quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Arte urbana em Portugal

Eime
Encontro com Lara Seixo Rodrigues,

uma das caras do Festival WOOL


Por Mickaël C. de Oliveira

« Cada vez gosto mais de trabalhar em zonas onde não existem grafittis, nem arte urbana, é muito mais enriquecedor "trabalhar do zero. »

Há nas palavras de Lara Seixo Rodrigues leves laivos messiânicos. Mulher de ação que tem percorrido o país (e Paris) inteiro e espalhado a sua mensagem um pouco por todo o lado, Lara foi também convidada para participar do Fusing Culture Experience na Figueira da Foz, um festival que celebra a música, a gastronomia, a arte urbana e o desporto de Portugal. Mas se hoje é conhecida como sendo uma das caras do WOOL - Festival de Arte Urbana da Covilhã, poucos sabem que a sua profissão de sonho, nada tem a ver com o seu percurso e com o que atualmente faz (ou será que tem ?)


Se não me engano, querias ser cabeleireira quando eras mais nova, mas a tua mãe não deixou. O que é que te atraía tanto nessa profissão ?
Sempre quis ser cabeleireira, ainda hoje. Muito por culpa da influência da minha mãe que me fazia totós e tranças e punha elásticos para o cabelo com berloques… Sempre gostei muito de manualidades, trabalhar com as mãos, transformar as coisas, e acho que o cabelo tem muito disto. Tu pegas no cabelo de uma pessoa e transformas a cara dela, a expressão muda radicalmente. E depois vem talvez aquela parte mais sociológica, quase psicológica… Estás a ouvir uma pessoa e ela fala, fala, fala… Adoro ir ao cabeleireiro, não me incomoda lá passar horas e horas, apesar de agora já lá não ir muito. (risos)

Qual é a ligação que encontrarias entre a profissão dos teus sonhos e  aquilo que fazes agora ?
Nunca tinha pensado nisso, mas creio que esta componente sociológica e psicológica que referi está muito por detrás disso. Tal como está por detrás a minha escolha académica e profissional e o posterior (e actual) descontentamento com a mesma. O que sempre me interessou na arquitectura foi o captar e analisar como é que as pessoas vivem, como habitam um determinado espaço, quais são os seus hábitos, perceber como uma determinada família ‘usa’ a sua casa e projetar partindo deste ponto… ao longo do tempo, percebi que em Portugal não existe uma cultura arquitectónica. Existirá pontualmente a Norte, no Porto, onde temos os grandes mestres : Siza, o Távora, o Souto Moura… onde poderemos falar inclusivamente de uma ‘escola do Porto’, com uma imagem e formas muito próprias, mas que, por outro lado, se pode ler como uma formatação e limitação à imaginação e formação dos arquitectos (muito por desconhecimento do trabalho real dos mestres). No resto do país, o que observo, é que o papel do arquitecto é tido como algo, por vezes, dispensável ("o chato da obra ") e outras (demasiadas) vezes como algo inantingível (incompreensível) ao comum dos mortais, existindo um distanciamento  demasiado grande entre a minha profissão e a comunidade em geral. Observo igualmente uma gigantesca produção para ‘revista’ onde o homem já não ocupa lugar. Restará dizer que actualmente, pelo declínio da indústria da construção e imobiliária, o trabalho do arquitecto resume-se muito a licenciamentos e legalizações. Não há muita criatividade. Portanto, fui perdendo esse gosto.

Quando é que te veio esta paixão pela arte urbana ?
Não sei, acho que não tem explicação, como qualquer outra grande paixão. O fenómeno do graffiti em Portugal tem 15 anos, 20 no máximo. A verdade é que eu e o meu irmão, com quem tenho uma relação muito próxima, sempre tivemos essa ‘paranóia’. Temos uma cultura de fronteira. Fomos criados quase numa dupla-cultura. Só comecei a ver televisão portuguesa com 13 anos quando abriu a SIC, daí que a língua espanhola para nós é quase como se fosse uma língua materna. As pessoas da minha idade, que moram na Covilhã, em regra geral, dominam bem o espanhol. Mas tão drástico como na minha casa, acho que não há. Aliás, nunca fui muito boa aluna em português por causa disso. (risos) Como em Espanha o graffiti surgiu com alguma antecedência, sempre que íamos de férias ou tínhamos oportunidade, íamos observar comboios e muros. É paranóia! Obviamente fomos desejando fazer algo na Covilhã, ainda numa época que nem em Lisboa havia grande abertura à arte urbana, um boom que em Portugal aconteceu há cerca de 4 / 5 anos, quando surgiram os primeiros eventos e manifestações. Quando em 2011, finalmente organizámos o Wool, foi o concretizar de um sonho, de um objetivo preciso que nós tínhamos. Na Covilhã, num espaço onde não existe nada de graffiti, alguns tags obviamente... queríamos democratizar a arte contemporânea e estas novas formas de expressão, torná-las acessíveis a toda a gente... reabilitando simultaneamente o centro histórico da cidade, completamente degradado. Os artistas que vão à Covilhã têm de dar sempre um workshop ou uma palestra, uma ação pedagógica, de trabalho direto com as pessoas, de muitas conversas e muitas vezes de ajudas, que dá uma oportunidade à comunidade de compreender o trabalho que está a ser feito, a peça em si, que permite uma apropriação das mesmas. E isso reflecte-se rapidamente : fizemos o festival há dois anos e as peças permanecem intactas, ninguém lhes toca. E se alguém lhes tocar, os velhotes são os primeiros a bater neles… (risos)

FABRICAS – CR : PEDRO SEIXO RODRIGUES / WOOL
Fala-nos um pouco da tua cidade, a Covilhã.
A Covilhã era considerada a Manchester portuguesa.  Um dos centros europeus da indústria da lã. Existiam mapas onde apareciam assinaladas Lisboa, Porto e Covilhã, o que denotava a importância dessa cidade. Tinha mais de 200 fábricas e chegámos aos 8.000 trabalhadores… Neste momento, devem existir duas no máximo, o que é uma pena. E nas fotos, as máquinas utilizadas na altura eram das mais sofisticadas da Europa. Não se entende porque caiu tudo de um momento para o outro. Perdeu-se rapidamente esta identidade e actualmente, se grande parte da cidade vive em função da existência de uma Universidade, esta vive muito encerrada à comunidade.

VHILS– PEDRO SEIXO RODRIGUES / WOOL

Todos os artistas têm de se adaptar à história da cidade onde atuam ?
Antes de os artistas chegarem à cidade, nós fornecemos sempre um ‘pacote de informação’ com a história da Covilhã, fotos antigas e actuais, para que façam peças relacionadas algo com este universo. Obviamente tens milhões de coisas que podes usar : estamos na serra, temos neve, temos montanhas, ovelhas, … por exemplo a Btoy fez uma reinterpretação de um postal do século 18, o VHILS fez uma coisa que não tem nada a ver a nível factual mas retrata o envelhecimento do interior… Também andámos a fotografar antigos trabalhadores da indústria dos lanifícios. E o curioso desta acção do Inside Out Project (3º evento do Wool) é que só conseguimos entrevistar 46… Muitos não querem recordar, têm vergonha.

INSIDE OUT PROJECT– PEDRO SEIXO RODRIGUES / WOOL
Isso não lhes retira de uma certa forma alguma liberdade ?
Nós só damos um tema, que tem dezenas de sub-temas e possibilidades. Reforçando a ideia, a pessoa que o VHILS esculpiu não é da Covilhã, não tem qualquer ligação com ela, mas retrata a imagem de envelhecimento que ele pretendeu focar. Claro que não se fizeram facas e imagens chocantes. (principalmente numa primeira edição e primeiras acções de arte urbana numa cidade onde esta não existe). (sorriso)

Qual tem sido a vossa relação com os políticos ?
Por exemplo na Figueira da Foz, inicialmente tivemos alguns problemas com a Câmara, para ter autorizações para fazer murais. Pelo desconhecido e receio pelo que estas iniciativas possam gerar… Mas obviamente há algumas formas de actuação e truques que adoptamos quando trabalhamos em ‘locais virgens’. O primeiro deles é a escolha de artistas. Por exemplo, a lenda figueirense que inspirou a obra do Mário Belém, algo recorrente na forma de trabalho deste artista, fez com que as instituições olhassem para o projeto de forma cuidada, quase familiar. É uma lenda local sobre um peixe e nínfas… Todos os artistas que convidámos para a Figueira da Foz, foram pensados com premissas definidas e cuidadas. Premissas que variam de projeto para projeto, que são sujeitos a apreciações de gosto. « Eu gosto, eu não gosto… » O mesmo aconteceu aqui, fornecemos as maquetes e foi dada opinião sobre os mesmos. Na Covilhã foi diferente, só enviámos os currículos dos artistas, nada mais.

Mário Belém no Fusing  – Lara Seixo Rodrigues
As eleições podem entrar em jogo para a aceitação ou não de um projeto ?
(muitos sorrisos) No caso concreto da Covilhã, é com alguma pena que temos constatado que se vive algo parecido a um universo só digno de ditadura, em que o que decreta a realização e/ou continuação de bons projectos é a cor partidária. Nós não somos de nenhum partido, temos a nossa opinião própria… ficamos de fora. Nós fizemos e continuamos a fazer um bom trabalho na promoção da cidade, inclusivamente fora dela, elogiado por muitos, dentro e fora do país, mas o que interessa para o poder local não é isso.. também não sabemos o que é, não entendemos a programação cultural existente (ou inexistente !). Gostava de dizer que há coisas boas a acontecer na Covilhã, mas neste momento não há e o pouco que há é feito em prol do voto fácil e imediato. Nós já passámos por uma fase de não falar, de ficarmos calados, de desejar que esta postura fosse alterada. Mas todos os anos é o mesmo, dizem que não têm dinheiro para financiar os projetos que apresentamos, mas logo surgem financiamentos para muitas iniciativas de valor artístico e qualidade muito duvidosas… Por isso estamos a ponderar e a avançar com outras formas de financiamento, como acções de crowdfunding.

Qual é o orçamento desse festival ?
20 000 euros, para um ano inteiro de actividades, 4 eventos que se prolongam durante 1 semana cada. Só neste ano, o Wool já esteve em Paris, em Abrantes, em Coimbra, vamos estar no Fundão… mas não desistimos de tentar e procurar financiamento para realizarmos o Wool no seu formato original, na Covilhã. Continuamos a acreditar que é possível e é o nosso desejo !

Que achas da lei anti-graffiti ?
Toda a nova Lei reflecte em si uma total falta de noção e conhecimento das matérias que estão a ser legisladas. Refere no seu texto introdutório que o graffiti e arte urbana é sinónimo de vandalismo e insegurança. Exemplo contrário, constatámos na Covilhã, com a peça que a artista catalã Btoy nos deixou, onde as idosas que moram nas redondezas nos comentaram que se sentem mais acompanhadas com a imagem do pastor. Novo exemplo e mais recentemente, em Coimbra, quando estavámos a trabalhar na peça do artista Add Fuel, um turista estrangeiro veio agradecer o nosso trabalho de reabilitação daquela área e moradores passaram por nós dezenas de vezes a sorrir e agradecer o mesmo facto. A nova Lei peca também por não distinguir o que é um graffiti do que é um projeto artístico. Obviamente há acções que devem ser penalizadas, mas esta Lei trata todas as acções de forma semelhante, inclusivamente criminalizando uma técnica, o picotismo, que só um artista a nível mundial utiliza e é português, o Vhils, talvez o nosso segundo artista mais internacional da actualidade.

Descredibiliza um artista fazer tags ou bombings?
Para mim sim, muito… mas é a minha opinião pessoal. É uma coisa de umbigo, de demarcação de território.

O que te respondem esses artistas ?
Na primeira vez que fiz um festival, dois dos meus artistas queriam fazer isso na cidade. Eu disse – pedi - que não o fizessem. Sobretudo por ser uma cidade onde não existe nada ou muito pouco… Porque depois iriam associar uma acção à outra e não nos iriam deixar fazer mais edições do festival. O graffiti é escrita, um writter tem de escrever o nome nas áreas mais improváveis, mais difíceis que existirem. São acções de entendimento restrito, só a comunidade de writters percebe o que está escrito. A arte urbana não, pretende que toda a comunidade perceba, entenda e interaja com o que está a ser feito. Mas tenho muitos amigos que pintam comboios para sentirem ‘aquela’ adrenalina.

Já atuaram no Porto ?
Fui lá dar uma palestra… e foi uma das coisas mais estranhas que me ocorreu. É tabu, não dizem que sim ou que não. A audiência (jovem) não teve reação, não houve sequer uma pergunta…

É mais complicado fazer arte urbana no Porto do que por exemplo em Lisboa ?
Não tem nada a ver. Um universo muito estranho, lá é uma coisa quase criminosa. Eu gostava de lá fazer uma coisa justamente para desmistificar… Quando estive no 180 Creative Camp, uma rapariga do Porto veio sondar o meu interesse em assinar um manifesto contra a lei anti graffiti. Disse que compreendia a postura dela, mas que eu acredito que qualquer manifesto levanta automaticamente muitas barreiras a quem se entrega. Acredito que é pela acção concreta e real, que se podem alterar mentalidades e dismistificar comportamentos. Que eu iria sempre por este caminho. Eu sou muito de agir, de fazer.
Tirando o EIME e o Frederico Draw, os artistas do Porto têm uma relação muito próxima com o graffiti. E creio que isso também não ajuda muito a este universo do Porto.

ADD FUEL 04 (Lara seixo Rodrigues)

Pergunta mais técnica : as condições climatéricas podem influenciar o trabalho dos artistas ?
Muito, mas também depende do ritmo e dos hábitos de trabalho de cada artista. O Mário tem sol a partir das duas. Todos os dias tem um escaldão, mas não gosta de trabalhar à noite. Com o Diogo, apercebemo-nos que ao trabalhar de dia ao sol, rendia metade do que ao trabalhar à noite… Depende do artista, da orientação da parede… A chuva também…

Em que condições receberam o convite para o Fusing e quais foram as palavras que te convenceram ?
Recebemos um convite do Filipe Mateus, diretor artístico do festival. Depois enviaram-me um dossiê e estava de facto muito bem montado. O facto de se pretender essa interação com toda a cidade e o trabalho na cidade (e não em estruturas temporárias), é o que nos entusiasma sempre. Há projetos que nos apresentam que vejo logo que não há ali conteúdo, que não vale a pena, este foi o contrário !

Descreve, em poucas palavras, os artistas que atuaram no FUSING.
Mário Belém : as histórias que ele conta são sempre muito portuguesas. Mistura muitas técnicas, sobressai muita cultura das obras dele.
Kruella D’Enfer : muita cor.
Kruella d’Enfer - Luís Cavaleiro - FUSING
Diogo Machado / Add Fuel : agora muito associado ao azulejo, à reinterpretação do tradicional azulejo.
Eime : muito rosto, sempre imagens muito envelhecidas, meio tristes, meio melancólicas.
EIME 02 : Conceição Caleia - FUSING
O que nos podes dizer mais sobre o que estão a preparar em Paris ?
Ainda não podemos revelar muito. Os trabalhos vão terminar no final de agosto e será aberto ao público no 1° de outubro. Eu não sei muito do estado actual (visto que nós estivemos por lá em Abril), mas sei que aquilo está tipo a loucura lá dentro. Está muito recheado. Os galeristas dizem que o nosso piso, dos portugueses, continua a ser o melhor. E para mim é um orgulho poder ter levado até lá a nossa comitiva de 11 artistas ! Agora é esperar !
Eime em Paris




Referências :
site do wool : http://www.woolfest.org/

Paginas facebook dos artistas

Pagina facebook Fusing :
https://www.facebook.com/fusing.culture.experience?fref=ts

(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne Paris-IV, sempre teve como objetivo a divulgação de artistas portugueses emergentes ou simplesmente não conhecidos. Mickaël C. de  Oliveira é escritor e colabora para o Blog Estudos Lusófonos. Leia suas outras reportagens e crônicas na rubrica Culturas Urbanas. 

2 comentários:

  1. Excelente entrevista à pessoa que eu conheço, que mais faz pela arte urbana em Portugal. Parabéns Lara, não pares!
    Gonçalo Lims

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    1. tens que conhecer mais pessoas...

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