sábado, 2 de fevereiro de 2013

A busca belíssima pelo nada



A busca belíssima pelo nada 

Elvira Vigna

Me mandam livros. Leio. Finisterra, do (muito) jovem Hugo Crema, é um desses livros. Se é bom? Muita dificuldade em dizer. Hesitei, ia desistir, acabei voltando.
À dificuldade, então.
O livro contém uma jornada. O propósito de tal jornada é bobo: o preparo de uma festa infantil. Tem uma surpresinha, como em geral em festas, mas não posso dizê-la aqui.
O que posso dizer é o que o livro não tem: A Receita.

A Receita:
1) descrição exaustiva de cenários supostamente locais. Pode ser uma cidadezinha brasileira ou em Nova Jersey, tanto faz. O escritor sai, bloquinho na mão, tomando nota da sujeira do mármore do café da esquina, da roupa da mulher na fila do ônibus;
2) Juntar a isso referências bem concretas (com nomes, datas) sobre economia, política ou evento de mídia facilmente reconhecível, do local específico da ação (Brasil ou Nova Jersey, tanto faz);
3) Polvilhar, por cima disso, ação palpitante qualquer. Voalá.

Digo "supostamente locais" na frase do item 1) porque, como o tal do bloquinho não dá tempo para sedimentação de experiência alguma, trata-se de cenários-locais-como-seriam-vistos-por-turistas, ou seja, não é que sejam bons ou ruins, do ponto de vista literário, apenas não são "locais", já que não sedimentados por afetos (no sentido filosófico, de afetar).
A ação palpitante qualquer citada no item 3) é, em geral (devido ao gênero da maioria das pessoas que consegue o título de escritor), um rito de passagem masculino, recuperado do passado. Passado pessoal, mais raramente, ou passado no sentido histórico-social mesmo, o caso mais frequente. Uma espécie de nostalgia da época em que ainda eram possíveis os ritos de passagem masculinos. Em que ainda era possível uma adrenalina de todo sumida da vida chata e banal dos machos de hoje.
Rito de passagem é uma prova que transforma o indivíduo em "homem" aos olhos do próprio e aos do seu grupo. Por exemplo: a) no enfrentamento sexual com uma mulher; b) no enfrentamento competitivo com outro macho, da própria família ou não, no campo psicológico ou físico; c) no enfrentamento com os perigos do mundo - em que, inclusive, podem estar presentes as duas primeiras opções: o futuro "homem", ao vencer uma prova qualquer (serve esportiva ou mesmo com conotação negativa, de anti-herói, tipo vomitar depois de bêbado), se sobressai entre outros machos frente à mulher que ele vai comer.
Digo que a adrenalina sumiu da vida chata e banal dos machos, especificamente, porque é chato defender o poder: você vira reacionário sem nem perceber, tentando manter o status quo, ou pior, o passado mesmo. O resto de nós ataca o poder, o que é sempre muito mais divertido.
Hugo Crema descreve uma jornada na vida chata e banal de um macho de hoje. E consegue transformar chatice e banalidade em busca belíssima pelo nada. Depois explico o "nada".
Como seus companheiros mais famosos de ofício, ele também escreve bem. Definição de escrever bem: obedecer aos códigos aceitos pela elite cultural. Escritores - aliás artistas de qualquer tipo - são hoje de classe média. Universitários. Área de comunicação, arte, letras. Muitos deles ex-publicitários. Ou, como desconfio, para sempre publicitários. Vender o que não está lá vicia, o sujeito não se desvencilha disso facilmente.
(Acho tão difícil imaginar um jovem de hoje levantar da cama, um belo dia, berrando, já sei!!, quero ser publicitário!!! Isso em uma época pra lá de capitalista-moribunda em um planeta nos estertores, não pela falta, mas pelo excesso. Ressalva: a escolha dessa carreira em outras eras pode ter tido um élan, um frisson, não em francês, tão fora de moda, mas em inglês, como quer o seriado Mad Man. Mas hoje?!)
Volto ao livro do Crema.
Ele também tem um bloquinho. Só que, coisa rara, o que ele toma nota no bloquinho passa por uma subjetividade. Um exemplo que peguei abrindo o livro a esmo:

Depois de o Saulo ligar para o buffet, confirmar o horário em que as coisas vão chegar, avisar para a Vivianne fazer xixi enquanto eles estão em casa, que no shopping é sujo, e colocar a condição de ela deixar.... (88)

E por aí vai. Um encadeamento de ações. Veja bem: ações. Não cenários. Ações. Só isso já dá um puta diferencial. E ações não neutras, ações qualificadas. Significativas. São essas e não outras. Não são indiferentes, como o é tudo que passa pela frente de um dado bloquinho. E são significativas por um motivo. Que é o que o leitor vai descobrindo se conseguir continuar a ler.
Outro diferencial. A adrenalina não é conseguida em nada que acontece. Até porque nada acontece. Aqui não é preciso haver esportes radicais, situações imprevistas, mulheres enigmáticas, perigos. Nada. E o livro é tenso.
Mais um diferencial: o personagem principal é, ai, não posso dizer. Seria um spoiler da leitura.
Bem, o que eu posso dizer. O personagem não é de jeito algum o jovem macho buscando emoções, ou o macho já maduro lembrando da sua juventude para recuperar emoções não mais possíveis. Muito pelo contrário, é a descoberta, bonita, e seu fruir subsequente, de um papel definitivamente masculino no presente de hoje. É bom, o livro?
Não sei. É, mas é quase ilegível.
Falando difícil, sendo eu agora a quase ilegível:
Hugo Crema não tenta um livro icônico sobre algum tipo de experiência masculina. É indicial a coisa. Ou seja, o escrever é como uma continuação, um rastro daquilo sobre o que ele escreve. Um mesmo tipo de (in)ação. E tem mais. É indicial de algo que ele acha que não está mais lá.
Assim: a descrição por escrito das ações do personagem é o rastro mal e mal lembrado que guardamos do que fizemos em um determinado dia ou mesmo daquilo que acabamos de fazer. A vida mesmo, a experiência sensorial da vida, essa é como se não mais existisse. Só ficasse essa vaga sombra. Que ele conta, laborioso, não porque acredite que assim transmita algo concreto para o leitor. Ele transmite a ausência dessa coisa. E, mais do que isso, transmite a determinação - que deseja compartilhar - de continuar mesmo que seja no meio do nada. Sua determinação, ética e não prática, de que é preciso continuar andando e de que é preciso falar/escrever sobre esse continuar andando, por mais inúteis que sejam essas duas coisas. Para os distraídos, as duas coisas são: andar; falar/escrever sobre esse andar.
Resumindo: Hugo Crema quer que você pare um instante (ok, mais do que um instante, o livro é excruciantemente lento) para sentir, registrar, saber da sombra de algo que não está mais lá. E que talvez nunca tenha estado.
Assim como não está mais lá a criança que gerou uma determinada andança "original".
Me faz lembrar um velho problema das artes plásticas, já bem batido: original x cópia.
Entrando em uma das minhas longas digressões. O lance de o original ser considerado com mais valor do que sua cópia tem a ver com sua proximidade em relação ao sagrado. Isso na Idade Média (avisei que a digressão ia ser longa). O sagrado, na época, podia ser uma relíquia de corpos santificados cuja representação - e/ou utilização parcial - é então o original em questão, não-copiável, aliás. Ou podia ser a presença, não mais de corpos, mas pelo contrário, de seres incorpóreos santificados, vindos do além para cochichar no ouvido do artista o que ele devia fazer, guiar sua mão na composição do dito original, aqui também marca de momento não reprodutível. Continuamos achando isso, em que pese toda a era industrial da qual mal e mal sobrevivemos. Original vale mais. E em que pese Brunelleschi a nos provar, com sua perspectiva renascentista, que o mais importante não é original nem cópia - aliás, copiar era prática frequente em sua época. É o ausente. É quem olha. Que é também quem decide, a partir do seu ponto de vista, o perto e o longe. Sendo que o "longe" recebe um sfumatto básico que aumenta e diminui seu valor, ao mesmo tempo. Está longe, è vero. Mas por causa disso mesmo fica assim, misterioso, atraente. Ou seja, emocionalmente perto.
Quem olha é Hugo Crema e ele traz o não-significativo para perto, e isso é bem grave. Não significar é pior do que a pior das mortes, já diziam os gregos e seu inferno chamado Hades (o inferno da invisibilidade). O não-significativo devia estar lá longe, bem longe, mal entrevisto e rapidamente deixado de lado. Mas Hugo Crema também conhece o truque do sfumatto. Pois desse não-significativo ele extrai um significado.
Seu retrato de personagem não é um retrato. Para começar, é feito em retângulo deitado (aquele que é chamado de "paisagem" e não de "retrato" pela tua impressora), formado pelas páginas e mais páginas abertas, sem quebra em sua sequência ininterrupta. Sem organicidade. Não há uma chegada a algum lugar ou mesmo uma partida de algum lugar que dê à jornada descrita no livro um ponto organizador, que dê a seu personagem um núcleo duro, consistente. Só fios, traços no papel ou na calçada. Nenhuma identidade constituída. Lemos e lemos e pouco sabemos de algo mais duradouro do que as ações miúdas do personagem no preparo da festinha banal. Hugo Crema parece não acreditar em identidades constituídas assim como já não acreditava em experiências compartilhadas. Então, deduz-se, ele também não acredita em escrever, já que escrever supõe essa continuidade, o ler/participar na criação desse significado.
Escreve porque acha que deve. E porque acha que o leitor também deve (ler/participar). Fantasmas, ele, eu e você, como fantasma é afinal o personagem oculto, o que vai se mostrar como personagem principal daquilo tudo. O personagem ausente, há muito desaparecido e do qual só existe uma foto. Que eu, pelo menos, "vi" já meio desbotada, pouco nítida. Todos nós lá, os fantasmas, a continuar, teimosamente, andando, se substituindo, outra festa, outra criança, outra aposta, sem que de fato se acredite no que quer que seja.
Me permito fazer uma sugestão, aliás imperfeita, de trilha sonora: Autobahn, do Kraftwerk. Se, em vez de autopista alemã, fosse o som de uma calçada de pedestre brasileiro. E brasiliense. (E eu podia falar um monte sobre a existência teimosa daquilo que não devia existir e que talvez de fato não exista: um pedestre em Brasília, mas já estou com vontade de acabar.)
Hugo Crema é brasiliense, seu personagem também. E Brasília é, ela também, assim como o ato de escrever e aquilo sobre o que o autor escreve, o vestígio indicial de algo - o moderno - que não está lá. E que - desta vez temos certeza - nunca esteve.
Finisterra, o fim da terra, é, segundo o Wikipédia, "a extrema borda do mundo conhecido". Fica na Galícia. Ou em Brasília. Ou na cabeça de quem se põe na fronteira entre o que tem significado e o que não tem mais - ou nunca teve.
E em todos os que se põem na fronteira entre o teimosamente existir e o mercado que os nega.

P.S. Me perguntam com frequência, e em tom de desafio, cadê então esses escritores (mais precisamente escritoras e os que estão na margem do poder do mercado editorial) que eu acharia bons. São poucos, é verdade.
Uma explicação que sempre dou é a da ejaculação precoce.
Marqueteiros sofrem de ejaculação precoce. Se você não vende nos primeiros cinco minutos fica irremediavelmente para trás, chupando o dedo. Alguns de nós precisamos de um pouco mais de tempo. Não só para encontrar nossa própria voz, engolfada pela voz que nos é empurrada como sendo a nossa, nossa goela abaixo, mas - e principalmente - para que tal voz, uma vez encontrada, seja ouvida, já que os ouvidos existentes na indústria editorial são antenados para urros mais possantes, aqueles emitidos em grupo, globalmente, e em baixa frequência. Frequência no sentido sonoro, o das notas graves da escala, e não no sentido temporal, porque frequentes tais urros o são.
E hoje, editores são profissionais de marketing e não de literatura.
Não tem outro jeito, me informam.
É isso. Somos poucos porque ficamos para trás, chupando o dedo.
Mas continuo achando que vai dar certo. Que não tem como não dar. Algum jeito tornará a surgir. E logo. Aguenta firme, Crema.
Não é a primeira vez que escrevo sobre os da margem da indústria editorial e suas escritas incômodas. Longe disso. Um desses textos está disponível online. É o de uma palestra que fiz em Belo Horizonte. Com direito a afagos de ego e tudo: http://www.vigna.com.br/divincomodas

Aviso ao leitor desse artigo:
Como disse na primeira frase do meu texto, não comprei esse livro. Ganhei do autor, a quem conheci rapidamente durante uma estada minha em Brasília, há coisa de um ou dois anos. Ele me fez elogios pela internet. Trocamos tuites por um tempo. Quem achar que esse relacionamento invalida meus elogios e críticas, esqueça tudo que está acima.


Referência bibliográfica:
CREMA, Hugo. Finisterra. (local de edição não citado): Editora Baluarte, 2012, 108p.

Elvira Vigna
Fevereiro de 2013


Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confira no link:


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