segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Papo de passarinho



Papo de passarinho

Por Alexandre Staut(*)

Um dia convidei o escritor Humberto Werneck para participar dessa coluna de entrevistas. A resposta chegou, por email, assim: “Só não me peça teorizações de que não seja capaz – pois sou passarinho, não ornitólogo.” Prometi que o papo seria de passarinhos, sobre aquilo que é assunto para uma crônica; sobre poesia; seu começo em 1968, no Suplemento Literário de Minas Gerais, ao lado do Murilo Rubião que foi seu mestre ; seu trabalho como jornalista - ele trabalhou no Jornal da Tarde, do qual foi também correspondente em Paris, nos anos 1970; na Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil, Elle e Playboy.
Cronista do jornal O Estado de S. Paulo, escrevendo aos domingos no Caderno 2, e no site vidabreve.com às sextas-feiras, Werneck é presença constante no meio literário nacional. Como autor, publicou O desatino da rapaziada – Jornalistas e escritores em Minas Gerais (Companhia das Letras, 1992; 2ª edição, revista, junho de 2012); O santo sujo — A vida de Jayme Ovalle (Cosac Naify, 2008; Prêmios APCA e Jabuti); Chico Buarque — Tantas palavras (Companhia das Letras, 2005/ versão atualizada e aumentada de Chico Buarque Letra e Música, da mesma editora); Esse inferno vai acabar (Arquipélago Editorial, 2011); O espalhador de passarinhos & outras crônicas (Dubolsinho, 2010); O Pai dos burros — Dicionário de lugares-comuns e frases feitas (Arquipélago Editorial, 2009) e o livro de contos Pequenos fantasmas (NovesFora, 2005).
Como editor, organizou, Bom dia para nascer, crônicas de Otto Lara Resende (Companhia das Letras, 2011); Minérios domados – Poesia reunida de Hélio Pellegrino (Rocco, 1993), entre outros.
Leia a entrevista a seguir:

Você já disse que gostaria de ter sido poeta. Como seu leitor, a impressão é de que resolveu esse desejo escrevendo crônica. É isso mesmo?
Para quem não mereceu ser poeta, a crônica pode ser, quem sabe, um consolo. Se bem que a crônica não pode ser, como a poesia, uma garrafa jogada ao mar, pois tem um compromisso com o leitor.

Como definiria a poesia?
Uma iluminação sutilíssima capturada com um mínimo de meios. 

E a crônica, qual é a sua definição para o gênero?
Crônica, para mim, é uma boa conversa, num tal clima de cumplicidade que aquilo me dá a impressão de ter sido escrito apenas para mim. O cronista e eu estamos sentados lado a lado num meio-fio. 


Poderia falar mais da comunicação de um autor de crônicas com o seu com público leitor? Tem alguma história curiosa que tenha acontecido entre você e um dos seus leitores?
O clima de cumplicidade de que falei facilita a comunicação com o leitor – o qual, por sua vez, muitas vezes acaba tratando o cronista como coisa dele: o “meu” cronista. Vínculos vão se estabelecendo entre pessoas que nunca se encontraram pessoalmente. Na minha modesta experiência, acabei por me ligar afetivamente a um punhado de leitores que me escrevem com elogios, eventualmente com reparos, algumas vezes com sugestões para crônicas. Desde que comecei a publicar no jornal O Estado de S. Paulo, eu me aproximei de pessoas como uma senhora de mais de 80 anos de idade que mora no interior paulista. Nunca nos vimos, mas posso dizer que somos amigos. Trocamos e-mails. Na primeira oportunidade, quero ir à cidade onde ela mora, só para conhecer esta senhora fina, educada, bem-humorada. Uma ocasião, quando observei numa crônica que a língua portuguesa não tem uma palavra para designar a condição de avô e avó – algo como “avoidade”, por analogia com “paternidade” e “maternidade” –, essa senhora me escreveu indagando se não poderíamos buscar tal palavra em outras línguas. No francês, por exemplo, sugeriu ela – para em seguida observar, divertida: “grand-père” nos daria “grandperdade”, mas o feminino não ficaria bem: “grandemerdade”... Evidentemente aproveitei isso na crônica seguinte, com o cuidado de não revelar a identidade da minha amiga...

Poderia falar sobre a crônica feita pelos mestres – Rubem Braga, Nelson Rodrigues etc. – e aquela feita hoje no Brasil? Quem são os autores jovens que estão fazendo bonito?
A crônica teve no Brasil uma era de ouro, que já vai longe no tempo. Foi nas décadas de 1950 e 60, quando nos jornais e revistas o leitor encontrava, entre outros, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Antônio Maria, Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues, José Carlos Oliveira, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Todas as semanas, a revista Manchete servia ao leitor crônicas de Braga, Sabino e Mendes Campos. Depois dessa fase de ouro, a imprensa passou por transformações, as quais significaram menos espaço para a crônica, ao mesmo tempo que escasseavam grandes cronistas. Jornais e revistas passaram a ter muitos colunistas, mas poucos deles cronistas. O panorama ainda é este, mas já se observa um revigoramento da crônica, com veteranos como Luis Fernando Verissimo, Ivan Angelo e João Ubaldo Ribeiro, e também como jovens talentos como Antonio Prata, Luis Henrique Pellanda, João Paulo Cuenca, Victor da Rosa, Carpinejar, Vanessa Barbara e Fabricio Corsaletti.



E sobre a literatura nacional de hoje, o que teria a dizer?
Não tenho acompanhado como deveria a literatura de ficção que se faz hoje no Brasil. Daquilo que leio, uma boa parte me parece marcada por um realismo que lembra, infelizmente, a objetividade jornalística, e no qual a palavra, quase sempre, é mais um meio de dizer do que um fim em si, como pede a literatura. Com o risco de provocar sopapos literários, eu diria que tenho visto muito Hemingway e bem pouco Scott Fitzgerald... Um autor que não cessa de me fascinar: Antônio Carlos Viana, o contista de “O meio do mundo e outros contos”, “Aberto está o inferno” e “Cine privê”.  

Nas suas crônicas, muitas vezes você conta pequenas histórias que teria vivido ou (presenciado) ao lado de figuras como Murilo Rubião, Pedro Nava, Jayme Ovalle. Este é um trabalho de resgate de nomes muitas vezes esquecidos da nossa literatura?
Quando, numa crônica, eu trato de personagens notórios, pode ser que esteja contribuindo para trazê-los de volta à tona. Mas não estou especialmente empenhado num trabalho de resgate – como estava ao escrever, em O Santo sujo, a biografia do extraordinário Jayme Ovalle. Minhas crônicas são povoadas também por gente pouco ou nada conhecida, mas nem por isso menos interessante. Notória ou não, não vejo no mundo nada mais interessante do que gente. 

Quais são os autores nacionais esquecidos, que, na sua opinião, deveriam estar na boca do povo?
Há autores que jamais empolgarão multidões, mas que é preciso tirar da sombra em que acabaram caindo. Cornélio Pena, por exemplo, o grande romancista de Fronteira e A Menina morta. Outros não foram, como ele, inteiramente esquecidos, mas não têm tido a divulgação que merecem – caso de Cyro dos Anjos, autor deste clássico que é O Amanuense Belmiro.

Pegando carona nas perguntas anteriores... Os festivais literários que têm acontecido em todo o país, ultimamente, estão dando a devida atenção a esses autores um tanto esquecidos da nossa literatura?
Os festivais literários têm por hábito homenagear autores consagrados, como, neste ano, Graciliano Ramos na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Sem prejuízo desses grandes nomes, indispensáveis para atrair atenções para tais eventos, seria importante, também, abrir pelo menos algumas “janelas” para escritores menos conhecidos. Ou, até, para gêneros menos considerados pela academia. É o caso da crônica. Teria sido ótimo assistir a um evento de porte em torno de Rubem Braga, nosso melhor cronista, cujo centenário de nascimento transcorre em 2013. Falar de Rubem Braga significaria dar relevância também a um gênero que os brasileiros adoram, descortinando também a obra de outros bons cronistas.  


Existem bons e maus assuntos para crônicas? O que sempre é assunto no Brasil? 
O que é muito grave e solene em geral não rende boa crônica – costuma render, no máximo, um editorial, um artigo. O mesmo não se passa com as miudezas, ou aparentes miudezas do cotidiano, das quais a crônica em geral se alimenta. Mas um grande cronista nem precisa ter assunto. Manuel Bandeira disse que Rubem Braga, quando tem assunto, é muito bom, e quando não tem, é ótimo. Não é exagero do poeta. Há crônicas de Rubem Braga que você lê com imenso interesse e prazer, embora, no fim, não saiba dizer sobre o que o cronista escreveu. Não é o que muitas vezes acontece, também, com uma boa conversa?



Humberto Werneck (1945) nasceu em Belo Horizonte, mas adotou São Paulo no início da década de 70. Escritor com diversos livros publicados, jornalista com passagem em vários veículos de informação, como o Jornal da Tarde, Veja e Isto É, Werneck celebrizou-se pela qualidade de sua prosa jornalística e por sua apuração minuciosa. Com 40 anos de profissão, começou sua carrreira em 1968, no suplemento Literário do Minas Gerais.

Entre as experiências marcantes em sua vida profissional, estão a passagem pelo Jornal da República, criado por Mino Carta em 1979. O jornal tinha um projeto libertário e inovador, que permitia aos jornalistas, participar de todo o processo, desde a idéia à publicação das matérias. “Aquilo era o sonho para certos tipos de jornalistas, entre os quais eu me incluo. Um veículo em que você participa de todo o processo, desde a idéia, quais matérias fazer; até o título, o olho, o último ponto que você vai pingar na matéria”, disse Werneck. O jornal durou apenas cinco meses, encerrando as atividades por problemas organizacionais e financeiros. “A gente caiu do cavalo. Aprendemos que não basta ter vontade de fazer, todo esse pique. Porque você precisa de uma retaguarda dentro da redação. Uma estrutura por trás do negócio, uns camaradinhas de terno correndo atrás de anúncio”.

A greve histórica dos jornalistas em 1979 também foi outra experiência marcante para Humberto Werneck.  “Ali a gente aprendeu um negócio fundamental sobre os limites da categoria. A gente achava que ia parar aqueles jornais e revistas, e a gente se esqueceu que já tinha uma maneira de se fazer jornal sem jornalistas. Um fura greve poderia mandar as matérias por fax; tinha matéria na gaveta, matéria estrangeira. E as publicações saíam e nós éramos informados sobre a nossa greve pelos jornais, cuja saída tentávamos impedir”.




Leiam as crônicas de Humberto Werneck no jornal O Estado de São Paulo pelo link : http://www.estadao.com.br/colunistas/humberto-werneck



(*) Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) em 1973. Jornalista, já trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França (em Brest, Tours e Arromanches-les-Bain). Ministrou oficinas de haikai na Oficina Cultural do Estado de São Paulo (Bauru/SP). É roteirista do documentário “O anjo da guarda de Caio F.” e autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toada Edições/2010) e Um lugar para se perder (Dobra/2012). No momento, trabalha em seu terceiro romance, num livro infantil e numa peça de teatro que está sendo escrita para a atriz cubana Phedra de Córdoba. Alexandre Staut é colaborador do blog Études Lusophones.

Consultem as outras entrevistas realizadas por Alexandre Staut na rubrica Entre Letras.
Link : Entre Letras

Leiam a respeito do romance de Alexandre Staut Um lugar para se perder no link :
Um lugar para se perder

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