terça-feira, 4 de junho de 2013

Folclorizações

Folha de São Paulo - 27/05/2013 - primeira página.
Folclorizações

Elvira Vigna

Em 27 de maio passado, a Folha de São Paulo publicou, em sua primeira página, a cara do jogador brasileiro Neymar, chorando. Ele ia para o clube espanhol Barcelona e a legenda dizia: "Neymar chora durante o hino nacional."
Nesse dia, eu já pensava no artigo de junho do blog. E o pensamento era se, dessa vez, daria para chegar a uma conclusão clara, sólida, defensável, a respeito dos traços de brasilidade que (eu incluída) nos empenhamos em detectar e enaltecer na arte. E nem o final da frase de apresentação consigo fazer direito: arte, ahn, arte, que arte?, a arte produzida, consumida ou a que circula, e onde mesmo?
A notícia interna no caderno de esportes dava mais detalhes: "A maior parte do dinheiro que o Barcelona desembolsará vai para o bolso do jogador. Neymar receberá de luvas € 40 milhões (R$ 106,3 mi), diluído nos cinco anos do acordo. Desde julho de 2012 o clube espanhol tem esse dinheiro reservado, incluído até no balanço financeiro."
Não faz o menor sentido. Por que então ele chora?
Nacionalismos, a gente sabe como começam e, infelizmente, também como acabam. Uma homogeneidade cultural falsa e forçada - e, no nosso caso, põe falsa e forçada nisso, pois não temos heranças culturais homogêneas sequer em passados idealizados. Tal homogeneidade cultural falsa e forçada é usada como base para outra homogeneidade, bem mais perigosa, a conceitual. O poder, que foi quem começou o circo, promove essa homogeneidade conceitual como verdade absoluta, definidora, e a partir daí interpreta o resto todo, sendo que resto todo é a realidade. Econômica, política, social. Incluindo a dos "outros" que, em vista de tal definição axiomática, só podem ser diferentes. Diferentes como sinônimo de inferiores e/ou ameaçadores.
Bingo. A defesa daquela mentirinha ali do começo se dá com a força. Inicialmente a força física dos indivíduos mais musculosos da espécie animal em questão, ou seja, a força física dos machos. Depois, com o passar do tempo, mas não da cretinice, com a força armada mesmo. Em geral no plural: forças armadas. E outra coisa que continua igual: ainda são os machos, os mais fortes. Desobrigados de ir à academia - a de ginástica ou qualquer outra - detêm o acesso ao botão. Mais uma coisa que continua, senão igual, bem parecida, a espécie animal. Poucas diferenças no DNA.
Não acaba bem, isso.
E no entanto, burra que sou, ou cooptada, continuo a ver, em uma parte da nossa arte, traços que, na falta de melhor palavra, chamo de brasileiros. (Viram só como me livrei do problema, com esse "nossa" jogado inobtrusivamente antes de "arte"?)
Sim, estou falando dos herdeiros do neoconcreto, seu humor, sua serialização, sua entrada precursora no que depois se tornaria o espaço comum da arte sem adjetivos, o contemporâneo.
É arriscado continuar a usar o nome de estética da gambiarra. Arriscado e datado. Na gambiarra vivemos, hoje, todos. E, além disso, é sempre bom relembrar que a construção de nacionalismos pós-colonialisnistas serve ao mercado e nada mais. A indústria, qualquer uma delas, sabe que nacionalismos, quando devidamente pasteurizados, vendem. A atuação das insatisfações com a falta de reconhecimento social, quando se dá através de eventos simbólicos (a indústria cinematográfica "Bollywood" dos indianos ou, para voltar ao assunto, qualquer campeonato de futebol entre brasileiros e argentinos) produz esquecimento, e não pensamento.
Mas no caso da, ahn, brasileira estética da gambiarra, há um terceiro item a ser levado em conta. Não é só que o mundo inteiro contemporâneo está na gambiarra; nem é só que o uso e o fortalecimento de uma nomeação/caracterização geograficamente localizada serve a interesses de mercado. Há a construção de uma espécie de folclore. E acho que por aí consigo me safar.
Folclore, ao contrário do que aparenta, é sempre uma repetição dinâmica. Ou morre. Cada vez que rituais são atuados ou narrados há uma modificação que aponta para uma questão do presente daquele momento e daquele lugar (a literatura/oralidade dos repetidores nordestinos recuperados pelo rap carioca em seus "desafios" rimados é um exemplo). Ou melhor dizendo, a aposição de significado muda a cada ritualização. Entendemos de uma forma ou de outra uma história ou ação que no fim é a mesma ou quase.
Então, há uma folclorização brasileira de heróis feios ou fracos, de linhas que não são retas, curvas feitas dobrando gravetinhos que quase se quebram, danças de pernas tortas e finas ao som de apitos de juízes nunca perfeitos. E a encenação atual de tal folclore ganha novo significado ao se apresentar em um contemporâneo que desconfia muitíssimo de todas as linhas retas que caracterizaram, e da pior maneira, o século anterior, o belicoso e moderno século XX.
Se essa folclorização histórica brasileira (em que estou incluindo como um exemplo recente a estética da gambiarra) pode ser vista como precursora de uma arte globalizada feita com banha, cera, animal morto, se essa folclorização brasileira pode ser vista como anunciadora de uma arte globalizada que se extingue antes de a exposição acabar, que acolhe e proclama o torto, o riso e o compartilhamento autoral, se ela é precursora e anunciadora do que se estabeleceu como contemporâneo na arte global, bem, sua estratégia também é merecedora de igual respeito. A repetição e a ressignificação dos folclores de todos os povos foram explicitadas claramente em outra arte brasileira, parente da gambiarra, a dos neoconcretos. Faziam serialização. Faziam à mão. Nunca ficava igual. Nas diferenças, mínimas, acolhiam a passagem do tempo, as condições locais de produção.
Separei uns poucos exemplos.
Um deles é de um amigo pessoal, e por conta disso peço desculpas.
Brasileiros/Brasileiras - Emmanuel Nassar, 1988, óleo sobre madeira.

César Brandão é de Juiz de Fora. Por conta de uma exposição chamada Homenagem a Kounellis, integrada ao programa itinerante da 30ª Bienal de São Paulo, preparou um texto de apresentação:

"(...) A ideia dessa obra surgiu quando li entrevista de Jannis Kounellis em que afirma que os materiais de seus trabalhos são influenciados pela vivência de muito tempo em região portuária.
E dentre inúmeras definições do que seria arte, esse pensamento de Kounellis coincide com a proposição de que arte talvez possa ser também o resultado de “cultura e vivência”.
Filho de operário, vivi em bairro a contornar indústria com fornos para carbureto e ferro silício. E, na infância e adolescência, fiz desenhos daqueles fornos, e vi fogo, fumaça e materiais ali utilizados: cal, carvão, pedra cristal, sucata... Bem como os produtos resultantes das fundições (e sempre usei essas matérias em instalações ou objetos).
Daí minha fascinação por fundições não especializadas em obras de arte, e que geram cópias precárias, próteses incorretas, arcaicas reproduções.
Em Homenagem a Kounellis reuni dez “reproduções” fundidas em alumínio reciclado, também a plotagem do esboço do trabalho e foto do objeto fundido, além do molde original construído em compensado, cola, bombril, barra de ferro, parafusos, pregos, alumínio etc. E esse molde foi maquiado em purpurina prata: espécie de pindaíba, paliativo, pinguela, molambo, maltrapilho, gambiarra."

Emmanuel Nassar é do Pará. "Brasileiros/Brasileiras" é fruto do seu fascínio por bandeiras, como a de Santarém, onde morou em criança, e que tem um castelo medieval estilo europeu ladeado por dois pirarucus. As bandeiras do díptico "Brasileiros/Brasileiras" têm seus símbolos heráldicos tirados das portas de banheiros públicos. O título pomposo remete ao início padrão dos discursos oficiais do fim da ditadura brasileira.


Farmácia Brasil - Emmanuel Nassar, 1986, guache sobre papel.

"Farmácia Brasil" é uma caixa como as ainda hoje apresentadas no mercado público de Belém do Pará. Dentro, uma cobra cujo veneno teria propriedades milagrosas curativas. Em cima, um buraquinho (o losango preto) em que se enfia um cilindro de vidro para a observação. Mas a caixa é vista de dentro. O observador, aqui, está dentro da caixa sendo observado por alguém, junto com a cobra.
Clarice Lispector é de Tchetchelnik, Ucrânia (é o que eu dizia a respeito de nacionalismos). E ela seria o último exemplo para quem escolhe o humor como tentativa de homogeneidade. Mas não tenho outra maneira de ler a irrupção do Mercedes-Benz (o "Hans") a terminar a Hora da Estrela e a vida de Macabéa.
Neymar é de Mogi das Cruzes. Agora, será da Catalunha. Se César Brandão e o folclore brasileiro estão certos, ele tem razão em chorar. Sua arte pode estar ameaçada. Arte depende de transformar vivência em experiência, coisa que só dá para fazer com o tempo necessário para haver repetição. Ou física, na serialização do lado de fora. Ou na elaboração interna do criador. O espaço contemporâneo é o da convivência e compartilhamento entre iguais, é certo. Mas a experiência é sempre pessoal e se dará a partir de vivências individuais, e aí entra o histórico e o geográfico. Muda uma, arrisca-se a outra.

Elvira Vigna
Junho de 2013

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confira no link:
Um dedo de prosa

2 comentários:

  1. Muito obrigado, Elvira Vigna.

    É honra para mim ter texto meu inserido neste seu texto aqui, tão genial. E sempre defendi ou defini as gambiarras como "soluções provisórias para situações de emergência"... Brasilidade?... Folclorizações?... Não sabemos.

    César Brandão
    wwww.cesarbrandao.com

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  2. Complementando ao que disse antes sobre gambiarras, não sabemos: "a dúvida é o motor do processo".

    César Brandão

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