domingo, 9 de junho de 2013

A babalaze de Amin Nordine

A poesia epigramática do Amin Nordine ou a Babalaze de Atirador das verdades.

Um poema assim é arduo
sem cola e na vertical
pode levar uma eternidade.
Armenio Vieira


                                                          Amosse Mucavele *

Amin Nordine nasceu em Maputo em 17 de fevereiro de 1969 e perdeu a vida em 5 de fevereiro de 2011. Autor de apenas 3 livros, o que não tem importância porque a literatura não se assemelha a uma competição onde quem publica muitas obras sai vencedor. Publicou Vagabundo Desgraçado (1996), Duas Quadras para Rosa Xicuachula (1997) e Do lado da ala-B.

Amin Nordine é militante de uma escrita sólida em todos os lados, seja o da ala-A ou da ala-B. Isenta de qualquer submissão política, caracterizada pelo inconformismo da realidade que o circunda e pela revolta social, esta poesia epigramática é a revelação de um fatalismo que voa em voo rasante sobre as angústias de um passado melancólico e de um presente envenenado. Como diz o poeta :

“E do futuro o que se espera? O futuro não será isto!… superlotada receita galgando o vento
com as mãos no coração do destino.”

O que é do lado da ala-B? O leitor descobrirá que está no lado mas vil de um jovem país com os seus problemas, e é neste lado em que reside o poeta solitário nas suas abordagens anti-heróicas, mas um poeta das multidões na sua mordacidade social, um verdadeiro maquinista do comboio dos duros, um autêntico vômito da babalaze de um poeta bebȇdo do seu dia-a-dia. Detentor de uma caligrafia rebelde com versos quentes como o fogo e cortantes como a espada afiada, onde eclodem temáticas de afrontamento de um certo tempo histórico (ex: carta ao meu amigo Xanana, banqueiros de banquetes, bandeira galgada aos 25, (c)anibalizinhos…)



Talvez o outro lado da ala destes poemas, não! Isto ultrapassa a dimensão poética, ou por outra destes melancólicos dissabores que despertam os filhos desta pátria que nos pariu, deste manancial de barbaridades versus mentiras que transformam o sonho de estar livre da opressão em um pesadelo. Não será esta a voz do povo?

Estes melancólicos dissabores são a polvóra contida na “Bala” (ala-B) desta poesia que o autor preferiu chamar de “arma da victória” que dispara a(s) bala(s) certeira(s) onde a cada estrofe vai abatendo o seu alvo. Daí nasceu este livro embrulhado de crítica social.

A título de exemplo, o poema “Barbearia dos cabrões”

queixo barbudos engravatados
barbearia dos cabrões
que deixa todo chão careca
e ao alto mastro hasteiam bandeira
para desfraldarem o corpo nu do povo…’’


A brevidade é um estilo que contém o necessário para manifestar a realidade (Segundo Zenão). Esta brevidade encaixa-se na poesia do A.Nordine na qual se nota uma presença massiva de traços intertextuais da obra do poeta Celso Manguana, cidadãos da mesma esquina (ambos foram jornalistas culturais do Semanário Zambeze), guerreiros da poesia epigramática e soldados da mesma trincheira. O Amin Nordine exilou-se na morte, o Celso Manguana exilou-se na loucura das ruas desta cidade, e eu procurarei exilar-me na memória destes dois poemas:

Sonâmbula esta pátria
cresce nas estatísticas
e acorda com fome
custa amar uma bandeira assim?
tem o amargo do asilo
almoço de pão com badjias
sabem bem todos dias.
(“Aos meus pais”, Celso Manguana in Pátria que me pariu, 2006, p.14)

Se por tanto tivesse ser capaz
moça-pátria deste amor que refrega
seja o meu coração a minha entrega
escrever-te a cerca duma paz
e alto levante-se da vez que nega
não é para o povo o discurso assaz
nenhum político, milagroso ás
é tamanho o sofrimento que chega!
para o povo aumentem um quinhão
venha do vosso governo mais pão
burilada a página da história
apagar a sua triste memória
fazemos o país livre da escória!!!”
(A.Nordine. “Soneto da paz”, in Do lado da ala-B, 2003, p. 50)





Amosse Mucavele nasceu em  Maputo aos 8 de julho de 1987,vive em Maputo. É membro fundador do Movimento LiterárioKuphaluxa e um dos editores da revista Literatas;É colaborador do Pavilhão Literário singrando horizontes - Academia de Letras do Paraná e outros blogs e jornais.

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