segunda-feira, 27 de maio de 2013

Um dedo de prosa com Tatiana Salem Levy



Assistam ao depoimento que a escritora concedeu ao Blog Etudes Lusoophones durante sua passagem por Paris em 2012. Num primeiro vídeo Tatiana S. Levy evoca seu percurso, bem como as obsessões que marcam seu processo de escrita. Cliquem aqui : Percurso

Num segundo vídeo ela nos fala de seus dois romances e como surge em seus trabalhos a temática da memóira familiar. Cliquem aqui : Obsessões e Obras

Na última parte da entrevista, a escritora revela suas impressões sobre o belíssimo romance  Os Malaquias de Andréa del Fuego. Cliquem aqui : Os Malaquias

Não deixem de consultar as intervenções da escritora durante o Salão do Livro de Paris de 2012 e o encontro sobre Literatura Brasileira Contemporânea realizado neste mesmo ano na Université Paris-Sorbonne.Cliquem em :



Tatiana Salem Levy é tradutora, escritora e doutora em Estudos Literários pela PUC-Rio. Publicou o livro A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze e diversos contos em antologias e revistas literárias nacionais, dentre as quais : Paralelos (2004), 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira (2005), Recontando Machado (2008), Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (2009). Seu primeiro romance A chave de casa foi vencedor do prêmio São Paulo de Literatura em 2008 e finalista dos prêmios Jabuti e Zaffari & Bourbon. O romance articula-se em torno de diversos eixos narrativos cujas histórias  (o relato do processo imigratório do avô da narradora ao Brasil ; o intinerário dos pais oponentes ao regime militar;  a agonia da mãe ;  a viagem da narradora em busca de suas origens na Turquia e em Portugal,  sua relação amorosa obessiva e destuidora com um homem ; o processo de conversão à escrita) se intercalam ao longo do romance sem uma ordem aparente. Os fragmentos são dispostos sem numeração de capítulos rompendo  a ordem linear dos acontecimentos. É pela fragmentação textual que narradora mima os movimentos labirínticos de sua memória e a imobilidade física e psicológica em que  se encontra. Como sugere o incipit do texto :

Escrevo com as mãos atadas. Na concretude imóvel do meu quarto, de onde não saio há longo tempo. Escrevo sem poder escrever e : por isso escrevo. De resto, não saberia o que fazer com este corpo que, desde a sua chegada ao mundo, não consegue sair do lugar. (p. 9)

A questão em torno do processo da recuperação identitária é retomada em 2010 quando a autora organiza, em colaboração com escritora Adriana Armony, a antologia Primos – história da herança árabe e judaica.  Numa entrevista concedida à Saraiva em 2011, Tatiana Salem Levy  comenta :  

Escolhemos desde nomes mais novos como Leandro Sarmatz e Marcia Bechara até escritores mais consagrados como Moacyr Scliar, Salim Miguel... O leitor se dá conta como essas culturas são parecidas, mas também diferentes. A ideia era ressaltar convergências e divergências. Eu fui me dando conta como as pessoas a minha volta conhecem muito pouco dessa cultura. Na verdade são várias culturas... O Brasil teve uma grande imigração, tanto árabe quanto judaica. Nós vimos aqui esses dois povos convivendo juntos. Por exemplo, no Saara, Rio de Janeiro, em que árabes e judeus até hoje convivem no comércio. São povos muito parecidos, tem a mesma origem semita... A sensação que tenho é que as pessoas acham que árabes e judeus só podem se odiar, como se fossem duas culturas antagônicas. Não é isso. O conflito entre árabes e judeus hoje é localizado, tem a ver com território, construção de dois Estados. Mas que não tem necessariamente a ver com antagonismo de culturas. Quando fui para Israel fiquei muito impressionada com a semelhança que existe entre palestinos e judeus. Nós queríamos mostrar que o conflito não está na base dessas duas culturas.

Em 2011, Tatiana Salem Levy publica Dois rios  pela editora Record, romance que narra a história de um triângulo amoroso envolvendo os irmãos gêmeos Joana e Antônio e a bela francesa de cabelos revoltos Marie-Ange. O texto nasce de sua passagem pela Ilha da Córsega na França e pela Ilha Grande  no Brasil quando a autora decide “escrever uma historia que juntasse os dois universos insulares. Dois rios surge da paixão de Tatiana pelo mar e da vontade de inseri-lo em suas tramas, sempre baseadas em algo que toca sua vida. “Sou movida a impulso e emoção, e a minha literatura terá sempre isso”, revela a escritora. Para Tatiana, o mar pode levar para o mundo, para o desconhecido; mas também pode levar pessoas queridas, nos tirar de onde gostaríamos de estar. “Eu quis explorar essas duas facetas: numa parte o mar impulsiona; na outra, provoca a espera.”

Tatiana Salem Levy é também crítica literária com artigos sobre a obra de Luiz Ruffato e  Samuel Rawet sobre a questão do corpo a partir da leitura dos trabalhos de Jean-Luc Nancy.

Leonardo Tonus
Université Paris-Sorbonne
Maio 2012





Um pouco de leitura : A chave de casa

Para escrever esta história, tenho de sair de onde estou, fazer uma longa viagem por lugares que não conheço, terras onde nunca pisei. Uma viagem de volta, ainda que eu não tenha saído de lugar algum. Não sei se conseguirei realizá-la, se algum dia sairei do meu próprio quarto, mas a urgência existe. Meu corpo já não suporta tanto peso: tomei-me um casulo pétreo. Tenho o rosto abatido, olheiras muito mais velhas do que eu. Minhas bochechas pendem, ouvindo o chamado da terra. Meus dentes mal conseguem mastigar. Sinto um incômodo abissal, como se a gravidade agisse com mais intensidade sobre mim, puxando duas vezes meu corpo para baixo.

Não tenho a mais ínfima ideia do que me aguarda nesse caminho que escolhi. Da mesma forma, não sei se faço a coisa certa. Muito menos se existe alguma lógica, alguma explicação admissível para essa empreitada. Mas ando em busca de um sentido, de um nome, de um corpo. E por isso farei essa viagem de volta, para ver se não os esqueci perdidos por aí, em algum lugar ignoto.

Sem me levantar, pego a caixinha na mesa-de-cabeceira. Dentro dela, em meio a pó, bilhetes velhos, moedas e brincos, descansa a chave que ganhei do meu avô. Tome, ele disse, essa é a chave da casa onde morei na Turquia. Olhei-o com expressão de desentendimento. Agora, deitada na cama com a chave nas mãos, sozinha, continuo sem entender. E o que vou fazer com ela? Você é quem sabe, ele respondeu, como se não tivesse nada a ver com isso. As pessoas vão ficando velhas e, com medo da morte, passam aos outros aquilo que deveriam ter feito mas, por motivos diversos, não fizeram.

E agora cabe a mim inventar que destino dar a essa chave, se não quiser passá-la adiante.

(...)

Não faço outra coisa senão olhar, tocar, observar a chave. Conheço seus detalhes de cor, o tamanho preciso de suas curvas e de sua argola, seu peso, sua cor gasta. Uma chave desse tamanho não deve abrir porta alguma. A essa altura já deveriam por certo ter mudado, se não a porta, certamente a fechadura. Seria um disparate acreditar que tanto tempo depois a chave da casa permaneceria a mesma. Tenho certeza de que até meu avô é consciente disso, mas também imagino que deva ter uma curiosidade enorme de saber se ainda está lá o que deixou para trás. Que coisa estranha, que coisa esquisita deve ser: largar o país, a língua, abandonar a família em direção a algo completamente novo e, sobretudo, incerto.

Ele me contou que o navio onde viajou era descomunal, seu primeiro e único navio. A embarcação estava abarrotada de pessoas, todas com a mesma esperança que ele: conseguir uma vida melhor em país diferente. Dos irmãos, foi o primeiro a vir, apenas duas malas na mão e alguns contatos no Brasil. Não mais do que vinte anos quando deixou a Turquia. Tempos depois o irmão mais novo se juntaria a ele. A irmã gêmea faleceria de tuberculose. O irmão mais velho casaria e continuaria em Esmirna. A mãe, ele só reencontraria longos anos mais tarde, quando, viúva, decidiria se mudar para o Brasil.

Quantas vezes não ouvi essa mesma história? A dor de nunca mais ter visto o pai nem a irmã, de nunca mais ter pisado na terra que primeiro fora sua. A dor de só ter trazido a mãe a tempo de perdê-la. De ter visto tanta miséria no navio, tanta miséria na terra que deixara. Quantas vezes?

E agora o que ele quer? Que eu vá atrás da sua história, recuperar o seu passado? Por que essa chave, essa missão descabida?



Alguns links

Entrevistas:
“A Jovem Literatura Brasileira”. Encontro realizado na Université Paris-Sorbonne
(Março- 2012) com o professor Leonardo Tonus

Salon du livre de Paris 2012/ Mars 2012.
Présentation réalisée par Leonardo Tonus (Maître de Conférences/Université Paris-Sorbonne)
https://www.youtube.com/watch?v=MjrYKy2hmJU

Memórias de uma tímida escritora.
Entrevista concedida a Ramon Mello. Blog de Ramon Melo. 6 dez. 2007.

Sensações da juventude e a Literatura.
Entrevista concedida a Fernanda Mariano. Folha da Região, São Paulo, 14 jun. 2009:
http://www.folhadaregiao.com.br/noticia?120003

Fazer romance em vez de tese pode ser produtivo, diz Tatiana Levy.
Entrevista concedida a Teresa Chaves. Folha Online, São Paulo, 30 jun. 2009 :  http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u588104.shtml

Dois Rios, por Tatiana Salem Levy.
Entrevista realizada pela Editora Record. 26 de outubro de 2011.

Tatiana Salem Levy - Encontros de Interrogação (2011)
Depoimento gravado durante o Encontros de Interrogação, em setembro de 2011, no Itaú Cultural.Vídeo: Gasolina Filmes. Entrevista: Gabriel Carneiro

McCormick Villa Chats - Tatiana Salem Levy
1 de Março de 2011
Embassy of Brazil Washington.DC


Ensaios e artigos

ARROXELAS, Aline. A chave de casa, de Tatiana Salem Levy – Na zona cinzenta das intersecções. Site Vacatussa. 6 mar. 2009. Disponível

LEVY, Tatiana Salem. Do diário à ficção: um projeto de tese/romance.
Disponível em: <http://www.avatar.ime.uerj. br/cevcl/artigos/3Do% 20di% 1rio%20%E0%20fic%E7%E3o%20(Tatiana%20Salem%20Levy).doc.>.

LEVY, Tatiana Salem. Maria Gabriela Llansol: a rapariga que combatia a impostura da língua. Disponível em: <http://members.fortunecity.com/ prgalvao/Mariagrabrielallansolarapariga.html>.

Contos
Que importa um nome?



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