quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Um dedo de prosa com João Almino



Um dedo de prosa com João Almino

Este mês o Blog Estudos Lusófonos publica uma entrevista realizada com o escritor João Almino durante sua passagem por Paris. Consultem os vídeos abaixo em que o escritor comenta  a importância da cidade de Brasília em sua obra, nomeadamente, em seu último romance Cidade Livre. Nesta entrevista, João Almino fala, igualmente, de suas inquietações  filosóficas e evoca sua relação com o universo  machadiano.


Um pouco de leitura

Cidade Livre

Elaborada a partir  de um suporte narrativo virtual em rede (o blog), a estrutura  romanesca de Cidade Livre refuta as noções clássicas da autoria textual. Com efeito, ao acentuar os efeitos de dissimulação, o autor assegura ao texto uma configuração caleidoscópica capaz de neutralizar a articulação linear e unívoca das informações veiculadas. Em Cidade Livre, estas apresentam-se, antes, sob a forma de sequências associativas, convergentes e/ou divergentes, que reavaliam, constantemente, o conjunto dos dispositivos escriturais : instâncias narrativas, focalização, temporalidade e espacialidade. Ao olhar irônico e desabusado de J.A., justapõem-se, ao longo do texto, as lembranças fragmentadas de seu pai adotivo registradas num diário lacunar, o testemunho de personagens históricas ficcionalizadas, os comentários dos leitores virtuais do blog que destilam, completam ou alteram as informações diegéticas e, finalmente, o olhar  admirativo da população anônima de candangos que, em Brasília, acreditava ver o raiar de uma nova era para o país. A intriga  articula-se em torno do relato de sete noites de vigília durante as quais  J.A acompanha a agonia do pai  até a sua morte. O corte temporal aqui escolhido pelo autor confere ao texto uma dimensão mítico-simbólica inscrevendo-o na tradição dos mitos de restauração cíclica.  Romance de fundação, ou de anti-fundação, Cidade Livre conduz o leitor pelos abismos labirínticos de uma memória individual e coletiva estilhaçada que, através das brechas, frestas, insterstícios e  desvãos da história não-oficial do país, recompõe o momento inaugural do Brasil moderno. A euforia e o otimismo da construção de Brasília contrastam, ao longo do romance, com as desilusões familiares e o desencanto dos trabalhadores locais, dentre os quais, Valdivino, assassinado no dia da inauguração da capital brasileira. Sua morte misteriosa constitui o motor dramático e interpretativo desta narrativa que concentra no candango todas as contradições do devir da nação brasileira, dividida entre sua ancoragem rural e urbana, seu ímpeto modernista e tradicional, sua racionalidade e irracionalidade profundas. A localização do romance no universo brasiliense é neste sentido significativa.  Espaço movediço e desprovido de história,  Brasilia é em Cidade Livre um território sem raízes povoado de identidades precárias, órfãs e bastardas, em suma : o espaço das utopias e distopias de um Brasil que, em construção,  ja é ruína.
Leonardo Tonus

[...] No dia da morte de Valdivino, se é que de fato morreu, tive de ficar em casa durante toda a manhã e grande parte da tarde.  Sequer saí às avenidas, que eu supunha desertas. Acho que foi naquela tarde — quando papai chegou inquieto e me mostrou o buraco onde enterrava seus papéis — que pela primeira vez pensei em ser jornalista e em escrever sobre os tempos da Cidade Livre, e foi de uma vontade como a de Sayão, de um vento e de uma força, que as palavras com as quais pude rememorar aqueles tempos foram surgindo, uma a uma, arrancadas do silêncio e de um vazio profundo, como criação que brota do zero, da incerteza, da ignorância, da dívida, da culpa, daquilo que nos falta. Eu não queria dizer nada, pois a memória nada quer dizer, apenas diz em meio ao esquecimento e ao que procura ocultar, e por isso não há o que interpretar — as palavras, como as lembranças, são o que são e nada mais. Olhando-me no espelho do passado, onde às vezes não me reconheço,  nada invento, apenas escrevo o relato do que vivi, que fica como um testemunho, entre muitos que podem existir, para compor o quadro de uma época.
Depois de meses de aprendizado com tia Francisca, naquela tarde longínqua de 1960 consegui finalmente tocar acordeom. Levei-o à Avenida Central quando o sol grande e vermelho já beijava o horizonte, sentei-me num banquinho ao ar livre, Tufão foi comigo e deitou-se a meus pés, comecei a tocar, e algumas pessoas se juntaram ao meu redor. Houve até um arrasta-pé. Todos estavam alegres, dançando, menos papai e tia Francisca. Tia Matilde apareceu, riu para mim e disse, Esse menino vai dar muito trabalho! Havia um vento forte, que vibrava na saia de tia Matilde, e uma transparência cor de laranja no ar. Ainda era a estação das chuvas, e por isso os ventos vinham do norte, e não do leste e sudeste como no verão, e uma liga de barro vermelho encardia nossas botas e sapatos naquelas extensões que um dia, quem sabe, seriam verdes. [...]
(*)Cidade Livre, editora Record, 2010.


Un peu de lecture

Hôtel Brasilia

Ce récit de la construction de Brasilia entre 1956 et 1960 mêle les espoirs et les exploits, les constructeurs de la ville, les visiteurs célèbres ou non, les bâtisseurs de société et les rêveurs des sectes qui s’assemblent dans le désert du planalto brésilien. Au moment où il croit lire un reportage sur une utopie réalisée le lecteur tombe dans les rets du romancier et dans ce tourbillon vertigineux qu’est la subjectivité. Il se perd sur les traces de Valdivino, le paysan du Nordest, et de son mystérieux grand amour, la prophétesse Iris Quelemém qui règne sur le jardin du Salut. Il suit les courses du jeune garçon fasciné par la cycliste aux tresses brunes, l’épopée de l’ouverture de la route Brasilia Belem, les amours clandestines du père, les spéculations financières et les dettes qui le jetteront dans la prison où va le voir son fils adulte pour comprendre ses secrets. João Almino capte les voix qui affluent vers cette ville mythique et les restitue dans un incomparable style transparent à l’image de la lumière de Brasilia.
Source : Editions Métailié -  http://www.editions-metailie.com/

Le jour de la mort de Valdivino, si tant est qu’il soit effectivement mort, je dus rester à la maison toute la matinée et une grande partie de l’après-midi. Je n’allai même pas sur les avenues, que je supposais désertes. Je crois que ce fut cet après-midi-là – quand papa arriva inquiet et me montra le trou où il enterrait ses papiers – que pour la première fois j’envisageai d’être journaliste et d’écrire sur l’époque de la Cidade Livre, et ce fut d’une volonté comme celle de Sayão, d’un vent et d’une force, que les mots avec lesquels je pus me souvenir de ce temps-là surgirent, l’un après l’autre, arrachés au silence et à un vide profond, comme une création sortie du néant, de l’incertitude, de l’ignorance, de la dette, de la culpabilité, d’un manque. Je ne voulais rien dire, car la mémoire ne veut rien dire, elle se borne à dire au milieu de l’oubli et de ce qu’elle s’efforce d’occulter, et donc il n’y a rien à interpréter – les mots, comme les souvenirs, sont ce qu’ils sont et rien de plus. En me regardant dans le miroir du passé où parfois je ne me reconnais pas, je n’invente rien, j’écris simplement le récit de ce que j’ai vécu, qui reste comme un témoignage, parmi les nombreux qui peuvent exister, pour composer le tableau d’une époque.
Après des mois d’apprentissage avec tante Francisca, j’avais enfin réussi à jouer de l’accordéon en ce lointain après-midi de 1960. Je l’ai emporté sur l’Avenue Centrale à l’heure où un grand soleil rouge effleurait déjà l’horizon, je me suis assis sur un petit banc en plein air, Typhon qui m’a suivi s’est couché à mes pieds, j’ai commencé à jouer. Plusieurs personnes se sont assemblées autour de moi et se sont même mises à danser. Tous étaient joyeux et dansaient, sauf papa et tante Francisca. Tante Matilde est arrivée, elle m’a souri et a dit, Ce garçon nous donnera beaucoup de soucis ! Un vent fort soufflait, enflant la jupe de tante Matilde, et l’air prenait une transparence orangée. C’était encore la saison des pluies, les vents venaient donc du nord et pas de l’est et du sud-est comme en été et un liséré de boue rouge maculait nos bottes et nos souliers sur ces vastes étendues qui un jour seraient peut-être vertes.

( *) Hôtel Brasília, Traduit du portugais (Brésil) par Geneviève Leibrich, Editions Métailié, 2012.




Escritor e diplomata, João Almino nasceu em Mossoró, no Rio Grande do Norte, em 1950. Autor do Quinteto de Brasília, composto pelos romances Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo (indicado para o Prêmio Jabuti, ganhador de Prêmio do Instituto Nacional do Livro e do Prêmio Candango de Literatura), Samba-Enredo, As Cinco Estações do Amor (Prêmio Casa de las Américas 2003), O Livro das Emoções (Record, 2008; finalista do 7º Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009 e finalista do 6º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura 2009) e Cidade Livre (Record, 2010; Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura 2011 de melhor romance publicado em língua portuguesa nos dois últimos anos; finalista do Jabuti e do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2011), seus escritos de história e filosofia política são referência para os estudiosos do autoritarismo e a democracia. Entre estes, incluem-se os livros Os Democratas Autoritários (1980), A Idade do Presente (1985), Era uma Vez uma Constituinte (1985) e O Segredo e a Informação (1986). É também autor de Naturezas Mortas – A Filosofia Política do Ecologismo (2004), de Brasil-EUA: Balanço Poético (1996), Escrita em contraponto (2008) e O diabrete angélico e o pavão: Enredo e amor possíveis em Brás Cubas (2009). Doutorou-se em Paris, orientado pelo filósofo Claude Lefort. Ensinou na UNAM (México), UnB, Instituto Rio Branco, Berkeley, Stanford e Universidade de Chicago.

João Almino est un écrivain brésilien, connu surtout par ses romans situés à Brasilia. L’auteur a reçu plusieurs prix littéraires, parmi lesquels le Zaffari & Bourbon en 2011, l’un des plus importants prix littéraires brésiliens, pour son roman « Cidade Livre » (« Hôtel Brasilia »). « Les cinq saisons de l’amour » a réçu le Prix Casa de las Americas. Il a fait son doctorat à Paris sous la direction du philosophe Claude Lefort. Il a enseigné à plusieurs universités, parmi lesquelles l’Université Nationale Autonome du Mexique, l’Université de Brasília, Berkeley, Stanford et l’Université de Chicago. En plus de ses romans, il est l’auteur de livres d’essais littéraires et philosophiques.



Links et liens

Website do autor :  http://www.joaoalmino.com

Bibliografia completa sobre o autor e sua obra no site : http://www.joaoalmino.com/fr/bibliografia/





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