segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Os adágios de Erasmo


Um autor entre a vida da palavra e a morte do homem

Alexandre Staut*

Com suas duas últimas narrativas, Minha mãe de matou sem dizer adeus (2010) e O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam (2012), o mineiro radicado em São Paulo Evandro Affonso Ferreira parece ter encontrado sua dicção literária, que é econômica e elegante, em frases de humor tragicômico, muitas delas, citadas como se fossem mantras. O romance de 2010 acompanha a vida de um escritor que faz do café de um shopping center de São Paulo o seu escritório. Deste posto, observa a vida no templo pós-moderno, como o personagem diz, num texto entremeado de memórias familiares e frases filosóficas de uma amiga, que o narrador cita vez em quando. A obra ficou entre as finalistas dos principais prêmios literários brasileiros de 2011. No livro lançado este ano, Ferreira retrata a vida de um homem abandonado à própria sorte, que, em meio ao caos urbano, faz observações sobre a cidade e seus moradores invisíveis, usando um looping de palavras. Trata-se de um mendigo que se aproxima dos personagens de Samuel Beckett ao confrontar-se com o vazio e o assombro da existência. Como sua literatura atual, o autor concedeu uma entrevista telegráfica, em que fala sobre o dicionário que já criou, como forma de encontrar palavras para sua escrita, fala também da sua obra e das suas leituras atuais.


Tenho a impressão de que com seus dois últimos livros, você encontra uma linguagem própria.
Não sei. O que os críticos-leitores mais elogiavam na minha obra anterior à “Minha mãe se matou sem dizer adeus” era justamente a originalidade. Acho que nesta nova fase encontrei a amargura necessária.

Como você se aproximou desta forma de escrever suas narrativas?
Apenas retirei da obra anterior a obsessão com a palavra sonora. Cheguei ao longo dos anos compilar um dicionário de mais de três mil palavras sonoras. Parei com essa obstinação musical.

Quem lhe inspira?
Gosto de Bruno Schulz, de Samuel Rawet, de Robert Musil, de Hermann Broch,
de Cornelio Penna, assim por diante.

Certa vez, disse que ia procurar seus livros anteriores e você comentou que deveria ler sua obra a partir de “Minha mãe se matou...”. Por quê?
Gosto desta nova fase, coisa íntima, nada que se possa explicar. Possivelmente muitos leitores ainda prefiram a fase anterior.

O que gostaria de falar sobre sua narrativa anterior a “Minha mãe se matou...”?
Já disse: obsessão pela palavra sonoro, pelo ritmo.

Demorou a perceber qual era o seu estilo?
Escrevendo, rasgando, escrevendo - como faço ainda hoje.

A impressão que tenho ao ler seus dois últimos livros é de que existe uma  preocupação em criar a frase certa. É isso mesmo?
Antes, preocupava-me com a vida da palavra; agora, com a morte do homem.

Como foi a experiência de escrever um livro – “Minha mãe se matou...” - num café num shopping center movimentado?
Interessante. Não saberia explicar direito não. Toda manhã ficava
duas horas sentado num café falando telepaticamente com todo mundo que
eu via.

Onde você está escrevendo, ultimamente?
Ah essa coisa de lugar tem importância nenhuma. O resultado final é o
que importa. Nunca quis saber em que lugar exatamente Kafka escreveu “A
metamorfose”, por exemplo.

O que está escrevendo? Poderia entregar um pouco?
A história de um homem octogenário que perdeu todos os amigos.

Certo dia, no café da Livraria Cultura, em São Paulo, você lia “História da literatura ocidental”, do austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux, e disse que não tem lido prosa. Por quê?
Nada de excepcional: resolvi ler um pouco de filosofia. Se bem que estou relendo “A morte de Virgílio”, de Broch.

O que gostaria de dizer sobre a literatura contemporânea nacional?
A literatura contemporânea nacional da qual faço parte não pode ser analisada contemporaneamente.

Ainda acredita que o melhor crítico de uma obra é o próprio autor?
Não acredito que ele seja o grande crítico, pelo contrário, acredito sim que o autor é o seu grande e verdadeiro adversário. Precisa se superar sempre.

Quais os clássicos nacionais que indicaria para autores que estão começando a escrever?
“A menina morta”, de Cornelio Penna e “Crônica da casa assassinada”, de Lúcio Cardoso.

Quais os clássicos que nunca leu e que, possivelmente, não vai ler?
“Guerra e paz”, do Tolstoi. Não tenho mais idade para ler obra tão gigantesca, em todos os sentidos.

**Alexandre Staut é escritor e jornalista, é autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toda edições, SP, 2010)  e Um lugar para se perder (Dobra, SP, 2012)



O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam.

Evandro Affonso Ferreira

A-hã: estou falando dele, Erasmo de Rotterdam. Dizia que cada momento da vida seria triste, fastidioso, insípido, aborrecido, se não houvesse prazer, se não fosse animado pelo tempero da Loucura. Veja: chovendo. Também ela, a chuva, chama-me à memória minha amada. Nas noites chuvosas, sem trovões e relâmpagos, não ficávamos debaixo, mas sobre a cama. Este som pluviométrico nos excitava. Nossos corpos, nus, juntos, um pedindo silencioso carinho ao outro, fazíamos acreditar, ingênuos, na injustiça da não-imortalidade humana. Hoje sei que a natureza é sábia providenciando infalível nosso desfazimento in totum. Sábia em desfazer. Menino-borboleta, mulher-molusco, por exemplo, não deveriam ter sido feitos. Uma vez, sentado num banco de praça, ouvi de repente barulho seco. Virei-me, vi, na esquina ao lado, corpo de homem dando três piruetas no ar: atropelamento. Tarde toda fiquei pensando nela nossa vulnerabilidade, e nos tais acontecimentos desagradavelmente imprevisíveis – além de tudo. Ambulância não chegou a tempo para vê-lo respirando pela última vez. Sim: vi-vivi cenas muito desagradáveis. Algumas comoventes. Foi bonito ver aquele saxofonista, dois anos atrás, tocando numa esquina My funny valentine para senhora elegante, octogenária, cujas lágrimas escorriam numa tentativa inútil de desenhar no rosto o s de saudade – ou de solidão. Perdi aos poucos o juízo sem perder a esperança. Sempre sonho em encontrar-me com ela num canto qualquer da cidade. Às vezes deliro. Semana passada fui empurrado bruscamente por brutamontes que acompanhava moça parecida com minha amada imortal. Reconheço a precipitação tentando beijar de súbito seu rosto. Sei que criei num átimo situação insólita motivando reação de igual natureza. Veja: hematomas no braço. Mas não desisto: vou encontrá-la um dia. Possivelmente, dirá: Insólito; você é insólito. Depois riremos. Sempre foi assim: em seguida à repreensão, risos. Eu, desajeitado para quase tudo; deslocado também. Ela, ao contrário, prática, pragmática, partícipe. Muito bonita. Lábios sensuais. Desisto; você vai aprender jamais a beijar – ela dizia-me, inconformada. Desajeitado para quase tudo – sou sim. Vida toda se entregou aos livros. A-hã: Erasmo de Rotterdam. Atualizou versão grega do Novo Testamento, traduzindo-o para o latim. Vou abrir ao acaso este livrinho de adágios; ouça: Sero molunt dorum molae – As mós dos deuses moem devagar. Não é por obra dos caprichos que sou paciente com ela deusa do reencontro – esta que, mais cedo, mais tarde, colocará minha amada outra vez no meu caminho. Às vezes acordo de madrugada, delirando, vendo o rosto dela, cujas narinas sopram suaves o lado extremo do N desenhado no tatame. Depois, desiludido não durmo mais. Fico ouvindo a própria tosse intermitente que se sobressai diante da quietude noturna. Vez em quando, nessas noites insones, cantarolo alguma canção de Billie Holiday. Gostávamos de ouvir Billie.


Nascido em Minas Gerais, em 1945, e radicado em São Paulo há 40 anos, Evandro Affonso Ferreira surgiu na literatura em 2000 – apresentado por José Paulo Paes. Participou de uma coletânea de contos em Portugal (Editora Cotovia) ao lado de Osman Lins, Dalton Trevisan, Samuel Rawet, Hilda Hilst, José J. Veiga, João Antonio e Sérgio Santana – organizada por Alcir Pécora. Tem cinco livros publicados: Grogotó! (Topbooks), Araã! (Hedra), Erefuê, Zaratempô! e Catrâmbias! (Editora 34).    

A obsessão com a originalidade da linguagem sempre foi uma marca registrada de Evandro Affonso Ferreira, cuja literatura, iniciada em 2000 com o elogiado Grogotó, chegou a ser comparada à de Guimarães Rosa. Mas agora, aos 66 anos e em seu sexto livro, o escritor está mais reflexivo. Deixou de lado o cuidado excessivo com a forma, mas sem abrir mão da musicalidade, do cuidado com as palavras, da concisão — o que já vinha fazendo desde seu romance anterior, Minha mãe se matou sem dizer adeus, vencedor do Prêmio APCA de melhor romance de 2010 e finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti de 2011.
Neste belo e devastador O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, o autor volta a abordar temas “tenebrosos”, como solidão, loucura, decrepitude, morte. Por trás do longo título está a história de um homem culto, profundo conhecedor da obra do filósofo holandês, que, depois de ser abandonado por sua amada, perdeu a razão e transformou-se em um morador de rua. Um romance “niilista-lírico”, como define o próprio autor, em que ele abre mão do parágrafo, apresentando-o de um fôlego, valendo-se com habilidade do fluxo de consciência.
Há dez anos vagueando pelas ruas do centro de uma metrópole à procura de coincidências poéticas que lhe aplaquem tristeza, dor e solidão, um homem atormentado experimenta a proximidade dolorosa do mundo enquanto espera o retorno de sua amada — a que lhe deixou bilhete dizendo “ACABOU-SE; ADEUS”.
Seu mantra, ladainha ou refrão, repetido incansavelmente, “ELA VIRÁ— EU SEI”, impulsiona-o a seguir adiante mesmo que não haja um rumo certo. Sem poder nomeá-la ou mesmo ancorá-la em algum porto seguro nos seus pensamentos, escreve a lápis em todos os espaços vazios da cidade a letra N, inicial do nome da amada, e lança desafio aos deuses do esquecimento trazendo o tempo todo à memória os momentos de intimidade afetiva e intelectual vividos ao lado dela.
Levando consigo os Adágios de Erasmo de Rotterdam, esse mendigo erudito conhece tudo sobre vida e obra do humanista holandês — sim, o mesmo do Elogio da loucura. E narra o tempo todo sua história a um interlocutor-escritor imaginário, a quem chama de “senhor”. Ambos, narrador e interlocutor, estão debaixo de um viaduto entre tantos outros personagens-mendigos, que de miseráveis anônimos e insólitos se transformam em criaturas extraordinárias na imaginação do mendigo-poeta, como a “mulher-molusco” e o “menino borboleta”.

Source : Editora Record.

Nenhum comentário:

Postar um comentário