quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Adeus cerquinhas

Ambiente do Sarau dos Mesquiteiros
Adeus cerquinhas
Elvira Vigna

Que a arte não tem mais cerquinha em volta, acho que todo mundo já sabe e desde Duchamp. À medida que o tempo passa, essa lição vai sendo repetida e repetida, de forma cada vez mais didática, pra pegar até mesmo o burrinho distraído que ainda não tinha notado, aquele que fica de longe olhando e suspirando por uma natureza morta, uma estátua grega.
Não vou falar da cerquinha porque não aguento mais. Vou falar da lição sobre a cerquinha. Duas delas.
A primeira é o balé imóvel da Clarissa Sacchelli, escolhida pela curadora Natália Mallo para o programa de agosto do balé no MIS-SP.
A peça está no youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=GZae2iGpUWE
Balé imóvel da Sachelli

Essa frase tão boba "a peça está no youbube" merecia uma monografia.
Primeiro porque nem pense que ver no youtube significa que você viu a peça. Justamente você não "vê" a peça. Participa. Então, considere o registro eletrônico apenas pelo que de fato é: um registro. Depois, atente para a profanação, inclusa a partir do próprio nome "youtube", que esse cubo (tubo/tube?) branco (preto azulado?) apresenta. E, para terminar a monografia sobre a frase "a peça está no youtube", pense no tamanho do espaço onde você está neste momento. Ou a arte. Grande, né? Pois é maior ainda. Porque não só entra a peça da Sacchelli que aconteceu nesse longe/perto de você como entra também um tempo que se espicha para trás e para frente. (Eu volto a esse tempo mais tarde, embora essa frase "eu volto a esse tempo mais tarde" também mereça uma monografia.) E esse espaço e esse tempo significam que você está no infinito. Não foi o sagrado que morreu. Foi o não-sagrado, o finito. Youtube  é para sempre.
Mas sim, as lições. A  primeira.
Na  lição de Sacchelli, a pergunta que cai  na prova é:
Se um dançarino fica imóvel em local de grande fluxo de pessoas que se movem sem parar, quem dança? Resposta correta: o artista vira plateia, a plateia se percebe artista. Adeus cerquinha.


Balé imóvel da Sachelli

A segunda lição sobre a cerquinha é a dos saraus da periferia de São Paulo (*). Nos saraus, ao contrário do que acontece no balé de Sacchelli, a cerquinha são várias. Sacchelli quebra a exclusividade do título de "artista". Não é pouco, concordo. Diz ela que, ei, você, a única diferença entre aquele que se expressa esteticamente e você é que ele sabe que está se expressando esteticamente e você é um burrinho distraído que não presta atenção em você mesmo. Sinta a  mudança, se solte, mexa os braços, ande em um ritmo que toca só na tua cabeça. Não obedeça. Moda, casamento, lógica do acúmulo. É certo. Com seu balé imóvel, Sacchelli quebra mesmo muita coisa, incluindo, na sequência, toda uma estrutura institucional que se alimenta, capitalistamente falando, da arte e do título excludente de "artista". Não é pouco mesmo.
Os saraus quebram muito mais.
- Eles acontecem em lugares comuns (bares, praças, pátio de escolas), sem nem microfone, enquanto Sacchelli usa os lugares institucionalizados, sacralizados, da arte (museus, galerias);
- Eles usam mais de uma linguagem ao mesmo tempo, quebrando a especificidade delas, pois as apresentações integram poesia, música, dramatização, dança;
- Eles se sabem opção de renovação cultural e quebram uma hierarquização estabelecida pelo "erudito" que Sacchelli mantém.
E o tema das apresentações dos saraus é o entorno e a vida mesmo, concreta. Não há "assunto artístico".
E agora vou me pôr, eu também, no fogo. Estou fazendo isso. Um texto de intermediação entre um saber "exclusivo" e pessoas "comuns". Coisa mais antiga. Se é preciso ter texto para passar de uma coisa (a arte) para outra (você) é sinal que admito a existência de uma cerquinha a separar as duas coisas. Não admito. Denuncio. É pouco? Pior que é. E me afundo mais ainda. Porque vou citar filósofo. Ou seja, vou dizer para minha plateia que esse texto tem valor porque, apesar de falar de pobre, preto e periférico, contém um ícone do saber erudito. Agamben.
Desculpe.

Profano diz-se, em sentido próprio, daquilo que, de sagrado ou religioso que era, é restituído ao uso e à propriedade dos homens. (Agamben, 2009, p.45)

Restituir ao uso e à propriedade dos homens é o que o contemporâneo faz com a arte.
Você pode até ter tido a paciência de me ler até aqui, mas, espero, terá apesar disso mantido consciência crítica sobre o que você significa, eu e meu texto, e a arte - que, sim, é para todos.
E só mais uma coisinha que ficou solta lá em cima. Agamben outra vez:

Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide com este, nem está adequado às  suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo."     (Agamben, 2009, p.58/59)

É que essa restituição ao uso comum de algo que deveria ter sido sempre de uso comum, e que é a arte, se dá em um descompasso do tempo que se espicha. Se você estiver perfeitamente adaptado a seu tempo, você não o percebe e, portanto, você não é capaz de fazer arte.
Se você estiver perfeitamente sincronizado com tua arte, você não a percebe e portanto - no que a arte é hoje: atuação, ação, participação - você também não faz arte. O macro (você em seu tempo social) e o micro (você em seu tempo individual) funcionando da mesma maneira: não funcionando, que é para funcionar.
Assim:
Você anda em um museu. Para na frente de um quadro, torna a andar, volta. Você dança em um museu. Tem um dançarino imóvel que te observa. Você se percebe dançando em um museu. O tempo da tua arte se dá um pouco antes de ser atuada como arte. Ou um pouco depois, quando você tornar a andar, agora sabendo o que você faz, talvez mexendo o quadril com um pouco mais de alegria/ritmo?
Você se levanta da mesa de um bar, fala/atua teus versos no ritmo dado por um outro ou por você mesmo. Você está falando do que acontece ali em frente, no beco, na esquina. Na tua vida. Senta. O coração batendo. Quando você senta e vira tua cerveja, você é quem?
Você só pode fazer uma coisa ou outra porque não está perfeitamente dentro do teu tempo social, do contrário você apenas teria passado uma tarde no museu ou no bar, nenhuma transformação.
Pergunta que cai na prova:
Como lidar com a transformação em um ambiente tão cotidiano quanto um bar? Resposta correta: O que há de tentativa de controle, aliás ineficaz, no verbo lidar?
As duas lições podem dar a impressão de que é simples um mundo sem cerquinha.
Pode ser que venha a ser.
No momento, há uma necessidade de legitimação que precisa ser revista/destruída por seus atores/participantes. A periferia se expressa. Ela anseia pelo centro. Não pode haver esse anseio. É uma armadilha lançada pelo centro. No caso de Sacchelli, a periferia é uma periferia auto imposta. A de quem, próximo dos centros de poder, a ele se entrega tão completamente que sai de si mesmo, uma periferia de si mesmo. Se der sorte, de repente pode perceber ao seu alcance uma arte que lhe foi apontada apenas para ser consumida como produto. Sacchelli, inclusive, expressa geograficamente esse não ajuste: ela usa os corredores, o "entre" dos seus locais privilegiados.

participante do sarau dos mesquiteiros
No caso dos saraus, a periferia não é uma periferia auto imposta, longe disso. É uma periferia imposta. E imposta pelos centros de poder que não a consideram capaz de uma arte que na verdade, mais do que ao seu alcance, é dela, no sentido que é dos periféricos culturais que sai o fluxo alimentador que mantem viva a cultura (entendida aqui, a la Edgar Morin, como processo de metabolização de signos).
A necessidade de legitimação breca o fluxo. No que alguma coisa recebe um rótulo, ela para. A periferia - seja a da alta classe média de Sacchelli ou a dos pobres, pretos e guetificados dos saraus - se enrijece no momento em que busca a legitimação de um centro. Vira imediatamente representação de um passado, ainda que recente ou muito recente, de ontem, de cinco minutos atrás. Ou seja, vira produto. Morto. Sem a busca da legitimação "externa", uma expressão estética é só isso ou tudo isso: uma expressão estética, e seu parâmetro de validação/qualidade é a satisfação/transformação - própria e dos que estão ali presentes.
Esse é um ponto de tensão inerente ao mundo pós-cerquinha. A cooptação. Voluntária, sob o título de "legitimação", "reconhecimento". Ou involuntária, pela cessão à pressão brutal dos agentes econômicos. Foi assim desde que o mundo é mundo. Mas sem cerquinha, no cotidiano, manter aguda essa consciência de valor de si mesmo pode ser mais difícil. Falta a validação da sacralização, disponível até pouco tempo atrás, nos locais, instrumentos, intermediários e autorias "especiais". E é preciso saber disso. Porque a arte questiona o poder. Sempre, sempre, sempre. Ou não é arte.
Alguns saraus e seus possibilitadores:
O de Rodrigo Ciríaco é o Mesquiteiros e funciona no pátio da escola estadual Jornalista Francisco Mesquita em Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo. Ciríaco se formou em história na USP. Tem livro publicado pela Dulcinéia Catadora, entre outras pequenas e marginais casas editoriais.
O que dizem os umbigos, do Daniel, Samara e Keyla, é de Itaim Paulista. A Casa de Cultura de lá, histórica, a primeira de São Paulo, não está sendo usada por eles por divergências com a administração.
O primeiro sarau, modelo de todos os outros, é o da Cooperifa, de Jardim São Luís, feita por Sergio Vaz e Marco Pezão. O coletivo Perifatividade é do fundão do Ipiranga. Elo da corrente é um sarau que acontece no bar do Santista, em Pirituba. O sarau da Brasa é de Brasilândia. O sarau do Binho foi fechado pela prefeitura por falta de alvará e hoje sai andando simplesmente, de vez em quando, por Taboão da Serra. O Poesia no ar e o sarau do Ademar, depois de tentarem bares, praças e escolas, desistiram e pararam. O Periferia Invisível, na Vila Cisper, trabalha com teatro e espanta com seu curso de quatro anos em que se formam atores, técnicos e gestores culturais. Seus organizadores, Bruno (Veloso), Gustavo (Ramalho) e o Vinicius, procuram desesperadamente uma sede para continuar funcionando. Zé Batidão, Zap, Palmarino do Embu, Marginaliaria, Pavio de Suzano são alguns entre muitos outros.
Tem um curta, o "Curta Sarau". Está no youtube. Dessa vez sem monografia. Só assista:
http://www.youtube.com/watch?v=7FyCf1CrFcI
Rodrigo Ciríaco do Sarau dos Mesquiteiros
Mas não resisto. Sim, o curta é produção do governo federal, o que me faz falar da verba pública de incentivo a esses grupos. Tendo a achar que verba pública só em infra. Nunca em "produto",  "projeto" ou "autores". Cano embaixo da terra, rua limpa, segurança e luz nos postes das praças. Transporte público. Facilidades para a compra de equipamentos, tecnologia, instrumentos musicais. Locais para eventos. "Viradas culturais" locais com pagamento de cachê digno. Divulgação dos eventos em veículos como a tv pública, rede de ensino público e estações de trens e terminais do transporte público. Repeti a palavra público três vezes de propósito. Vou repetir mais uma. O MIS recebe verba pública. (Isso não é  uma monografia.)
Para terminar, vou tentar contrabalançar o Agamben com outra citação. É do Ciríaco. Está no primeiro número da antologia "Pode pá que é nóis que tá". Vai sair um segundo número, se der, ainda esse ano, com os vencedores de um concurso literário para jovens poetas, organizado por eles.

           Ó nóis, colando o açúcar no chiclete
           Improvisando, moto, acelerando mobilete
           Não tem adaga, nóis ataca o canivete
           Enquanto não tem Golf, piso fundo num Chevete." (Ciríaco, 2011, p.34)

(*) tive contato com os grupos organizadores de saraus através do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc-SP.

Referências bibliográficas:
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo. Chapecó: Editora Argos, 2009. 96p.

CIRÍACO, Rogrigo. Pode pá que é nóis que tá. São Paulo: Um por todos todos por um, 2011, 124p.
Bairro de Ermelino Matarazzo

Elvira Vigna
Setembro de 2013


Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Etudes Lusophones :  

2 comentários:

  1. e quando digo arte política não estou falando de cooptações ou 'conteúdos', mas simplesmente que arte sempre transforma, ou não é arte. e se transforma, dela o poder tem horror.

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  2. Querida amiga Elvira Vigna,

    Admiração constante pela pluralidade de temas e assuntos que você transita e domina com tanta competência e profundidade, e com palavras precisas e exatas que traduzem o conteúdo, sem rebuscamento, sem adereços, “sem cerquinhas em volta”.

    Parabéns por mais este excelente artigo.

    César Brandão
    www.cesarbrandão.com

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