terça-feira, 2 de abril de 2013

Exportar a literatura brasileira?


Processos atuais de internacionalização da literatura brasileira


M. Carmen Villarino Pardo

Grupo Galabra-Universidade de Santiago de Compostela


A 1ª Feira da Literatura Brasileira acontecida em São Paulo em setembro de 1977 tentou converter-se, no conjunto das novas dinâmicas que estavam configurando o incipiente mercado literário brasileiro, num ponto de referência para dar a conhecer também produtos e produtores literários brasileiros para os mercados europeus e estado-unidense. O resultado foi o de continuar dando visibilidade, nacional e internacional, a nomes avulsos e não conseguiu iniciar dinâmicas estáveis ou de continuidade em termos de edição e tradução.

No ensaio de Silviano Santiago “Outubro retalhado”, publicado no livro de 2008 O cosmopolitismo do pobre comenta, entre outros assuntos, o “caso inédito de exportabilidade da língua portuguesa, conseguido pelos livros de Paulo Coelho” e acrescenta:


Desde os anos inaugurais do modernismo brasileiro, a exportabilidade do nosso produto cultural tem sido o ideal almejado pelos artistas da palavra. Alvo almejado e nunca atingido, menos em virtude da qualidade da produção do que da barreira lingüística intransponível. (...) As boas intenções artísticas pouco valeram, já que os produtos não bateram à porta de alfândegas e editoras estrangeiras. (...)(Santiago, 2008: 81).

Nesse mesmo ano, a Câmara Brasileira do Livro e a Agência de Exportação do Brasil (Apex-Brasil) assinaram o convênio Brazilian Publishers, resultado da parceria entre a CBL e a Apex Brasil–Agência      Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos- com o objetivo de promover e divulgar a produção editorial brasileira no mercado internacional.



Essa ação visibiliza uma nova situação para o mercado editorial e para o campo literário brasileiro em geral porque se evidenciou que não havia uma continuidade nas políticas culturais brasileiras para pensar em termos de exportação literária.

No decurso da novena edição da Festa Literária de Paraty em julho de 2011 a ex-Ministra de Cultura, Ana de Hollanda, e o Presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, apresentaram o novo  edital com o Programa de Apoio à Tradução e Publicação de Autores Brasileiros que pretende resolver, até finais desta década, alguns dos problemas detetados para a circulação da literatura brasileira no exterior.




De entre as muitas matérias que a mídia dedicou a este evento cultural já consagrado e na linha dos processos sinalados, destaco duas publicadas no dia 6/7/2011 (dia do início) com manchetes que situam o foco no mesmo lugar e que destacam a importância da Flip nas dinâmicas atuais do campo cultural brasileiro, também em termos de referente exterior. “Flip, ano 9: como ir da importação à exportação de literatura? é o artigo Ségio Rodrigues, na revista Veja, onde trata dos encontros agendados pelo Projeto Brazilian Publishers, com presença de diferentes agentes do mercado literário brasileiro e internacional, para tratar dos “modos de divulgar a quase secreta literatura brasileira no exterior”.

A outra matéria é a intitulada “Literatura de exportação”, da autoria de André Miranda e Guilherme Freitas fazendo ênfase, justamente, em que: “A mais charmosa porta de entrada de autores estrangeiros no Brasil tem tudo para ser também um trampolim para o movimento contrário. A ideia de exportar literatura brasileira começa a circular nos finais da primeira década do século XXI e a ser divulgada pela mídia.




O novo desafio que implica a cita de Frankfurt em 2013, com o Brasil como convidado de honra, está sendo acompanhado, a modo de preparação da parte de instituições como a Fundação Biblioteca Nacional e o Ministério da Cultura, com outros eventos que “alimentam” essa nova visão da projeção da cultura e da literatura brasileiras no exterior. Cito, apenas, Europália 2011, a Feira Internacional do Livro de Bogotá, em abril de 2012, e, no período pós-Frankfurt, a Feira Internacional de Bolonha em 2014, com o Brasil como país convidado em todas elas.

Num quadro cada vez mais visível de literatura-mundo, com eventos que visibilizam um sistema literário nacional como país-tema, país convidado, etc, torna-se necessário conhecer em que medida espaços como as feiras internacionais (o Salão do Livro de Paris, a Feira de Guadalajara e a  Feira de Frankfurt, entre outras –cfr. Sorá, Villarino) estão sendo aproveitados por países como o Brasil para consolidar uma certa autonomia dos seus campos literário e cultural e como estas citas se configuram como modos de diplomacia cultural num momento de internacionalização dos mercados literários e culturais a nível mundial.



Concientes, como lembra o antropólogo Felipe Lindoso de que: “Um evento não é política pública, mas aproveitar de um grande evento para desenvolvê-las é saber aproveitar as oportunidades, o que vale para feiras de livro, copas de futebol e olimpíadas.” (Lindoso 2011).


Referências:


Lindoso, Felipe (2011), “País tema de feiras internacionais? Para que serve?”, 09/08/2011.Acessível em:


Miranda, A./Freitas, G. (2011), “Literatura de exportação”, O Globo, 06/07/2011. Acessível em: http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/o-globo/2011/07/06/literatura-de-exportacao




Santiago, Silviano (2008), “Uma literatura anfíbia”, O cosmopolitismo do pobre. Crítica literária e crítica cultural, Belo Horizone, Editotra UFMG, pp. 64-73.


Sorá, Gustavo (2004), “Os editores e a República Mundial das Letras. As feiras do libro como feito social e como obxecto sociolóxico”, A trabe de ouro. Publicación galega de pensamento crítico, n. 57, jan-mar, pp. 57-65.


Villarino Pardo, Carmen (2012), “Literatura brasileira contemporânea: o desafio da exportação”, Romance. Notes 52.2, :  pp. 153     -164.

Assistam aos videos das apresentações do escritores brasileiros no Salão do livro de Paris de 2012 no link abaixo

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