sexta-feira, 31 de maio de 2013

Corpos sem correspondência


Filhos da Terra Bastarda e Memórias de um Corpo Eviscerado: um caso genitivo

         Elizabeth Brose (*)

Escrevi Memórias de um Corpo Eviscerado[i],  tendo em mente a elaboração de uma personagem complexa, bem brasileira e urbana. E, por brasileira, tento afastar a personagem de clichês relativos aos trópicos e tendo a aproximá-la mais dos conflitos relativos à diversidade da sua composição. Ela é, simultaneamente, estrangeira e uma espécie de representante de uma identidade nacional borrada, ou seja, as questões: “ela é natural de” e “foi gerada por” compõem as indefinições dos contornos da personagem.   Ela, um significante, pensa-se como construção criada a partir de algo e que pertence a alguma coisa.
Esses indeterminantes possibilitam seu preenchimento com vários nomes. Todos são femininos, mas são muitos e caracterizam um olhar outro. Ora ela, menina, se chama por um nome e estabelece a relação de posse com o grupo familiar, em outro momento ela, uma boneca, indica sua inserção numa história longínqua de técnicas de elaborações tradicionais de representação do corpo humano feminino, feito de pano ou porcelana ou borracha. Em outra seção do livro, o significante “ela” se preenche pelo nome de uma mulher contemporânea, reflexiva, diagnosticada. “Ela” ocupa seu vazio pronominal com uma palavra agregadora, uma denominação, que se estenda à noção de pertencimento, de complemento, de adjetivação. Já o aspecto feminino do pronome “ela”, ao se expandir em palavras, vai sugerindo a procura pelo corpo fêmeo.    
De certa forma, o pronome feminino se deixa completar pela multiplicidade e não obviedade de suas várias dimensões. Lembra, nesse sentido, um pouco o trabalho do escultor, Jamie McCartney, The Great Wall of Vagina, cuja obra mostra a genitália feminina não mais como um algo misterioso e coberto por pelos, mas como uma pluralidade de aparências, formas assimétricas e dobras expostas. Os vários nomes do pronome feminino e seus corpos apontam para uma noção de corpo sem correspondência linear entre os lados esquerdo e direito, desvencilhado da exigência de medidas iguais ou ainda de ocultamento desse corpo, encorajando, portanto, o questionamento do “corte” genital feminino, tanto como um órgão que se expõe como um órgão que não se deixa capturar pela obsessão da cirurgia estética.  


       Nesse espaço de inclusão e exclusão do corpo, de pertença e distanciamento, a personagem mostra-se um ser que expõe a complicação: ser de fora e de dentro. A personagem tem marcas, que a distinguem e a identificam com mulheres e homens, apontando para suas contradições. Ser mulher conectada ao seu útero, experimentando as dores da ruptura com a tradição e negando justamente os papéis sociais lineares da mulher. A contradição impera.
Bem comum a uma parte significativa dos brasileiros, a nostalgia de pertença ocorre nas reflexões da personagem, que revê sua história depois de receber um diagnóstico e de começar um tratamento contra o câncer. A doença não ocupa o centro do texto, mas deflagra a crise. Diante da possibilidade de morte, o pensar sobre a vida. Esse contato da personagem com sua realidade, com a sua angústia, aponta para a comunicabilidade e a incomunicabilidade das suas experiências. Ao pensar e repensar, ela mostra seu mergulho na língua, tateando os próprios limites da fala, escolhendo palavras e inventando outras para expressar o que lembra, o que vê, o que leu e o que deseja.
Já o livro Filhos da Terra Bastarda, a ser publicado pela editora Descaminhos, foi criado em parceria com Marcus Pimenta. Nossa escrita resulta de um brincar, que durou um ano ou mais. O jogo se deu com essas peças: tela do computador e duas falas distintas: uma derramada, a minha; e a outra, concisa e objetiva, a de Marcus Pimenta. Das muitas idas e vindas, o texto se construiu como em um jogo de tênis: a bola tornou-se o objeto comum. Nesse movimento, a massa textual foi se transformando em algo de origem real indecifrável. Um enigma saber quem escreveu o quê. Mais uma vez, uma questão de genitivo.
Nesse texto, Raiane é a personagem que se chama e se ouve chamar por um único nome. Ela se encontra em situação de uma “conversa sem diálogo” com os outros personagens. Conversar, para ela, significa compreender o hiato que é a falta de complementação entre eles. Não há possibilidade ou sonho de completude, a ilusão de integração se ausentou das personagens. Elas se comunicam, mas evidenciam a falta que as constitui. As falas são mínimas, substantivas e imperfeitas. A distância das personagens de si mesmas sugere a consciência inquieta da vida com um suposto fim inexorável. Ainda assim, Raiane vai delineando o desejo de extrapolar a experiência crua sem a elaboração pela palavra como a cena da corrida silenciosa no carro sobre o asfalto. As personagens se colocam como vazios entregues a discursos aleatórios diante de uma realidade, que vai sendo descrita como concreta, violenta e arrebatadora.
         Eu diria que a personagem principal é o próprio desafio discursivo. Por exemplo, como pensar um momento de Alzheimer, a descrição de um jarro, uma ação ou uma não-ação, com falas distintas e inconciliáveis? A narrativa apresenta essa tensão discursiva não apenas da perspectiva de personagens bem autônomas, mas também do ponto de onde parte a própria narrativa. Pelo que não se conforma, pelo que não se ata, a escrita foi sendo produzida. Ainda assim e por isso mesmo, ela repercutiu como um folguedo entre os dois brincadores com o verbo, que se mostra como laços de falas. Nesse livro, a palavra e a reformulação dela é a própria ação. 
         A editora Descaminhos surge nesse percurso como um projeto colaborativo de publicação digital do livro Filhos da Terra Bastarda. Os fundadores da Descaminhos, Leda Cintra e André Caramuru, constataram a chegada no Brasil dos e-books, e decidiram participar deste momento editorial, lançando autores clássicos e fora de catálogo como Pagu  - Patrícia Galvão, 1910-1962, Jorge Andrade, Geraldo Ferraz e Maria de Lourdes Teixeira. Autores premiados e ausentes das prateleiras das livrarias.
         Além deles, há os autores contemporâneos consagrados ou inéditos, cuja publicação via e-books disponibiliza o texto a leitores de qualquer lugar do mundo via Amazon, líder mundial do mercado de e-books e que traz ao Brasil o e-reader Kindle. Entre essas obras contemporâneas, inclui-se Filhos da Terra Bastarda. Além dessa obra, também a Descaminhos, com seu catálogo francamente brasileiro e fiel à escrita literária, é um caso genitivo.

Maio/ 2013

Obrigada, Prof. José Leonardo Tonus, pelo convite supercarinhoso para escrever no seu blog dedicado à literatura



Elizabeth Brose é doutora em Letras, Teoria da Literatura pela PUCRS com tese publicada, "Máscara de Múltiplas Faces", sobre obras do escritor angolano Pepetela. Lançou os livros Metodologia do Ensino de Literatura (2009) e Leitura e Literatura (2009), escritos com a profa. Dra. Marília Fichtner e a profa. Me. Ana Paula Charão. Em 2009, recebeu homenagem da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da PUC-GO o diploma de Mérito Editorial. Coordenou com a profa. dra. Beatriz Viégas-Faria e a psiquiatra e editora Betina Mariante Cardoso o livro Kate Chopin: contos traduzidos e comentados - Estudos LIterários e Humanidades Médicas (2011). Publica ensaios críticos em livros especializados, entre eles Ficções do Século XXI, coordenado pela Profa. Dra. Helena B. Couto Pereira, ed. Mackenzie (2011). Lançou o livro de ficção Memórias de um Corpo Eviscerado pela Luminara Casa Editorial (2011). Filhos da Terra Bastarda, pela editora Descaminhos, no prelo em 2013.




[i] Brose, Elizabeth, Memórias de um Corpo Eviscerado. Casa Editorial Luminara, 2011.

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