terça-feira, 20 de agosto de 2013

Uma biblioteca em ruínas



Los Carpinteros, Estanteria II, 2008

Uma biblioteca em ruínas

Mário Araújo

         Ao sair de minha primeira visita à Biblioteca Nacional de Brasília, há cerca de um ano, corri para o Houaiss: Biblioteca – coleção de livros; lugar onde se guardam coleções de livros. Nacional – que pertencem a uma nação, que é próprio de uma nação, que a caracteriza, que a distingue das demais. Como pode ser cruel a objetividade dos dicionários!
         Tinha decidido frequentar a maior biblioteca da cidade onde moro em busca de tranquilidade para escrever um novo livro – meu primeiro romance -, fugindo dos confortos de casa, com sua geladeira bem fornida, o violão acomodado num cantinho do escritório e as mil e uma tentações da internet. Mas ao percorrer os andares do edifício, belo projeto de Niemeyer cravado na margem direita do Eixo Monumental, grandioso entre a aridez do cimento e a profundidade do céu maçantemente azul, não encontrei nada do que o dicionário dizia. Nada de coleções de livros que caracterizem a nação e que a distingam das demais. Nem tive notícia de um vasto acervo sobre a história do Brasil, sua produção intelectual, artística e científica, devidamente catalogado e acessível à população.
         A Biblioteca Nacional de Brasília, quase cinco anos após sua inauguração, simplesmente não tinha livros.                 
         Ou melhor, contava com uns parcos volumes que podiam ser vistos – mas jamais tocados – através de paredes envidraçadas, como peixinhos de aquário ou plantas numa estufa. Do outro lado de um corredor, ficam instaladas as mesas e cadeiras para estudo, ocupadas por jovens que se debruçam sobre materiais trazidos de casa, e a quem os livros das estantes pareciam não fazer muita falta.
        

      Mais de uma vez perguntei a um funcionário: “Onde estão os livros?”. E ouvi como resposta: “Eles estão bem ali, mas ainda não podem ser consultados”.  (Um dia, tive a oportunidade de dirigir essa mesma pergunta ao diretor da Biblioteca em pessoa, num episódio que sozinho vale uma crônica). Reparem que o advérbio “ainda”, assim como as expressões “estão sendo catalogados” ou “vão estar sendo (sic) disponibilizados”, também sabidas de cor pelo staff, contêm uma doce promessa; são a encarnação verbal da esperança e servem para manter o cidadão chato e inoportuno fora de combate por algum tempo.
         Mesmo assim, continuei comparecendo quase que diariamente à sala de estudos do terceiro andar, a maior de todas. Ali não havia lugar para o prazeroso hábito de se perder entre as estantes e, na busca do livro X, encontrar o livro Y que poderia mudar sua vida. Limitei-me, portanto, a sentar e escrever. E devo dizer que mesmo para cumprir essa tarefa aparentemente simples do ponto de vista logístico, tive que me haver com os problemas de uma instituição em acelerado processo de deterioração, processo esse que parece ter se iniciado junto com a sua inauguração – ou quem sabe antes. Cada movimento dentro da Biblioteca Nacional faz pensar no verso do Caetano: “...ainda é construção e já é ruína”.
         Nos banheiros, mictórios desativados desde sempre, como natimortos cobertos por sacos de lixo pretos. Pelos corredores, bebedouros com torneiras mutiladas, remediadas por elásticos, clipes e pedaços de arame. No andar térreo, lajotas soltas no chão, que trovejam a cada passo como numa exibição de dança flamenca. E tudo isso sob uma temperatura que varia entre 26 e 32 graus, pois o ar condicionado central “não funciona direito”, ou “ninguém sabe fazer funcionar”, ou ainda, “mas ele está funcionando!”, conforme as respostas que recebi aos meus questionamentos impertinentes.
         Mas eis que há poucas semanas, ao tomar o elevador do térreo para o terceiro andar, tive uma surpresa. (Antes, porém, um esclarecimento: o prédio da Biblioteca possui quatro elevadores; dois deles tiveram os botões externos arrancados no térreo, assim como extirpado foi também o botão interno de outro, que levaria ao terceiro andar). O elevador que tomei, portanto, é o único capaz de conduzir ao meu destino. E está com as lâmpadas queimadas. Assim, imprensado entre passageiros e forçando a vista na escuridão, deparei-me com um discreto aviso colado na parede: “A partir do dia tal, a Biblioteca Nacional oferece um NOVO serviço à comunidade”. Aproximei o rosto das letras em corpo 12 e descobri que o novo serviço se refere a nada menos que os LIVROS (não todo o acervo, mas parte dele), que de agora em diante estarão disponíveis para o cidadão.
         Não pude deixar de me perguntar quais seriam os serviços oferecidos antes desse verdadeiro divisor de águas na história da instituição. Sauna? Bronzeamento artificial? Deixando de lado o sarcasmo que sempre pega uma carona na indignação, parece-me que o único serviço oferecido anteriormente era o espaço para que o cidadão pudesse se preparar para o concurso público que resolveria todos os problemas da sua vida, aspiração de metade da população da capital federal.
         Seja como for, no pouco tempo transcorrido desde o advento do “novo” serviço, não vi ninguém fazendo uso dele. Ou as pessoas não foram atentas o bastante para ler as letras miúdas do aviso, ou podem prescindir tranquilamente de livros na sua caminhada rumo a um emprego estável na administração pública. Isso significa que, ao contrário do que pensei quando abri o Houaiss, há na Biblioteca Nacional de Brasília algo que caracteriza a nação e lhe é próprio: o quase total desinteresse de usuários e funcionários pelos livros, estejam eles disponíveis ou não.

Mário Araújo participará do encontro com escritores brasileiros realizado pelo Departamento de Estudos Lusófonos da Sorbonne em Outubro de 2013. Aguardem em breve o programa completo pelo Blog.



Mário Araújo nasceu em Curitiba, Brasil. Em 2005 publicou seu primeiro livro de contos A Hora Extrema  vencedor do Prêmio Jabuti em 2006. Seu segundo livro Restos foi publicado em 2008. Além disso, participou de antologias no Brasil, Espanha e México e tem publicado textos nem jornais e revistas literários e na internet. Atualmente, prepara seu primeiro romance.

Mário Araújo participará do encontro com escritores brasileiros que o Departamento de Estudos Lusófonos da Sorbonne organiza no mês de Outubro de 2013.

Consultem a entrevista de Mario Araújo para o blog Etudes Lusophones no link:  Um dedo de prosa

Leiam as crônicas do autor e consultem seu site nos links
Crônica : O amigo retornado

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