sábado, 28 de dezembro de 2013

Quarenta dias com Maria Valéria Rezende

Neste mês de Dezembro a Revista Pessoa publica um trecho do romance inédito de Maria Valéria Rezende que será lançado em 2014 pela Alfaguara. Segundo a autora “O texto foi escrito de maneira cuidadosamente descuidada. “Inventei” a história, que não tem nada de autobiográfico, e fui para Porto Alegre “testá-la”, fazendo em parte o que a personagem faria. Escrevi tudo depois que voltei pra casa”, conta Maria Valeria. ”Não copiei caderninho de anotações, escrevi a partir do que absorvi da experiência e não só dos 15 dias na capital do Rio Grande do Sul, mas da vida ao meu redor… ”Quarenta dias é “um caderno de desabafos. Não é nada “intimista”, embora brote do íntimo da personagem”, como descreve a própria autora. A protagonista é uma mulher comum, nada encucada, que tem a sua vida virada de ponta–cabeça por acontecimentos inesperados. “E é escrevendo que ela tenta entender o que aconteceu, por fora e por dentro dela.”

Confiram o texto de Maria Valéria Rezende no site da Revista Pessoa :
Assistam ao depoimento de Maria Valéria Rezende para o Blog Estudos Lusófonos e à sua participação no encontro de escritores organizado pelo professor Leonardo Tonus  na Universidade da Sorbonne e  no Salão do Livro de Paris em 2012. Cliquem nos links :

Maria Valéria Rezende no Salão do Livro de Paris.

Leiam o conto “Desejo” que o Blog Etudes Lusophones publicou em 2012. 
Desejo


Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, em Santos (SP), onde morou até os 18 anos. Em 1965 entrou para a Congregação de Nossa Senhora - Cônegas de Santo Agostinho. Sempre se dedicou à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste. Formada em Pedagogia e em Língua e Literatura Francesa, e mestre em Sociologia, trabalhou durante 20 anos como educadora em movimentos e organizações populares urbanas e rurais e na formação de educadores. Viveu no meio rural de Pernambuco e da Paraíba e, desde 1986, mora em João Pessoa. Já esteve em Angola, Cuba, França e Timor, entre outros países, convidada a falar sobre seus projetos sociais. Em 2001, começou a publicar ficção e poesia para adultos, jovens e crianças, tendo recebido importantes prêmios nessa área.
A experiência de Maria Valéria com a dor do analfabetismo e também com a educação de jovens e adultos foi o mote para O voo da guará vermelha. “Uma personagem se apaixona por aprender a ler e a outra descobre um sentido para sua vida, ensinando”. A autora constrói no livro o encontro de Irene, uma nordestina que vira prostituta em São Paulo, com Rosálio, um servente pedreiro. Dona de uma escrita inventiva e conhecedora da realidade de “Rosálios” e “Irenes”, Maria Valéria fez uma obra poética e forte, que dispensa trivialidades.

Alguns links...quelques liens

Vídeos

Maria Valéria lê Geraldo Maciel .


Resenhas e informações editoriais

Conversa de Passarinhos traz o diálogo em haikais das escritoras Alice Ruiz e Maria Valéria Rezende” por Wilson Beuno  ( 19/12/2008)

Sobre Modo de apanhar pássaros à mão  ( 05/08/2006)

Reseña de O vôo da guará vermelha de Maria Valéria Rezende. Brincher, Sandro. Revista Estudos Feministas, vol. 18, núm. 1, enero-abril, 2010, pp. 274-275.

Agência Riff

Editions Métailié

Editora Alfaguara

Editora Autêntica

Críticas e comentários

Site Verdes Trigos. (27/05/2006)

Blog do escritor Alfredo Monte (6/11/2011)

“O porto encarnado de Maria Valéria Rezende” por Alessando Atanes ( 28/07/2010) 
http://www.portogente.com.br/texto.php?cod=32966

“Narrativas com fôlego” por Tânia Regina Oliveira Ramos. In : Letras de Hoje.Porto Alegre, v. 42, n. 4, p. 32-41, dezembro, 2007

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Um dedo de prosa com Carola Saavedra

crédito : Andréa Marques
Um dedo de prosa com Carola Saavedra

Assistam à entrevista que a escritora brasileira Carola Saavedra concedeu ao Blog Estudos Lusófonos durante um encontro realizado em Setembro de 2013 na Universidade da Aarhaus.  Num primeiro vídeo, Carola Saavreda relata o seu percurso literário e evoca suas inquietações acerca do seu processo de escrita. Num segundo momento, ela fala da escritora Tatiana Salem Levy e do seu romance Dois Rios.
Para assistir aos vídeos, clique nos links abaixo :



Paisagem com Dromedário ( trecho)

GRAVAÇÃO 1
Barulho de vento e de ondas batendo num rochedo. Pequenas pedras caindo na água. Passos. Interrupção. Voz.

Estou no extremo sul da ilha. Se eu nadasse numa linha reta, imagino que em algum momento chegaria ao Antártico. Terras austrais. De qualquer forma, o extremo sul não significa muita coisa, quando o extremo norte fica a pouco mais de duas horas de carro. Poucas horas de carro, e pronto, terminou a ilha. O mar, em compensação, parece inesgotável. Assustador. O mar aqui é um mar que ainda não foi domesticado. Nunca lhe foi imposto limite algum. Até mesmo as cores, o cheiro, as algas, tudo nele parece que acaba de surgir. E me vem sempre a sensação de estranhamento quando olho em volta e vejo estradas, casas, pessoas, como em qualquer outro lugar.

Faz uma ou duas semanas que estou aqui. Talvez sejam apenas alguns dias, não sei. Alex, os dias passam de modo incomum neste lugar. Mas eu não queria começar falando da ilha, também não queria começar reclamando de que o tempo passa rápido ou devagar. Queria começar falando de uma imagem. Não sei se era uma fotografia ou se fui eu que guardei aquele momento como algo estático na memória. Antes que as coisas com Karen tomassem o rumo que tomaram. Nós três. A imagem era assim: Karen abrindo uma garrafa de vinho, você a abraçava pelas costas, dizia alguma coisa em seu ouvido. Karen ria, envergonhada. Karen sempre ria assim, como se o riso fosse algo obsceno. Ela abaixava a cabeça, desviava o olhar, e ria. Eu, sentada naquela tua poltrona, o couro gasto, desbotado, eu ria também, mas meu riso, como sempre, era quase uma gargalhada. Eu segurava uma taça ainda cheia. Não sei mais qual era o motivo, mas lembro que naquele instante tudo me parecia tão suave, tão perfeito, como se fosse impossível qualquer incompreensão, qualquer desentendimento.

Silêncio. O barulho das ondas batendo no rochedo torna?se cada vez mais alto. Voz muito baixa, inaudível. Pausa. A voz continua, agora num tom mais alto.

Curioso, sabe que eu me lembro das pessoas e das fases da minha vida de acordo com as imagens que as acompanhavam. Não necessariamente relacionadas com o acontecimento em si, aliás quase nunca. Em geral, algo arbitrário, mas que, por algum motivo, ficou ali associado. Qualquer imagem, um filme, uma peça, uma fotografia. Ou simplesmente algo que acompanhou por acaso aquele instante, alguém passando, uma janela, um movimento, qualquer coisa que ficou. Penso, talvez no futuro, quando as lembranças começarem a se desvanecer, toda a minha memória passará a se guiar por isso. Ao evocar a imagem tal, surgirá imediatamente o lugar, a época e a pessoa ao meu lado, e, junto com isso, a lembrança de quem eu era, de como estava vestida, de como me sentia, do que eu pensava. E, ao recuperar de novo aquela memória, a sensação de confrontar dois momentos inconciliáveis, a Érika atual e a Érika daquele instante. Desse confronto impossível, um certo espanto, como se numa viagem no tempo eu me encontrasse comigo mesma. Nós duas, lado a lado, por fim unidas e totalmente estranhas. Penso agora, as imagens poderiam ser isso, um ponto de interseção do tempo, para o qual tudo conflui. O presente, o passado, o futuro, a criança que fui um dia, a velha que vou ser, a pessoa que sou agora. Todas essas possibilidades.

Mas, como te disse, não quero falar sobre o tempo. Tampouco sobre imagens. Na realidade, queria falar sobre sons. Te explicar por que, em vez de atender os teus telefonemas, eu me decidi por este gravador. Tem aquele filme, não lembro o nome agora. Mas era algo assim, um homem passeando por Lisboa. Em vez de uma câmera, ele tinha um gravador. E ele gravava tudo, feito um turista. Acho que trabalhava com isso, era sonoplasta, engenheiro de som, sei lá. Lembro de uma cena, ele andando por Lisboa com um microfone. Era uma imagem bonita. Talvez cada cidade tenha mesmo os seus próprios sons, o barulho do vento e do mar, ou da ausência do mar, o barulho das ladeiras, das crianças brincando, pulando corda. E há também o barulho do idioma, a musicalidade do idioma, das pessoas conversando nos cafés, nos bares, o barulho dos carros, dos trens ou dos cachorros vagando pelos cantos, ou da respiração de um cachorro que dorme debaixo de uma marquise e da sua reação quando alguém o chuta ou lhe faz um afago. Tudo isso contribuindo para os sons da cidade. Talvez cada cidade tenha a sua história sonora. E de uma forma imaginária seja possível fazer uma reconstituição de todos os ruídos que passaram por ela, feito uma sinfonia. Então cada cidade, cada lugar teria a sua própria sinfonia, sua própria partitura. Tudo o que se ouviu naquele espaço, desde seus primórdios, quando nem sequer havia cidade, nem mesmo gente, passando pelos seus primeiros habitantes, nômades que por algum motivo resolveram ficar, os passos dos primeiros habitantes, as primeiras casas sendo construídas, os primeiros amores, as primeiras brigas, depois as lutas e as guerras. Tudo surgindo e sendo derrubado, sucessivamente. A sinfonia."



Franz Erhard Walther, Photographie de l'activation du Werksatz, 1963-1969.
A volta dos que  foram
Carola Saavedra (*)

Todo relato narra uma viagem ou um crime, diz o escritor e ensaísta Ricardo Piglia, toda história seria Ulisses ou Édipo. A partir dessa afirmação de Piglia, é possível construir diversas hipóteses sobre a trajetória geográfica ou investigativa do escritor. Mas deixemos momentaneamente o crime de lado e voltemos nosso foco para a questão da viagem — o escritor como aquele que foi e depois voltou para contar a história. Podemos pensar o escritor como um aventureiro, talvez como uma espécie de Hans Staden contemporâneo. Mas o que seria isso? Comecemos então com uma breve biografia do personagem: Hans Staden foi um mercenário alemão que viveu no século 16, e, entre outras coisas, fez duas viagens ao Brasil, lutou contra índios e franceses ao lado dos portugueses, naufragou na costa de Santa Catarina, foi capturado pelos Tupinambás, e por muito pouco não foi devorado por eles. Ao voltar para a Alemanha, publicou o relato originalmente intitulado História verdadeira e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, no qual conta sua experiência durante os nove meses em que permaneceu prisioneiro.
Independentemente da qualidade do relato (não se trata aqui de crítica literária), vale a pena tomar esse acontecimento como base inicial para pensar a forma como o escritor lida com seus personagens. Assim como Hans Staden, o escritor faz uma viagem, que pode consistir em atravessar o Atlântico ou até mesmo uma viagem interior (na realidade, mesmo atravessando o Atlântico trata-se sempre de uma viagem interior). Ele vai, cruza a fronteira, tem sua experiência, volta e depois senta diante da folha em branco, ou do computador, pronto para narrar o que vivenciou. A partir desse momento há duas formas básicas de lidar com a alteridade: 1) Convivemos durante vários meses com uma tribo de índios canibais, voltamos para casa felizes de termos escapado ilesos, e escrevemos a partir daí um relato sobre os cruéis e nus comedores de seres humanos. 2) Convivemos durante vários meses com uma tribo de índios canibais, voltamos para casa felizes de termos escapado ilesos, e escrevemos a partir daí um relato sobre um estranho prisioneiro que conviveu conosco durante um longo período de tempo. A diferença entre esses dois relatos? O lugar a partir do qual narramos. Na primeira opção, trata-se do relato ao estilo Hans Staden, narramos a partir do nosso próprio ponto de vista, ou seja, o outro é alguém de quem mantemos certa distância, que temos dificuldade de compreender. Na segunda hipótese, há uma aproximação, talvez mais do que isso, há um exercício de colocar-se no lugar do outro, quem é esse índio canibal, o que ele pensa, como vê o mundo, quais as suas crenças e idiossincrasias, quais os seus medos, seu heroísmo, sua crueldade — em outras palavras, um exercício que nos exige enxergar ali características potencialmente nossas (que talvez carreguemos adormecidas em nós). O outro deixa de ser apenas um canibal para tornar-se humano, e talvez até mesmo, dando uma volta maior ainda, ele nos permita olhar novamente para nós mesmos e encontrar algo desconhecido em nós. Entre esses dois extremos — desumanizar, julgar o outro ou fundir-se com ele — situa-se o escritor, que a cada livro, cada personagem, faz sua escolha.
Altérité - Je est un autre : Woodman, Francesca, Self Deceit #1, Rome (I.204), 1977-78

Voltando à afirmação de Piglia, todo relato é uma viagem ou um crime, deixemos agora a viagem de lado, e concentremos nossa atenção no crime. Imaginemos um escritor interessado em escrever um romance em que o personagem principal comete um crime. Para tornar o relato mais verossímil, mais realista, ele resolve visitar um presídio e conversar com os mais diversos tipos de criminosos, assassinos, estupradores, etc., ou seja, faz a chamada pesquisa de campo. Vai lá, grava, anota suas conversas, faz comentários de pé de página, tem experiências únicas e intraduzíveis. Ao voltar para casa, diante da folha ou da tela em branco se vê novamente diante dessas duas possibilidades. Construir o assassino a partir do olhar de quem observa à distância (e também julga), ou colocar-se ele mesmo na pele desse personagem, o que pensa, como age, como vive, como ama, como odeia esse outro à primeira vista tão distante. Na realidade, trata-se de buscar dentro de si mesmo o cerne da própria crueldade, o assassino que ele não foi mas poderia ter sido. O crime que ele jamais cometeria (afinal, ele é uma pessoa de bem, cumpridora de seus deveres, etc.), mas que existe como possibilidade. Para que então, mais tarde, o leitor seja capaz de reconhecer-se ele também nesse jogo de espelhos, e, aceitando sua desumanidade, talvez tornar-se mais humano.
Reconhecer-se no personagem de um livro é sempre um risco que o leitor corre. E talvez seja isso que faz com que uma obra se torne um clássico, a possibilidade de, no decorrer dos anos, continuar surpreendendo, capturando (das mais diversas formas) os mais diversos leitores. Um bom exemplo disso é o romance Amor insensato, do escritor japonês Junichiro Tanizaki. Escrito em 1924, o livro narra a historia de Joji Kawai, engenheiro que conhece Naomi, uma garçonete de quinze anos, apaixona-se, casa-se com ela, e entra num processo de loucura e degradação por causa desse amor que ele não consegue sustentar e ao mesmo tempo vê-se impossibilitado de esquecer. Se de início seu plano é transformar Naomi numa mulher refinada, ele pouco a pouco percebe que quanto mais o tempo passa, e ele se esforça, mais ela foge ao seu controle, Naomi se transforma de serva em senhora dos desejos do marido. O livro, viagem e crime metafóricos (um Tanizaki-autor que incursiona pela humanidade de seus personagens, sem jamais julgá-los), encerra-se com uma afirmação, que de certa forma reafirma as possibilidades de Joji e Naomi em nós: “Aqui termina o meu relato sobre nossa vida de casal. Os leitores que o acharem idiota, sintam-se à vontade para rir. Aqueles que dele possam tirar um ensinamento moral, tomem-no como lição. Quanto a mim, estou apaixonado por Naomi e pouco me importa o que as pessoas pensem a meu respeito”. Se todo relato, como diz Piglia, narra uma viagem ou um crime, talvez para o escritor valha a pena permanecer num lugar intermediário, com um pé aqui e outro lá, Joji e Naomi.

(*) “A volta dos que foram” (maio 2012). Fonte : http://rascunho.gazetadopovo.com.br/a-volta-dos-que-foram/


               
Carola Saavedra nasceu no Chile, em 1973, e mudou-se para o Brasil com três anos de idade. Morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu um mestrado em Comunicação. Vive no Rio de Janeiro. É autora dos romances Toda terça (Companhia das Letras, 2007),  Flores azuis (Companhia das Letras, 2008; eleito melhor romance pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), e Paisagem com dromedário (Companhia das Letras, 2010, Prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti). Seus livros estão sendo traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão. Está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta.

Leonardo Tonus e Carola Saavedra/ Aarhaus 2013



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Um mistério na Rue de la Huchette

UM MISTÉRIO NA RUE DE LA HUCHETTE

                                       Tailor Diniz


Assim que entramos no apartamento, percebemos que as luzes estavam apagadas e havia uma televisão ligada diante de um sofá vermelho. Sobre a mesa de jantar avistei uma garrafa de uísque quase vazia, dois copos baixos com restos de bebida, dois guardanapos brancos, um deles manchado de batom, e, embaixo da garrafa, um manuscrito de cinco páginas. As letras eram perfeitas, o alinhamento impecável, um trabalho de precisão e beleza que só um calígrafo profissional saberia produzir. À primeira vista, me pareceu um conto escrito por alguém com uma visão de fora para dentro, através da janela, do lado oposto. Comecei a ler enquanto meus colegas revistavam os quartos, a cozinha e demais peças do apartamento:

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Dali é possível ver apenas vestígios de sombras e imagens desenhadas nas paredes, como se alguém, em algum lugar oculto, caminhasse contra uma lâmpada também oculta. Às vezes, percebe-se uma leve mudança na tonalidade da luz, de acordo com a troca de cores projetadas pelo vídeo de uma televisão que passa a noite inteira ligada. Sobre a mesa de jantar, é visível apenas uma garrafa de uísque cheia e dois copos vazios ao lado. Não se vê nenhum outro movimento lá dentro.
           
O interior do apartamento logo abaixo pode ser visto através de duas janelas abertas. Há objetos amontoados no chão, discos de vinil, um velho toca-discos, um par de botas, roupas, tapetes enrolados, uma roda de bicicleta junto à parede, um criado-mudo com uma sopeira de porcelana em cima, uma mesa de madeira rústica coberta de livros. Na cabeceira dessa mesa, destaca-se uma caixa de vidro, sem tampa, abarrotada de velhos relógios de todos os tipos, de pulso, de parede, despertadores, grandes e pequenos.

É difícil imaginar que alguém consiga viver ali, em meio àquele caos de sobressaltos, onde a renúncia à vida parece ter tirado espaço até para se pousar um pé. O homem que escreve pensa nisso, até que a verdade, com surpresa, vem contrariar a ficção que ele tenta criar sobre a impossibilidade de alguém habitar aquele lugar absurdo. Aparece ali um casal; ela na frente, ele a uma distância pequena, mas prudente, dada a dificuldade para se manterem em pé ou com equilíbrio. Ele retira alguns livros de cima da mesa, larga-os no chão entre dois tapetes enrolados, e ela acomoda uma terrina de sopa sobre um guardanapo, no lugar onde ele abrira espaço entre os livros. Em seguida, aparece um homem velho, que caminha com dificuldade, e senta-se à mesa. Traz consigo os talheres e um pequeno prato com comida. Assim que se senta, um gato pula para cima da mesa e começa a comer do pequeno prato.

Sobre a mesa do homem que escreve há um relógio, e ele se dá conta de que está há quase vinte e quatro horas do episódio com a moça da água-furtada que mora em cima do apartamento onde a televisão passa a noite inteira ligada. Ele escreve com vagar, como o artista que cinzela um objeto de arte:

"Pode-se dizer que o caso teve início quando ouvi o barulho estridente de algo caindo lá embaixo, de uma garrafa que se espatifa no chão, e saí à janela. Não pude descobrir o que era, mas me chamou a atenção, também olhando para baixo, no apartamento lateral direito, uma mulher de cabelos soltos, muito brancos e ralos, quase careca, as poucas pontas tocando-lhe os ombros. Trazia uma caneca de chá na mão — e, posicionado às suas costas, um homem mais jovem, de camiseta e abrigo, não escondia uma expressão de desagrado com o fato de ela ter aberto o vidro e por ali estar entrando frio. Tenho muito claro que foi nesse instante, ao ver o rosto irritado dele, que olhei para cima, na direção de uma porta-janela, atrás de uma minúscula sacada gradeada de ferro. Ali ficava uma água-furtada adaptada com uma porta-janela, através da qual eu podia ver uma pia com um espelho em cima, parte de um aquecedor de água, a metade da porta de saída, meio forno de micro-ondas, um pequeno armário de parede sem portas com garrafas de água e uma caixa de suco dentro. Diante do espelho, estava ela, uma moça elegante que não devia ter mais de vinte e cinco anos. Esfregava um algodão embebido na face, nas pálpebras e abaixo do queixo. Demorou-se uns quinze minutos nesse trabalho e sumiu. Como demorasse muito, eu pressentindo que alguma coisa estava para acontecer, apaguei a luz e coloquei uma cadeira diante da janela. Embaixo, o homem e o gato terminaram de comer, levantaram-se e não mais pude vê-los. A mulher quase careca e o rapaz de abrigo falavam alto, como se discutissem por alguma contrariedade. Na água-furtada da moça, a luz se mantinha acesa, nada de movimentos ou sombras, apenas os objetos antes inventariados em seus respectivos lugares. Ao desviar os olhos para baixo, tive a impressão de que um outro gato pulava para cima de uma caixa de roupas, ao mesmo tempo em que alguém ligava um aparelho de som. A moça reapareceu diante do espelho acima da pia. Usava uma camiseta branca, e o cinto da calça jeans desafivelado e caído sobre as coxas. Dançava, os braços erguidos, em arco, o que me fez acreditar que a música do aparelho de som vinha de lá. Abriu as partes envidraçadas da porta-janela, olhou para baixo e sumiu outra vez. Em questão de segundos, vi um retângulo de luz se produzir na parede, seguido de uma sombra projetada no armário sem portas, onde estava a caixa de suco. Uma outra lâmpada havia sido acesa, dentro de outra peça, daí a sombra na parede. O rapaz e a mulher quase careca haviam parado de discutir, e sinal de vida no entorno, apenas da música e dos hóspedes do hotel que subiam as escadas até o último andar, onde o elevador não chegava."
 
 Jean-Luc Vilmouth, Local Time


Ao cabo dos vinte minutos que o homem que escreve contou no relógio, filtrada pela luz direta de uma lâmpada oculta, avançou no ar uma frágil nuvem de vapor, vinda da parte oposta à parede da pia. A nuvem cresceu e logo se dissipou em função do ar entrando pela porta-janela que ela deixara aberta. Ele abriu um vão da sua janela e olhou em volta, até onde seu ângulo de visão permitia. Queria ver se mais alguém poderia estar ali a saciar a curiosidade sobre o ambiente e os futuros movimentos dela. Foi nesse momento que, conforme ficou registrado em seu texto, ele sentiu um leve aroma de lavanda, de perfume, de xampu combinando com o vapor de uma ducha aquecida, “um cheiro que vinha a se misturar ao aroma abaunilhado de croissants ao forno que inunda a cidade a partir de todas as madrugas.”
Ela retornou sem demora, os cabelos molhados, um secador branco na mão, que plugou numa tomada ao lado do espelho. Enxugou os cabelos, admirou-os, movimentou-os para um lado e outro, aproximou várias vezes o rosto do espelho, de frente, de lado, mexeu os lábios, desplugou o secador da tomada e sumiu. A partir dali, o homem que escreve poderia ter ido dormir, mas a inquietação o fez esperar. Enquanto esperava, ficou a imaginar de que nacionalidade seria ela, e desenvolveu uma tese: devia ser nórdica, pelo tom da pele, sem marcas de sol, e a cor dos cabelos. E era outono, fazia frio na cidade, ele estava agasalhado dentro do quarto, mas ela fazia tudo aquilo com a porta-janela aberta.

Depois de alguns minutos, que agora ele não marcou no relógio, ela voltou para frente do espelho. Vinha vestida, usava uma blusa de lã vermelha, gola alta, calça jeans muito justa e botas de salto alto. Maquiou-se com esmero, observando todos os detalhes que uma mulher conhece quando quer ficar mais atraente do que já é. Ele acompanhou-a até vê-la abrir a porta — e voltou a escrever:

Terminada a maquiagem, ela pegou um casaco preto, apagou a luz, abriu a porta e saiu. Lembrei-me, então, de um dos tantos episódios de bar relatados por Hemingway em seus escritos em primeira pessoa. Ele escrevia um conto, por sinal num café quase aqui ao lado, quando lhe chamou atenção a presença de uma moça sentada a uma mesa próxima. Ficou alguns minutos a observá-la. Mas como a escrita do conto fluía bem, ele se distraiu e não a viu ir embora: “Reli o último parágrafo e, quando levantei os olhos à procura da moça, não a encontrei mais. Tomara que tenha ido com um homem decente, pensei. Mas me sentia triste.”

Sobre a pequena mesa do homem que escrevia, o relógio marca oito e quinze da noite: pelas suas contas, a hora em que, no dia anterior, ela teria chegado em casa. Apaga a luz e abre as cortinas. No apartamento da frente, as luzes e sombras da televisão que passa a noite inteira ligada se projetam na parede como se fossem as únicas criaturas a habitar a solidão daquele espaço deserto no coração da cidade. É quando a luz da porta-janela da água-furtada dela se acende. Oculto atrás das cortinas, ele ainda tem tempo de ouvir o miado do gato faminto à espera do velho que não demorará a chegar à mesa para lhe fazer companhia. Às suas costas, algo como o movimento de duas folhas secas desgovernadas pelo vento finca as garras pontiagudas na parede e também espera, talvez um morcego que tenha entrado pela janela sem ele perceber. Nesse momento, alguém chega ao apartamento onde a televisão passa a noite inteira ligada, mas ele só vai perceber momentos depois, num sobressalto, quando as luzes forem acesas".



                                   ***********

Terminei a leitura do manuscrito com a sensação de que a escrita fora interrompida de forma extemporânea ou alheia às intenções de quem escrevia. Recoloquei-o embaixo da garrafa e fui até a janela conferir o quarto do lado oposto, no hotel, de onde suponho que o conto fora escrito. As cortinas estavam abertas, e não havia ali qualquer movimento, pelo menos aparente. Pensei em reler o texto, entender o objetivo daquela alternância de narradores que sugeria um exercício de metalinguagem, mas um dos meus colegas que revistavam o apartamento veio me dizer que a porta do banheiro estava trancada com tijolos e cimento. Tomamos as providências, e em pouco tempo tudo foi colocado ao chão. Emparedado no pequeno box, foi encontrado o corpo de uma stripper andaluza que trabalhava em uma casa de shows eróticos da Rue Saint-André-des-Arts e estava desaparecida havia sete dias.
Houve muitas dúvidas e contradições sobre os fatos ocorridos a partir da hora em que o conto supostamente termina, quando retoma a palavra o narrador em terceira pessoa. Ao serem interrogados, o rapaz de camiseta e a mulher quase careca entraram em divergência tão logo começaram a falar. Ela disse que ouviu um barulho ensurdecedor, de um avião ao quebrar a barreira do som, que quase a deixou surda. Ele contestou de imediato. Teria ouvido também um som, mas o grito terrível de uma besta que teria durado mais de um minuto. No entanto, não soube sugerir se esse grito tinha equivalência ao grito de algum animal conhecido. O casal do quarto revirado, por sua vez, se referiu apenas a uma poderosa luz atravessando a janela. Mas, até quando lhes foi permitido falar, divergiram quanto à cor da luz. Ela viu um vermelho alaranjado muito forte. Ele, algo como um azul mortal, embora lhe tenham faltado palavras para esclarecer o que seria em realidade uma cor azul mortal. O homem que comia com o gato era alienado, e dele nada se conseguiu ouvir, a não ser resmungos de quem imita um animal. A moça da água-furtada, uma croata de francês imperfeito, foi a que menos incoerência apresentou. Admitiu que no momento citado sentiu um breve sobressalto, como se estivesse sendo observada por alguém. Mas isso, revelou, era comum quando aquele quarto do hotel era ocupado por homens. Fato com o qual, aliás, ela não se importava. No hotel, porém, não havia registro de que o quarto tivesse sido ocupado nos últimos sete dias. Reli o manuscrito uma dezena de vezes para só então perceber que havia ali, na parte submersa do iceberg, uma pista concreta e objetiva. Mas, daquela noite, para todos os que dela tomaram conhecimento, ficou uma única e irrefutável certeza: o que se ficou sabendo não foi tudo o que de verdade aconteceu.
                                                         
                                                                             Paris, outubro de 2013


Tailor Diniz é escritor e roteirista de cinema e TV. Tem doze livros publicados, entre eles Transversais do Tempo, Bertrand Brasil, Prêmio Açorianos de Literatura 2007 — Melhor Livro de Contos, e Prêmio Associação Gaúcha de Escritores 2007 — também Melhor Livro de Contos. Crime na Feira do Livro, lançado em alemão na Feira do Livro de Frankfurt/2013, foi finalista do Prêmio Açorianos de Literatura, edição 2011, categoria Narrativa Longa. Seu último livro, A superfície da sombra, está sendo adaptado para o cinema.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Dinâmicas Genealógicas

Jan Hogan, Becoming
Palestra com o Prof. Dr. Leonardo Tonus
(Université Paris-Sorbonne)


Novas dinâmicas genealógicas na Literatura Brasileira Contemporânea


Dia 9 de Dezembro
Das 17 às 19 horas

Pontifícia Universidade  Católica do Rio Grande do Sul
Faculdade de Letras

Delfos – Epsaço de Documentação e Memória Cultural
Av. Ipiranga, 6681 Prédio 16, 7o andar | Partenon
Porto Alegre/RS

Com o apoio do grupo de estudos limiares comparatistas e diásporas disciplinares.

Neste trabalho procuro discutir como a literatura brasileira contemporânea  tem pensado os deslocamentos dos paradigmas genealógicos, seus procedimentos de transmissão e suas dinâmicas de filiação.  Trata-se aqui menos de questionar os problemas relativos à chamada crise da instituição familiar, do que observar a emergência de um novo “viver em comum” idiorrítmico. Pensada a partir do cotidiano e de seus ritos, de suas próprias cadências, de suas regras e signos particulares, a utopia idiorritmica barthesiana aponta para a co-existência de modalidades múltiplas que se desregulam e se engendram na fluidez aleatória das vivências e dos seus tempos. O « viver em comum » idiorrtimo pressupõe a dissolução da « comunidade substantiva ». Neste sentido, ele é anti-genealógico como uma boa parte da produção romanesca brasileira recente que tende a posicionar suas personagens nos espaços precários e revogáveis do estranhamento.




Leonardo Tonus é especialista da questão da imigração na literatura brasileira contemporânea, coordenador do Departamento de Português e responsável  pedagógico do Programa PLI-França na  Universidade da Sorbonne. Publicou diversos artigos sobre a obra de Graça Aranha, Plínio Salgado, Samuel Rawet, Lya Luft, Adoldo Boos Júnior, Milton Hatoum, Nélida Piñon, Adriana Lisboa, Bernardo Carvalho, Daniel Galera, Chico Mattaso, Joca Terron Reiners et Luiz Ruffato.  Membro do conselho editorial e do comitê de leitura de diversas  revistas literárias, co-dirigiu a publicação dos ensaios do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet ensaios reunidos, 2008) e do número 2 da Revista Iberic@l sobre Literatura Brasileira Contemporânea (http://iberical.paris-sorbonne.fr ).  Foi responsável pelo número 41 da Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, consagrado à representação da pobreza na Literatura Brasileira (http://www.gelbc.com.br/inicio.html ) e dirige o Blog Etudes Lusophones. http://etudeslusophonesparis4.blogspot.fr

sábado, 30 de novembro de 2013

As contingências de Veronica Stigger

Escrever as contingências, escrever com as contingências:
Opisanie Świata, de Veronica Stigger

Por Eduardo Jorge


Somos atravessados por contingências. Elas, por vezes, chegam a ser definitivas se incorporadas a projetos, e podemos nos perguntar o que leva alguém a escrever um livro, ser filósofo ou dedicar-se a antropologia ou matemática. Em um momento, tudo que é aparentemente contínuo pode ser interrompido, alterado, seja na vida ou nas narrativas que estão no seu entorno; como escreveu Maurice Merleau-Ponty, em La Nature, a vida não possui obrigação de continuar aquilo que ela começou. Opisanie Świata, de Veronica Stigger, dialoga com uma urgência parecida. A narrativa começa com uma interrupção, com uma carta. Carta, aliás, ditada por um jovem moribundo no leito de um hospital ao norte do Brasil. Natanael, filho de um polonês que nem sequer se sabia pai, delira com a possibilidade de conhecê-lo pessoalmente. O senhor Opalka, que desconhecia o fato de ter tido um filho, empreende a travessia marítima da Polônia à Amazônia. Trata-se ainda de uma travessia entre som e sentido, continuidade e descontinuidade, entre palavras-polo que contrastam suas histórias e geografias, expondo o que elas têm em comum, os confins.
A paternidade de Opalka é uma dupla contingência. Quando ele descobre que tem um filho, é praticamente para perdê-lo. Mesmo assim, ele empreende a viagem para ver o filho doente nos trópicos, isto é, situado na “geografia do mal-acabado”, para fazermos uma menção a Raul Bopp, autor do Cobra Norato. Nesse sentido, Bopp surge como um dos personagens controversos do Opisanie Świata. Sempre com cadernos, meio desajeitado em gestos curtos, ele afeiçoa-se a Opalka e decide partir com ele para a Amazônia, torcendo para que seu filho esteja bem. Bopp aparece como um viajante. Em uma de suas lembranças, uma das mais intensas que ele relata a Opalka, uma mulher lhe aparece quando ele estava dormindo em uma rede, na Amazônia; era uma viajante que lhe transmitia uma experiência que muito bem pode ser um ethos do deslocamento, uma busca pelos lugares provavelmente afastados do mito do cosmopolitismo: “viajar é ir para o Egito, para a Líbia, para a Turquia”, “Conheci o Egito, a Líbia, a Turquia. Fiquei dois anos for a. Sempre trabalhando. Trabalhando e viajando. Mas preste atenção, me disse ela, por fim, com o dedo apontado para o meu nariz, é preciso voltar. Fique um ano, dois, três. Mas volte”, e repete, finalmente, é preciso saber voltar
Além da carta enviada a Opalka, existe uma fotografia enviada por Natanael, “estou com os olhos exageradamente arregalados e ela, linda, com os cabelos presos num coque alto, parece triste. Os olhos dela não brilham e uma ruga corta-lhe a testa. Aos nossos pés está Frida, a macaquinha que o senhor deixou conosco. Nossas roupas eram emprestadas e o fundo, uma paisagem falsa”. A fotografia descrita por Natanael se inscreve parodicamente à clássica fotografia de Tristes Tropiques, na qual Lévi-Strauss posa com Lucinda, macaca de companhia do antropólogo no período em que esteve no Brasil.
Opisanie Świata incorpora explicitamente dois procedimentos. A prosa telegráfica das Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade (também incluído no livro como personagem), e as obras que Verônica Stigger produz como artista visual, isto é, placas de frases contingenciais ou ainda frases-ready-mades, que, uma vez reapropriadas por ela, são exibidas em uma tipografia manual, em placas, como pode ser visto no centro de São de Paulo, mais precisamente na Rua 24 de maio, na unidade do Sesc em construção, e na exposição que ela fez na Bélgica, no contexto da Europalia, entre dezembro de 2012 a fevereiro de 2013. Essas frases, deslocadas do contexto original, ganham outro significado, uma “arqueologia do presente”, segundo Veronica Stigger; enfim, frases que dialogam com alguns versos de Chico Alvim, por captarem com precisão todo um inconsciente cultural exposto em frases feitas. Entre ambos os procedimentos, existe o trabalho da pesquisadora, a escolha dos anúncios publicitários e os textos de guia de viagem que fazem parte da imagerie da travessia, agora de Opalka e de Bopp. Em um dos episódios do livro, os dois dividem o vagão do trem para chegar ao porto, com um russo monolíngue visivelmente em estado deplorável e uma italiana, Priscila Antonini, que dança a tarantela. Priscila tem um certo tarantismo quando fecha os olhos e faz com que os movimentos involuntários do corpo venham à tona. Ela mobiliza praticamente todos os passageiros que seguem em busca de um animal que provavelmente é uma tarântula. As aparições, os acontecimentos quando se está em deslocamento migratório, sobretudo para Opalka, que volta para encontrar o filho, retomam os mitos imemoriais da viagem, como as sereias, a linha do equador, que, para quem nunca a cruzou, tem de passar por um curioso rito de iniciação. Nesse sentido, a carta do comandante Egon Schild à tripulação do navio cria um momento plástico para a passagem do navio pela linha física, nada imaginária, do equador.
Quando Opalka cruza o atlântico, Jean-Pierre o aguardava, como Nataneael avisa na carta. Mal ele chega, Jean-Pierre lhe diz que a Polônia não existe mais e que seu retorno era improvável: “Porque o senhor não poderá voltar, pelo menos não por agora, não sabe? O senhor ouviu as últimas notícias? A Polônia acabou. Anunciaram hoje. Acabou. Foi tomada. Daqui a pouco a Europa não vai existir mais, se é que ainda existe”. Opalka, no entanto, parte diretamente para o hospital para conhecer o filho, cujo estado de saúde era bem frágil. Gravemente enfermo, o filho no próprio universo da doença parece fazer jus ao que Raul Bopp escreveu sobre a malária, que, contraída em suas viagens, acomodou uma humildade no seu espírito, mas também um mundo surrealista com espaços imaginários. Prova disso talvez seja seu caderno de capa dura vermelha, que após sua morte é lido por Opalka, caderno do qual reproduzimos dois excertos: “O homem e o chimpanzé serão muito amigos/ (talvez amantes)/ e dormirão no mesmo quarto” ou “O segredo estará do outro lado do país/ desse país imenso/ que ele acredita ser seu”. 
O tempo da travessia foi mais forte que o tempo de resistência do filho sobre o leito. Sem filho e sem pátria, Opalka chega a tempo para cumprir socialmente o luto, encarregando-se da cerimônia. Na ocasião, Bopp lhe entrega um caderno em branco, já envelhecido pela falta de uso: “Para que o senhor escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que não esqueceu (…) ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu”. Nesse momento, a operação de montagem do romance, sua cesura, começa a partir dos erros de Opalka. Essa operação é demonstrada pelo gesto de escrever e rasurar: Opisanie Świata. Rasura para a tradução do termo que em português é Descrição do mundo. E em seguida: memórias. Bopp. Romance, até que ele chega à dedicatória de um livro que ainda não foi escrito: “Para Natanael, meu filho”.




Eduardo Jorge (Fortaleza, 1978) publicou San Pedro (2004), Espaçaria (Lumme Editor, 2007) e Caderno do estudante de luz (Lumme Editor, 2008).

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Todo africano nasce escritor



 Todo africano nasce escritor

Por Alexandre Staut

Para o escritor moçambicano Eduardo Quive, a escrita é um cordão umbilical, conforme ele diz. « À semelhança da maioria das crianças do meu país, não tive acesso à escrita e isso veio a agudizar-se pelo facto de estar fora da metrópole. Na verdade em Moçambique a cidade é um sonho. Nada há o que a torna realmente cidade. Tudo centra-se na palavra ‘capital’”, diz. Para encontrar bibliotecas, por exemplo, é preciso que se vá a Maputo, a cidade mais importante do país. Dessa forma, na infância passada no interior, a inspiração não veio dos livros, mas da noite e das crianças do seu bairro, que lhe contavam histórias de xitukulumukumbas (monstros). “Mas, efectivamente, quando tive o primeiro contacto com o livro gerou-me o susto que me custa a vida até hoje. Os contos de Suleiman Cassamo em O Regresso do Morto, os poemas de José Craveirinha em Karingana wa Karingana e Xigubo, bem como a rapsódica do tio Dinasse em Xikandarinha na Lenha do Mundo, de Calane da Silva tornaram-me naquele que já sabia que nos livros há outros meninos como eu, há sonhadores, imbecis também”, enumera.

Autor do livro de poesia Lágrimas da Vida Sorriso da Morte (2012), de Brasil e África: laços poéticos, escrito em coautoria com o brasileiro Valdeck Almeida de Jesus e dois escritores angolanos, Quive ainda participou de antologias na Itália e outros países lusófonos. Agitador cultural e criador de encontros e revistas literárias em seu país, lança no mês que vem um livro de entrevistas de escritores moçambicanos pela editora brasileira Kazuá, de São Paulo. Quive falou com o Études Lusophones, por email, sobre a literatura moçambicana, sobre seu processo criativo e literatura brasileira contemporânea. Leia a seguir:

Quais são os aspectos que mais chamam a atenção na literatura do seu país?
A literatura moçambicana tem o factor interessante de ser feita mais por natividade literária do que por gosto adquirido. O que quero dizer é que o escritor moçambicano tem a literacia dentro de si. Nós temos aqui escritores natos. É verdade que estes precisam de se cultivar. E há o factor curioso de haver este “conflito” dentro do autor entre a oralidade e a escrita. Muitas das nossas personagens literárias são fontes vivas, mesmo tratando-se de ficção. É como diz o escritor angolano Ondjaki, todo o africano nasce escritor, este continente está cheio de histórias/estórias, imagino que saiba, já pisou estas terras. O que me chama atenção é esse factor comum em quase todos os livros. A grande surpresa em mim, quando leio um autor moçambicano, não é a história em si, mas é notar que o que eu sei/vivo foi contado com alma e sangue. O grande tema recorrente, aliado a isso, são as guerras. Se se sai daí, entra-se directo para a sociedade e o tradicional. E também há o tema da esperança… Moçambique vive histórias bastante conturbadas, então isso é involuntário do próprio autor. Fazemos uma literatura engajada, ideológica e sanguínea. Uma literatura de causas para bem dizer.

E quando comparamos a literatura do seu país a outras de língua portuguesa?
Dentro do continente e se calhar porque todos os países de língua portuguesa africanos tem quase a mesma história, então quase a sensibilidade é a mesma. O que se difere é como os autores de diferentes países exercem essa literatura patriótica que também se pode converter em literatura política. Em Moçambique, nós temos bons escritores, mas há sempre aqueles que têm relação inflamada, não necessariamente com a pátria, mas com os rumos que toma. Sucedida a literatura do “amanhecer” ou do enaltecimento da nova república (famosa geração Charrua, criada a partir de 1982) em substituição da literatura de combate (literatura como forma de luta contra o jugo colonial), há um olhar mais crítico para a pátria actual. Quanto a Portugal e Brasil, vejo a nossa literatura mais próxima do Brasil. Como disse uma vez o professor-doutor Lourenço do Rosário, ainda há uma relação de colonizado e colonizador entre Moçambique e Portugal, embora, assuma-se os escritores moçambicanos tenham lido os clássicos portugueses. Mas é o Brasil que mais se faz sentir entre a nossa escrita e os escritores já vieram assumir isso. Eduardo White, tido como maior poeta vivo em Moçambique, já veio a declarar Carlos Drummond de Andrade como seu poeta. E podemos encontrar um pouco de Machado de Assis sobretudo na forma cómica que o escritor Aurélio Furdela tem tratado as suas acções fatídicas.



Quais temas, ainda não abordados, gostaria de ler nos livros dos autores moçambicanos?
É complicado responder esta pergunta. Hoje, nós temos no país escritores a desapegarem-se, cada vez mais abrem-se para o mundo, principalmente por parte dos poetas. Mas podia dizer que falta, por exemplo, que grandes reportagens sejam tratadas em livro. Ainda não estamos num país de total liberdade de criação isso porque se quer há como publicar esses livros. Falta, no entanto, libertar-nos dos curandeiros, feiticeiros, entre outros problemas que já foram muito bem explorados. E depois falta, principalmente na poesia, que se deixe de confundir sexo e sexualidade. Para mim, por exemplo, em literatura tem mais sentido que se explore a sexualidade que o próprio sexo. O sexo é óbvio e a sexualidade é uma descoberta. Entre outras coisas…

Mia Couto é muito conhecido fora de Moçambique. Mas e os outros autores? O que sugere como leitura a quem queira se iniciar na literatura do seu país, pensando-se na escrita contemporânea?
Mesmo no contexto dos autores dos anos 1980, há aqueles de quem as academias sempre passaram por cima. Agora que realmente tenho um contacto com professores de literaturas africanas no Brasil imagino as dificuldades de se obter livros moçambicanos sem que esses sejam editados no Brasil. Por isso ainda falaria de um nome antigo, mas que ainda não foi lido, ao meu entender, como merece, falo de Aldino Muianga (contista) e Amin Nordine (poeta). Mas, dos contemporâneos, se é que esse termo serve realmente para nós, sugiro Adelino Timóteo principalmente em livros como A Virgem da Babilónia, Nação Pária, e estes dois últimos livros Não Chora Carmen e Nós, os do Macurungo; tem também os contos de Lucílio Manjate, particularmente fascinou-me o seu romance Os Silêncios do Narrador e este último A Legítima Dor da Dona Sebastião, tem o Andes Chivangue em A Febre dos Deuses; o Midó das Dores em A Bíblia dos Pretos; pode-se ler a poesia de Tânia Tomé, Mbate Pedro, Léo Cote e Sangare Okapi, este último o que considero a verdadeira certeza da poesia moçambicana. Se fosse em altura própria podia dizer que se leia também o poeta Amosse Mucavele e Mauro Brito e interligando-os a outros três bons contistas Nélio Nhamposse (Matiangola), Japone Arijuane e Nelson Lineu. E temos uma boa poetisa a caminho, chamada Hirondina Joshua. Em fim, a grande dificuldade nisto tudo será conhecer estes escritores, porque certamente não será possível achá-los em grandes livrarias seja no Brasil, Angola e muito menos Portugal. Escolho estes nomes por encontrar neles o símbolo desse novo rumo da literatura moçambicana. Estes escritores demonstram que hoje, há novas leituras que feitas e que o país, fora Mia Couto, em curto espaço de tempo pode recolher prémios internacionais porque fazem uma literatura que ultrapassa o território moçambicano. Isso para mim é bom.

O que gostaria de falar sobre os seus personagens? Quais são os seus desejos?
Os meus personagens são engratos. Para comigo e para o leitor, certamente. E isso pode se calhar, notar-se na novela que espero publicar no próximo ano cujo título, caso não mude, será A Estranha Morte de João Barbosa Filho. O que acontece é que há respostas que eu próprio, na qualidade de seu criador não tenho sobre esses personagens e certamente, será uma tarefa especialmente para o leitor. Gosto de fazer esse jogo decifratório. Fazer com que eu próprio me sinta desconhecido das minhas criações. Mas acima de tudo penso que eu vaticino má vida aos personagens se calhar por questões de espaço em que vou encontrando o motivo para criá-los. Quanto ao meu desejo é sempre o de escrever, escrever sempre, e nunca escrever só por escrever. Escrever por causa e missão, nunca por tarefa.



E sobre os personagens da literatura moçambicana. O que os move?
Um dos maiores inventores de vidas ou de personagens, como queiramos, é o escritor Mia Couto, creio que não há muitas vozes contra isso. E os personagens de Mia Couto são gentes conhecidas, pessoas que convivem ao nosso lado ou nós mesmos. Acho incrível quando um escritor consegue, tão bem, tornar essas pessoas comuns em incomuns quando os encontramos nos livros de Mia. É um camponês normal que na escrita miacotiana conseguem ser verdadeiros profectas, pensadores e atiradores de provérbios. Podia falar de escritores como Luís Bernardo Honwana e Suleiman Cassamo que ninguém, até hoje, os conseguiu substituir nos seus livros Nós Matamos o Cão Tinhoso e O Regresso do Morto, respectivamente. Em Suleiman Cassamo em particular, encontramos “o povo pela sua própria boca” como ele já se referiu numa entrevista que o fiz. A diferença nesses dois últimos e Mia Couto é que enquanto o Luís Bernardo consegue fazer personagens consoante o aspectro colonial, Suleiman foi buscar a ruralidade dos moçambicanos e Mia trabalha com a sabedoria humana nos seus personagens o que os torna eternos. O Aldino Muianga e Carlos Paradona Rofino Roque são também pessoas que entram para a essência tradicional para buscar as vidas que retratam as suas obras. Mas há também personagens modernas na actual literatura, que já vão saíndo da ruralidade ou de aspectos sociopolíticos. Personagens como Yara da obra A Virgem da Babilónia de Adelino Timóteo, que por um lado nos parece irreal conseguem trazer um aspecto abstratista e poético muito forte. A missão desses novos personagens, como os que podemos encontrar no romance Os Silêncios do Narrador de Lucílio Manjate, é a de nos criar a viagem e emoções fora do aspecto habitual. Elas nos trazem um novo exercício que é o da constante tentativa de desenhá-las e depois fazer o reconhecimento. De um modo geral, penso eu, fora o próprio Mia Couto, pelas razões que já mencionei, ainda há um campo muito aberto para a criação de personagens. O grande problema, em que concordo com o professor Francisco Noa, é que temos bons contistas que se agoiram no romance, seduzidos pelo sucesso aludido (supostamente) e a grandeza que se dá a esse género, que acabam matando grandes histórias. Penso, outrossim, que a fertilidade do continente de alguma forma, vai empobrecendo os nossos escritores, não por culpa da fertilidade em termos de histórias para contar, mas pela infertilidade dos próprios escritores.



Poderia falar do seu trabalho como editor de revistas literárias?
Actualmente, dirijo a revista NÓS – Artes e Cultura, que se trata de um sonho antigo de fazer um jornal só e somente cultural num país em que a cultura está para 10º plano. Um país que a sua maior riqueza é a cultura, tratando-se desta que não trás conflitos, muito pelo contrário, muitas vezes usada como solução pacífica para vários conflitos. Então NÓS seria ou é esse espaço aberto para a multidisciplinaridade das artes. Mas a primeira revista que fundei mesmo foi a Literatas, nos finais de 2010. Eu já era jornalista e começava a entender que a cultura é meu sol, meu mar e minha terra. Na mesma altura em que o Movimento Literário Kuphaluxa estava no auge da sua criação mobilizei meus parceiros do movimento para que criássemos a revista e falei-lhes de uma coisa muito estranha ainda em Moçambique chamada “blogue”. Nessa altura, a ideia embora reconhecida como boa e inovadora, foi olhada com muita timidez e desdenho. Desdenhava-se essa coisa chamada “blogue”, dizendo-se que não seria encarada com seriedade e não se acreditava na utopia de jovens como nós tão pouco influentes em muitas esferas, que podiam criar o seu próprio espaço perante um cenário em que nenhum jornal tem espaço para as criações literárias. Confesso que desiludi-me com os companheiros. Mas a minha teimosia fez-me criar, mesmo assim o blogue e dei unilateralmente o nome à revista, chamando-a Literatas e criei também o blogue: revistaliteratas.blogspot.com. Os primeiros quatro meses eram penosos para a ideia, porque nenhum companheiro colaborava, mas eu fazia as reportagens, já que era jornalista. E tínhamos mais brasileiros dispostos a colaborar. Só mais tarde, depois desses primeiros quatro meses foi sendo entendida a ideia até que passamos a paginar a revista e enviar por e-mail. Aí era uma espécie de afirmação total. Com muitos que só criticavam sem se quer colaborar a ideia foi abraçada por muitos jovens hostilizados e outros que só precisavam de estar em um ambiente igual para publicar seus escritos. A Literatas teve uma sobrevivência já mais vista em revistas literárias em Moçambique, nas minhas mãos, ela foi até a edição 58. Tivemos incentivo por parte de escritores de todo o mundo, até professores e escritores norte-americanos ficaram encantados com a iniciativa e até hoje, são muitos os escritores que vem a Moçambique porque conheceram o país, literariamente, pela Literatas. Uma pena que o país em si, de certeza não dava a mesma importância e ouve aqueles que, inclusive, vaticinaram a revista à curta vida. O que veio a confirmar-se, isto porque até os que nunca deram muito por ela dentro do Movimento Kuphaluxa, foram percebendo o seu valor mais do que literário e quiseram usar-se disso para ganhos individuais. Hoje e pela primeira vez nesta entrevista, declaro a morte da Literatas – Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona, um facto que nunca quis assumir, por uma questão de nostalgia e do facto de esse sonho, se calhar ter sido mais meu do que de muitos. E vou mais longe, sem querer exagerar no discurso (todos conseguem notar isso), bastou que eu abandonasse o projecto por “perseguição interna” para que o projecto não fosse para mais de uma edição. É uma pena para o nosso Kuphaluxa, que poderia ter dado mais duração à Literatas ou, pelo menos, uma morte digna a uma revista que, assuma-se, era a única referência actual que Moçambique tinha e usada em vários países como uma fonte segura para o ensino de literaturas africanas de língua portuguesa entre outras. Hoje sei que há alguns estudantes que tem a revista Literatas como tema de teses de licenciatura. E até hoje tenho recebido vários e-mails de gente querendo informações que só a revista Literatas sabia dar sem que as pessoas contactassem alguém. E agora neste projecto que movo a título individual pretendo trazer um espaço para a literatura e todas as artes moçambicanas.

Você também cria encontros e feiras literárias... Poderia se dizer que você é um agitador cultural, em Maputo?
No capítulo dos encontros e feiras literárias é-me difícil falar deles como realizações somente minhas. Posso até conceber ideias sozinho, mas a execução é bem mais exigente e complicada e só um movimento literário como Kuphaluxa dentro do País consegue fazer isso. Todos sabem que a Associação dos Escritores Moçambicanos já desfez-se desse papel há algum tempo, embora seja a entidade que tem mais facilidades de ter patrocínios para essas actividades. Nessa altura, lembro-me do que sempre falamos entre companheiros do Kuphaluxa, não é o dinheiro que impede muitas realizações, mas a incapacidade humana e organizativa. O Kuphaluxa sempre teve forças para fazer esses encontros com e entre escritores. Eventos com participações internacionais, com destaque para Brasil, Angola e Portugal. Já tivemos vários escritores que antes de chegar a Moçambique contactavam-nos para realizarmos consigo várias actividades. E eu coordenei muitas delas. Mas é como digo, o Kuphaluxa embora nos últimos tempos fragilizada, ainda tem a mesma força de organizar esses eventos. Tinha sido criada uma grande feira de livro em Maputo, durou por dois ou três anos, se não me engano, e tinha todas as condições para acontecer, com várias embaixadas e instituições públicas e privadas envolvidas. Mas não se manteve. Uma vez mais o grande problema não foi o dinheiro aquilo que para nós é sempre problema. Falta gente que faz esses eventos pela própria literatura que por dinheiro. Essa gente passa a vida reunida que no terreno a fazer trabalhos. E eu, embora formalmente conhecido como jornalista cultural, é lá em grandes e pequenas movimentações culturais onde me encontro. E sou realmente esse agitador cultural. E quero agitar mais. Para o próximo ano, seja com Kuphaluxa e por outras vias as ideias são várias e muitas delas serão realizadas.

E sobre a literatura brasileira contemporânea? O que tem te chamado a atenção?
Uma vez, um bom escritor paraibano, Bruno Gaudêncio, comentava comigo e outros escritores e activistas literários, pessoas que respeito muito e que nos reencontramos na Bienal do Livro do Ceará que marcou a minha primeira presença física no Brasil, que “Eduardo Quive é a pessoa que conhece mais a literatura contemporânea brasileira que nós os brasileiros”. Essa é uma afirmação exagerada, como muitas vezes sabem fazer homens com a arte a correr nas veias, mas em parte com um tom de verdade. Muitos moçambicanos sobre a literatura brasileira ainda estão nos anos 1950 a 1960. De 1980 para esta parte conta-se pelos dedos quem está informado aqui. Enganam-se os brasileiros que lhes chega no ouvido que o Brasil aqui é um país conhecido. Conhecemos sim, o lado das telenovelas da Globo que são muito assistidas e propaladas pelos canais nacionais e algum lado criminoso que é sempre difícil de esquecer. Mas a literatura em si, chega muito pouco, até porque isso não é para as massas. O que sei é que se mantêm a pujança na criatividade de escritores brasileiros. Faltam apenas escritores que conseguem invadir o mundo e estarem nas nossas livrarias. Isso vai acontecer quando as próprias editoras brasileiras vão ter a ousadia que as editoras portuguesas tiveram em estender-se para os países de língua portuguesa. Eu gosto da escrita da Ana Paula Maia, por exemplo. Temos bons textos do poeta Rubervam Du Nascimento, um poeta de voz grossa, gosto da poesia e principalmente dos contos de Ronaldo Cagiano; gosto das loucuras de Ademir Demarchi e Alberto Bresciani. Se calhar seja uma das pessoas que mais tem acesso a muitos escritores emergentes também que quase mensalmente vou recebendo seus livros. O próprio Bruno Gaudêncio para mim é um óptimo contista e Demetrios Galvão bom poeta. Há bons romancistas como Jasen Viana que conheci no Ceará. Mas acredito que de tão grande que é esse país, embora eu conheça escritores de quase todas as regiões, tenho fé que quando a acção cultural entre Moçambique e Brasil se elevar vamos poder ler e conhecer bons escritores. As experiências que tivemos de receber e levarmos para palestras escritores brasileiros, como Rubervam Du Nascimento, Ana Rusche, entre outros foram boas. Mostrou que há um público disposto a ler para além da fronteira.

Revista NÓS – Artes e Cultura : https://www.facebook.com/nosartese.cultura.7?fref=ts

(*) Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) em 1973. Jornalista, já trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França (em Brest, Tours e Arromanches-les-Bain). Ministrou oficinas de haikai na Oficina Cultural do Estado de São Paulo (Bauru/SP). É roteirista do documentário “O anjo da guarda de Caio F.” e autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toada Edições/2010) e Um lugar para se perder (Dobra/2012). No momento, trabalha em seu terceiro romance, num livro infantil e numa peça de teatro que está sendo escrita para a atriz cubana Phedra de Córdoba. Alexandre Staut é colaborador do Blog Études Lusophones.


Consultem as outras entrevistas realizadas por Alexandre Staut na rubrica Entre Letras.
Link : Entre Letras

Leiam a respeito do romance de Alexandre Staut Um lugar para se perder no link :