domingo, 28 de abril de 2013

Um dedo de prosa com Julián Fuks


Um dedo de prosa com Julián Fuks

Julián Fuks concedeu uma entrevista ao Blog Etudes Lusophones onde ele comenta a sua última obra Procura do romance que nasce de um questionamento acerca da impossibilidade de renovação estética na contemporaneidade. Para Alcides Villaça, este texto inscreve-se na tradição agônica da ficção moderna  em que literatura se mira num desafiador espelho critico  do simulacro. Assistam ao video no link : O romance dos fracassos.

Num segundo vídeo, Julián Fucks apresenta e comenta a produção romanesca  do escritor Ricardo Lísias. Video : Ricardo Lisias

Consultem o audio da participação de Julian Fuks na jornada consagrada à literatura brasileira contemporânea organizada pelo Departamento de Português na Universidade da Sorbonne e que contou com a presença dos escritores Julian Fuks, Luciana Hidalgo e Carol Bensimon.  Link : Trois parcours Littéraires. 


Um pouco de leitura

Procura do romance

Agora está caminhando em meio àqueles lineares amontoados de papéis e capas, e é como se suas pernas se dobrassem ou encolhessem, seu tronco de chofre mirrasse, e ele voltasse a ser o menino acanhado que alguma vez seu pai levou a um desses lugares. Será lembrança, resignificação ou retorno do traumático, o caso é que consegue sentir como nunca desde então a prosternação que lhe provocavam todos aqueles volumes empilhados. É fácil entender que o garoto buscasse com mais renitência a mão do pai diante da imponência daquele espaço desconhecido, tão fácil quanto presumir e respeitar que se visse desamparado nas tantas vezes em que o outro se desvencilhava. Para alguém que acabara de aprender a possibilidade de juntar as letras e formar sílabas que ficassem registradas, que apenas começava a intuir o poder de conformidade e deformação de cada relato e de cada frase, devia ser inquietante e assustador aquele oceano de ondas que eram páginas, aquele celeiro de monstros vários, selados, imperscrutáveis. E tanto faz se nos primórdios chegara a essas imagens; a questão é como aceitar que se veja em situação de igual desamparo neste instante tão longínquo no curso do tempo? Como compreender que suas pernas se ponham a tremelicar tal como as do menino ingênuo consumido pelo medo?
Agora está caminhando em meio àqueles lineares amontoados de papéis e capas, e cada um de seus passos parece ter de ser calculado, como se o corpo de um momento para o outro desconhecesse a sucessão de automatismos tão necessária. Há algo na infinitude das páginas que o cercam, algo em sua natureza eternamente insondável, que continua a açodar seus gestos e a mantê-lo, mesmo adulto, intimidado. Como saber o que deve ser escrito, como adivinhar o que não está estampado e proscrito, se a totalidade daquelas letras será para sempre, e para todos, indevassável? Como pode o escritor liberar-se das amarras de uma tradição que jamais lhe será por inteiro revelada?
Não, o melhor é que não se proponha nenhuma dessas questões, que saiba camuflar-se entre os livros como se camuflou entre os passageiros do ônibus uns tantos minutos atrás, que releve esse mundo de frases que, no fundo, são demais, que saiba agarrar a si mesmo pelos ombros e despejar-se sempre à frente pelos corredores de uma biblioteca, pelas calçadas, pelos cafés e nos espaços abarrotados, sobretudo nos espaços abarrotados, que compreenda por fim que ninguém se importa nem um pouco com o que ele faz ou desfaz, que ignore os resquícios confusos do menino que não, não é mais, e que teimam em assediá-lo toda vez que está em vias de perder o fino trato de sua disposição racional, que vá se levando pé ante pé para fora daquele lugar, que faça um breve aceno de cabeça para o livreiro e que esse aceno tenha a aparência do normal, que esqueça, ao menos por ora, que alguma vez meteu-se em um sebo da calle Corrientes e pôs-se a imaginar uma cena em que um personagem imagina um personagem que transita em meio aos livros, nada frugal, e aos poucos se deixa acometer pela opressão e pelo mal-estar.

Alguns links....

Entrevistas

Programa Entrelinhas. Versão estendida de matéria exibida no Metrópolis, na TV Cultura, no dia 21/03/2012.

Série 'autores' do projeto Tertúlia - Encontros da Literatura, fala sobre James Joyce. Transmissão ao vivo 17/9/2009, do SESC Pinheiros.

“A literatura se faz sobre bases instáveis", por Diogo Guedes, in Jornal do Commércio, 24/01/2012.

Resenhas  e estudos

Isis Milreu , “Ficção e biografia em “Borges”, de Julián Fuks”, in : Revista Rascunhos Culturais, Coxim/MS, v.1, n.2, p. 105 – 118, jul./dez.2010,

Júlio Pimentel Pinto, “Histórias de literatura e cegueira, de Julián Fuks”, 15 abril 2008.

“A cegueira segundo Julián Fuks”, entrevista publicada no dia 24 de agosto de 2011 no Diário de Pernambuco.

“Procura do romance”, por Rodrigo Casarin, 22 de dezembro de 2011.

Busca infinda : Romance de Julián Fuks parte do microcosmo do escritor para discutir sentimentos e frustrações, por Maurício Melo Júnior, in Jornal Rascunho, Abril de 2012.

« Em seu novo livro, Julián Fuks faz paralelo entre ficção e realidade”, in Correio Braziliense, 7/02/2012.

Textos do autor
“Caro Rodrigo”, in Jornal rascunho, Julho de 2009

“Confesso que vivi”, in Bestiário.com.br ( Revista de contos)

Capítulo do romance  Procura do romance, in : Jornal rascunho.


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