quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O imperfeito reinando

Lucian Freud, Jovem nua com ovo
O imperfeito reinando
Elvira Vigna

Vou comparar duas bolas de sebo, uma escrita, outra pintada. Não é pintada. É uma gravura em  metal. Porque as enormes e fantásticas telas que Lucian Freud fez da Big Sue não vieram para a exposição do MASP. E mesmo essa gravura, a modelo é a Big Sue,  mas ela não está identificada.
A Boule de Suif escrita é a do Maupassant, claro (*).
O MASP abriu a exposição e, como outras que vi na mesma instituição, essa também só tem as obras menores dos nomes maiores alardeados, sinônimos de boa bilheteria. Nenhum dos grandes quadros pelos quais o pintor se tornou famoso e rico estava presente. Nenhum dos grandes óleos, além desse "Jovem nua com ovo", de 1980.  Da Big Sue, a gravura "Mulher com tatuagem no braço" e, pelo que deu para sacar, foi só.
Minha comparação.
O que é igual entre a Sue Tilley de Freud e a Elizabeth Rousset de Maupassant é o sebo.
O que é diferente é o porém.
A puta de Maupassant é puta, porém. A mal paga de Freud é mal paga, feia, gorda, escrachada e posa de perna aberta, e não tem porém algum. Lucian é muito melhor que o avô Sigmund. Resolveu tudo. Juntou tudo. Thanatos e eros, o bem no mal. Sem dicotomias, sem  moralismos. Maupassant é moralista.
Presentes na exposição do MASP, umas poucas telas de início de carreira, uns documentais produzidos pelo fotógrafo, modelo, assistente e amigo David Dawson, e muitas gravuras em  metal.
E não é só no conteúdo explícito de sua obra que Freud se apresenta amoroso em relação ao imperfeito. Na feitura também. Nenhuma de suas gravuras o faria passar de ano em uma boa escola do ramo. Várias impressões, para não dizer quase todas, com o chanfro sujo (isso quer dizer que a borda da peça em metal suja o papel da cópia). Há pelo menos um original "errado", corrigido a lápis direto na cópia impressa ("Cabeça de Bruce Bernard", de 1985, cujas luzes no cabelo foram feitas à mão, posteriormente ao processo de impressão). Um verniz mal aplicado provoca corrosão da água-forte de forma não intencional e não controlada (no "Mulher com tatuagem no braço", de 1966, já citado). E há o caso do "Homem posando" de 1989, em que a gravura recebe parcialmente um tratamento a cor em pastel, tratando-se ou de obra inacabada ou de estudo para outra obra, o que deveria estar explicitado pela curadoria e não está. Coisinhas. Não fosse eu ter visto a exposição com minha filha, a Carolina Vigna-Marú, observadora de arte desde sempre e muito chata, não teria visto. Estivesse eu na frente dos óleos da Big Sue e não haveria como não ver. Um certo amor, um óbvio prazer nos corpos vividos, fora de qualquer padrão de beleza, em posições pra lá de desfavoráveis. O imperfeito reinando. A frase é do artista:
"Meu trabalho é autobiográfico. É como um diário."
E nada como a vida cotidiana para eliminar qualquer ilusão de perfeição.
Lucian Freud, Mulher com tatuagem no braço

Mais: os bichos. Lucian Freud gostava de bichos, convivia com eles e quem convive com bichos sabe: sujeira, cheiros, imprevistos. Nessa exposição, tão pobrinha, a presença animal é estatisticamente enorme: galo (esse morto), o cachorro Eli, o cachorro Pluto, muitos cavalos, um filhote de raposa. E uma lontra, coitada, que deu os pelos para o pincel de pintura artística com que o artista faz a barba, jocosamente. Bichos e crianças. Os três filhos, o neto. A relação dele com as duas filhas e o filho em uma sequência de altos e baixos. Pintou uma delas tão nua quanto qualquer outra de suas modelos. Também pintou o travesti Leigh Bowery, alguns amigos, suas muitas mulheres, o cara da esquina.
Mais: não tem dicotomias na obra do Freud no conteúdo explícito das obras, não tem na sua feitura, e também não tem na relação das figuras com o cenário, ausente ou quase.
Sue Tilley, a Big Sue, é feia, gorda (127 quilos, segundo o Wikipédia) e trabalha em um centro beneficente para desempregados na época em que posa para Lucian Freud.
A Boule de Suif de Maupassant também tem essa conotação de beneficente, embora não só para desempregados.
O conto é uma espécie de road movie. Tudo se passa entre a partida de uma carruagem de uma cidadezinha às margens do Sena até sua chegada no porto de Rouen. Dentro, o cenário que está fora: a sociedade burguesa e urbana da época, perturbada pela inconveniente invasão prussiana. Em Freud não há esse registro jornalístico. Ninguém sabe o que se passa fora do ambiente interno em que são pintados os personagens, ninguém sabe o que eles fazem. Só se sabe que vivem, e que viveram, e muito.
Na carruagem de Maupassant, somos informados que nos bancos de trás, os mais confortáveis, estão um cara que ficou rico adulterando vinho e sua esposa; um nobre falido e sua esposa; um detentor da Legião de Honra e sua esposa. Depois vêm duas freiras; um republicano (o subversivo da época); uma puta. Parece início de piada, mas é o início do conto. Maupassant primeiro descreve o contexto externo e social de todos os personagens, depois inicia a ação, ou a viagem. A puta é Elisabeth Rousset, "redonda quando vista por qualquer ângulo, gorda como um toucinho, com os dedos inchados, estrangulados nas falanges como pedacinhos de salsicha, a pele lustrosa e esticada, e um peito enorme a fazer volume embaixo do vestido".
E, aos poucos, à medida que a carruagem anda, a caracterização de puta vai ganhando os seus poréns.
É puta, é verdade,  mas excelente pessoa. Melhor que todos os outros.
Ela começa repartindo generosamente sua galinha assada com os companheiros de viagem. Depois fica claro que se trata de alguém temente a deus e com grande respeito pelas freiras e pelas mulheres honestas presentes. Também é boa patriota, pois trepa  com todo mundo menos com prussianos, mesmo quando são bonitões. E, além disso tudo, também é mãe extremada. Não convive com seu filho porque os ambientes em que anda não são apropriados para crianças, mas se comove às lágrimas com um batizado presenciado por acaso no caminho.
Ou seja, ser puta, para Maupassant, na verdade é muito ruim. Você precisa ser quase santa para compensar.
O conto termina com o republicano assobiando a Marselhesa e comigo suspirando minha falta de paciência com o cânone literário vigente.
Prefiro o Freud, mil vezes.
Não sei nem por onde começar. Acho que pelas cidades e a visão reacionária de um certo realismo do século XIX (e do século XXI também) em ver a vida cosmopolita, urbana e caótica como engendrando o mal.
"Ele cavou buracos nas planícies, derrubou arvoretas nas florestas vizinhas, armou armadilhas nas estradas e, com a aproximação do inimigo, satisfeito de seus preparativos, se recolheu prestamente na cidade."
Não foi só Maupassant. Era recorrente essa noção da indústria nascente a provocar aglomerações humanas como sendo tudo de ruim. Até era. Em termos ecológicos e ideológicos do capitalismo explodindo em toda glória. Mas esses realistas pegavam justamente a única coisa boa - que era a fricção do diferente, a convivência integrada nas ruas - para criticar.
(Não foi só Paris e não foi só Maupassant. A São Petersburgo de Dostoievsky também está descrita pelo escritor russo como a grande culpada pelos crimes de Raskolnikov. Ambas as cidades, aliás, foram vistas como ninho do mal e sofreram o mesmo processo de tentativa de controle pelo poder. Paris foi arrasada e reconstruída por Haussmann. São Petersburgo a mesma coisa. As massas foram jogadas para longe sob argumentos higienistas, as grandes avenidas abertas em desenhos geometrizados para facilitar o controle, caso essas massas resolvessem passear pelo centro.
E ponho Dostoievsky entre parêntesis porque, embora saiba o mínimo sobre "Crime e Castigo", nunca li. A religiosidade implícita nessa dicotomia de que falo me impediu.)
Os passageiros de Maupassant, descritos de forma pejorativa, irônica, ficam aflitos em atravessar a zona rural. Só se sentem bem em cidades. São fruto das cidades.
Os personagens de Freud também são fruto das cidades. Mas não há contraponto. São fruto das cidades e isso é bom e as cidades de Freud  não são antagônicas a nenhum conceito de um "natural". Contêm o natural. Em Maupassant, não. Por exemplo, os bichos.
"A diligência, atrelada afinal, esperava na porta, enquanto um exército de pombas brancas, estufadas em sua plumagem cerrada, com o olho vermelho manchado no meio por um ponto preto, passeava entre as pernas dos seis cavalos e ganhava a vida ciscando o excremento exalando vapor que eles distribuíam."
Não é a única hora em que Maupassant se trai. Não é só a coleção cuidadosamente escolhida de personagens a viver um isso ou aquilo em relação à cidade versus natureza. O autor também vive.
Outro exemplo:
"(...) e marchando atrás de todos, o general desesperado, nada podendo com esses loucos disparatados, perdido ele mesmo na grande derrocada de um povo habituado a vencer e desastradamente vencido, apesar de sua bravura legendária (...). Muitos burgueses gaguejantes, emasculados pela atividade comercial, esperavam ansiosamente pelos vencedores."
Um tom indisfarçável de ufanismo militarista, esse de Maupassant. Uma patriotada. Aqui, o isso ou aquilo é ser francês ou não ser, sendo que ser francês é  muito melhor.
Mais uma diferença. A relação de Freud com a sujeira. A exposição trouxe fotos do ateliê. Ou atulhiê, como diz um amigo meu. Há vídeos na internet. E nem precisava. Ele fez um quadrinho pequenininho da Rainha Elizabeth, muito famoso. Tem uma sombra preta no queixo dela. Não se trata de uma cara limpa.
Em Maupassant, essa sujeira tão bem acolhida, tão bem integrada, por Freud, também está presente. Mas como crítica.
"Ele tinha um jornal, que estendeu para não manchar sua calça e com a ponta de uma faca que ele sempre mantinha no bolso, pegou uma coxa de frango envernizada de geleia, a decepou com os dentes, mastigou com uma satisfação tão evidente que em todo o veículo se escutou um grande suspiro de alívio."
Ou:
"Sim, Madame, essa gente só faz comer batata com porco e  mais porco com batata. E não pense que  são limpos. Ah, não. Sujam tudo, desculpe a falta de respeito."
O Princípio do Prazer do outro Freud, o Sigmund, diz o seguinte: Thanatos impele a destruição do ser e luta com Eros, que é o princípio da vida.  A autobiografia pintada de Freud integra. Eros é thanatos e vice-versa.
Freud é  um desses casos únicos da pintura. Não tem um precursor, não tem seguidor. Maupassant influencia gente até hoje. Para ficar aqui no Brasil: Mutarelli, Ana Paula Maia. O mesmo fascínio pelo abjeto, entendido como um sublime ao contrário. Freud era fascinado só pela vida mesmo.

Elvira Vigna
Agosto de 2013


(*) Publicado em 1880, é um dos contos da antologia Les soirées de Médan e está na internet. As citações aqui presentes têm tradução minha.

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Etudes Lusophones :  

2 comentários:

  1. Amiga Elvira Vigna,

    “Nada como a vida cotidiana para eliminar qualquer ilusão de perfeição”. Acho que essa frase resume a grandeza deste seu texto sobre os Freud, principalmente sobre Lucian, e seu “Atulhiê”; ou “entulhiêr”. Li “Crime e Castigo”; e nada li de Maupasant.

    Mas adorei o “exército de pombas brancas (...) ciscando o excremento exalando vapor”. E concordo com você: Lucian Freud é único. Sem precursor, sem seguidor. Até que transeunte errante, mal passante ao entorno, talvez resolva ciscar excremento exalando vapor pictórico que não se traduz em herdeiro.

    Provavelmente terá que estender jornal para não manchar a pretensão, e mastigar com satisfação evidente grande suspiro de alívio.

    Excelentes referências em seu texto, e que nos despertam infinitas imagens durante a leitura. Parabéns. Mais um belo, preciso, provocador... etc texto; sem “ilusão de perfeição”.

    Com o abraço amigo de

    César Brandão
    www.cesarbrandao.com

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  2. e, césar, ponho aqui a autoria do "atulhiê" ou "entulhiê", que é tua. e que me faz rir toda vez que lembro.

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