segunda-feira, 8 de julho de 2013

Desestruturando expectativas topográficas

Desestruturando expectativas topográficas

Elvira Vigna

Essa pauta é do editor. Ele me pediu um comentário sobre Luci Collin, a quem já elogiei em outros textos e que conheço através de redes sociais, não pessoalmente.
O livro é o Com que se pode jogar.
Dividido em três partes, há três vozes narrativas que contam três momentos diferentes de uma mesma história.
As três vozes são femininas. A história é masculina, no sentido de que a ação é masculina: um homem morre, outro mata.
A primeira voz do livro é a da viúva, uma mulher de classe média; a segunda, a de uma das irmãs paupérrimas do assassino. Essa jovem teve uma relação incestuosa com o irmão assassino. A última voz é a da companheira pirada do assassino. É um pouco por causa dela que ele comete o crime. Todas as três vozes estão na primeira pessoa.
Portanto, "eus" femininos cercam a ação masculina.
Há uma quarta voz. Que é a que escreve, a que escolhe as palavras. E que, na minha leitura, é um desdobramento da voz de Ana, a viúva. É quem abre o livro, em sua elaboração do luto, e é quem imagina as outras mulheres, as construindo e construindo assim a história banal onde se vê incluída por um quase acaso. O tempo presente dessa quarta narrativa é posterior ao tempo das outras três:

Me vejo dançando sem saber os passos navegando sem ter levado mapa nenhum me vejo esquecendo quais deveriam ser as palavras corretas (...) (COLLIN, 2011, p. 35)

Essa outra Ana, que se vê a si mesma e às outras mulheres, além de presente no primeiro texto do livro de forma integrada, também abre as três partes do livro, com um quadrinho de texto em tipologia e diagramação diferente, onde ela aborda a questão da escrita e do jogo presente no título.

Convocação para o campo de batalha: relativizar é sempre uma saída. Amarração das forças da história que conta acumula empilha recolhe suscita e depois logra se reificar. Entram novos ontens embriagam-se temas se embaralham ressuscitam-se olhares por trás da cortina. Sobre a face da terra nada é mesmo jamais novo nem as bravatas nem os desenlaces nem as falas sobrepostas: e aí estará o melhor da sempre indescritível sensação do jogo: um gozo? Não. Um pressentimento. (COLLIN, 2011, p. 11)

Sei que há pouco tempo, em artigo recente[1], citei Cortázar. Vou citar outra vez. Dessa vez, o conto Circe, do mesmo Bestiário.
É por causa do narrador.
Nesse conto de Cortázar, como no livro de Luci Collin, o narrador também se parte em vários (está online, para quem quiser ler, em vários sites).
A história de Cortázar é a de uma mulher cujos dois primeiros noivos morreram. O terceiro tem em seus ouvidos os ecos de "bruxa" com que a comunidade chama a moça. Ela faz bombons. Ele descobre restos de uma barata no bombom que lhe é oferecido. Ele a ataca e quase mata, pois acha que ela é quem quis envenená-lo com o inseto.
Quem conta o conto do Cortázar?
Aí é que está.
Há um "eu" que aparece exatas duas vezes: "Lembro-me mal de Délia, (...) (CORTÁZAR, 1978, p.62)" e "Lembro-me mal de Mário, (...) (CORTÁZAR, 1978, p. 64)".
Lembra mal, mas conta. E não lembra mal. Lembra muito bem, cheio de detalhes. Esse Mário, de quem o "eu" supostamente lembra mal, é descrito pormenorizadamente, e por dentro. O que sente, o que pensa. Poderia ser uma espécie de narrador onisciente seletivo, grudado em Mário. Mas é um narrador fracionado.
O "eu", cuja aparição se dá nas duas instâncias citadas acima, teria doze anos à época do quase-crime.
Minha leitura:
O "eu" de doze anos é o próprio Mário. É seu lado infantil que tem raiva da mãe. É como começa o conto, com a explicitação dessa raiva. Da mãe e das mulheres em geral. Raiva e medo. O "bombom" (vagina) delas é ameaçador. Contém insetos nojentos que podem matá-lo. Esse "eu" infantil do narrador é quem vai observar, impotente, a agressividade tomar a dianteira em sua subjetividade fracionada.
Por sorte, a projeção de seu lado mulher não morre.
Mário pode seguir a vida, virar um adulto. É como adulto mais bem resolvido (um Mário vários anos depois do acontecido) que ele conta, então, o que conta. Conta o que se passou com seu "eu" fraturado.
Délia, que pode ser vista como uma projeção de Mário, é fantasmática, vive na penumbra, à noite. Ninguém consegue olhar direito para a cara dela. É a mulher aterradora (já que odiada e portanto podendo se vingar a qualquer momento), projetada pelo lado infantil do narrador. Daí ser importante ela não ter morrido. Se tivesse morrido, quem morria era Mário enquanto possibilidade de sujeito integrado. Seria mais um noivo morto.
Então, em Cortázar, há um "eu" não nomeado (mas que na minha leitura seria o lado infantil da fragmentação psíquica do personagem narrador, o Mário); há um Mário da época do crime, cuja cabeça (sentimentos e pensamentos) nos é descrita em detalhes; há um Mário já razoavelmente integrado posterior a isso e que difere do "eu" testemunha da época do quase-crime por seu conhecimento mais lúcido; e há uma Délia, a projeção feminina do narrador.



Na Luci Collin, segundo a minha leitura, há três "eus" femininos, em graus diferentes de insatisfação ou sujeição ao masculino, cada um com um nome (Ana, Melanta e Lena); há a projeção de um masculino agressivo na dupla espelhada Ruham x Augusto (Augusto, a vítima do crime, também é agressivo na medida que é uma ameaça a Lena); e há quem "escolhe as palavras" e "embaralha as tramas", ou seja, o narrador que conta depois dos fatos. E que, a meu ver, seria a Ana tentando entender - e processar um trauma.
O que me incomoda no conto de Cortázar é a mesma coisa que me incomoda no livro da Luci Collin: essa não existência concreta dos personagens do gênero oposto ao do narrador. Délia mal existe. E Ruham/Augusto também, todos eles só visto(s) de modo oblíquo, não direto.
E me incomoda também a oposição de gêneros que, em ambos os casos, é bem marcada. No caso da Luci Collin meu incômodo é acrescido pelo fato de que a ação está ao encargo completamente dos dois homens projetados - e espelhados. As mulheres sofrem o impacto de uma ação que é masculina. Em Cortázar, Délia vive chorando e parte do impulso de esganá-la seria para que parasse de chorar. Aí, no olhar sobre os gêneros, acabam as simetrias opostas. Collin e Cortázar pintam, ambos, um feminino que chora.
Mas tem uma coisa no livro da Luci Collin de que gosto muito. É a não nomeação explícita do seu narrador de "integração", digamos. Aquele, ou melhor, aquela, que escreve. Mais do que em Cortázar, cuja integração do narrador em um Mário adulto que vê com grande afastamento - a ponto de considerá-lo um "ele" - o Mário agressivo da época em que seu "eu" infantil e fracionado dominava, Luci Collin mantém a integração do narrador como uma possibilidade extratexto, metatextual. Ana, depois do trauma vivido, cria as personas de Melanta e Lena, faz um jogo. Cria até mesmo uma persona para ela própria, a quem chama de Ana, como poderia chamar de qualquer coisa. Na verdade, o narrador integrado de Luci Collin, que é quem arma o jogo, não é nomeado.
Sei que o mundo vai cair sobre mim, mas acho a solução da Luci Collin mais sofisticada.
Claro que eu podia considerar a não nomeação do narrador como um gesto de disfarce necessário para uma atuação na linha autobiográfica. Mas talvez porque eu também volta e meia não nomeie meus narradores, acho que há uma possibilidade mais bacana.
A de uma resistência à ideia de identidade como algo fixo e estável.
Cortázar e Collin, a ser correta minha leitura de ambos, descrevem uma constituição em andamento, sem lugar estabelecido, sem fim à vista. Sabemos que ambos os narradores contam os fatos algum tempo depois de terem acontecido. Mas de onde eles contam? Não há um espaço que os acolha. Como ambos os textos discutem, por baixo do pano, o que é ser mulher e homem, essa não nomeação, somada a esse não-lugar a partir do qual se narra, me é um refresco bem-vindo a atenuar as restrições do pensamento dicotômico.

P.S. Essa minha leitura, que integra em um só narrador posterior, a fragmentação em vários narradores do tempo presente das ações narradas se contrapõe à análise mais corriqueira, de que se tratam simplesmente de narradores "não confiáveis", um termo que, me parece, esteja meio na moda. Toda vez que há um narrador complicado, ouço dizer que ele é "não-confiável".
O uso do narrador não-confiável é uma estratégia do contemporâneo. Serve, e serve muito bem, para uma finalidade específica: fragilizar o poder do autor.
Assim:
O narrador não-confiável é aquele que toma parte na ação narrada e relata essa ação de forma parcial para defender seus interesses pessoais na trama.
O leitor, ao precisar desconfiar do que lê,  se vê obrigado a "corrigir" ou "complementar" a leitura. Torna-se portanto um segundo autor.
Daí a estratégia funcionar como desestabilizadora do poder constituído.
No conto de Cortázar não é bem isso o que ocorre. O desestabilizado não é o autor, é o próprio narrador. O narrador se confessa menino impotente frente a uma ação no passado. Mas descreve pensamentos e emoções internas do Mário daquela época. Não é um narrador não confiável. É um narrador fracionado. É um  narrador que relata candida e honestamente sua fragilidade. É plenamente confiável. Embora frágil.
O da Luci Collin diz, também candida e honestamente, que está ali armando um jogo. É outro que não mente, que é plenamente confiável.
Há uma corrente que considera o narrador como sendo não-confiável quando ele se apresenta não confiável para um leitor específico, o de classe média. Quando o narrador representa uma alteridade no espaço confortável do leitor. Não vejo assim. Acho mesmo que esse pensamento tem um quê de fascista, a determinar de antemão um lugar para o leitor, supô-lo autoritariamente. O narrador se torna não-confiável quando ele desestrutura as expectativas topográficas do leitor, não quando ele apresenta uma marginalidade, mesmo se psíquica.

Elvira Vigna
Julho de 2013


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COLLIN, Luci. Com que se pode jogar. Curitiba: Kafka Edições. 2011. 148 p.
CORTAZAR, Julio. Bestiário. 4. ed. Trad. Remy Gorga Filho. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1978. 136 p.


Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos no link : 




[1] Cf. Elvira Vigna, “Folclorizações” em  :  http://etudeslusophonesparis4.blogspot.fr/2013/06/folclorizacoes.html

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