quarta-feira, 24 de abril de 2013

A arte : uma arma carregada de futuro

LUXÚRIA SOCIAL

Entrevista com o artista português Menau

Mickaël Cordeiro de Oliveira (*)

Foi através de um vídeo viral no Youtube que conheci o artista Menau e a sua agora famosa Forca de Portugal. Ao ver num telejornal que ele tinha sido acusado de “injúrias aos símbolos nacionais”, debrucei-me sobre a sua obra e quis saber um pouco mais a respeito deste artista contemporâneo originário de Quarteira, no Algarve.

Explica-nos um pouco o teu percurso e porque é que escolheste a arte para te exprimires?

Desde que me lembro, sempre estive ligado às artes. Passava dias afim a desenhar, a criar personagens, mas o meu percurso desenvolveu-se mais a partir de 1998 por meio da Arte de rua e do Graffiti. No ano 2000, ingressei no Curso de Artes da Escola Secundária Dr.ª Laura Ayres em Quarteira e em 2001, juntamente com Nuno Viegas, fundámos o coletivo de artistas Policromia. Depois formei-me profissionalmente em Design e Comunicação em 2003. Em 2008, fui convidado a integrar o coletivo artístico internacional Vapors. Em 2009 iniciei a licenciatura em Artes Visuais na Universidade do Algarve, a qual conclui em 2012. No mesmo ano fundámos a Policromia Associação Cultural e ingressei no coletivo artístico Tira Nódoas, um projeto que junta a música com as Artes Plásticas e o coletivo Senau entre mim e o artista olhanense Sen. Basicamente, não fui eu que escolhi as artes para me exprimir, foram elas que me escolheram a mim. Agora, só tenho de a exprimir à minha maneira !

A partir de que momento é que pensaste que devias transmitir com as tuas obras uma mensagem política e social ?

Surgiu naturalmente. Ao ver e sentir muita incompetência política na minha cidade... A princípio comecei por falar diretamente com eles como deve ser, mas ano após ano, via que as minhas palavras nos ouvidos deles eram certas mas insignificantes para eles mudarem alguma coisa. Foi então que comecei a transmitir as mesmas mensagens nas paredes da cidade para toda a gente ver. Como as mensagens eram ouvidas, as pessoas identificavam-se, falavam e mais cedo ou mais tarde chegavam aos ouvidos dos nossos políticos. E como eles não gostam muito de ficar mal na fotografia, acabam por ter uma reação a uma Ação ! E a partir disso as minhas obras políticas e sociais começaram a crescer, a evoluir para outros temas e patamares.

Os destroços aparecem muito nas tuas obras, o que significam para ti ?

Os “DESTROÇOS” basicamente são desenhos no espaço, usando espaços destruídos e abandonados pela sociedade, adicionando-lhes mais alguma informação, estimulada pela imaginação. Através deles, tento também estimular o observador para que ele imagine as suas próprias imagens nos seus próprios espaços de forma a criar novos ambientes com poucos recursos.

OPRESSÃO ARTISTICA
Existe alguma ligação entre « E tudo o vento levou » e « a arte é uma arma carregada de futuro » ? A invisibilidade judiciária do homem que rouba, a invisibilidade ou a falta de reconhecimento do homem que cria, que denuncia, que é calado ?

A ligação entre essas obras existe mas só a percebe quem tenta analisar a obra por completo de um artista e reflete sobre o assunto. Porque normalmente, as obras são feitas em datas e locais diferentes, quase sempre na rua, o sítio perfeito para abordar o espetador. Mas ele poucas vezes tenta refletir na obra e no porquê daquela peça estar naquele local, muito menos se não estiverem juntas.“E TUDO O VENTO LEVOU” é uma obra que encaixa na imagem geral do País, mas foi elaborada com um prepósito muito mais pequeno e direto. https://www.youtube.com/watch?v=Rc1ASVregkE

E TUDO O VENTO LEVOU

“A ARTE É UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO” é a mais pura das verdades, a Arte pode ser usada de muitas formas e com várias funções. Na ligação destas duas obras podemos ver como a arte pode denunciar ladrões, e por outro lado, se ninguém ligar ao que a Arte diz, qual é futuro ?!

A ARTE É UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO
Dizes que « as pessoas têm medo da liberdade, por ela ser boa demais para todos. » Por quê?

A obra “PERCEÇÂO ACORRENTADA” explica um pouco isso.
É simples : as pessoas vivem de medos impostos pela sociedade ao longo de centenas de anos, o que faz que as pessoas nem se apercebam que estão presas...
Não conseguem ser livres não por não quererem, mas sim porque nem conhecem a liberdade dentro delas !
Mas isso é fácil de analisar : basta saires de casa, ires ao café ou dares uma volta ao quarteirão e vês logo muitos casos desses, uma imagem vale mais que muitas palavras !

PERCEÇÂO ACORRENTADA

Desse grito de injustiça que existe hoje em dia, nasceu o Supertuga, o utópico. Quais são os seus desejos (se ainda os tem…) ?

Bem, o “SUPERTUGA” é um sonhador verde cheio de esperança e o seu caminho ainda é muito longo. O seu desejo é continuar a lutar pelo Povo, pelo País, pela Arte, pela Cultura, por mais Super-heróis Portugueses na esperança que as pessoas se apercebam que todos unidos somos mais fortes.

SUPERTUGA

Como surgiu a ideia de « A Forca de Portugal », como é que isso te veio a cabeça ?

A “FORCA DE PORTUGAL” surgiu em abril de 2012 para a apresentação de final de curso de Artes Visuais da Universidade do Algarve onde tive de elaborar um projeto de Arte para o público. E claro, não havia nenhum sítio melhor que um espaço público, onde normalmente já costumava intervir.
Queria elaborar uma peça que retratasse o estado do País. Para tal, o que há de melhor que os símbolos nacionais para o retratar ? O País estava mal como ainda continua, todas as pessoas a passar sufocos e tudo mais. A inspiração veio daí. E depois “puff”; como todas as outras ideias, veio do nada e sem avisar.
E foi assim que se criou este alerta de consciências sobre o estado do País.

PORTUGAL NA FORCA” já foi o conjunto da minha instalação inserida num videoclip da banda a que me vim a juntar depois, os Tira-nódoas, onde juntamos as artes plásticas e muita mensagem política musicalmente, a forma perfeita para chegar a todas as pessoas.


A FORCA DE PORTUGAL

Diz-me qual foi o feedback… as consequências dessa obra.

O feedback de todas as pessoas tem sido excelente, todas as pessoas falam sobre, gostaram, apoiaram e muitas juntaram-se à causa.
As consequências : uma acusação de crime por parte do Estado por injúrias contra símbolos nacionais.

Achas que o facto de ela ter aparecido num videoclip de rap participou no processo de descredibilização do seu cariz artístico (por parte da comunicação social / políticos ) ?

Acho que não descredibilizou, pelo contrário, acho que ainda deu mais valor à obra e ao grupo que adaptou esse método para todas as suas músicas. A música é por si só já um elemento artístico muito grande, juntado às artes plásticas e ao multimédia, temos os condimentos perfeitos para atingir o que pretendemos, dinamizar a Cultura da melhor forma possível para o máximo de pessoas !

Hoje, qual é a tua situação judiciária ?

Atualmente à espera de um julgamento por crime de injúrias aos símbolos nacionais. Mas derivado à exposição do caso, no videoclip de Tira Nódoas, que teve milhares de visualizações no Youtube e posteriormente na televisão pública, tenho um reconhecido advogado de defesa para me defender gratuitamente no processo jurídico.

E a tua situação artística, a tua obra enquanto Menau acabou mesmo com o « último desejo » ?
Não, a minha situação Artística continua na mesma depois do “ULTIMO DESEJO.” Esse foi só mais um trabalho artístico, para uma revista online a ST.ART onde os artistas que participaram nela tinham de escolher um dos 30 temas cedidos. E eu acabei por escolher o tema "Imagine a sua própria morte".
FOTO
ULTIMO DESEJO

A fotografia onde apareces enforcado com a bandeira portuguesa fez-me pensar numa coisa : se te tivesses enforcado mesmo a sério, com a bandeira portuguesa, achas que os que chegariam ao local iam em primeiro lugar pôr a bandeira nacional como deve ser ou tentar libertar-te ?

Se falarmos no local exato onde fiz esta instalação, uma propriedade privada minha, certamente que as primeiras pessoas a chegarem ao local seriam familiares e nunca se iriam preocupar com um bocado de pano vermelho e verde feito na China. Mas se fosse noutro local, aí já não posso dizer nada ! Parece que a nação portuguesa se preocupa mais com um pano do que com uma vida humana.
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Muito obrigado!

Por fim, gostaria de agradecer pelo interesse que minha obra despertou e pela realização desta entrevista, muito obrigado ao Mickael Oliveira e toda a equipa e uma saudação a todos os lusitanos no estrangeiro. Deixo aqui o meu site e o do meu grupo artístico para quem tenha ficado com alguma curiosidade.
www.menau.com / www.policromia.org 

Também nos podem encontrar pelo Facebook em :


Menau



(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne (Paris-IV), sempre teve como objetivo principal a divulgação das artes portuguesas, mas, sobretudo, a promoção de artistas emergentes ou simplesmente não conhecidos. Consultem suas outras matérias na rubrica "Culturas Urbanas".

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