terça-feira, 9 de abril de 2013

Desentupindo a ordem


Desentupindo a ordem

Elvira Vigna

Tem um castigo pra quem lê/vê arte/literatura para passar o tempo, se "divertir" (sempre lembrando que só aí a pessoa já devia desconfiar de que está fazendo besteira: "divertir" na verdade quer dizer divergir, ir contra). O castigo é que você morre.
Quem fala disso melhor do que eu é o Cortázar.
Rápido resumo do conto "Continuidade dos parques"[1]:

Um cara rico quer relaxar dos negócios pegando um romance para ler. Senta em uma poltrona que tem encosto para a cabeça e é de veludo verde. Há uma vista para um lindo parque de carvalhos. A porta está longe de sua vista e é o marco entre a fruição de seu prazer e seus aborrecimentos. Tudo está ótimo. No romance que ele lê, dois amantes tramam a morte do marido da mulher.
Sim, o assassinado será ele. Será - em vez de é - porque Cortázar interrompe a narrativa antes da punhalada fatal. Mas ela é inevitável.
E é inevitável porque o cara não se reconhece no romance que lê. E que traz, no entanto, a descrição exata do parque que ele vê da janela, da casa que ele habita, da poltrona em que ele está sentado - e do seu perfil psicológico de homem ligado em dinheiro, desligado de afetos.
Ele morre porque não se reconhece no que lê. Lê, não para se desestabilizar como sujeito e, através de dúvidas, se reinventar sem parar. Não. Ele usa a literatura (podia ser a arte) para, pelo contrário, se confirmar, se assegurar dele mesmo e de suas escolhas. Morre enquanto sujeito, agente, de sua vida. Aliás, está morto antes de o conto começar. E está morto por não interagir com a criatividade - dele e a da arte a ele oferecida. Por achar que aquilo não tem nada a ver com ele.

É o problema de nossa época. Ou, como sou obscenamente otimista, de uma época que está acabando.
Há estratégias.
A principal é a do vazio. Funciona mais ou menos assim: ah, você quer se divertir (e nem sabe o que quer dizer "divertir")? Então, toma. Não tem nada aqui.
E agora, o assunto deste texto: as fotos de Natália Canto Ferreira. Ou Nati Canto, que é como ela se assina. Mas tanto faz, porque você nunca ouviu falar dela. É uma jovem fotógrafa para quem o MIS-SP abriu espaço na primeira edição de 2013 do seu programa "Nova Fotografia".
Primeiro, é tudo bem grande e branco. Então, é uma continuidade, não de um parque de carvalhos, mas de paredes brancas mesmo. Também serve. E segundo, não tem nada lá. Não tem quem fotografe, não tem quem seja fotografado. E aí você se pergunta se tem quem veja a fotografia. Depois de uma desestabilizada básica em que você muda de perna de apoio, chega-se à conclusão (ou pelo menos, eu cheguei) que, sim, tem quem veja a fotografia. Um eu, afinal. Borrado, fora de foco, precisando urgentemente arranjar algo para fazer (ninguém parece se empenhar em nada muito produtivo, nada que faça muito sentido, ali nas fotos), mas tem. É um eu desarvorado, olhando em torno para se situar, sem saber que está sendo fotografado. Aliás, não está.


As fotos são feitas com a intermediação de um desentupidor de pia entre lente e registro da impressão da luz. Não é a Natália quem fotografa. É um desentupidor de pia. Sabe a estética das câmeras de segurança de ruas e caixas eletrônicos? Aquele vazio por horas a fio, aí aparece um cara de costas irreconhecível, a imagem granulada, foco zero, e teu coração bate porque você sabe que é algo importante, que é um "você" que afinal surge, ainda que no modelito monstruoso: o assassino, o assassinado, a testemunha desaparecida, aquele que escapou por um fio do desabamento, aquele que vai morrer na explosão. Ou apunhalado daqui a um segundo.
É isso. O silêncio das câmeras de segurança e da estética do vazio de Nati Canto é um berro. Ei, é com você, a coisa, acorda.
 Câmeras de segurança fazem imagens em PB. Nati Canto e seu desentupidor de pia fazem (não fazem) em cor. Cor berrante, que aparece no meio do nada branco que dá continuidade ao nada branco em que você vive. Quase monstruosas, as cores. No sentido gótico, não realista. No sentido do maneirismo que balança (ainda bem) certezas pré/pós-renascentistas e de outros fins/inícios de épocas ou séculos. E você aparece naquele branco todo sem de fato pertencer ao ambiente. De repente, tchum, você olha em volta, você apareceu lá. É um surgimento, não um pertencimento. Tem um estremecimento ainda, do terremoto da ruptura que acaba de acontecer.


Outra coisa: a distância. É bacana isso. Depois de ficar míope de tanto olhar de perto objetos e mercadorias, você levanta a vista: o mundo é grande, tem pouca coisa, você cabe dentro dele e nada te pertence de fato. Essa sacada não é minha, é da artista. Ela diz isso num vídeo.
Veja lá:

Por falar em internet, o conto do Cortázar também está disponível. Leia lá: http://www.literatura.org/Cortazar/Continuidad.html

Voltando.
Ou melhor, dando continuidade aos espaços: o enorme, vazio e onde você cabe, que é a internet e esse aqui, de um texto onde você também cabe. Falávamos do gótico, do maneirismo que há nas mudanças de todas as épocas.
Não se engane. Todos os vampiros são um processo em andamento contra a ordem estabelecida, por mais que Hollywood os castre e os imobilize em best-sellers. Todos os vermelhos berrantes no meio do nada de Nati Canto são sangue. O teu. Realidade e mundo, aqui, são exercícios perenes de construção, seus sistemas são dinâmicos e abertos e tua presença neles é performática. Sem centro e borda, sem tempo linear a acabar num horizonte que não é mais um horizonte, mas uma ponte para outro espaço, eis você. Nesse surgimento como sujeito, a ser atuado e reatuado sem parar, você olha para a desordem com outros olhos. Desordens, e seus desentupidores ocasionais, estão aqui trocados. Desordem é parte fundamental do existir. E o desentupidor desentope a ordem, não a desordem. O lixo que precisa sumir para que a água flua é a ordem.


Não é pouca coisa. Tolerância foi a grande ausente do século que acabou. Você é intolerante quando aceita e faz parte de uma ordem estática. O gótico nas cores e nas figurinhas/cores estranhas das fotos de Nati Canto diz que você não só pode existir, ali, inútil ou esquisitíssimo, como pode conviver, em um mesmo espaço, com cores inesperadas e sem sentido, e que isso não é um problema.
É só não achar que você está aqui para se divertir com algo que nada tem a ver com você. É só não sentar na poltrona de veludo verde.

Elvira Vigna
Abril de 2013

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confiram no link: Um dedo de prosa


[1] Cortázar, Julio. “Continuidad de lo Parques” in :  Final del Juego. Cuentos completos. Vol 1. México:  Argentina, 1996.

2 comentários:

  1. "você não só pode existir, ali, inútil ou esquisitíssimo, como pode conviver, em um mesmo espaço, com cores inesperadas e sem sentido, e que isso não é um problema" gostaria de que isto me fosse incorporado além de ser entendido, mas pra isso precisaria mais do que transpor os limites da distância à poltrona de veludo verde que nem minha é

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  2. Castigo mesmo para quem quer somente preencher tempo, distrair-se com arte. ..Literatura, cinema etc....sem aproveitar para refletir, interagir. ..
    Sensacional a referência ao conto de Cortazar. ..
    Resenha clara, precisa, didática. ..Adorei. .
    Bjs Herme

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