segunda-feira, 25 de março de 2013

Sou da geração do basta!

Créditos : Stéphane Almeida


Entrevista com Walid El Sayed 

por Mickaël C. de Oliveira 


Nascido em França, de pai egípcio muçulmano e de mãe portuguesa católica, Walid el Sayed invadiu há uns meses as redes sociais com o tema Geração do Basta, crítica afiada ao acanhamento dos políticos e cidadãos portugueses. Apesar do sucesso deste vídeoclip, muito pouca informação tem circulado na internet sobre ele. Para preencher essa brecha, encontrei-me com o artista para saber se as ideias expostas no videoclip ainda eram válidas, quase um ano depois.

Como te veio esta paixão pelas palavras ?
A nível de rimas, foi há mais ou menos dez anos. Sempre tive um pouco o prazer de descrever porque para mim rimar é tu conseguires, em metáforas, enfiares um mundo dentro de uma folha de papel. De alguma forma também é um exercício matemático que é um bocado estranho, só que como é lógico, tem uma nuance abstrata, cada um o define juntando a sua personalidade… Nunca tive muito dinheiro para gravar, hoje é mais fácil, há muitos estúdios. Mas para mim sempre foi muito à base de improvisos, tipo na rua a beber umas cervejas e se fosse uma miúda a passar com uma saia vermelha tinhas de encontrar uma rima com « saia vermelha. » E começou assim… Aos poucos, vais crescendo, vendo o que se passa no mundo, vais-te tornando mais adulto porque não consegues estar simplesmente alienado da realidade à procura de um sonho. Nós não estamos nos Estados Unidos, no American Dream. Eu comecei a traduzir cada vez mais a realidade, daquilo que se passava, em metáforas, em rimas, por achar que isso caberia mais facilmente e a mensagem ser uma mensagem mais clara. Por achar que estava correto e que de alguma forma fazia aquilo com alma, sempre quis partilhar isso com as pessoas e o ponto máximo disso foi o vídeo Geração do Basta se calhar…

Agora dedicas-te mais ao rap, ao slam, à música ou à escrita ?
Não espalho muita coisa. Eu nunca tive muita vontade que as pessoas conhecessem o que eu faço. As coisas aconteceram, sobre esse vídeo em particular, tinha vontade que as pessoas ouvissem mas não para que considerassem a minha opinião, só para que levassem uma chapada da realidade. Nunca foi muito aquela coisa « faço isso para atingir o meu sonho » não sei quê. Hoje em dia, o meu processo de escrita é muito simples : se eu sentir um texto, que comece a escrever duas ou três rimas, e à medida que o vou trabalhando, se ele começar a ficar mais enrodilhado, mais detalhado, e eu ver que não tem assim tanto rítmo, aquilo vai soar sempre mais como um poema. Agora se eu tiver um instrumental, que está-me a dizer qualquer coisa, e tenho que rimar ali, aí já vou fazer uma música. Mas a finalidade, tanto na música como no slam ou no rap é tentares transmitir uma mensagem. Não estou à procura de reconhecimento, a minha geração precisa de ser ouvida. Porque é que os jovens são sempre « a juventude esponja dos festivais », porque é que só servimos para os anúncios da TMN ? Só nos usam como se fôssemos uma matéria prima. Se calhar é a tal coisa do Basta, do grito.

A tua dupla-origem, as tuas viagens, também contribuiram para teres essa visão que falta a quem nunca saiu do país ?
De alguma forma sim. Nós somos fruto de tudo aquilo que juntámos. No fundo somos aquilo que o meio fez de nós. Começamos a ser nós quando percebemos o que o meio fez de nós. Parte da minha revolta também não está apenas naquilo que eu vi no exterior, mas numa insatisfação pessoal que eu tinha. Por ver que o mundo tinha feito de mim um produto que eu não gostava assim tanto quanto isso. Arrogante, um pouco aquele que diz que « o país está uma merda, se fosse eu a mandar estaria melhor », e quando te libertas da ideia do produto que o ambiente onde tu nasceste, onde tu cresceste, te fez, a partir daí tu começas a sair de ti próprio. Para mim, as pessoas sabem a partir do momento em que têm o desejo de saber. Se calhar por ter viajado em tanto sítio, por ter visto homens e mulheres em todo o lado… Uns podem falar de « camembert », os outros do Benfica ou de tremoços mas, são todos seres humanos, e se nós conseguirmos retirar as camadas… No fundo é como uma árvore : ela pode ter muitos ramos, dar muitos frutos, mas tem uma raíz comum. Todos nós queremos ser felizes. Só que depois, esse desejo que nós temos de satisfazer é abstrato. E aquilo que o sistema e a sociedade nos faz é transformá-lo em concreto.
Por exemplo, quande sentes uma vontade muito grande de obter qualquer coisa : o novo Iphone ou as novas ténis da Nike e atenção, eu tenho ténis da Nike… O que quero dizer é « que importância queres dar àquilo ? », até que ponto isso vai preencher o vazio que todos nós sentimos ? Esse vazio é um vazio de espiritualidade, é isto que as pessoas deviam procurar mais. Porque é a raíz da coisa. Se tu procurares acima de tudo a espiritualidade, saberes destacar-te de tudo aquilo que está à tua volta, a tua vida começa a ser estruturada. Mas não há uma entidade mágica que faça as coisas por ti. Se tu estiveres muito focado em ti, estás a viver tanto o momento que não te consegues distanciar. Não consegues ter uma visão abrangente. Se tu estiveres no chão tens uma visão limitada, no décimo andar consegues ter uma visão abrangente, o horizonte. As pessoas precisam de ter uma visão, e cada um tem de encontrar a sua. Distância.

Créditos : Stéphane Almeida

Até em relação aos media, ao que eles veem no dia-a-dia…
Gostava que Portugal fosse aquele país que desse uma resposta ao sistema dos países mais nórdicos ou capitalistas. Por teres o Obama a dizer « Nós não somos Portugal ! », orgulhoso, apetece-me dizer « Não és Portugal e é por isso que tu mandas no mundo e que ele está como está ! » Portugal tem coisas boas. Somos coitadinhos mas sempre que vamos lá fora fazemos as coisas bem, quando nos conseguimos libertar da nuvem negra que paira sobre o nosso rectângulo. No futebol, no Fado, eu digo isto porque é o que os media nos dão…

Porque é que escreveste naquela altura o « Geração do Basta » ?
Era uma sátira à geração à rasca. A cena do geração à rasca foi um bocado « eh pà estamos à rasca, vê se me arranjas um truque. » O meu vídeo foi um pouco diferente : « eu estou farto de dizer que estou à rasca para que as pessoas tenham dó de mim. » Daí eu ter dito « não sabemos o que somos o que fomos, não temos visão sobre o que seremos. » É mais profundo do que dizer « tou pobre, há crise, os políticos roubam » porque, desde que aterrei em Portugal em 1997, ouço isso todos os dias ! Que eles roubam, que são filhos da puta… As pessoas esquecem-se que os políticos são uma amostra do país. Uma amostra retirada de dez milhões. Quando eu digo « muda a tua faixa etária », mais do que uma manifestação que corre em rítmo de uma procissão ao domingo, é tu, no mundo que está à tua volta, no raio de ação que atinges diretamente, tu tens de fazer qualquer coisa.
Dou-te um exemplo muito pequeno : uma senhora está no autocarro, a falar com uma colega ao lado, e diz « estes políticos de merda, só me sabem roubar, como é que havemos de andar para a frente… » Ela estava a dizer isso a comer um gelado Magnum. A porta do autocarro abriu-se e, sem pudor qualquer, atira o pauzinho para o meio da rua. Como é possível estarmos a mandar vir com o governo quando tu fazes o mesmo à tua escala ?
Para mim, o que falta na política é que as pessoas não têm visão. Parece que ainda estamos em 2012 e que o mundo vai acabar a 21 de Dezembro ! E isso faz com que as pessoas pensem « vou foder tudo o que tenho » porque a 21 de Dezembro já não estou cá. Primeiro, visualiza a tua vida, não andes a poluir-te com aquilo que a MTV ou que Hollywood te dá. O mais importante na vida para mim é muito a conquista do dia-a-dia. Às vezes o conquistar as coisas é nós olharmos para elas e dizermos « obrigado por ter. » Essa gratidão é essencial. Tu vais a África as pessoas não têm água. E o português que muitas vezes está a mandar o bitaite que o país é uma merda gasta 40L de água num banho. As pessoas deviam ter outra visão. Hoje em dia, o estado deixou de ser estado, deixou de ser país, de ter uma obrigação moral para nós. Agora, é uma empresa. Uma coisa que nos fornece serviços.

Como surgiu este tema ? Em que ocasião ?
Tudo começou no Bairro Alto, onde ganhei um concurso de slam. Foi numa terça. Na semana a seguir, na segunda-feira, alguém do Musicbox mandou-me um email dizendo que tinham tido um bom feedback da minha atuação e que me convidavam para fazer parte do « Poetry Slam » do Musicbox. Fiquei em segundo lugar. Embora tenha ficado em segundo, as pessoas do Clube da Palavra, do Canal Q da Meo, vieram ter comigo e disseram que gostavam de contar comigo. E aí pensei assim : se tivesses a oportunidade de falar para o país inteiro, o que é que dirias ? Fui eu que escolhi o tema. O visão terrorífica e o geração do basta, foi mesmo aquilo que eu queria dizer às pessoas. Às pessoas que se calhar depois iam ver a bola, ou a novela, ou a Casa dos Segredos… Eu queria que as pessoas parassem e ficassem a pensar « se calhar nasci numa jaula mental que me impuseram desde que nasci. » Até porque digo-te uma coisa, se me tivessem dado um tema, eu não tinha ido.

Se tivesses escrito hoje o « Geração do basta », o que mudarias ?
Hoje, muito provavelmente pegaria no texto e tiraria uma rima punha outra, e passado um quanto provavelmente era um texto diferente. Mas a ideia geral seria a mesma. A única coisa que eu procuraria se calhar, é de alguma forma impactar mais a alma das pessoas, para que se lembrassem menos do nome do bacano que disse aquela série de coisas contra o governo porque sabe bem, parece que alguém se responsabilizou por fazer a parte que as pessoas não querem fazer, e se preocupou em pensar naquilo que as pessoas não querem pensar… As pessoas não se querem dar ao trabalho, são muito egoístas. De alguma forma, a crise é positiva porque estamos a fazer evoluir cada individualidade, e o coletivo sairá ganho no meio disto.

Quais foram as consequências desse tema ? o feedback ?
Posso-te contar um episódio engraçado com uma força política. Vejo um blogue, a representar essa força política, e vejo o meu vídeo… Eu rio-me porque chegou a ser engraçado… Só vejo uma coisa : « geração do basta, porque é altura de dizer basta. E dizer basta é votar no… » Eu comentei aquilo com o máximo de agressividade, que não partilhava as mesmas ideologias, que eles apenas tinham sido inventados para fragmentar os votos da esquerda… Sabes, numa primeira fase, a coisa tem impacto, toda a gente bate palmas, numa segunda fase, tentam inserir-te num espaço qualquer e dizer que tu querias dizer outra coisa diferente. Muitas vezes é assim que é trabalhado. Por exemplo os Homens da Luta. Tornou-se numa emissão de televisão ! Assim como a figura do Ché está em t-shirts… Conheci algumas pessoas muito bem colocadas, tive alguns convites… Mas quando eles vêem que não te queres inserir, o melhor é fecharem-te a porta. Senti as coisas a apertar.

Ninguém quis conhecer a tua história, o teu percurso, não houve contatos de jornalistas ?
(risos) Não é muito conveniente, há pessoas muito bem colocadas na sociedade que não têm qualquer interesse nisso. A verdade é bem mais sinistra do que « o geração do basta. » Porque as pessoas que mandam no mundo são diabólicas. E aqui se calhar entramos mais na questão do visão terrorífica. Os que mandam no mundo querem retirar-te tudo aquilo que tens de humanidade. Quando tu retiras isso nós não somos mais que animais ou que uma matéria prima prestes a ser usada. O Big Brother no fundo, George Orwell. O mundo e o sistema são um parque de diversões. Muitos pensam « um dia vamos ser invadidos pelas máquinas. » Não conseguem entender ! Agora existe nomofobia : não poderes sair de casa sem o teu telemóvel. Nós já somos controlados ! O mundo criou o monstro que o devorou. As máquinas ocupam tanto o nosso coração que não nos conseguimos libertar. Para nos esconder a verdade, porque ela é bem mais sinistra que o que aparenta ser.
Por exemplo, a noção do tempo que nos foi dada pela igreja católica, a do relógio das 12 horas, do passado, do presente e do futuro é errada. Passado, nostalgia. Presente, correria. Futuro, incerteza e ilusão. Para mim, passado, só te lembras de bons velhos tempos, presente, no momento que dizes presente já é passado, tens de estar sempre a correr, é o que eles querem. Futuro, segues as coisas que se calhar nunca vais vir a ter. A minha visão é mais uma questão de obra. Ou tens obras acabadas, ou tens obras inacabadas. Mesmo essa prisão faz com que nós tenhamos uma visão limitada. O tempo não existe. Aquilo que era o passado, por exemplo se eu te disser : « eu construí a minha casa. » É passado. Mas eu vivo aonde ? Na minha casa !

Créditos : Stéphane Almeida 

A questão do eurocentrismo entra se calhar aqui também um pouco…
Isso resume-se a uma palavra : egoísmo. Nós amarmos a nossa família não é uma prova de amor. Porque muitas vezes nós amamos e sentimos a nossa família como se fosse uma extensão de nós. E como nós nos amamos tanto… Em relação ao mundo, eu aqui há uns tempos estava com uma amiga minha e lembro-me de ela estar a falar de uma guerra não sei se era no Congo ou na Nigéria, e ela virar-se para mim e dizer « ai que tristeza meu deus, matarem-se irmão contra irmão. » E eu fiquei a pensar « e um branco matar um preto não é irmão contra irmão ? » Nós concentramo-nos mais na divisão, nos fatores de diferença que nos fatores de união. Mais lá para a frente, à medida que formos precisando mais uns dos outros, acredita que nós julgaremos menos as pessoas pela cor, mas mais pelo carater, e haverá um momento em que nem sequer julgaremos. E entenderemos que já há um juíz natural. E sabes qual é o instrumento desse juíz natural ? A arma. Ninguém foge disso. As pessoas têm uma sensação de impunidade neste país… Em vez de lançarmos modas estúpidas, com chapéus ao contrário ou como andar com as calças ao fundo do cu como o Lil’ Wayne, porque não pomos a bondade gratuita e genuína na moda ? Há uma parte do mundo que podemos mudar. Essa parte somos nós.

Com essas ideias todas, consegues passar tudo para a música ou precisavas de outros palcos ?
Eu não estou a fazer planos de ir para a música ou para a política para mudar o mundo. Para mim se queres mudar o mundo, começa por mudar o que te rodeia, deixar passar a senhora primeiro, tentares sacar uma moeda para dar a um pedinte e não teres tempo, ires atrás dele e as pessoas olharem para isso, para que se mudem as mentalidades. Claro, gostava de partilhar estas ideias por outros lados, mas acho que as pessoas têm de ser constantes.
Uma das medidas que devia ser aplicada aos deputados é esta : serviço comunitário. Hoje, isto é visto como um castigo. Mas diz-me uma coisa, qual é o máximo do serviço comunitário ? É o deputado, aquele que vai servir os interesses da nação. Como é que vais pôr alguém sem qualquer sensibilidade social num cargo político ? Eles não têm noção da realidade, da tia que não tem almoço… Só vêem números… 500 000, 900 000 desempregados. Se conhecessem as pessoas, não iam dizer a um casal de idosos para abandonar a sua casa para se construir um novo troço de uma autoestrada. Somos um pouco o jardim zoológico deles… uma massa neutra, eles numa jaula mental, nós noutra. O tal distanciamento entre eles e nós. Eles vão para a política para serem servidos, e não para servir, e isto não deveria ser assim.

Mas isto de ser bondoso também poderia ser encarado como uma pressão…
Mais do que uma pressão, é um prazer. Mas sim, não há espaço para o desleixo porque sabes que ele vai ter fazer mal mais cedo ou mais tarde. O ser humano tem na sua essência a vontade de receber. Energia, afetos, vitamina, a comida… Se não recebermos estas coisas morremos. Mas tens sempre essa vontade de receber. O que o sistema tenta fazer é traduzir o abstrato em concreto : um iphone, um carro Citroën. Só que quando tens frio o que é que tu fazes ? Vais procurar calor ! Mas essa pressão de que tu falas também é a mesma que me coloco quando me levanto todos os dias para ir trabalhar…

Estás portanto a favor do BNB, « Bonheur National Brut », índice que define o nível de vida dos homens no Bhoutan.
Sou totalmente a favor (risos). Embora ache que não temos maturidade para isso. É talvez um bocado surreal, utópico.

Alguns links :


(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne (Paris-IV), sempre teve como objetivo principal a divulgação das artes portuguesas, mas, sobretudo, a promoção de artistas emergentes ou simplesmente não conhecidos. Consultem suas outras matérias na rubrica "Culturas Urbanas". 


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