quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O amigo retornado


Tour Eiffel Robert Delaunay 1910-1911
O amigo retornado
 Mário Araújo


Na mesa do restaurante, em Brasília, os três amigos se reencontram. Dois deles são marido e mulher e se veem, salvo viagens esporádicas, todos os dias. O terceiro é Alfredo, que acaba de voltar de Paris e tem diante de si a tarefa de se readaptar à vida brasileira (e brasiliense!) após vários anos morando fora.
Nada mais natural, portanto, que o recém-chegado fale e o casal escute, com toda atenção. Afinal, estes saberão sempre menos sobre as coisas de lá do que Alfredo, na sua condição de funcionário do governo, saberá sobre as coisas de cá. Ajustados à vida local e suficientemente sintonizado com o mundo grande, o casal se satisfaz em saber que a França tem um novo primeiro-ministro, que nevou muito no inverno passado e que o Paris Saint-Germain, agora patrocinado por um milionário russo, é o mais novo novo-rico do futebol europeu.
Alfredo narra então a cena, testemunhada e vivida por ele num vagão de metrô. O protagonista é um jovem pai francês que, sem maiores avisos e sem que nenhuma palavra tenha sido ouvida antes, aplica no filho pequeno que viajava com ele uma sonora, indecorosa bofetada. Verdadeiro espancamento de uma pancada só. E nem precisava mais: o menino, que aparenta não ter mais que seis anos, rodopia e cai de bunda no chão, posição nem tão vexatória nessa idade, mas que dói igual. No levantar silencioso da criança (só o rosto em brasa registra o medo que é invisível nos outros lugares), vê-se o conformismo, possivelmente construído pelo hábito.
            Alfredo, que tem em casa um belo cocker spaniel mas que gosta mesmo é dos seus meninos, sente ferver o sangue e o logo o dedo em riste está na cara do agressor, um palmo mais alto que ele. O outro demora a reagir, tão perplexo está com a insolência do estrangeiro. Os demais passageiros leem o jornal: a coisa está feia na Síria e o desemprego na Europa bate recordes.
            Alfredo berra: “Se você encostar a mão nele de novo, eu quebro a sua cara!”. “Meta-se com os seus!”, é a resposta que vem lá de cima.
            Na primeira estação, o francês salta levando a criança de arrasto e Alfredo, desesperado, enlouquecido, entorpecido (pela torpeza alheia), desce atrás. Esqueceu que para ele ainda faltam cinco paradas.
            O francês avança, Alfredo avança e ousa tocar seu ombro. Colocam-se frente a frente e a discussão recomeça. A iniciativa é sempre do brasileiro, cuja raiva transgride qualquer argumento: “Você não pode fazer isso!”. “Eu faço o que quiser!”, retruca. “Então bata em mim e não nele!”
            Em meio a trens e pessoas fluindo indiferentes, a algazarra acaba atraindo, enfim, a atenção de um homem, um só, negro, que se aproxima e tenta abortar a briga, mostrando, no gesto mais firme para o lado do europeu, que o que ouviu do diálogo acabou por influenciá-lo a favor de Alfredo. Contudo, depois de um breve momento em que este, quem sabe tocado por sentimentos terceiro-mundistas, imagina o africano unindo-se a ele para juntos darem uma lição no vilão da história (de que lado ficaria o menino?), cada um toma seu rumo.
            Fim da narrativa e pausa até que os pontos de exclamação tomem assento.
            As taças são esvaziadas e novamente cheias, o garçom anota os pedidos. O vinho é chileno, mas um certo orgulho nacional se insinua entre os comensais: uma cena dessas jamais aconteceria aqui. Aqui, o mocinho e o moço-do-deixa-disso teriam de fato se unido para derrotar o pai malfeitor. E a polícia teria sido chamada para garantir a proteção ao pequeno cidadão. Que bom estarmos aqui, juntos - é o pensamento comum, o grito latente.
            E segue então a conversa, norteada pelo desejo de matar saudades, narrar histórias, compartilhar pontos de vista. É a hora de o casal contar as melhores dos últimos meses por estas bandas, enquanto Alfredo irá discorrer sobre as melhores dos últimos dias, desde que retornou de seu exílio institucional.
            O ainda forasteiro começa contando suas aventuras de fim de semana, quando decide pegar o carro recém-adquirido (custou caro mas tem air-bag, um luxo) e sair por aí como um Kerouac do cerrado, explorando os muitos paraísos naturais que irrigam o planalto. Percebe, logo nos primeiros quilômetros, que o caminho piorou muito em comparação ao que considera, nostálgica e possessivamente, a sua época –trata-se, é claro, da mesma estrada, só que surrada pelo tempo e jamais acudida pelas autoridades. Houve momentos em que pensou, por improvável que fosse, ter chegado precocemente às cachoeiras e belos penhascos do cerrado, mas era a estrada ainda, com seus buracos criminosos acobertados pela água da chuva.  
            Talvez distraída pelo relato, a mulher faz um gesto que quase derruba o iPhone que estava sobre a mesa. “Ops”, ela diz, “não posso me dar ao luxo de perdê-lo”. E esclarece que o aparelho pertence à repartição onde trabalha. Se quebrar, terá que pagá-lo, e isso certamente custará “no mínimo o dobro do preço de mercado”. Embora ninguém pareça estranhar o contrassenso da frase, ela vai em frente e explica que o preço pelo qual o aparelho foi comprado pelo órgão público, após licitação, provavelmente foi superfaturado.  
            Resolvem então falar sobre o grande acontecimento dos próximos anos, que está deixando o país em polvorosa: a Copa do Mundo. Todos na mesa são furiosos amantes do futebol. “Está aí!”, empolga-se Alfredo, quase completando com um “E nós aqui!”. É imensa a animação por poderem participar juntos do momento histórico que se aproxima. Como será divertido esperar pelo sorteio das chaves, escolher os melhores lugares no estádio, comprar os ingressos. E os estádios? O casal oferece informações detalhadas sobre a reforma das antigas praças esportivas e a construção das novas e modernas arenas, sobre as quais Alfredo lera apenas superficialmente na mídia. Sim, os custos quadruplicaram; sim, as licitações foram simplificadas para atender ao caráter urgente das obras; sim, Ronaldo, aquele menino que até há pouco fazia a alegria da torcida com seus gols fenomenais é agora membro do comitê organizador e emula o discurso dos cartolas mais rançosos. Os pormenores não desmentem a tenebrosidade das manchetes; muito pelo contrário, enquanto mais se mete a pá na terra, maior a chance de se encontrar esqueletos.
            Como que para se purificar, os três entabulam a conversa clássica sobre a chuva - que finalmente chegou –, conversa essa que desemboca nas enchentes do Rio e de Minas, tradicionais e pontuais como o show do Rei na Rede Globo. Parecem sem solução, mas um dos amigos recorda que, durante a calamidade que assolou o litoral fluminense em 2011, um e outro comentarista de TV ao menos fez um esforço para frisar que a culpa não era da chuva, não era da natureza, mas sim do homem. E não do homem que ergue seu barraco na beira do precipício, mas do poder público - ou, para não trocar uma abstração por outra, dos homens que exercem o poder público. O noticiário enfim rompeu o velhíssimo hábito de se atribuir à natureza, essa teimosa, a culpa pelo desastre. Estamos melhorando, é a conclusão a que todos querem chegar – a passo de quelônio, para alguns ditos pessimistas, mas ainda assim estamos.
            E os assuntos continuam se emendando uns nos outros, brotando das coisas. Nada deve ser premeditado na prosa de velhos companheiros.
            É quando, lá pela metade da segunda garrafa de vinho e com o restaurante já meio vazio, surge diante da mesa um vulto esquálido. A mão espalmada traduz o pedido, em princípio silencioso, de ajuda. Mas logo a pessoa (há dúvidas quanto ao gênero, tal o nível de deterioração física) faz uso da palavra, com o objetivo claro de potencializar seu arsenal persuasivo. Informa que luta contra a AIDS e que toma, sem falhas ou omissões, o coquetel retirado em algum lugar (hospital ou posto de saúde) que a má dicção não permite entender – e para provar mostra um pedaço de papel que, à distância e sob a luz fraca, nada esclarece. Diz também que tem irmãos menores sob sua responsabilidade. Parece, enfim, disposta a lançar mão de todos os argumentos, mas os três resistem, amparados pela justificativa de que quem não dá a ninguém trata todos como iguais.
            Quando a pessoa se retira, o casal tenta adivinhar se quem está por trás daqueles gestos femininos, negados pela completa ausência de formas, é um rapaz gay ou uma moça cuja miséria levou embora seios e nádegas como num arrastão. Enquanto isso, Alfredo medita, como quem toma fôlego após percorrer parte de um longo caminho – o caminho da adaptação e da compreensão do ambiente que o cerca. E então observa: “Vocês viram? As pontas dos dedos queimadas? Queimadas de acender crack. Hoje em dia todos são assim”.

Mário Araújo nasceu em Curitiba, Brasil.Em 2005 publicou seu primeiro livro de contos A Hora Extrema  vencedor do Prêmio Jabuti em 2006. Seu segundo livro Restos foi publicado em 2008. Além disso, participou deantologias no Brasil, Espanha e México e tem publicado textos nem jornais e revistas literários e na internet. Atualmente, prepara seu primero romance.

Consultem a entrevista de Mario Araújo para o blog Estudos Lusofonos  no link :  Um dedo de prosa com Mario Araujo

Vejam o site do autor no link : Mario Araujo


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