quarta-feira, 8 de maio de 2013

O novo só é possível no olhar do leitor



@ Peter de Brito
 Entrevista com Gil Veloso

Por Alexandre Staut (*)


Autor dos livros Fábulas Farsas, Travessuras - Histórias para anjos e marmanjos, entre outros, Gil Veloso tem contos, novelas, poemas, haicais, tudo bem-humorado, com acabamento primoroso. Sem fazer alarde em torno do seu ofício, longe de grupos de literatos, ele tem escrito um belo capítulo da literatura nacional, trabalho que começa a ser reconhecido por meio do título O Menino Arteiro, que traz ilustrações do artista plástico Guto Lacaz. Nesta entrevista, concedida por email, para o blog Études Lusophones, ele fala das suas inspirações, do lugar que a literatura ocupa em sua vida, e conta histórias curiosas que viveu ao lado de Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu. Deste, de quem se tornou amigo e confidente, Gil conta das manias, falando dos trechos de escritos do gaúcho que passaram a encher páginas e mais páginas das redes sociais. Aborda também o filme documentário recém-lançado em torno da sua obra, Sobre sete ondas verdes espumantes, do qual o nosso entrevistado participa com um belo depoimento. 

Poderia falar como foi o processo de criação do seu último livro, O Menino Arteiro, livro que você assina com o Guto Lacaz?

O Menino Arteiro nasceu de uma brincadeira-homenagem ao Guto, artista que muito admiro, pencas e quilos; era apenas um agrado, não pretendia se tornar livro, tampouco ilustrado. Mas aí o Guto gostou e pediu para expor no blog... Eu, que nem sabia que ele tinha isso, considerei então a possibilidade de editar. A Silvia Fernandes topou e fez-se book, pela editora Dedo de Prosa.


Este livro foi indicado por cadernos de cultura e, agora, acaba de ser comprado pelo governo, para distribuição em escolas. O que ele traz de novidade, em matéria de literatura infanto-juvenil?

Acho que, tirando o que acabo de descrever, não traz novidade nenhuma; aliás, livro nenhum traz nada de novo desde os textos bíblicos; o novo só é possível no olhar do leitor, é ele quem recicla transformando tudo... O texto estimulou algumas crianças e jovens alunos a também criar e expor suas artes. Isso é bom e está de bom tamanho, por enquanto basta.


Aliás, como você vê o universo da literatura infanto-juvenil no Brasil hoje?

Não tenho capacidade, tampouco interesse, em compreender este universo, acho até que ele nem é real, trata-se de ficção. Um livro até pode levar determinada classificação segundo o mercado etc, mas a literatura está (e vai além) de tais dominações, é arte ou não. Texto júnior, juvenil, sênior... Fica parecendo meio calabresa/meio muzzarela. Veja que não rotulam a literatura adulta, embora já arrisquem jovem-adulto; adulterada já existe, adúltera também; do jeito que a coisa desanda, logo teremos genérico que abarcaria tudo, algo como “literaturainfantosenil”.

E sobre os seus outros livros, poderia falar sobre eles?

O primeiro foi Fábulas Farsas, 2009. O título já diz ao que veio; com artes do Vanderlei Lopes; o segundo, Travessuras, histórias para anjos e marmanjos, desenhos do Daniel Lourenço, é exatamente o que o nome promete; ambos saíram pela Opera Prima, do editor Álvaro Machado. Ganhamos apoio do ProAc, o que facilitou tudo. O terceiro chama-se A Pedra Encantada, e é, veja que interessante, sobre uma pedra encantada e uma menina encantada de pedra... Os desenhos são da Nara Amélia, artista de Porto Alegre. Este e o tal Menino Arteiro saíram pela editora Dedo de prosa; portanto já são dois dedos de prosa e se me derem uma mãozinha virão outros dedos por aí...

Sua literatura traz uma linguagem atraente, jogos de palavras, palíndromos. Quais autores te inspiram?

Este lance de linguagem e jogos etc... Depende muito do leitor, que terá de saber ler e entender, o que às vezes carece de um professor que dê um empurrãozinho - não no aluno, evidente -, porém isso é raro de se encontrar. No tal universo infanto e juvenil serve-se muita papinha, tipo “olha o aviãozinho”... Adultos gostam disso, primeiro provam para ver se está de acordo a vontade deles e, em seguida, enfiam goela abaixo dos miúdos e pequerruchos, feito açúcar na chupeta ou mamadeira.
Não me inspiro especialmente em nenhum escritor, apenas me divirto comigo mesmo. Meu lance é mais com a linguagem, não sou o que se poderia chamar de Escritor, é mais um texto autoral. Independente, individual, não coletivo. A prioridade está no jeito de se expressar e não na comunicação propriamente. Prefiro provocar-estimular, sem chamar para a briga ou disputas; mostrando que não há caminhos definidos e quando parece haver, temos a opção de não segui-los. O que não significa pegar atalhos... Lembrando o poeta Antônio Machado: "Não há caminhos, faz-se o caminho ao caminhar.". Sou discípulo do Yoga, do Tai Chi e tudo e Tao. Tudo é respiração, é preciso oxigenar o corpo e a linguagem; a mim importa mais o processo e não o fim. Nos moldes do tal poema do Machado. Meus textos preferidos, nesta área, são os da Cecília Meireles, do Manuel Bandeira, do Jorge Amado, de “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”. “A vida íntima de Laura”, da Clarice Lispector. Ainda tem o Mario Quintana, o José Paulo Paes. Gosto demais de O Pequeno Príncipe e igualmente de Platero e Eu, do Juan Ramon Jiménez. Ou seja, prefiro os que escrevem não propriamente para crianças. Lembro de um conto da Virginia Woolf para crianças, maravilhoso! é dos anos 20, chama-se “A Cortina Encantada”. Tem mais de 20 anos que li, talvez na casa do Caio, que amava a Virginia. Preciso perguntar ao Bivar, que sabe tudo sobre V. W. algo sobre está história. A propósito, sugiro que entreviste o Bivar, criatura fascinante!
Nunca li Monteiro Lobato, apenas uma tradução revista por ele para o “Pinocchio”, edição dos anos 1950, da Companhia Editora Nacional. Numa ocasião, me perguntaram se tive influência da Ruth Rocha... Respondi que tinha do Arrocha, da Marta Rocha, do Glauber Rocha... da Ruth, acho que não.



Quais fatos do cotidiano te inspiram?

Prefiro escrever sobre bichos e a natureza em si; um conto chamado “O Cupim e as Coisas” surgiu por conta de uns cupins que conheci na casa da Lygia, com quem trabalhei um bocado de tempo, mas estes cupins já não existem mais, foram exterminados na ocasião. Escrevi também sobre uns amigos ácaros e sobre ratos, corujas, sapos, joaninhas, baratas, cobras, veados... Com quem trato de conviver amigavelmente.

Além de novelas e contos, você também escreve poemas. São trabalhos feitos igualmente para o público infanto-juvenil?

Gosto mesmo é de poesia, prefiro os poetas, sempre! Minha poesia, nunca mostrei. Um dia a publico, sou sem pressa. Agora que o mundo não acabou tenho todo o tempo do mundo. O próximo livro, que deverá sair em junho, levará desenhos do Alex Cerveny e vai chamar-se Pois Ia Brincando; o título, novamente, diz tudo.

Você é um autor um tanto recluso, é avesso á autopromoção, ao marketing. Não tem nem mesmo facebook para divulgar o seu trabalho... 

Sou bem menos recluso do que gostaria, por mim nem sairia de casa... Agora, só o fato de eu estar lhe respondendo estas questões já não me mantem assim tãããoo diferente! Quem me dera uma lasquinha do talento do Dalton Trevisan, talento e capacidades de camaleão. Curitiba cresce feito um monstro na obra dele, transforma-se no mundo todo e continua minúscula, miudinha com seus Joãozinhos e Marias. Trevisan é sempre o mesmo e muda o tempo todo: genial. Melhor que o Dalton só o João Gilberto; mas daí é outro o tom.

Se pudesse subir num banquinho (ou num palco iluminado), qual texto recitaria em voz alta?

Um banquinho me bastaria. Recitaria um poema do Lao Tse; ou algum trecho do Gita; ou Miguilim do Guimarães Rosa. Se me servissem vinho tinto eu transbordaria Rubaiyat, do Omar Khayyam. Por serem todos textos iluminados!
Quem sabe um Pessoa, “O Guardador de Rebanhos”,do Alberto Caeiro. Veja que genial:

O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.

Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser 
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.

Perceba que nem precisei de banquinho.

Agora, falemos do Caio Fernando Abreu e da sua relação com ele. Você começou a publicar seus livros apenas depois da sua morte. Por quê?

Pois é, se ele não tivesse morrido talvez eu nunca tivesse publicado, veja o grande mal que a morte dele causou. Só 13 anos após a morte de Caio comecei a publicar, mas isso se deu por não querer mesmo, sou bastante lerdo no que diz respeito à produções minhas e nisso não pretendo mudar.


Chegou a mostrar a sua produção ao Caio?

Mostrei um poema que fiz pra ele - estávamos no Senhora Krawitz, boate em que trabalhei, em Santa Cecilia -, ele deu o ar da graça, foi me visitar, numa das voltas da Europa - o poema dizia de uma máquina de escrever que Caio havia me dado, mas a tal máquina, que ainda tenho, não tem a letra A, de modo que nela eu não poderia escrever Amor, tampouco Caio, que seria Cio, por exemplo. Note que já naquela década não existia amor em SP. Então, ele disse-me que apenas nós dois entenderíamos o tal poema - que era mais um haicai, ou haiCaio, no caso - ; enfim, a coisa não vingou. Nunca gostei de mostrar nada para quem também escreve, em geral são seres frágeis, vaidosos e inseguros, não gostam de quase nada que não seja de cria própria. É muito raro de se ter um mestre legítimo nos ditos meios letrados. Bem mais tarde, 20 anos depois, quando decidi publicar algo, mostrei para o Marcio Junji e para o Roberto Gambini, e  finalmente para a Adélia Bezerra de Menezes, que muito me incentivou; depois o Álvaro Machado também deu a maior força; mas em geral não costumo mostrar nem para amigos. A Lygia só soube que eu escrevia quando recebeu convite do lançamento do primeiro livro, o tal que contem os falecidos cupins já mencionados.

Vamos voltar para a década de 1980. Como você conheceu o Caio? É verdade que o seguiu pela rua Augusta, para pedir um autógrafo?

 Não foi bem assim; ocorre que eu estava com dois livros dele, exemplares que havia encontrado, minutos antes, numa destas bancas de rua, tipo sebo. Foi na Paulista; na sequência, descendo a Augusta a 20 por hora, o vi na multidão e mostrei os exemplares, que ele nem sequer tinha. Caio autografou sem que eu pedisse, não tive culpa. E ficamos amigos no mesmo instante etc, e este “etcétera” durou até a morte dele... e ainda hoje perdura. Amor para sempre!

Como vocês estreitaram laços? E como foi o período em que estiveram bem próximos?

Neste mesmo dia do encontro ele me convidou para irmos ao teatro naquele fim de semana, pra ver O Réquiem das Harpias, com a Grace Gianoukas e trupe e tal; na semana seguinte, Caio então me convidou pra trabalhar com ele. Foi perfeito, eu estava encantado por conhecer o escritor de quem mais gostava naquele então, apaixonado pelas crônicas no Caderno 2, do Estadão. De modo que aceitei ajudá-lo em coisas práticas do dia a dia. Uma espécie de secretário-amigo-confidente... E assim foi por um período excelente. Nesta época eu já trabalhava na noite e continuei noturno, mesmo trabalhando com o Caio durante o dia. Agora me dou conta de que fui a verdadeira “Dama da Noite” (conto de Caio F.), tá, meu bem! rs. Teve ainda o Clube Massivo, do DJ Mauro Borges e a Bebete Indarte; Caio aparecia esporadicamente, gostava de um certo desbunde-cluber-fashion do mundinho, que lá engatinhava, com Johnny Luxo, drags etc. tempos de Noite Ilustrada. Hoje, a noite é balada, ou melhor embalada. Cheguei a fazer uma festa n’A Loca (boate) para ele, com performance da Cláudia Wonder, show da Laura Finochiaro etc. Ouvíamos muita música, Caio escrevia sobre e as gravadoras enviavam as novidades, Lps da Rô Rô, Marina Lima, Caetano, Nana Caymmi, Cida Moreira... Tenho vários bilhetes dele com recomendações, como: Ouça o Péricles Cavalcanti, é lindo! (mas isso melhor excluir, senão vão querer publicar um livro “Os bilhetinhos do Caio”). Bebíamos conhaques no Ritz, íamos aos cinemas, shows; lembro do último do Cazuza, dirigido pelo Ney Matogrosso, no Aeroanta. Apresentei-o a Andreia de Maio, da Proibidus, onde tudo era permitido. Lá, eu tinha uma permanente para 15 convidados, acredite, tipo carteirinha, com nome e assinatura; isso num sobrado da Amaral Gurgel, praticamente debruçado no Minhocão (região central de São Paulo). Caio gostava de um inferninho, dizia que se tivesse coragem seria travesti. Mas antes que me tomem por deslumbrado, digo que aquilo tudo estava mais para um chá das cinco para ele, que já havia vivido tempos mais hedonistas. London, London etc.


Como era o convívio com ele?

Tudo era novidade para mim, bastante novo, de idade e de tempo em São Paulo, desfrutei bastante; graças a ele conheci pessoas maravilhosas, a Cláudia Wonder, a Grace Gianoukas. E outras que por tabela acabei conhecendo. Aos poucos, vai se tecendo uma rede e então veio a Lygia, o Bivar, a Vania Toledo, o Marco Antônio Lacerda, o Guilherme de Almeida Prado, a Heloisa Jahn, a Cláudia Pacce, o João Silvério Trevisan, a Ledusha, grande poeta! injustamente esquecida... Todos amigos amados. E essa rede se estendeu amplamente amorosa até chegar a você, Staut. Não fosse o Caio, não estaríamos aqui palestrando. Graças a ele também cruzei a Aninha Franco e Állex Leilla, escritoras baianas. Veja quão grande é a criatura!, de modo que nesta rede só puxei grandes peixes. Aproveito para dizer que o Pedro Paulo de Sena Madureira, grande editor, foi muitíssimo importante para o Caio e uma porção de outros escritores que aí estão.



E o convívio com pessoas do circulo de vocês, como a Hilda Hilst?

Não foi exatamente uma convivência, a Hilda conheço mais por conta da Lygia; estive algumas vezes na Casa do Sol em Campinas. Numa ocasião, eu estava com a Lygia e o Antônio Fernando de Franceschi, fomos por conta do Caderno de Literatura que Franceschi preparava sobre a Hilda, para o Instituto Moreira Salles. Uma vez Hilda me convidou que morasse lá, mas eu não quis e então ela disse "Você não vem, né, seu cachorro!". Estávamos rodeados de uns 15 dos seus quase 100 cães. Nesta época, eu tinha pavor de cão, hoje não. Em seguida, ela acrescentou "Os cães que me perdoem".
Na hora lembrei de um conto da Lygia que acho deslumbrante, o “Crachá nos Dentes”; a primeira frase do conto é "Começo por me identificar, eu sou um cachorro".
Tive uma conexão interessante com a Hilda, uns sonhos e conversas com um pé no além, mas disso prefiro não falar, vão pensar que também eu ouvia espíritos... Falando nisso, a pedido dela liguei para o Paulo Coelho; Hilda cismou que ele podia comprar parte de suas terras, com a venda ela então resolveria dívidas que tinha... Dívidas aqui na terra, mais precisamente com as tais terras. Entendam-me. Pra criar um clima e coragem, preparei o cenário, acendi umas velas e liguei para ele conforme a incumbência de H.H. É claro que desse mato não saiu coelho; mas foi uma situação bastante engraçada. Na Casa do Sol eu me sentia nas paragens de Comala, das páginas fantásticas de Pedro Páramo, do Juan Rulfo.
Hilda era maravilhosa! Doce e bárbara, rebelde e dionisíaca; ia de Bakunin a baco num virar de copo. Era a própria Hillé, a Senhora D, a obscena, que deixa a cena e vive no vão da escada... Que poeta, não?
Lygia e ela, conversando, rindo, cantando... foi dos encontros mais belos que já presenciei. Algo como estar entre duas luas. Duas luas na Casa do Sol.

Fale-nos algo sobre a Lygia...

Este "O Crachá nos Dentes" está no primoroso A Noite Escura e Mais Eu. Da Lygia eu poderia dizer maravilhas, lembremos apenas que acaba de entrar, firme e enfrentativa, na casa dos 90. A soldado Fagundes, como ela mesma, às vezes, gosta de se lembrar, referindo-se aos jovens tempos. Tenho ótimas lembranças dela, alegrias pra sempre! E certa intimidade com tudo o que produziu. Uma vez a Clarice escreveu um bilhete para ela: “Desanuvie essa testa e compre um vestido branco!”.
Bonito, não? Será que Lygia comprou um vestido branco? Ela também escreveu “Conspiração de Nuvens”, de modo que continua a desanuviar...
Todo mundo devia fazer isso, usar uma roupa branca e desanuviar a testa.

Como foi o episódio em que você o segurou na janela de um flat, salvando-o do suicídio?

Isto foi naqueles dias em que ele soube do resultado de exames de HIV; tempos medonhos. Ficou desambientado e deixou de se alimentar, estava bastante fraco e meio que delirando, enfim, fora de órbita; fui obrigado a chamar ambulância e interná-lo. Foi no hospital que ele começou a escrever as tais Cartas para além dos Muros, publicadas no Caderno 2, do Estadão. Isso foi em agosto de 1994. Crônicas que, em 1996, a pedido dele, reuni em livro pela editora Sulina, de Porto Alegre. Chama-se Pequenas Epifanias. Agora, publicaram aí uma edição bem pobrezinha com as demais crônicas, a maioria datadas... Sem o brilho e magia da primeira edição. A Vida Gritando nos Cantos, chamaram.
E o Caio revirando no caixão. Digo isso porque ele não queria grande parte delas publicadas em livro; sei o que estou afirmando... Desrespeito ao autor, desserviço a literatura... O pobre deve estar de bruços.
Mas... Na tal noite, apesar de duas vezes seguidas eu o ter apanhado com o pé na janela do quarto para se jogar - isso enquanto no andar de baixo eu chamava a ambulância -, era tipo um duplex e eu tinha de usar o telefone da sala -, não acredito que ele quisesse se matar ou planejasse este gesto, foi mais um desespero momentâneo. Nunca mais tocamos neste assunto. Se não me engano ele fez menção ao fato na "Primeira Carta para Além dos Muros". Mas depois disso seguiu muy guapo, bem enfrentativa! tipo Cazuza, "Faz parte do meu show...". E soube administrar bem as dificuldades todas, escrevendo e produzindo sempre. Caio gostava muito do Cazuza. Agora lembrei de algo engraçado: fui visitá-lo em Porto Alegre quando morava com os pais, e no quarto, ele me disse que o Cazuza aparecia por lá, aos pés da cama, e o chamava para o além... rs. “Vem, Caio, vem, aqui é bom”, dizia o Cazuza. Caio ajeitava o cachecol e respondia “Não, Cazuza, ainda não...” rs. Dele tenho muitas histórias engraçadas, poderia escrever um livro, mas Ave Maria! andam fazendo tantas bobagens em seu nome, por ora prefiro deixar quieto.
Para não dizerem que não falo de flores, Wilson Bueno, escritor curitibano, assassinado em 2010, dedicou ao Caio o Maravilhoso livro Mano, a Noite Está Velha ed. Planeta. Nele, inúmeras vezes, o narrador repete: Ah, a Hilda! Coitada da Hilda”. Wilson era dos grandes, do naipe de um Raduan Nassar. Bueno, leiam crianças!


O que pensa quando vê o Caio se transformar autor de autoajuda, em redes sociais?

Ai que preguiça! vontade de pular esta, mas vamos lá. Penso que tudo é autoajuda, inclusive as tais redes sociais, não? Auto, tudo é “autoalgumacoisa”. Nada contra, desde que autêntico seja. Porém quase sempre autoajuda mais atrapalha que ajuda; são frases autoadesivas, colantes. Então, se analisarmos grosso modo, em certo sentido tudo o que se escreve é autobiográfico o tempo todo, com indícios de autorretrato, autoficção, quando não autoanálise, autoafirmação, autopromoção... até chegar no autógrafo propriamente escrito. O ser humano é naturalmente exibido pela própria natureza, de modo que acho tudo isso perfeito. Se assim está é por haver condições de ser assim. Quanto as frases atribuídas a ele, Clarice também é vítima disso, serei didático: tais ditos estão para o texto como certos temperos para determinados pratos. A pimenta, por exemplo, para o abará, ou acarajé, se preferir. Ela funciona muito bem lá junto a massa do feijão fradinho, o camarão seco, a cebola, o azeite-de-dendê. Serve para dar sabor, realce, enfim, um axé! Agora se você tira a pimenta propriamente ardida e tenta consumi-la, a palo seco, não há Cabral que aguente. De modo também que sem estas frases-condimentos o texto se desfibra, desfalece.
É isso, meu caro, esperemos que entendam este meu delírio destemperado.

O que acha que ele acharia disso?

Caio tinha um lado Pop, uma vibe veia-vanguarda-moderna. Chegou a dizer que era o Ney Matogrosso da literatura brasileira. Quem sabe gostaria disso, vai saber. De repente é uma espécie de carma, que mesmo estando morto está a passar...

Muita gente tem publicado textos esparsos do Caio. Ultimamente saiu um livro de poesia. Pelo que eu sei, ele nunca quis seus versos publicados. 

Esse desmanche é um deus-nos-acuda. Isto poderia ser chamado de Pequenas necrofagias; vide está história aí com a letra de Barato Total, do Gilberto Gil; Vergonha Total. Se ao menos se tratasse de editora de fundo de quintal... mas não... e com organizadores, revisão e tudo. Eles não têm critérios, negligência que denota ambição... Atuam como se tivessem encontrado relíquias, algo como uma crônica inédita do Rubem Braga, ou um poema do Augusto dos Anjos. Estou acostumado, lembro do que já fizeram naquilo que chamaram de “Caio em 3D”. Três deceparam o autor, esquartejaram, levaram pro matadouro... Antes que eu lembre de outros disparetes similares, vou contar algo, a guisa de ilustração: o conto preferido do Caio era “A la Deriva”, do uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937), Trata-se de um mestre do gênero, o livro chama-se Contos de Amor, de Loucura e de Morte, traduzido pelo Eric Nepomuceno e publicado em 2001, pela Record - a mesma que agora publicou a poesia do Caio com o “Barato Total”, veja que interessante -. Horacio Quiroga se matou aos 58 anos, na Argentina, onde vivia; o conto “Á Deriva” foi publicado em 1916; trata de um agricultor sertanejo que, picado por uma víbora, sobe o rio Paraná remando sua canoa em busca de remédio, antidoto etc. Entenda-se, a obra do Caio está à deriva, ferida... Em 2009, escrevi um pobre continho, “Micuim, o Ácaro”, já prevendo o que agora ocorre; nele, brincando, eu digo "Caiu Ferido no Breu".
Isso tudo é uma espécie de especulação literária, não? Deve ser porque, convenhamos, há também uma superpopulação de escritores. Então, trato de compreender e aceitar os fatos e seus derivados... Lamento! Lamento Sertanejo. Atenção! outra letra do Gilberto Gil.

Sobre sete ondas verdes espumantes, filme documentário de Bruno Polidoro e Cacá Nazário, recém-lançado no festival É Tudo Verdade, traz depoimentos seus sobre o Caio. O que achou do filme?

Nele, alguns amigos do Caio leem algo de sua obra, ou trechos de cartas; outros dão pequenos depoimentos. Gostei muito! Bastante poético e delicado; fotografia belíssima, montagem interessante... Fiquei feliz e naturalmente comovido com o resultado, feito com pessoas que o amavam. Enfim, algo belo e respeitoso para com a memória do nosso Caio.

Assista ao filme-documentário Sobre sete ondas verdes espumantes no link : http://vimeo.com/17245187

@ Peter de Brito


(*) Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) em 1973. Jornalista, já trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França (em Brest, Tours e Arromanches-les-Bain). Ministrou oficinas de haikai na Oficina Cultural do Estado de São Paulo (Bauru/SP). É roteirista do documentário “O anjo da guarda de Caio F.” e autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toada Edições/2010) e Um lugar para se perder (Dobra/2012). No momento, trabalha em seu terceiro romance, num livro infantil e numa peça de teatro que está sendo escrita para a atriz cubana Phedra de Córdoba. Alexandre Staut é colaborador do blog Études Lusophones.







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