sábado, 13 de julho de 2013

Origens das coisas e das palavras



Por Alexandre Staut*

Noemi Jaffe é escritora, crítica e professora de literatura brasileira. Lançou, no ano passado, O que os Cegos Estão Sonhando (Editora 34) e A Verdadeira História do Alfabeto (Companhia das Letras). No primeiro volume, ela se debruça sobre memórias familiares do Holocausto. Para contextualizar, sua mãe, Liwia Jaffe, foi prisioneira em Auschwitz. O segundo é uma obra fabular. Figura entre os finalistas do prêmio Portugal Telecom de Literatura, na categoria contos. A autora falou para o blog Études Lusophones sobre ambos os livros, sua escrita e também sobre a produção literária nacional contemporânea.  

Como surgiu a ideia de escrever A Verdadeira História do Alfabeto?
A ideia surgiu a partir de uma brincadeira que duas personagens do livro A Mulher Foge, de David Grossman, fazem entre elas, quando pequenas, que é a de criar um hospital para palavras doentes. Pensei que também poderia criar uma gênese das letras e das palavras, em que elas surgissem a partir de uma necessidade, tanto gráfica quanto existencial. Isso torna a existência das letras e das palavras muito mais significativa, próxima de sua origem. Assim elas não precisam nunca ir para o hospital!

Qual foi a primeira letra para a qual inventou uma história? Poderia contar sobre o processo?
 A primeira letra foi o A mesmo. Pensei em Demócrito (460-370 a.C.), um filósofo atomista, inventando a ideia do que seria essa partícula supostamente indivisível da natureza e de tudo e criando um símbolo que justificasse esse pensamento. Assim criei essa relação aparente entre a letra e a palavra e assim eu fui fazendo com todas as letras subsequentes.

Em alguns momentos, as histórias lembram pequenos casos da tradição oral contados para crianças. Este foi um dos caminhos escolhidos?
Confesso que não tinha pensado nisso. Mas acho que, como tudo é muito próximo de relatos de origem, de formas simples, acaba lembrando as formas orais tradicionais. Sempre um refrão (no final), tentativas de justificar o absurdo através de ideias artificiais, coisas assim.

Há histórias ouvidas na infância que teriam inspirado a criação de narrativas do livro?
Não, especificamente não. A não ser as formas simples que mencionei acima e que sempre admirei, como "causos", mitos, fábulas, contos de fadas.

Fábulas infantis parecem ter sido pontos de partida para o projeto do livro. Ao mesmo tempo, em que você usa fatos da ciência e da história. Como fez essa junção, de forma a criar conjuntos harmoniosos?
Um autor cuja literatura admiro muito é Ítalo Calvino (1923-1985). Sem querer me comparar a ele, penso que ele fez algo semelhante no livro Cosmicômicas, por exemplo. Afinal, os mitos e as abordagens imaginativas da ciência antiga eram muito próximos.

Quais são as suas considerações sobre a literatura brasileira feita para o público infanto-juvenil?
Infelizmente, não tenho contato com a literatura produzida para essa faixa etária.

No mesmo ano em que lança um livro que é pura fantasia, publica também O que os Cegos Estão Sonhando, em que se debruça sobre memórias familiares do Holocausto. Como passou da experiência de um livro a outro? Os dois livros fazem parte de um único projeto?
Foi uma coincidência que ambos os livros tenham sido escritos ao mesmo tempo. O livro "O que os cegos..." era um projeto muito antigo e a bolsa da Petrobras saiu justamente nesse período. De certa forma, creio que um livro tenha sido o parque de diversões do outro, algo assim, mesmo tendo sido trabalhoso. Mas, grande parte do livro do alfabeto foi escrito tendo o Google como base, para você ver como houve também diversão. Mas, quanto mais penso, mais vejo que há relações entre eles: ambos vão atrás das origens das coisas e das palavras, mas de pontos de vista totalmente diferentes.

Como ficcionista, poderia falar um pouco dos personagens que habitam o seu imaginário? E como professora de Literatura Brasileira, o que gostaria de falar sobre os personagens brasileiros contemporâneos?
Vivo prestando atenção em tudo: coisas, pessoas, cenas. Muita coisa, para mim, parece imaginária, ou pode pertencer a um livro. Não preciso inventar demais para transformar pessoas em personagens. Está tudo aí: é só pensar em formas de fazer montagens, colagens. Juntar as pessoas com o conhecimento das palavras e da experiência.
Tenho gostado bastante dos personagens brasileiros que tenho lido. O professor de educação física de Barba Ensopada de Sangue (Daniel Galera), os personagens de Marcelino Freire, de Bernardo Carvalho, de Marçal Aquino, da Beatriz Bracher e muitos outros que não cabem numa lista. São personagens consistentes, ricos, com problemas ao mesmo tempo atemporais e novos, escritos numa linguagem mais atual.

Quais personagens/livros mereceriam mais destaque na literatura nacional?
Para mim, o livro mais injustiçado da literatura brasileira é Os Ratos, de Dyonélio Machado. É um livro sensacional, tão grande quanto Vidas Secas, por exemplo. Não entendo por que ele não é considerado um clássico.

Se tivesse que escrever um manifesto pela literatura brasileira num cartaz, para uma manifestação de rua, o que escreveria?
Não sei. Algo na linha de "a literatura brasileira existe". Mas não sou boa de slogans.




(*) Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) em 1973. Jornalista, já trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França (em Brest, Tours e Arromanches-les-Bain). Ministrou oficinas de haikai na Oficina Cultural do Estado de São Paulo (Bauru/SP). É roteirista do documentário “O anjo da guarda de Caio F.” e autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toada Edições/2010) e Um lugar para se perder (Dobra/2012). No momento, trabalha em seu terceiro romance, num livro infantil e numa peça de teatro que está sendo escrita para a atriz cubana Phedra de Córdoba. Alexandre Staut é colaborador do blog Études Lusophones.

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