quinta-feira, 27 de junho de 2013

O Futuro pelo retrovisor




Novos olhares sobre o contemporâneo

Ao refletir sobre o contemporâneo, costumamos sentir falta de um recuo que nos permita uma visão do que supostamente está perto demais de nós, como se o contemporâneo estivesse colado ao presente, daí a dificuldade de captar aquilo de que não conseguimos tomar distância. Um anacronismo tem sido por isso reivindicado: não seria contemporâneo justamente aquele capaz de se deslocar do presente e não tanto quem se identifica de maneira imediata com o novo ou a novidade? Nesse sentido, refletir sobre essa condição não implicaria também, necessariamente, uma tomada de distância?

Partimos aqui dessas interrogações bem como da hipótese de que é na superposição de temporalidades, numa tensão entre presente, passado e futuro, que se constitui a literatura atual. John Barth, em seu artigo “A literatura de exaustão”, de 1967, já apontava para o fim das possibilidades estéticas como ditadas pelas vanguardas modernistas; mas o ensaísta vislumbrava igualmente a possibilidade infinita de acessar a tradição e assim recombinar a partir do presente esse inventário interminável. De maneira semelhante, poderíamos nos perguntar se diversos autores brasileiros contemporâneos não estariam operando reapropriações de questões fundamentais dos séculos XIX e XX – no plano estético, ideológico, temático, formal etc. –, reelaboradas a partir do presente.

A nossa aposta é que parte expressiva da atual literatura brasileira está caminhando neste momento para uma releitura das tradições da modernidade, saqueando ou revisitando o passado, como sugere a expressão de Marshall McLuhan, reapropriada por nós, que serve de título a esta publicação. Em seu sentido original, a expressão dizia respeito a um olhar fixo sobre o passado, que tendia a recuperá-lo sempre da mesma maneira. Gostaríamos de retomá-la aqui para tratar de uma relação com o passado que pode se dar de múltiplas formas, de modo que não se estabeleça uma relação linear de causalidade entre passado, presente e futuro.

À indagação do que ainda é possível resgatar quando se lança esse olhar para o passado, os textos deste livro respondem de várias maneiras, formando núcleos de questões que denominamos “Experiência, transmissão, alteridade”, “Literatura, vida, cena literária”, “Releituras da tradição, reescrituras do moderno”, “Profanação, citação, encenação” e “Redefinições do cânone, dobras do nacional”.

No primeiro caso, trata-se de uma recuperação da experiência – palavra tão usada, questionada, por momentos banida, que retorna quando já parecia ter se esgotado, com um sentido menos idealizado, menos uno, menos onipotente. Assim, no seu texto, Stefania Chiarelli aborda, via Samuel Rawet, o romance Diário da queda, de Michel Laub, indicando que ambos interpe- lam a tradição no que ela tem de petrificada e põem a própria transmissão da experiência em questão, explorando a dimensão ética e política da memória: “O conflito com a ascendência e a inviabilidade de negar completamente as raízes culturais judaicas ocupam importante lugar tanto na obra de Rawet quanto no romance de Michel Laub”, afirma Stefania, que busca entender esse passado que volta insistentemente como leitura do presente.


Já no texto de Claudete Daflon, experiência e alteridade são retomadas no sentido de se pensar, também aqui num contra- ponto, agora entre o diário de viagem de Mário de Andrade e o romance Nove noites, de Bernardo Carvalho, o complexo processo de apreensão do outro. “A procura pela verdade mostrou-se inútil e, diante disso, a subjetividade do narrador confronta-nos com a impossibilidade de qualquer revelação. Bernardo Carvalho não só põe sob suspeita a verdade etnográfica, mas também a verdade do romance”, afirma Claudete.

Também a possibilidade, ou impossibilidade, de estar em relação com o outro é central no texto de Diana Klinger sobre o que ela chama de “trilogia da separação”, referindo-se aos três romances publicados por Carola Saavedra. Endereçados a outros personagens, e também aos leitores, seja por meio de cartas, de uma gravação ou de uma conversa com o psicanalista, estes textos, sugere Diana, fazem ver que “a literatura mesma é a evidência de uma falha na comunicação”, mas também uma “tentativa de lidar com a impossibilidade de comunicação com o outro, com o desconforto que há nos afetos”.

Em clave semelhante, enquanto resgate da possibilidade de narrar, é lido por Alexandre Faria o “desencaixe do tempo na ordem narrativa” em Leite derramado, de Chico Buarque. Ao que parece, num tempo em que a literatura é chamada a se abrir para um campo de práticas culturais em que não tem mais um lugar privilegiado, é possível também pensar sua especificidade em termos desse modo singular de lidar com o tempo que pode nos fazer compreender algo sobre a excludente história do Brasil, em comparação com outras linguagens, como o rap.

Na segunda parte, “Literatura, vida, cena literária”, alguns textos questionam – e dialogam com – o paradigma que excluiu o autor da pauta de discussão da crítica, ao abordarem os modos como a tensão entre ficção e escrita de si encontrada em escritores modernos é retomada em muitas das criações de autores contemporâneos. Pode-se perceber tal retomada nos contos de Vésperas, de Adriana Lunardi. Segundo Ana Cláudia Viegas, “em vez de fruto de uma originalidade absoluta, a criação literária se apresenta, nessa obra, como resultado de diversas leituras e reescrituras, embaralhando-se na trama final dados biográficos das autoras, personagens, frases, referências das mais diversas ordens”.

A criação de figuras autorais ambíguas aparece de forma semelhante na escrita de Ricardo Lísias, como destaca Luciene Azevedo, que reflete em seu texto sobre as marcas da assinatura de Lísias no contexto da literatura contemporânea e a criação de um nome-figura de autor, formando “um autorretrato como autor que lança mão de dados autobiográficos, empregando, inclusive, o nome próprio, para transformá-los em uma engenhosa arquitetura textual”.

Finalmente, o texto de Gabriel Giorgi sobre João Gilberto Noll faz uma distinção entre duas ênfases na abordagem contemporânea da interseção entre literatura e vida: a primeira está relacionada às escritas do eu, marcada por uma dissimetria ou uma defasagem entre o vivido e sua elaboração pela memória, entre literatura e vida; já a segunda, a que interessa ao autor, “pensa a vida em termos de corpos, de materialidade biológica, de organismos e forças e intensidades vivas; põe em cena a relação entre um ‘vivente’ e a escrita”.

De modo geral, a experiência, enquanto aquilo que nos vincula ao mundo e aos outros seres, está sob suspeita na literatura abordada aqui; há nela uma falha, uma desilusão, um desconforto. Daí talvez que se complexifiquem as estratégias narrativas, justamente por meio da releitura e da reescrita dos gêneros surgidos na modernidade, como se propõe na parte “Releituras da tradição, reescrituras do moderno”.

No texto sobre João Almino, Graça Ramos explora as diversas concepções temporais no romance Cidade Livre, em tensão com a herança dos romances de formação, em uma jornada que aqui surge duplicada: a de João, nome que se desdobra do escritor ao narrador-personagem e também ao revisor fictício, e a da cidade que nomeia o livro. Ao acompanhar os últimos cinquenta anos da história de Brasília, Almino apresenta uma “tensão aglutinadora entre tempo e espaço”, própria do contemporâneo e de uma cidade erigida sem pausas.

Um diálogo com o Bildunsgroman é também proposto por Leila Lehnen, ao abordar três romances de Daniel Galera que se centram “em personagens que passam por processos, ainda que distintos, de trans(formação) após eventos impactantes”. Assim ela observa que a obra ficcional de Galera segue os parâmetros do gênero, recuperando-o e adaptando-o ao século XXI, de modo que suas personagens ecoem problemáticas contemporâneas.

Uma tensão entre os gêneros e suas potencialidades guia igualmente a abordagem de Catia Valério da obra de Luiz Ruffato, em que, por intermédio do diálogo com obras da modernidade, o romance sofre mutações. A fragmentação, a colagem, a polifonia são alguns dos procedimentos que Ruffato recria para efetuar um painel móvel da cidade de São Paulo nos dias de hoje que aproxima a literatura do cinema. Sobre Eles eram muitos cavalos, Catia afirma: “Seu romance-mosaico liberta o texto dos significados preestabelecidos para problematizar as fronteiras entre a ficção e a realidade e, desse modo, convidar o leitor a um repensar de seu papel em meio ao caos urbano.”

A literatura ainda teria assim algo a oferecer a seus leitores, como propõe Sérgio de Sá ao refletir sobre o fértil diálogo entre a obra de Eça de Queirós e Rodrigo Lacerda, em que se torna possível a recuperação de uma linhagem que, ao abrir diálogos literariamente requintados, encontra “também uma forma de dialogar com o leitor contemporâneo, muito pouco inocente”. Essa “generosidade” é uma maneira de se posicionar em relação ao campo cultural contemporâneo, entre o experimentalismo e a comunicação.

Criar procedimentos que lhe deem sentido num mundo veloz, imagético, hipercomplexo – essa parece uma das tarefas da atual literatura. Na parte “Profanação, citação, encenação”, Lourenço Mutarelli, Valêncio Xavier e Sérgio Sant’Anna surgem como criadores que problematizam essa trama de referências. De acordo com Pascoal Farinaccio, a fabricação de identidades em O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli, se dá a partir da pilhagem, citação e posterior ressignificação. Evidencia-se assim o procedimento de citação sem culto reverencial ao passado, livre do peso que inibe, mas como um processo que se retroalimenta.

Numa sintonia parecida, para Jorge Wolff, Valêncio Xavier se coloca como “explorador do baixo materialismo, perverso voyeur e bricoleur de vozes e imagens alheias”, propondo “de no- vela em novela, de raconto em raconto, a dissecção de corpos textuais os mais variados”. Ao lançar um olhar impiedoso sobre os modos de ver e de fazer modernos, próprios da sociedade de consumo, o escritor está ele mesmo em busca de “formas ainda eficazes de profanação” no ápice do capitalismo, afirma Joca.

Giovanna Dealtry investiga nas narrativas de Sérgio Sant’Anna modos de apropriação operados pelo escritor na constante interseção que promove entre literatura e artes plásticas. A autora enfatiza que se coloca em jogo na prosa do escritor carioca “a saturação do discurso e do olhar realista, a partir do encontro com obras ou artistas que também desafiaram as categorizações e os parâmetros convencionais das artes”. Nessa chave, indaga em seu texto qual seria o sentido de resgatar a contemplação na contemporaneidade.

A última parte, “Redefinições do cânone, dobras do nacional”, coloca em tensão as produções literárias e críticas. Se o lugar do autor e da literatura se mostra instável, sujeito a recriações, também o da crítica. Haveria diferentes modos de ser crítico na contemporaneidade?

O texto de Susana Scramim sugere a possibilidade de su- portar um fracasso da obra em relação a certas expectativas de leitura pautadas em modelos genéricos tradicionais. Assim ocorre com os contos de A cidade ilhada, de Milton Hatoum. “Todas essas passagens, mínimas e lacunares, produzidas por esses relatos”, sugere Susana, “não poderiam ser compreendi- das dentro de um controle do gênero; ao contrário, elas só podem ser compartilhadas num movimento entre subjetividades passantes, lacunares e inconclusas.”

A pergunta sobre como a crítica constrói suas leituras está também no texto de Paloma Vidal. O que gera conexões e desconexões em relação a isso que chamamos “literatura brasileira”? Como se constrói a leitura de uma obra no âmbito de um paradigma de literatura nacional? Paloma lê na obra de Adriana Lisboa um “recuo do épico”, que estaria vinculado a “um distanciamento em relação à função agregadora e compensa- tória da literatura, tal como foi pensada desde o romantismo; em outras palavras, em relação a uma literatura que une em torno de uma identidade nacional e que, por sua vez, redime das mazelas da nação”.


Para Paulo Roberto Tonani do Patrocínio, nessa mesma linha de questionamento, seria possível ler o romance Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo, como um diálogo com o naturalismo cientificista do século XIX, pensando na tensão criada a partir da permanência do modelo e sua própria recusa: “É neste espaço intersticial, no limite entre o uso da tradição naturalista e a inserção de um novo referente, que o autor narra o trajeto do personagem”, sustenta Paulo, ao destacar em sua leitura o fato de que o realismo descritivo é apaziguado pelos traços de subjetividade do olhar do protagonista Pedro.


A produção deste livro significa o desafio e a provocação de pensar o lugar da literatura hoje, inseparável do lugar da própria crítica. A motivação principal é interferir em um debate que, por vezes, aparece polarizado em nosso cenário cultural. De um lado, a valorização do novo limita-se a constatar a impossibilidade de circunscrever esses escritos marcados pelo signo da multiplicidade. De outro, encontramos abordagens que operam a partir da comparação com os modelos canonizados pela história literária, eximindo-se de compreender o que há de específico na literatura atual. Diante disso, estar no presente deslocados dele talvez seja o lugar paradoxal que os ensaístas aqui reunidos buscam para propor outros olhares sobre o contemporâneo, sem perder de vista as reapropriações, releituras e diálogos com a modernidade.
as organizadoras

Paloma Vidal, Stefania Chiarelli Techima e Giovanna Dealtry

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