a partir do ponto de vista de uma personagem inserida na ficção (ver Reis e Lopes, 2000: 170-173).
[4] In Trotsky (1963: 78).
[5] Manjate não é o primeiro escritor a criar este tipo de cenários. Para além da escritora moçambicana Paulina Chiziane, que também usa este tipo de analogia numérica no romance Os Ventos do Apocalipse, José Rodrigues dos Santos, escritor português, segue estes trilhos no seu quinto romance, O Sétimo Selo, quando um grupo de amigos filantropos constituído por quatro personagens incube-se a missão de salvar o planeta, criando para o efeito um projecto que exterminaria a ameaça causada pela demasiada exploração dos combustíveis fósseis, protagonizada pelas grandes petrolíferas mundiais, pondo assim em risco a sobrevivência do planeta terra.

* texto publicado inicialmente com algumas modificações no Jornal Noticias  em 17 de Setembro de 2013. 

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