quinta-feira, 14 de março de 2013

Juntar seus tempos diferentes

Sra. Weiwei levantando a saia na frente da praça Tiananmen


Juntar seus tempos diferentes

Elvira Vigna

Fui ver o Weiwei no MIS-SP meio assim porque já sabia que não ia ver obra alguma, só registros. E também porque acho o Weiwei meio assim. Bom paca. Mas com umas dificuldades. Uma é o fato de ser chinês e carregar aqueles milênios todos nas costas (num momento em que a arte não carrega mais nada nas costas). Outra é que, além de ser chinês, ele é dissidente e o Ocidente adora dissidentes que não estejam no Ocidente. E disso estou consciente.
(Da próxima vez, em dodecassílabos, prometo.)
Outra dificuldade é a da arte contemporânea. Porque não dá para entrar direto no assunto. Primeiro tem de falar no geral e só então falar como o Weiwei se encaixa nesse geral.
O geral. Teve aí uma fusão da arte com o teatro. Ou as duas coisas - e mais a música e menos a literatura, mas isso eu deixo pro fim - ficaram muito parecidas. Não estou falando do teatrão, o drama encenado, você ali assistindo, chorando pitangas e dizendo, nossa, que bonito. Não. O teatro pós-dramático. Você ali como parte constituinte de uma arte (arte = ação que aponta para um significado usando a estética e não a lógica e digo "aponta" e não "contém", porque é só isso mesmo: aponta) que acontece naquele exato momento. Digo fusão da arte com teatro, e não da arte com a vida, como quis Duchamp, porque é mais preciso. Há um verbo no gerúndio, tipo algo acontecendo, mais do que transposição de substantivos: sai urinol, entra fonte.
(Como quis Duchamp e como quis, aliás, a curadoria da exposição. O título "Interlacing", do curador Urs Stahel, se justificaria, segundo o folhetinho, por "redes que entrelaçam arte e vida". Acho pouco.)
Essa fusão com o teatro faz com o que a ação artística não tenha uma totalidade, limites claros (não começa aqui, termina ali), ou mesmo estrutura organizada e fechada. Está mais para tentativa, sempre repetida, e tem um quê de desprotegido, de aberto ao inesperado, de não determinístico. E tem, não há como ser diferente, seus processos aparentes dos quais os sócios do artista, que somos você e eu, participam.
Em qual espaço se dá essa arte/teatro. Num espaço não hierarquizado, em parataxe. O "artista" ou o "ator" ali no meio da foto (ou da performance que lhe deu origem) vale tanto quanto a graminha que está no canto ou o barulho da britadeira ao fundo. Se fosse texto, seriam frases coordenadas e não subordinadas. E numa sintaxe de semelhanças, aliterações, analogias, com direito a repetições, "falhas", banalidades e inconclusões. O espaço da arte contemporânea, puxando um pouco, será sempre site-specific. Ou o local da ação artística já "dizia" alguma coisa que é incorporada à ação estética (por exemplo, lugares carregados de textos como a praça Tiananmen). Ou a ação estética, feita em local mudo, faz com que esse local "fale" por causa dela (por exemplo, não-lugares como megaconstruções ou o terminal 3 do aeroporto de Pequim).
Qual o tempo dessa arte/teatro. O presente, claro. Mas um presente espacializado em que convivem, sem distinção e hierarquias, passados e, eis uma novidade que reaparece depois de muito tempo, um futuro. Futuro na medida em que as ações são abertas, frágeis ao extremo e, por isso mesmo, muito fortes, pois dependem, sempre, do que vai acontecer no momento seguinte. Momento que não obedece à intencionalidade do autor/ator, mas que será formado por todo mundo que estiver no espaço em questão. Então, não só futuro, mas futuro compartilhado. Novidade e tanto. A arte dos séculos imediatamente anteriores ia dormir de noite e acordava igualzinha no dia seguinte, quando o museu abria.
(Separei espaço e tempo, mas fazem na verdade uma coisa só.)
Ainda no quesito tempo: a velha lógica de um velho pensamento linear a respeito do novo e do velho. Diz essa lógica que cada vez que surge um novo, o velho deve ser considerado não mais válido. Diz também que o novo vem da desagregação, decomposição do velho.
É aqui que entra o Weiwei.
Performance Dropping a Han Dynasty urn, de 1995
"China" e o aposto já vêm pronto: cultura milenar. E não só. Fechada. É só lembrar da muralha a impedir convívios espúrios. E não só. Com modernização imposta, aos trancos.
Rola uma empatia. Por aqui também, mesmo sem tanto milênio nas costas, mesmo dentro de uma tordesilha calculada a ponta do lápis na boca, a modernização também foi aos trancos. O assunto a seguir é delicado e diz respeito tanto a indivíduos quanto a culturas. Ou seja, estou falando aqui da China e do Weiwei, e de mim e de você. Sínteses - intrapsíquicas ou nacionais - para serem sínteses e receberem o reconhecimento de sua especificidade, excluem pulsões que a ameacem. Indeterminações, alternativas à normatividade em vigor, desconhecimentos. Numa palavra: mudanças. A síntese - mantida através do superego ou do ditador de momento - se considera uma totalidade autônoma e autêntica. Ou seja, não se abre trocas, tem atuação autoritária e se acha com contornos definidos. Se muralhas de pedra hoje são coisa de turista, outras se põem em seu lugar, mais inconsúteis. Quanto mais rígido for esse mecanismo de exclusão do diferente - diferenças, aliás, vistas não como diferenças mas como oposições -, mais forte a totalidade parecerá. E mais fraca será.
Weiwei entende isso. É um contemporâneo de fato, ao contrário de outros seus conterrâneos que vou citar daqui a pouco. Ele aponta, na sua ação estética, para o que a síntese não absorve. Traz do passado, do Ocidente onde morou, da internet. E do seu senso de humor. Traz o que era para ser jogado fora, a foto do blog, o edifício velho derrubado pela autopista, o trabalho agora inútil do artesão morto de fome.
Vou dar mais uma pichada na curadoria. Weiwei faz isso, mas não me parece que considere o passado lugar privilegiado de origem ou pureza. No entanto, vesti pantufas para ver a exposição, deixando "impurezas para trás" (segundo o mesmo folhetinho). Não acho sequer que Weiwei considere o passado passado. À la Hegel, ele considera, na sua ação estética, que a história não é o que foi, mas o que se mantém. Presentifica o que, aliás, presentificado está. Porque se você não absorve, não faz troca, aquilo volta. Eu e você sabemos disso.
Making of do "Jointed Stool", de 1997 (as cadeiras)
As fotos que fiz. Reproduzi uma foto do making of do "Jointed Stool", de 1997. Weiwei tem várias ações estéticas com essas cadeiras feitas numa técnica tradicional da China, de encaixe, sem pregos. Usa em geral cadeiras já quebradas, em pilhas mambembes, quase caindo. Essas cadeiras, artesanais ou de pequenos produtores fora dos grandes centros, não têm mais valor algum para a sociedade chinesa. Eu trouxe também o registro do registro de uma de suas performances mais conhecidas, em que ele quebra um vaso da dinastia Han. Quebra olhando para quem o olha. Quebra contando com a participação do ocidental ali na frente dele, e com o valor que uma relíquia dessas tem no mercado internacional de arte. Quebra o que é considerado de valor para falar daquilo que é considerado sem valor. Peguei também a foto da sra. Weiwei levantando a saia e mostrando a calcinha em frente à praça Tiananmen como um contraponto. Se Weiwei critica o momento atual de sua geografia (porque ela não consegue absorver grandes lapas que vêm do passado), ele também critica o passado "aceito" por não absorver grandes lapas do momento atual. A praça Tiananmen e sua arquitetura "tradicional" - de um passado "aceito" - não conseguem absorver uma mulher moderna. Essa foto também me atraiu por apontar para uma coisa engraçada em relação a um vocabulário adotado inclusive por esta que vos fala. A arte lá pelas tantas virou plural. Não se falava mais "arte" pois a palavra tinha colado na "grande arte", então já relativizada. Passamos para artes plásticas. Depois esse nome caiu no opróbrio e nós, os bem-pensantes, fomos para as artes visuais. Pois agora virou artes plásticas outra vez. O visual não dá mais conta. A arte é visual, tátil-erótica, corporal, e pode ser sonora e até olfativa. A sra. Weiwei - assim como seus jovens colegas da série em que posam, ocidentalizados, frente a monumentos chineses - é tão banal quanto bonita, e bonita por ser banal.
Weiwei junta seus tempos diferentes - de lá para cá ou vice-versa - com um quê de, ué, não pode? Não é um ir contra a lei, é expô-la ao ridículo. Um exemplo (além da levantada de saia de sua mulher). Nada impede alguém de encomendar a artesãos-oleiros tradicionais - e desempregados - alguns objetos de cerâmica. Mas quando Weiwei encomenda 100 milhões de sementes de girassol, iguaizinhas a sementes de girassol de verdade, mesmo tamanho, e manda pintá-las à mão uma a uma, em listinhas de branco e preto, para jogar tudo no chão da Tate de Londres e dizer que quem quiser pode pisar em cima, aí começa a incomodar.
Como comparação - aliás, nem minha, mas da mídia, embora involuntária - tem o Cai-Guo-Qiang. Ao mesmo tempo em que Weiwei dava as caras, ou pelo menos as fotos, por aqui, Cai-Guo-Qiang aportava em Brasília. Espetaculoso, desenhou com pólvora "especialmente para o público brasileiro" uma Iemanjá. Eu sei lá o que ele quis dizer com isso. Ao contrário de Weiwei - que mora na prisão e, quando pode, na casa dele em Pequim -, Cai-Guo-Qiang mora em Nova York e faz trabalhos para grandes eventos mundiais como as Olimpíadas, patrocinado pelo governo chinês. Esse segue nas normas, mesmo que use pólvora.
Outro exemplo comparativo. Em maio de 2007, cobri para o saudoso Aguarrás a Coleção Uli Sigg, de chineses contemporâneos, exposta no CCBB do Rio de Janeiro. A diferença é que Weiwei vive a dificuldade de lidar com o que ficou para trás na cultura chinesa através de uma compreensão do que sejam ações estéticas, seu espaço e tempo contemporâneos. Seus colegas no CCBB-RJ levavam o que é contemporâneo de volta para o passado. Não presentificavam, pelo contrário, iam para trás, imersos em uma nostalgia que me espantou. A peça principal dessa exposição era um grão de areia onde havia uma fábula escrita na velha arte da caligrafia. Autoria de Lu Hao. Não acho que escrever em grão de areia dê conta dos tempos em paralelo que se vive hoje. Seus colegas de exposição pintavam cenas da Revolução Cultural. Soldados, salas de reunião, urbanização rígida de edifícios quadrados, tudo em óleo sobre tela, na melhor técnica ilusionista europeia.
E agora chego na literatura e no que me parece ser um empacamento, espero que momentâneo. Arte contemporânea é coisa bem específica, não é definida por ninguém como sendo "arte feita nos dias de hoje". Literatura contemporânea é vista como sendo a que é publicada hoje. Tenha ou não algumas das características que pensadores e críticos detectam nas ações estéticas que usam outros instrumentos, além da palavra. A arte contemporânea pode existir porque tem instituições atuantes voltadas para ela. Se tal atividade tem riscos? Acredito que sim. Já a literatura está presa num esquema de produção/distribuição que vê, como ameaça de sobrevivência, os óbvios riscos de se trabalhar com o frágil contemporâneo.

Elvira Vigna
Março de 2013

Pantufas para entrar na exposição


Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora :Rubrica Artes e http://vigna.com.br/

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confira no link: Umdedo de prosa

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