quinta-feira, 28 de março de 2013

Calos nas mãos de diarista


Felipe Lopez, Cidade A5

Calos nas mãos de diarista

Arlindo Gonçalves (*)


            Como se fosse hoje, de uma maneira muito real, o parquinho com suas atrações simples, ela ao lado do namorado, alegre e cheio de energia, ganhando ursos de pelúcia em barracas de pescaria ou de tiro ao alvo. E ambos lá, tão felizes, moça de futuro, rapaz da sua vida. O despertador, ao lado da foto do filho débil, toca antes do sol de horário de verão surgir. Ela, imagens do passado desfeitas na mente, estica o braço e, ainda sonolenta, a contragosto de se levantar, tenta silenciar o relógio para que o barulhento não acorde o menino, que dorme no mesmo quarto.  O casal no parque, tênues lembranças de um tempo bom, de uma minguada felicidade antecessora dos períodos de fúria que viriam. Antes que o garoto acordasse, deitada ela tenta, só que, vacilante no amanhecer, não alcança o despertador; e quando o faz, não cala o aparelho, o derruba de cima do criado-mudo, produzindo mais barulho. A família orgulhava-se dela. Moça ainda, cheia de futuro, arrumando logo um partidão, marido honesto, homem de profissão, desses que um dia pagarão salários, não os receberão de outros. No desastrado alvorecer daquele dia, o despertador, quando cai de cima da mesinha de cabeceira feita de uma madeira já carcomida, toda riscada e manchada por auréolas de copos que são postos sobre sua superfície, causa um terremoto proporcional às reduzidas dimensões do móvel barato. Balança o porta-retratos com a foto do filho retardado; despenca um par de brincos lá deixado; cai no chão o boleto de aluguel. E o que os parentes dela passaram a estranhar foi a desproporção entre o que o par falava e o que se via efetivamente. Tudo faltava na casa deles. A velha pintura descascando e pedindo nova demão; as torneiras vazando, desperdiçando água e aumentando as contas a pagar a cada fim de mês; a televisão, então, mais chuvisco e fantasma do que tudo; e o carro, barulhento nas raras vezes em que circulava pelas ruas, enferrujando ao sol e à chuva enquanto muito repousava na pequena garagem, decerto pela falta de dinheiro para encherem seu tanque e consertarem suas avarias. A luz nem sequer aparecera, e ela já estava em puídos panos, com outros tantos trapos de trabalho dentro da mochila. Seu ritmo vai aumentando graças ao estímulo causado pelo cheiro de café fresco, aos poucos impregnando a cozinha, que faz par com o quarto e completa o todo do imóvel. Nas primeiras vezes, até fugia toda machucada para a casa da mãe. O cuidar das bordoadas e o minar do roxo dos olhos tão logo a recuperavam a faziam voltar para o marido, contrariando novamente a família, demais de inconformada diante da subserviência da moça para com aquele bronco e nada parecido homem das promessas do início. As crises matinais do filho têm sido raras. Só que, hoje, antes que ela saísse para o trabalho de diarista, o menino teve uma recaída, deixando os nervos dela em frangalhos. Então, coisas, objetos, parcos pertences, cacarecos por assim dizer, foram quebrados, engordando o saco de lixo que a mulher vai pôr na rua, antevendo desde a escada pessoas indo a pé para os pontos de ônibus ou de bicicleta para os seus locais de trabalho, todos eles vigiados por uma assembleia de velhas antenas de TV, poucas delas parabólicas, postas sobre uns tantos e intermináveis puxadinhos com suas paredes despeladas, expondo os blocos que as erguem; triste visão que a periferia onde moram tem a oferecer. A cada retorno para o marido violento e bêbado, a mãe lembrava-lhe a ingratidão pelo esforço que todos faziam para curar as dores físicas e as da alma, chagas produzidas pelas brigas. E a moça, parecendo pouco ou nada ligar para reprovações, buscava o marido nos bares; o barrigão dele se esparramando nos balcões, o vexame das privadas inundadas de vômito, quando, prevendo a chegada constrangedora da esposa, ele refugiava-se nos banheiros das espeluncas. Fatos omitidos da família, talvez por vergonha, talvez para não piorar ainda mais a opinião deles sobre o esposo. E assim ia. Longa descida de paralelepípedos, cruzando duas ruas no percurso, atenta a eventuais carros que pudessem irromper na neblina, ela chega ao ponto de ônibus. Bilhete-único carregado com o dinheiro que recebe dos vários patrões para quem limpa, lava e passa, ela paga a condução que a levará a mais uma jornada de trabalho. A pança dele crescia a cerveja e a cachaça; a dela, a trágicas sementes que ele colocava nela periodicamente. O primeiro nem chegou a ver a luz do dia. O segundo, o mais bem-sucedido, quando compreendeu a vastidão de fracassos que o cercava, sumiu ainda pequeno de casa. O terceiro, o que veio ao mundo no negrume de uma noite distante, o que tem tantos problemas, o que quebra as coisas durante as crises, o que é nervoso, o que não consegue anotar simples recados telefônicos, o que é, apesar de tudo isso, o motivo pelo qual sua mãe vence odisséias diárias. Os anêmicos faróis do ônibus iluminam o caminho, atravessam a pouca luz do início do dia. Encolhida em um dos bancos, ela calcula a rotina que virá, as coisas que fará para pessoas que mal encontra. Dado momento, pela janela, vê um parquinho perto da praça, mas tão distante dela. Enxerga ali uma moça, um rapaz brincalhão ganhando para ela brinquedos de pelúcia e outras bobagens em infantis competições de barracas inocentes. Relembra os planos, os sonhos não concretizados. Mas nenhum culpado pelos malogros hoje habita sua memória. E ao desviar a atenção da janela e olhar para as próprias mãos, vê nelas os calos de diarista; este é o início de mais uma jornada de trabalho. Neste momento, o coletivo chega ao terminal, lá encontrando outros ônibus. Ela nota que a luz do dia já é soberana e que o escuro já se fora completamente, inclusive, o do seu coração.

Arlindo Gonçalves, fotógrafo e escritor. Publicou Dores de perdas (2004), Desonrados (2005), Desacelerada mecânica cotidiana (2008), Corações suspensos no vazio (2010). Parceiro de Luciana, também fotógrafa e escritora. Com ela, mantém o projeto “Diálogos com a Cidade”, tendo realizado algumas exposições e publicado o livro de fotos e de poesias Carinhas(os) Urbanas(os) (2009). In vino férias (crônicas e fotografia) será o segundo título a ser lançado em 2013 pelo coletivo fotográfico.

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