domingo, 20 de janeiro de 2013

O Rap na encruzilhada



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Como o Rap português tem-se posicionado face à crise econômica?
Leiam a entrevista que Mickaël Cordeiro de Oliveira (*) realizou com  os rappers Reflect, diretor da editora algarvia Kimahera, e Capicua, MC do Porto cujo último último álbum foi considerado pela imprensa como um dos melhores de 2012.


Mickaël : Diz-me o que sentes ao ouvir Xoro, do Celso OPP?
Reflect : Impotência. Numa primeira instância, o sentimento é esse… transforma-se em revolta, mas quando a emoção cruza a linha da racionalidade, fecho-me no meu pensar e cultivo uma grande vontade de fazer algo para mudar este panorama. Já todos percebemos o que se passa, já muitos dedos foram apontados… a questão é: o que é que tu fazes para contrariar isso? Qual é o teu papel na mudança que tanto anseias? Nós, artistas, temos o privilégio de chegar às pessoas e influenciá-las com a nossa arte. Há que saber tirar partido dessa posição para rasgar um pouco do negro que se vangloria no dia-a-dia de cada um de nós.

Mickaël : Não acham que a “crise” invadiu as letras do rap como ela invade o quotidiano dos portugueses deixando-os sem fôlego ?
Reflect : Inevitavelmente. Por muito que queiramos seguir a nossa vida e manter-nos à parte de todo este negativismo (não falo de ignorar o problema, mas sim do simples facto de ter esperança e acreditar em algo melhor), ele é ensurdecedor e não pede licença para nos rasteirar. Quando nos toca ou mexe com aqueles que amamos, o problema ganha outra dimensão e é impossível ficar indiferente.

Capicua : Acho que, de facto, a “crise” é um tema omnipresente na sociedade portuguesa da atualidade e, como cidadãos, artistas, observadores e comentadores da realidade, os Mc’s espelham a importância e a recorrência do tema. Até porque é um tema que deriva em infinitas perspectivas e abordagens, dando aso a muita polémica e a muito conteúdo, sendo por isso um “combustível” muito interessante para o nosso trabalho criativo. Ou seja, quer enquanto matéria para denúncia, quer como estímulo criativo, a “crise” tem alimentado muitas letras de rap nos últimos anos e essa tendência tem vindo a intensificar-se.

Capicua por Miguel Refresco

Mickaël : Perde-se a poesia quando se retrata demasiado a realidade ?
Reflect : Não, pelo contrário. A poesia tem esse grande poder, de contar histórias e gente na beleza de poucas palavras, num encarrilar mágico que nos atira mundos à cara. Vejo no Fado um grande exemplo disso; a carga emocional que o caracteriza resulta de realidades tão nossas, pintadas em linhas de poetas geniais. Não é na beleza da poesia que a realidade é deturpada, da mesma forma que não é com palavras simples e directas que a realidade é retratada de forma menos digna.

Capicua : Não. Acho até que o desafio é tornar poética a realidade, mantendo a sua crueza e o seu realismo intactos na mensagem, porque é nesse limbo que a forma e o conteúdo se nivelam e a minha missão (política e artística) se cumpre.

Mickaël : Acham normal condenarem-se os rappers (ou outros músicos) que não falam da crise ?
Reflect : Nunca poderá ser normal condenar alguém que exerce a liberdade a que tem direito.

Capicua : Para mim não faz qualquer sentido, até porque considero a liberdade como a condição essencial para a criação artística e se há coisa que no Rap me apaixona é a possibilidade de servir de suporte para qualquer tema (do mais fútil, ao mais politizado). Assim sendo, no meu ponto de vista, cada Mc (tal como qualquer outro artista) deve ser livre de escolher sobre o que quer escrever, inspirando-se naquilo que achar mais conveniente ou estimulante.

Mickaël : Mas a liberdade no rap, na escolha das temáticas e das letras é mesmo total ?
Reflect : No meu caso, sem dúvida. É assim desde o primeiro poema que escrevi. O RAP é o meu espaço de liberdade. É o mundo onde posso ser eu, simplesmente.

Capicua : Só posso falar pela minha experiência pessoal, mas até hoje sempre me senti livre para escrever sobre o que me apetece em cada momento. Às vezes quero abordar um tema pela sua importância e porque tenho vontade de passar uma determinada mensagem, mas outras vezes escrevo apenas para me divertir. Posso explorar um Rap menos “interessante” do ponto de vista temático, mas mais arrojado estilisticamente, ou dedicar-me simplesmente a temas mais pessoais e autobiográficos. Não acho que uns sejam mais importantes que outros, as motivações é que são diferentes (passar a mensagem, exercitar-me tecnicamente, escrever por pura catarse emocional, etc.). Se não sentisse essa liberdade não tinha prazer em escrever e, muito provavelmente não faria o sentido continuar a fazê-lo.
Reflect por Carolina Tendon
Mickaël : Dizes “Licenciado não sou por opção, inteligência não é memorização.” Que achas do tratamento dos media que preferem abrir o telejornal com enfermeiros a chorarem por “serem obrigados a emigrar” do que falarem, por exemplo,  dos despejados  do bairro de Santa Filomena ?
Reflect : A Comunicação Social tornou-se um enviado especial da desgraça. Diz-se que é o que o povo gosta… Eu, estou farto. Ainda há pouco tempo estive uma semana sem computador nem televisão e, quando “voltei ao mundo”, tive uma perspectiva fresca sobre tudo isto… as notícias são “exactamente” as mesmas, dia após dia. É uma propaganda brutal a esta coisa da “crise”. Uma pessoa que veja o telejornal de início ao fim, fica com vontade de cortar os pulsos, literalmente. Sejam os que partem, os que cá ficam, os mais ou menos miseráveis, todos fazem parte do Portugal que somos e o Portugal que somos também tem gente com boas iniciativas, também há bons exemplos, também há energia por aí que contraria tudo isto. Essa energia deve ser mais divulgada para que inspire. Seria injusto dizer que a Comunicação Social não o mostra, porque mostra, mas precisamos de mais.
E não, não devemos esconder a miséria porque ela existe, cada vez mais, infelizmente. Simplesmente penso que lamentarmo-nos sem agir, não resolve nada. À parte de tudo isso e pegando no meu verso citado, acredito que a mudança começa na educação, na cultura, na consciência… no acordar que podemos conseguir ao termos as ferramentas necessárias para pensarmos por nós e não, não precisamos de ser todos “iluminados”. Estou farto de “iluminados”.

 Mickaël : Em “Medo do medo” afirmas que “é muito lucrativo” o mundo ter medo.
Capicua : Essa frase refere-se ao potencial lucrativo do medo para as grandes corporações, no sentido em que o medo alimenta necessidades de consumo, de proteção, de segregação, etc., o que vai enriquecendo, por exemplo, a industria farmacêutica (com vacinas e medicamentos), o mercado imobiliário (com os condomínios fechados), as empresas de tecnologia (que desenvolvem formas de vigilância cada vez mais arrojadas), etc., etc., etc. Era a isso que me referia.

Mickaël : Para vocês, qual é a melhor música do hip-hop nacional ? e a que melhor fala da “crise” ?
Reflect : Ace – Admirável Mundo Novo (Intensamente, 2003). No seguimento do que defendi, para mim esta é A música. Ouçam a letra com atenção e vão perceber.

Capicua : É impossível dizer qual a  “melhor música do hip hop nacional” porque felizmente temos muito por onde escolher e seria injusto estar a destacar apenas uma. Obviamente, sobre a "crise” acontece o mesmo. Felizmente temos muito bons Mc’s em Portugal e, muitos deles, praticam a chamada “crítica social”, comentando a realidade política e económica do país. Essa tendência intensificou-se e nos últimos meses saiu muita coisa boa. Por isso em vez de destacar uma música, destaco o álbum que mais se centra nessa temática – o  “Rapressão” do Chullage (de Abril de 2012), porque acho que globalmente é um trabalho muito marcado pela “crise” e que conceptualmente se constrói no comentário social, político e económico, com uma orientação claramente subversiva e contra-cultural.
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Citações e sugestões musicais :

Xoro Part I de Celso OPP : http://www.youtube.com/watch?v=yeB2u5oYbDI

Video Medo do Medo:

AceAdmirável Mundo Novo http://www.youtube.com/watch?v=kQyWjYmhWO8

ChullageJá não dá : http://www.youtube.com/watch?v=Q3T-kbk2zDo

Ouçam Reflect aqui

Ouçam Capicua aqui:

(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne (Paris-IV), sempre teve como objetivo principal a divulgação das artes portuguesas, mas, sobretudo, a promoção de artistas emergentes ou simplesmente não conhecidos. Colaborador do LusoJornal em Paris, do blogue BandCom, consagrado à nova música portuguesa em Lisboa, e também do website francês Chronofoot, pretende estimular e criar laços entre mundo lusófono e francófono. Neste espaço, consagrado às culturas urbanas, o Mickaël pretende mais dar voz aos que não têm uma projeção mediática ao nível do seu talento. Mickaël C. de Oliveira é também escritor e colabora para o Blog Estudos Lusófonos. Para outras informações e contatos, consultem os links :


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