sábado, 18 de maio de 2013

Lúcia antes da chuva


Foto do Mercadão de Madureira
Lúcia antes da chuva

Vinicius Jatobá

Mesmo mergulhada no calor abafado de Madureira, Lúcia sentiu uma afável leveza de espírito. A multidão abarrotada na estrada da Portela se movimentava arrastada, preguiçosa, e Lúcia pensou divertida, atravessando a passarela sobre a linha do trem, que a avenida Edgard Romero parecia uma longa trilha de formigas coloridas. Lúcia venceu a acumulação de produtos do conglomerado de camelôs empurrando caixas, toldos: caminhava ágil, sem incômodos, duvidando o passo sempre que via algo que lhe agradava, namorando possíveis barganhas. Rondo, buzinas, alguém grita. Madureira. Durante as tardes mais selvagens de janeiro era comum encontrar idosos desmaiados, vermelhos, em plena calçada, humilhados e recostados em algum muro ou poste, entre dezenas de curiosos.
Lúcia passou diante da delegacia, apressada, e entrou decidida no Mercadão de Madureira. Sentiu logo seus sentidos entulhados pela turba apavorada ao seu redor: os animais acumulados em gaiolas estreitas, seus corpos suados, arfantes, contra as grades; o ar estagnado, pantanoso, dos corredores mais estreitos; o conforto disputado de algum vento ocasional, que arrancava suspiros aliviados dos vendedores; o forte cheio de urina, misturado com tufos de pelos, penas, e que entranhava as calhas e as paredes. Tudo. Foi sempre assim, mas há quem goste. E quem gosta ama: no coração de seus corredores o Mercadão de Madureira abrigava sonhos.
Lúcia tinha paciência infinita com as senhoras discutindo barganhas perpétuas no meio dos corredores, e pedia com jeito licença aos moços desocupados fumando e atrapalhando a passagem. Manobrava ao redor das carrancas, dos pacotes de carvão, dos botijões de gás no caminho. Achava graça dos gritos, do cheio misturado de comida. Naquele princípio de tarde Lúcia estava decidida, decidida e feliz. Já havia acordado assim, sentindo esse gosto suave na boca, primeiro sintoma físico de felicidade.
Acordou sozinha na maré alva de lençóis e travesseiros. Justo no dia em que poderia avançar ruidoso pelo quarto, seu marido saíra para trabalhar com passos leves, comedidos, para que dormisse mais. Lúcia levou um tempo se buscando, espreguiçando-se com olhos úmidos. Seu próprio corpo. Sorria: tudo estava bom, até o que não estava bom estava bom. Mesmo o quarto bagunçado não perturbou Lúcia. Apenas se deixou esticar na cama, mergulhada em um sonho nevado, ronronando. Uma coluna de luz vazava pela cortina e beijava uma das quinas do quarto. Respirou fundo, observando a luz avançar.

Lúcia parou em frente a uma loja com tigelas de barro. Catou duas pequenas e bem morenas, empoeiradas ao lado de um saco repleto de conchas. Gratidão. Foram anos de espera. Silêncios. Lúcia encontrava o que mais queria todo dia no rosto infantil de seus alunos. As férias eram solitárias: sentia falta das risadas, de ver as corridas e brincadeiras, os recreios com as crianças lhe confortavam. Gostava até dos meninos problemáticos, os caprichos das meninas não lhe causavam irritação. Explicava com gosto quantas vezes necessárias rios e riachos, lagunas, erosão. Estava convencida de que seria assim. E ela tinha muito para dar, e não sonegava.
Lúcia nunca apontou o dedo. Ficava em silêncio, adiava, havia tempo. Sempre havia tempo. Por medo de torná-lo menos seu, havia tempo. Que não era problema, a felicidade é uma roleta. Cada roleta uma fortuna. Todo mês girava; e a bola dançava, entrava na calha errada. Quando ficava mais angustiada, sempre com as cólicas, saíam, tinham um ao outro. Cinema, jantar. Ela ria com gosto das piadas. A calha certa estava logo ali. Um dia mágico se tornou tia e por uma semana foi feliz, coruja, presente. O dedo mindinho era fino, arrotava, os cabelos ralos. Dormia serena, e as irmãs ficavam da porta olhando. Encontraram algo do avô no queixo, sorriam. Mas Lúcia não tinha a chave daquela casa, não veria o sono, quando acordava. Era diferente, a semana acabou. E não queria perdê-lo, porque acordava macio e era bom, porque tinha o cheio bom e lhe trazia doces, e sabia quando queria na nuca, e ouvia mais que o necessário. E ainda havia tempo. Temos um ao outro prometiam, os filmes e os poemas. A própria vida afirmava. E tirando as férias, as longas férias, impossíveis, sempre teria recreios que lhe confortassem.
O vendedor limpou as tigelas com um espanador. Quando recebeu o dinheiro, esperou a usual reclamação. Não veio. Um vendedor antigo demais sabe que quando o cliente tem o preço daquilo que compra, o bilhete sempre sobra, é muito. O dinheiro sai difícil da carteira, da bolsa, chorado. Mas há quando não há bilhetes que paguem o que se está comprando. Há vendas assim; o vendedor sorriu, reconheceu. E embrulhou com gosto, escolheu moedas bonitas para o troco. E colocou um colar com prenda dentro do saco. Lúcia agradeceu com um sorriso.
Avançou por um longo corredor ruidoso, entre gaiolas com galos furiosos e pombas solitárias. O distraído saía dali com a roupa rasgada, cheio de bicadas. No final do corredor, Lúcia subiu uma velha escada enferrujada. Saltou o sétimo degrau porque sabia que estava com a solda solta. Divertiu-se por saber, por conhecer. Bastaram três longos anos para decorar os corredores do mercado. A primeira a esquerda após o Exu, descer a escada e seguir reto entre o herbário, entre o açougue e a loja de tecidos, logo abaixo a pastelaria de fachada amarela. Tinha o Mercadão de Madureira na palma das mãos. Antes Lúcia tinha medo: as sombras acumuladas, os rostos curiosos, descamisados, as conversas agitadas. Media seus passos, e sabia que mediam. Calculava os silêncios. Mas agora aqueles caminhos eram incontornável hábito do coração.
Foto do Mercadão de Madureira
Entrou em uma loja e comprou uma dezena de velas enormes. Escolheu um saco de búzios vistosos. Pediu para embrulhar para presente. Fez questão de escolher o papel de embrulho. Cinco lojas adiante, comprou uma garrafa de mel: um mel bom, grosso. Seguiu adiante. Ofereceram ervas, ela já tinha. Ofereceram talheres, não precisava. Ofereceram um porquinho da índia, não era o caso. Ofereceram casamento, um já bastava. E todos riram. Lúcia já conhecia pelo nome a maior parte dos vendedores, e eles chamavam Lúcia (com todo respeito) de Dona Lúcia. Seguiu direto para saída do mercado: já tinha o resto do que Elis precisava. Tudo teria um gosto diferente.
Caminhava, e recobrava. Sentada, no banheiro, sobre o tampo da privada. Apenas uma meia no pé esquerdo, esperava. Coçou o queixo. Pensou que verde era uma cor bonita para o corredor. Tunísia e Turquia, há um rio, bacias fluviais, e falésias; preguiça abismal. Balançou mais uma vez o bastão. Olhou com desinteresse. Teve que olhar de novo, e enxergar de novo. E era azul. Mal acreditou. Mas era azul, pristino. E com o azul pristino, um vazio. Assim foi: a felicidade tão sonhada era apenas isso: um banheiro de azulejos brancos e frios, de luzes apagadas; e da bica escorrendo um filete de água. Imaginou que choraria quando acontecesse, mas as lagrimas não vieram. Frustrou-se, mas sorriu, e logo que sorriu as lágrimas vieram: o banheiro era lindo, azul. E o corredor também.
Ficou no ponto de ônibus de pé, esperando. Lúcia fez sinal, entrou no 747. Sentou em um banco alto, perto da janela. Arrumou as compras no banco ao lado. Limpou uma mancha de poeira da calça, e notou que seu tênis estava enlameado. Ajeitou-se no banco. Olhava pela janela: rostos velozes corriam diluídos. O vento fresco assobiava os cabelos de Lúcia. Encarou mais um vez seu tênis: o que viu foi seu quintal. Bastava o vento furioso denunciar aguaceiro que vinha aquele cheio menino de terra molhada, e Lúcia se sentia feliz. Debruçada na janela da casa, Lúcia contava as nuvens se formando sobre o mundo, de jogo umas com as outras. E eram bichos e eram caretas, e eram estórias.
E se emburravam, paradinhas; manhosas, magoadas. E então vinham as gotas pesadas que massacravam o telhado de zinco. Aquela cortina lambia o mundo, e Lúcia corria para o quintal enlameado, e chutava as poças e se entranhava com seu cachorro Logo vinha a mãe correndo pegar alguma roupa esquecida no varal e gritava furiosa para que entrasse. E Lúcia voltava pulando com o cachorro, rindo, sujando o tapete da sala e sacudindo a cabeça. O cachorro corria desesperado pelo corredores, latindo, feliz. Lúcia passou sua infância toda gripada. Lúcia puxou a cordinha para parar e saltou do ônibus.
Estava deitada na cama, esperando. Decidira não telefonar para o trabalho dele. Seria de sua própria voz; com seu timbre ansioso, carinhoso. Não poderia ser de outro modo. Estava ansiosa, quando finalmente escutou. O barulho na porta. Não soube o que fazer, um sopro no peito, e pensou em se esconder. Que era o justo. Desaparecer. Disse para si, e ensaiou, palavras bonitas; mas era impossível. Foi quando ele chegou na porta do quarto, e parou, curioso. E pela primeira vez não precisaram de palavras, porque mal encontrou seus olhos atrapalhados soube o que existia por trás daquele medo feliz de Lúcia. E deu um sorriso franco que fez Lúcia lembrar do primeiro dia, daquela vez em que soube que era ele e apenas ele mal apertaram se cumprimentaram. E ali estavam.
Entrou no prédio. Subiu o elevador. Guardou as comprar na cozinha.
Deitou-se no sofá. Tirou os tênis e ficou observando seus pés suspensos contra o teto branco. Fez que caminhava, e caminhava: nas nuvens, de cabeça pra baixo. Relaxou as pernas. Através de uma fresta da cortina, uma nuvem isolada: uma tartaruga, planava anciã sobre o bairro. Desejou que ventasse; e logo um rastro de terra molhada que impregnasse todos os recantos do apartamento. Imaginou um rugido de trovão, o céu farto roncando grato. E se levantou e empurrou as cortinas. Mas se levantou então apenas para ser surpreendida: porque era difícil crer em uma tão total ausência de nuvens escuras na claridade da tarde, que houvesse apenas umas tartaruga tímida nadando naquele espectral mar azul profundo. Por um momento se sentiu desorientada: mas só por um momento. E enérgica Lúcia decidiu retirar todas as roupas do varal, pois não era possível. Pois estava tão feliz, e seus dedos era rubis e sua boca macia, que não tinha dúvidas: choveria, eternamente.

foto @ Vitor Jatoba
Vinicius Jatobá


Formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Após formação técnica em continuidade e em assistência de direção, estudou roteiro e direção de cinema na New York Film Academy. Crítico literário, atualmente colabora com o jornal O Estado de S. Paulo e com as revistas Bravo! e Carta Capital. Publicou contos em antologias e revistas de literatura. Em 2012, foi escolhido como um dos 20 melhores jovens escritores brasileiros pela revista inglesa Granta. Desde então, teve contos traduzidos para o inglês e francês, e outros estão em processo de tradução para o alemão, russo, árabe e japonês.

Critique littéraire du quotidien O Estado de São Paulo, Vinicius Jatobá est à 33 ans l’auteur de plusieurs nouvelles parues dans divers journaux et anthologies brésiliens. Il a dirigé deux courts-métrages et s’apprête à publier, courant 2013, son premier roman. En 2012, le magazine Granta l’a classé parmi les meilleurs jeunes écrivains du pays. La nouvelle « La chaise du père » vient de paraître dans la Revue Books.

Quelques liens:

Nouvelle : "La Chaise du père" : Version française(  http://www.books.fr/litterature-et-arts/la-chaise-du-pere/). Version en portugais : http://rascunho.gazetadopovo.com.br/a-cadeira-do-pai/


Nouvelle : "E ainda era tempo do rei" :


Participation dans la Revue Granta :





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