segunda-feira, 22 de julho de 2013

Um dedo de prosa com Adriana Lunardi

Um dedo de prosa com Adriana Lunardi

Assistam à entrevista que escritora concedeu ao Blog Etudes Lusophones. Consultem os links e o dossiê bibliográfico disponíveis abaixo :


Não deixem de assistir à participação de Adriana Lunardi  no Salão do Livro de Paris de 2012 e no encontro sobre Literatura Brasileira Contemporânea realizado na Université Paris-Sorbonne e organizado pelos professores 
Leonardo Tonus e Maria Graciete Besse. Cliquem nos links:




Adriana tem formação acadêmica em Comunicação Social e estudou Literatura. Nasceu em Xaxim, Santa Catarina, morou em Santa Maria, Porto Alegre (onde teve sua estréia literária), Paris e São Paulo. Atualmente, vive no Rio de Janeiro. Escritora e roteirista de TV, estreou na literatura com As meninas da Torre Helsinque (Mercado Aberto/PMPA, 1996), livro pelo qual recebeu os prêmios Fumproarte e Troféu Açorianos (1997) em duas categorias: melhor livro de contos e autor estreante. Em 2002, lançou Vésperas (Rocco), livro de contos agraciado com a bolsa para escritores da Fundação Biblioteca Nacional e indicado ao prêmio Jabuti. Vésperas também foi publicado na França, Argentina, Portugal e Croácia. Corpo estranho, seu primeiro romance (Rocco, 2006), foi finalista do prêmio Zaffari/Bourbon e está sendo traduzido para o francês. Quando não escreve livros, Adriana redige roteiros para a TV, especialmente documentários. Já ministrou um curso de leitura para futuros escritores e uma oficina de texto para moradores de rua, que resultou na publicação do livro Letras na Rua (PMPA, 1993). Adriana tem formação acadêmica em Comunicação Social e estudou Literatura. Nasceu em Xaxim, Santa Catarina, morou em Santa Maria, Porto Alegre (onde teve sua estréia literária), Paris e São Paulo. Atualmente, vive no Rio de Janeiro.



Ecrivaine et scénariste pour la télévision, Adriana Lunardi a fait des études de communication et a travaillé dans le journalisme et  dans la publicité. Son premier livre, As meninas da Torre Helsinque (1996) est un recueil de nouvelles qui traite de la vie et de la sexualité de jeunes adolescentes. Dans Vésperas (2002), Adriana Lunardi évoque la mort de neuf femmes écrivaines : Dorothy Parker, Virginia Woolf, Clarice Lispector, Colette, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald, Ana Cristina César et Julia da Costa. Il s’agit ici moins de reconstruire le parcours de ces écrivaines que de faire advenir, par le biais de l’écriture et de la subjectivité, le moment épiphanique de l’agonie : temps de la conscience et de la liberté qui rompt des frontières entre fiction et réalité. Son dernier roman, A vendedora de fósforos, vient de paraître au Brésil et Corpo estranho (1996)  sera très prochainement publié en France.


Leonardo Tonus


A vendedora de fósforos

Ficamos um bom tempo sem conversar. Eu me concentrava para perceber o efeito dos remédios. Já havia cheirado éter, antes. Dava uma vontade de rir, apenas, e passava rápido. Com os comprimidos a reação devia ser diferente, mais forte, imaginei.
Cirineu cavoucava o chão com um pauzinho, ficou nisso por horas. Foi ele quem começou.
Sabe o que eu gostaria de fazer agora?
Virei o rosto para indicar que escutava.
Escovar os dentes.
Comecei a imaginar a espuma, a boca mentolada, fresca, e entendi o que ele queria dizer. O gosto da coca-cola parecia sujar a boca. Tomei um gole, o gás limpou aquela sensação. A sujeira voltou em seguida, e a sede era maior ainda.
Se estou numa festa, vou até o banheiro e uso a primeira escova que encontro.
Você não tem nojo?
Tenho.
Eu também teria. Não quis falar para não ofender o meu amigo. Então me ocorreu sugerir que ele levasse sempre uma escova no bolso.
Já fiz isso. Dura dois dias, depois esqueço.
Não queria ficar pensando no problema de Cirineu. Esperava o momento em que os comprimidos começassem a agir. Eu ia gostar? Ver monstros? Distorções? Procurei uma veia em meu pulso. Ela pulava bastante, mas eu não sentia nada além de uma pequena ansiedade. Talvez eu fosse uma daquelas pessoas imunes ao efeito das drogas. Ou era uma questão de tempo.
Que planta é essa?, perguntei, já que estávamos ali.
Colza. A economia da cidade, Cirineu disse. Tem uma indústria aqui, reparou? É do que as pessoas vivem.
E o que se faz com ela?
Óleo de cozinha.
Passei a reparar melhor na vegetação. As plantas tinham quase um metro de altura e formavam, no conjunto, uma saia plissada de tamanho gigante. Ao tomar-se uma delas, individualmente, dava para ver que a haste central abria-se em apêndices para formar um candelabro pequeno e delgado que se replicava de espaço a espaço, tanto acima quanto abaixo. As folhas finas, de um verde bem escuro, pareciam mais pesadas do que o caule podia suportar. Seriam elas que, esmagadas, davam o azeite?
Não, ele vem da semente, Cirineu contou. Nunca sentiu o cheiro na cidade?
ilustração : Carolina Vigna-Maru

Ele tinha razão. Dia e noite havia um bafo de cozinha no ar. No começo senti um pouco de náusea, depois deixei de prestar atenção naquilo. Como em todo o resto.
Debaixo dos pés de colza podia-se ver a terra que, de tão vermelha, parecia estar em brasas. Era uma combinação bonita, o verde com a argila: uma cor fazia contraste para a outra ficar mais intensa. E por cima, o infinito, que na hora me pareceu a parede de uma caverna azul.
Com as mãos, recortei um quadrado imaginário na horizontal, depois na vertical, onde coubesse um pedaço de cada coisa.
Agora, não parecia mais uma plantação. Era mais uma bandeira de três listras — vermelha, verde, anil — o que eu via. Por causa do tamanho reduzido, o pedaço que eu havia recortado deixava os tons ainda mais vivos e brilhantes.
Quando baixei as mãos, o quadrado permaneceu no ar. Pisquei, ele continuou ali. Desviei o olhar e o quadrado acompanhou. Era como uma janela, uma lente que aumentava as cores de qualquer coisa que meus olhos enxergassem.
Estrangeira, você está viajando.
A voz de Cirineu era fina, ele disfarçava falando baixo.
Perguntei o que aconteceria depois, com a plantação já madura.
Vai ser ceifada por máquinas colhedeiras. Uma parte vira farelo, a outra, óleo. Mas antes, vai ficar tudo florido.
Logo?
Setembro, por aí.
Eu estava pronta para dizer que ia voltar para ver a floração quando o quadrado ficou na frente de Cirineu. Era como se eu visse o seu rosto pela primeira vez. Já tinha notado a marca de espinhas nas bochechas e a cicatriz da testa; o arco torto do nariz, nunca. Os olhos pequenos, verdes, ficavam bem no fundo da órbita dos ossos. Dava para imaginar a caveira do Cirineu. Então me dei conta de que eu não prestava muita atenção nos objetos, nem nas pessoas. Olhava tudo por alto, a buscar outra imagem, para além das aparências. Um reflexo que talvez não exista. O fato é que olhar, enxergar de verdade, era outra coisa. Dá para reproduzir em palavras tudo que existe só a partir dos detalhes, das particularidades que a pressa não permite ver. Agora, mesmo se fechasse os olhos, eu podia fazer um retrato falado do meu amigo.
Seus dentes têm bordas azuis, eu disse, certa de que Cirineu ia gostar de ouvir aquilo.
Ele sacudiu a cabeça levemente, repetidas vezes, como um desses cachorros de mola no pescoço que os motoristas põem no painel do carro.
Você vê cada coisa, Estrangeira.

Fonte : Jornal Rascunho

Dossiê Bibliográfico

Resenhas
HORÁCIO, Luiz. Entre escritoras e personagens imortais. Postal Cristina Carriconde. Disponível em: http://www.cristina.carriconde.nom.br/horacio.html.

SANTOS, Márcio Renato dos. Resenha estranha, de Adriana Lunardi. Rascunho, Curitiba. Disponível em: http://rascunho.rpc.com.br/ index.php?ras=secao.php&modelo=2&seção=25&lista=0&ordem=1229&semlimite=todos.

TUTIKIAN, Jane. As meninas da Torre Helsinque. Revista Blau. mar. 1997. Disponível em: www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?liCodigo=2.

RODRIGUES, Carla. Nove escritoras à beira da morte. Jornal do Brasil. out. 2002. Disponível em: www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?liCodigo=6.

LOBATO, Eliane. Fins Poéticos. Vésperas reinventa a morte de escritores. Isto é. 16 out. 2002. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoe/1704/ artes/1724_fins_poeticos.htm.

VASQUES, Marco. Um labirinto em nove contos. Diário Catarinense. 5 mar. 2005. Disponível em: <www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?liCodigo =6 >.

Le crépuscule des plumes. L´ Express. 2 maio 2005. Disponível em: http://www.adrianalunardi. com. br/XHTML/resenhas.php?paCodigo=5&reCodigo=28>.

Adriana Lunardi et la litanie des derniers instants. Le Monde. 20 maio 2005. Disponível em: <http://www.adrianalunardi. com.br/XHTML/ resenhas.php? paCodigo=5&reCodigo=29>.

Histórias de Mulheres. Público – Edição Impressa – Mil Folhas, Portugal. 3 jun. 2006. Disponível em: <http://www.adrianalunardi.com.br/XHTML/ resenhas.php?paCodigo=6&reCodigo=30>.

MOREIRA, Carlos André. Da brevidade da vida. Zero Hora, Porto Alegre. dez. 2006. Disponível em: <www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php? liCodigo=7>.

ILHA, Flávio. O romance ainda respira. Revista Aplauso, ano 9, 2007. Disponível em: <http://www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?liCodigo=7>.
HORÁCIO, Luiz. Corpo estranho, de Adriana Lunardi. Jornal O Globo – Prosa & Verso. 2 fev. 2007. Disponível em: <http://www.oglobo.globo.com/blogs/prosa /post.asp?cod_post=47384>.

STRECKER, Heidi. Personagens flagrados à meia-luz. Revista Entre Livros. mar. 2007. Disponível em: <www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?li Codigo=7>.

MOREIRA, Carlos André. Vidas e mortes paralelas. Zero Hora, Porto Alegre. mar. 2007. Disponível em: <www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?li Codigo=7>.

CARVALHO, Regina. Um corpo nada estranho. jul. 2007. Diário Catarinense. Disponível em: <http://www.adrianalunardi.com.br/ XHTML/livros.php?li Codigo=7>.

PINTO, Júlio Pimentel. Corpo estranho. Paisagens da Crítica – UOL Blog. 3 ago. 2007. Disponível em: <http://paisagensdacritica.zip.net/arch2007-07-292007-08-04.html>.

Entrevistas
“Come chocolates, curiosa”. Entrevista concedida ao Zero Hora. 8 abr. 2007. Disponível em: http://www. adrianalunardi.com.br/XHTML/entrevistas.php.

Não acredito em governos que exilem artistas”. Entrevista concedida a Deonísio da Silva. Observatório da Imprensa. 17 jul. 2007. Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=442AZL001>.

Encontros de Interrogação (Participação de Adriana Lunardi). TriploV. 28 maio 2007. Disponível em: <http: //www.triplov.com/blog/index.php?s=carrascoza>.

Participação na Flip. UOL. 3 jul. 2008. Disponível em: <http:// www. entretenimento.uol.com. br/flip/2008/adrianalunardi.jhtm>.

Cursos – Conto e romance juntos na Estação (Participação de Adriana Lunardi). Publishnews. 20 fev. 2009. Disponível em: <http://www.publishnews.com.br/ noticias/newsint.asp?idnoticia =26707>.

Encontro e crítica entre diversos escritores da literatura contemporânea da literatura brasileira (Participação de Adriana Lunardi). Versões/Site SESC Campinas. 1 maio 2009. Disponível em:

Ensaios

VECCHIA, Adriana Dalla & TEIXEIRA, Nícia Cecília R. Borges. O passado traçando caminhos na literatura de Adriana Lunardi. Site Adriana Lunardi. Disponível em: <www.adrianalunardi.com.br//XHTML/etc.php>.

BRIDI, Marlise Vaz. Memórias ficcionais de escritoras: acerca das Vésperas, de Adriana Lunardi. Site Adriana Lunardi. Disponível em: <http://www.adriana lunardi.com.br/XHTML/etc.php>.

ALMEIDA, Lélia. Linhagens e ancestralidade na literatura de autoria feminina. Espéculo. Revista de Estudios Literarios. Universidad Complutense de Madrid. 2004. Disponível em: <http://www.ucm.es/info/especulo/numero26/linhagens.html>.

FRANCO, Adenize. Às vésperas do fim: um passeio pela narrativa contemporânea de Adriana Lunardi. Temas & Matizes, v. 5, n. 9, 1º semestre 2006. Disponível em: <http://www.unioeste.br/saber>.

CARNEIRO, Flávio. As escritoras da nova ficção brasileira. 22 jul. 2006. Portal Literal. Disponível em: <http://www.literal.com.br/artigos/as-escritoras-da-nova-ficcao-brasileira>.

OSAKABE, Haquira. Corpo estranho – sobre o romance de Adriana Lunardi. Caderno Pagu, Campinas, n. 30, jan./jun. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/ scielo.php?pid=S0104-83332008000100020&script=sci_arttext>.

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