domingo, 30 de dezembro de 2012

Um dedo de prosa com Franscisco Brennand



Source : Oficine Brennand
Um dedo de prosa com Franscisco Brennand

Este mês o blog Estudos Lusófonos publica uma entrevista exclusiva do escultor Francisco Brennand na qual ela evoca suas inquietações estéticas e sua formação na Europa durante as décadas de 1950 e 1960.

Cliquem no link abaixo e assistam à entrevista.




Source : Oficina Brennand
Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand (Recife PE 1927). Ceramista, escultor, desenhista, pintor, tapeceiro, ilustrador, gravador. Inicia sua formação em 1942, aprendendo a modelar com Abelardo da Hora (1924). Posteriormente, recebe orientação em pintura de Álvaro Amorim (19-?) e Murilo Lagreca (1899 - 1985). No fim dos anos 1940, pinta principalmente naturezas-mortas, realizadas com grande simplificação formal. Em 1949, viaja para a França, incentivado por Cicero Dias (1907 - 2003). Freqüenta cursos com André Lhote (1885 - 1962) e Fernand Léger (1881 - 1955) em Paris, em 1951. Conhece obras de Pablo Picasso (1881 - 1973) e Joán Miró (1893 - 1983) e descobre na cerâmica seu principal meio de expressão. Entre 1958 a 1999, realiza diversos painéis e murais cerâmicos em várias cidades do Brasil e dos Estados Unidos. Em 1971, inicia a restauração de uma velha olaria de propriedade paterna, próxima a Recife, transformando-a em ateliê, onde expõe permanentemente objetos cerâmicos, painéis e esculturas. Em 1993, é realizada grande retrospectiva de sua produção na Staatliche Kunsthalle, em Berlim. É publicado o livro Brennand, pela editora Métron, com texto de Olívio Tavares de Araújo, em 1997. Em 1998, é realizada a retrospectiva Brennand: Esculturas 1974-1998, na Pinacoteca do Estado - Pesp, em São Paulo. Desde os anos 1990, são lançados vários vídeos sobre sua obra, entre eles, Francisco Brennand: Oficina de Mitos, pela Rede Sesc/Senac de Televisão, em 2000.


Francisco Brennand inicia sua carreira como pintor e escultor no fim da década de 1940. Em seus quadros, pinta flores e frutos que parecem flutuar no espaço pictórico, realizados com linhas simplificadas e cores puras. Posteriormente, descobre seu meio de expressão na cerâmica, incentivado por obras de Pablo Picasso (1881 - 1973), Joán Miró (1893 - 1983) e Léger (1881 - 1955), que conhece durante uma estada em Paris. Em 1971, reforma a fábrica de cerâmica de seu pai, próxima a Recife, então quase abandonada, transformando-a em um ateliê, que povoa de seres fantásticos, representados em relevos, painéis, objetos cerâmicos e esculturas. O artista trabalha a cerâmica não só com a forma mas também com a cor. Obtém uma grande quantidade de tonalidades por meio das variações de temperatura que atuam sobre os pigmentos durante a queima das peças. As esculturas de Brennand apresentam o caráter de tótens, ou se relacionam a signos da tradição popular. Em muitas obras, apresenta criaturas aterradoras, monstros, seres deformados ou que revelam um caráter trágico. Algumas esculturas estão ligadas a rituais de fertilidade, de culturas arcaicas, apresentando um caráter fortemente sexual. Produz figuras que freqüentemente têm um aspecto trágico, cuja estranheza é acentuada pelo acabamento rude.
 Fonte : Itaú Cultural


Source : Oficina Brennand
Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand (Recife, PE 1927). Céramiste, sculpteur, dessinateur, peintre, tapissier, illustrateur, graveur. Il commence sa formation artistique en 1942, et apprend le moulage avec Abelardo da Hora (1924). Par la suite, il étudie la peinture avec Álvaro Amorim (19-- - ?) et Murilo Lagreca (1899 - 1985). À la fin des années1940, il peint principalement des natures-mortes d'une grande simplification formelle. En 1949, il part en France, encouragé par Cicero Dias (1907 - 2003). Il suit les cours d'André Lhote (1885 - 1962) et de Fernand Léger (1881 - 1955) à Paris, en 1951. Il découvre les oeuvres de Pablo Picasso (1881 - 1973) et de Joán Miró (1893 - 1983) et voit que la céramique est son meilleur moyen d'expression. De 1958 à 1999, il réalise plusieurs panneaux muraux en céramique, placés dans des villes du Brésil et des Etats-Unis. En 1971, il commence à restaurer une vieille fabrique de céramique de son père, à côté de Recife. Il la transforme en atelier et y expose des objets en céramique, des panneaux et des sculptures. En 1993, la Staatliche Kunsthalle, de Berlin, organise une vaste rétrospective de son travail. En 1997, les éditions Métron publient le livre Brennand, accompagné d'un texte d'Olívio Tavares de Araújo. En 1998, la rétrospective Brennand: Esculturas 1974-1998, est réalisée à la Pinacothèque de l'Etat de São Paulo.  Depuis les années 1990, plusieurs vidéos ont été réalisées à propos de son oeuvre, dont: Francisco Brennand: Oficina de Mitos [Francisco Brennand: Atelier de Mythes], par la maison d'édition Rede Sesc/Senac de Télévision, en 2000.


À la fin des années 1940, Francisco Brennand commence sa carrière artistique comme peintre et sculpteur. Il peint des fleurs et des fruits qui semblent flotter dans l'espace picturel, réalisés avec des lignes simplifiées et des couleurs pures. Puis, il découvre son moyen d'expression dans la céramique, encouragé par les oeuvres de Pablo Picasso (1881 - 1973), Joan Miró (1893 - 1983) et Léger (1881 - 1955), qu'il connaît lors d'un séjour à Paris. En 1971, il rouvre l'usine de céramique de son père, presque abandonnée, et la transforme en atelier qu'il peuple d'êtres fantastiques, représentés sur des reliefs, panneaux, objets et sculptures. Il ne travaille pas seulement la céramique avec la forme mais aussi avec la couleur. Il obtient une vaste gamme de tonalités par le biais des variations de température qui agissent sur les pigments lors du brûlage des pièces. Il sculpte des totems ou des emblèmes de la tradition populaire. Dans de nombreuses oeuvres, il présente des créatures terrorisantes, des monstres, des êtres déformés ou possédant un caractère tragique. Certaines sculptures sont liées à des rituels de fertilité, de cultures archaïques et contiennent une prédominance sexuelle. Il produit des formes qui ont souvent un aspect tragique, dont l'étrangeté est accentuée par une finition grossière.
 Source : Itaú Cultural

Consultem o site da Oficina Brennand no link : http://www.brennand.com.br/

Testamento I : O oráculo Contrariado

por Franscisco Brennand*



O Oráculo contrariado
No meu diário falo muito mais de outros assuntos do que propriamente sobre cerâmica ou pintura. Falo de mulheres, por exemplo. Publiquei uma pequena parte desse jornal íntimo quando recebi o prêmio Gabriela Mistral, em abril de 1994. Naqueles textos (do diário da Itália) fica bem visível a minha paixão pela arte da pintura a óleo e pelos afrescos, quando faço anotações das visitas permanentes aos museus italianos e europeus e revelo o meu fascínio por Tomaso Masaccio. Foi na Igreja de Santa Maria Del Carmine e na Igreja de Santa Maria Novella que encontrei os mais belos afrescos realizados durante sua curta vida.
Não custa lembrar que Leonardo Da Vinci o associou à hierática dramaturgia de Giotto, os dois juntos formando um inviolável paradigma. Masaccio é sem dúvida a representação mesma da probidade artística florentina. Quanto a Piero Della Francesca, fui vê­lo em seu terreno, ou seja, em Arezzo e Borgo San Sepolcro, cidade onde nasceu. Dele podemos afirmar o que lembrava Henri Focillon, quando se referia à dignidade impessoal das formas: “Exprime uma missão mais alta e mais serena que a desgraça, a aflição e a morte”. [1]
Comentários como esses preenchem, ao lado de algumas aventuras amorosas, todo o meu caderno da Itália, o que não quer dizer que reflitam o espírito de minha obra. Afinal, poderia afirmar que tudo o que fazemos sempre parece o mínimo e a grande arte não se satisfaz com o pouco. Curioso é que o meu interesse pela pintura era bastante forte. Depois de uma fase intermediária, me voltei para a cerâmica e agora reencontro a pintura, o mesmo amor da juventude na maturidade. Não é interessante, isso? Essa observação, na sua origem, foi feita pelos poetas Mário Hélio e Weydson Barros Leal. Agora me pertence, para justificar o que pode parecer o final de todas as explicações.
Tudo faz pressentir que o ciclo de minhas viagens está definitivamente encerrado. Esse estranho e compulsivo desejo de rever cadernos e notas é o sintoma mais alarmante, que de antemão comprova e prefigura a imobilidade. Na conclusão dos Estudos Renascentistas de Pater há uma referência a uma provável afirmação de Heraclito, quando afirma em alguma parte que tudo passa e nada permanece. A compilação dessas notas obrigou-me a ordenar cronologias e, conseqüentemente, a reivindicar um passado, o que de imediato me dá a ilusória sensação de ter vivido. No princípio, tudo não passava de confusos sonhos de um forasteiro, desencadeados pela rosa das tempestades...
Todavia, o que pareceu impossível foi cumprido, não propriamente à risca, nem tão somente ao acaso, que em si não parece existir, mas, como alguém que mesmo no deserto, se pondo na rota das caravanas, depara com beduínos e camelos, prosseguindo com eles em demanda aos oásis de águas claras ou, quem sabe, as de águas turvas...
Comentando as minhas notas d’Itália, presumi o mundo europeu como algo inevitável e, imprudentemente, cheguei a afirmar que qualquer organismo estranho seria de pronto atraído para o interior daquele refluxo contínuo... E não foi outra a força que, igualmente, me arrastou para seu núcleo vital, fazendo-me de pronto, pulsar uma de suas imperceptíveis células no mesmo ritmo, capaz de afinidades, de encontros e de até estranhos sortilégios. Daí em diante, nada foi impossível. O pouco que presenciei e o muito que pude ver me pareceram suficientes e propícios a sonhar os milênios. Num deliberado anacronismo, como se todas as coisas tivessem acontecido ao mesmo tempo, ou seja, num certo momento do sonho, neste desarrumado mosaico, farei desfilar recordações de fatos passados ou presentes de criaturas vivas ou mortas, pouco importa.

[1] H.Focillon, Vie des Formes, Presses Universitaires de France, Paris, 1947.


Aventura final
Num velho provérbio inglês somos advertidos: “Nunca se explique, nunca se queixe”. Acredito que no fundo não possa me desvencilhar da minha alma de pintor. Tenho a impressão de estar criando com o conjunto de minha obra um vasto cenário, talvez uma cosmogonia, ou então, como diz um crítico pernambucano, uma simples gliptoteca, mas sempre como um pintor. Quem sabe se essas esculturas, relevos, murais, tapetes cerâmicos, anfiteatros, colunadas, construções, lagos, fontes e alamedas não sejam senão o resultado de uma pintura maior? O terrível é que acabo sempre descobrindo que sou eu próprio, tentando explicar o inexplicável, o racionalmente incompreensível. Quanto aos equívocos de avaliação, retorno mais uma vez ao Hybris para revelar uma sugestão de poema nascido de um sonho. A maior parte dele é resultante de frases feitas, mas, no conjunto, se torna significativo e, sobretudo, ameaçadoramente atual:
Deus avisa sempre
Antes de castigar.
Já não há sacramentos
Nem destino.
Perdemos o sinal.
Agora,
Resta o grande macaco negro,
Verde como a floresta escura,
Vindo do coração das trevas
Sem cor - dominando a cena.
Oh, o horror... o horror!...
Tudo embola no extravio
Do pecado.
Como quem esqueceu os trapos de uma branca
Túnica que nos cobriu
Na saída dos dourados portões do paraíso.
Nada escapará
Desse oráculo contrariado:
Nenhum só dos homens,
Nenhum só dos anjos,
Nem mesmo os deuses que se afastam
Em silêncio.

Como Baudelaire registra nos seus Escritos Íntimos, parece-me que derivei para aquilo a que as pessoas de profissão dão o nome de “ex-tra-assunto”. De qualquer modo, deixarei estas páginas porque quero datar a minha tristeza. 


* Brennand, Francisco, 1927­. Testamento I: o oráculo contrariado / Francisco Brennand – Recife: Bagaço, 2005.23p. Fonte : Oficina Brennand. 

Consultem o artigo da Profa Ana Luiza Andrade " Ruinas de mundos perdidos : a estética residual de Brennand" no link : Artigo 



domingo, 23 de dezembro de 2012

L'océan de Marçal Aquino...


L'Océan dans lequel j'ai plongé sans savoir nager…


L’histoire
Cauby vit avec Lavinia, femme mariée, séductrice et instable, une relation érotique et accidentée. Un bonheur qu’il sait sans avenir.
Cette histoire d’amour, de sexe et de passion charnelle naît déjà malade dans un climat hostile à toute manifestation de délicatesse, entre chercheurs d’or et société minière toute-puissante, en Amazonie brésilienne. Mais l’humidité et les pépites ont raison de l’âme de ces damnés venus y tenter leur chance. La tension générale qui règne dans cette petite ville croît en parallèle aux drames individuels de chaque personnage, entre amours passionnels ou serviles, folie et violence.
Cauby n’est ainsi qu’une aberration de plus dans un Far West où il en pousse à chaque coin de rue…
Touché par la grâce de la tourmente, Cauby décide d’accomplir son destin avec le fatalisme des héros tragiques. Aucune vie n’est complète sans un grand désastre, affirme-t-il. Il ne regrette rien.

Un roman illustré
L'Océan dans lequel j'ai plongé sans savoir nager est illustré de plus de 15 photos de J.L.Bulcão, photographe brésilien spécialiste de la flore amazonienne, qui nous révèle en plan rapproché quelques spécimens extraordinaires : orchidées, nénuphars, arums, … pour illustrer tout en délicatesse les émotions des personnages.

Un roman original
C'est l'histoire d'un amour passionnel qui finit mal - ce que le lecteur sait dès le début. Mais peu importe ! Le héros ne regrette rien et décide de vivre sa passion jusqu’au bout, quitte à y laisser des plumes… Comme il le dit : « Je veux savoir combien de personnes ont eu le courage d’aller jusque-là. À la rencontre de la fin. Je l’ai eu ».

Consultez l’ l’interview de Marçal Aquino pour le Blog Estudos Lusófonos, en cliquant sur le lien : Um dedo de prosa com  Marçal Aquino
  
Les éditions Anacaona
Une petite maison d’édition indépendante spécialisée dans la publication de romans brésiliens, avec une envie : faire découvrir cette littérature aux français !

Consultez l’interview de Paula Anacaona pour le Blog Estudos Lusófonos, en cliquant sur le lien : lesmarginaux, moteurs de la culture?

Plus d’informations : Paula Anacaona : contact@anacaona.fr
…ou sur le site http://www.anacaona.fr/


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Espaços, traduções e intermediações culturais


Sem título, Elvira Vigna, 2012
Colóquio internacional sobre literatura brasileira contemporânea:
espaços, traduções e intermediações culturais

 Brasil-França-Alemanha

7 e 8 de março de 2013 em Paris
11 e 12 de março de 2013 em Berlim
  
Organização:
Regina Dalcastagnè (Universidade de Brasília)
José Leonardo Tonus (Université de Paris-Sorbonne)
Maria Graciete Besse (Université de Paris-Sorbonne)
Susanne Klengel (Lateinamerika-Institut, Freie Universität Berlin)
Georg Wink (Lateinamerika-Institut, Freie Universität Berlin)

Université de Paris-Sorbonne
Maison de la Recherche
28, rue Serpente
75006 Paris 

Ibero-Amerikanisches Institut Berlin
Simon Bolívar-Saal
Potsdamerstr. 37,
10785 Berlin

A literatura brasileira contemporânea é heterogênea e de difícil delimitação. Ela não se prende a definições unívocas, muito menos se submete com facilidade a generalizações. Se, por um lado, busca acompanhar as transformações sociais e políticas ocorridas no Brasil a partir do final da ditadura militar, por outro, tem de dar conta de novos modos de se constituir como forma de expressão artística. Daí os inúmeros deslocamentos e diálogos efetuados em seu interior, seja refletindo sobre a inclusão de novas vozes sociais, seja incorporando recursos e estratégias provenientes de outras linguagens artísticas, seja, finalmente, discutindo sua relação com os meios comunicação de massa.
Este colóquio – que reunirá pesquisadores de diversas instituições acadêmicas da Alemanha, Áustria, Brasil, Dinamarca, Estados Unidos, Espanha, França, Inglaterra e Portugal – pretende abordar alguns destes movimentos, e suas intermediações, tentando captar suas consequências no campo literário brasileiro e no interior das obras literárias. Ele surge dos diálogos estabelecidos entre estudiosos de literatura brasileira contemporânea de três grupos de pesquisa  e marca a consolidação da cooperação entre três instituições de ensino superior: a Universidade de Brasília, a Universidade de Paris-Sorbonne e a Freie Universität Berlin.
As diferentes procedências dos participantes apontam também as diferentes perspectivas teóricas e metodológicas que estarão em debate no encontro. E nem poderia ser de outra forma, tendo em vista a multiplicidade de problemas colocados por essa literatura. Estarão em discussão, portanto, desde questões mais teóricas, necessárias para a análise das obras literárias em seu conjunto, até estudos pontuais sobre livros e autores específicos, incluindo ainda interpretações sobre o campo literário brasileiro atual. Todos os trabalhos trarão como preocupação central o fazer literário na contemporaneidade.

Consultem o programa e os resumos dos trabalhos que serão apresentados no link : Programa do Coloquio

Inscrições para ouvintes e  informações: coloquio2013@hotmail.fr



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ensino superior na França



Entrevista com José Leonardo Tonus

Professor de literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos da Universidade Paris-Sorbonne, José Leonardo Tonus fala sobre o ensino superior na França. Há 25 anos no país europeu, o professor explica as diferenças e semelhanças entre as universidades francesas e as brasileiras. Assistam à entrevista realizada pelos jornalistas Ederson Granetto e Rodrigo Simon da Univesp TV em agosto de 2012.

Clique no link : Entrevista  com José Leonardo Tonus         

domingo, 9 de dezembro de 2012

Uma romã furou o asfalto!



No artigo Narradores sobre duas rodas, publicado pelo Blog Estudos Lusófonos em novembro de 2012,  Laeticia Jensen Eble interrogava-se sobre a existência de uma “cultura motoboy”. A escritora Maria Valéria Rezende responde-lhe com o seu belíssimo conto “Desejo” que transcrevemos abaixo. A todos, boa leitura!


Desejo[1]

Eu vou, filhinha, por você vou até o fim do mundo achar romã, disse que não ia porque estava quase morto, rodando São Paulo nesta moto desde as quatro e meia da manhã, chegando em casa, Jardim Nordeste!, voltar pro centro a esta hora!, aí outro querendo me fechar!, pô!, ô seu... pára, Carlinhos, esquece, corre, voa, hoje não, amanhã, qualquer dia, morre motoboy todo dia, hoje não é o meu dia, não pode ser, ou pode?, ontem foi o Rui, anteontem o Cascalho aqui nesta desgraça de Radial Leste, quando chegar meu dia vai ser aqui mesmo, pressentimento que eu tenho, uau!, Carlinhos, olha a brecha, voa!, não é medo não, pressentimento, mas hoje não tem pressentimento que é atraso, vai lá, pelo corredor da morte, adrenalina, meu!, hoje é o dia da minha filha, de viver!, você não é doido, Carlinhos, deixar sua filha nascer com cara de romã!, nem sei como é romã, nunca vi, esse povo da Paraíba vive querendo o que não tem aqui, Gracinha não podia ter desejo de maçã, pêra, laranja, ou até galinha de cabidela, que eu sei o que é?, sei lá!, tanta coisa pra desejar, vai inventar logo uma fruta que eu nem conheço!, já estou aqui, agora é correr sem medo que a sogra disse que é perigoso abortar, Deus me proteja!, isso minha Mãe Aparecida não vai deixar, não é, santinha?, ou periga da menina nascer com a boca aberta, com cara de romã, sei lá!, será que não é aquela frutona verde, com uns bicos pretos pela casca, que o tio dela trouxe de lá?, meu Deus!, minha filha com aquela cara?, já imaginou minha filha nascer com cara de romã?, e eu acredito nisso?, não acredito, mas a sogra, aquela mulher sabe coisas... pô!, a saída!, preso aqui no meio, saio agora ou nunca mais chego no Mercado Central, vai, Carlinhos, acelera que dá!, lá tem de tudo, s’embora, concentra, voa, tira esse farol alto, ô cara!, pô!, e eu hoje moído de rodar São Paulo inteira, se pudesse dar o número do celular da firma a sogra ligava e eu já tinha achado essa droga de romã!, pra lá, Mercado Central, quase, ei, bróder, segura essa moto aqui pra mim, meu irmão, um minuto só, pelo amor de Deus, questão de vida ou morte!, tem romã aí?, romã?, tem romã?, olhar, como?, se eu nunca vi romã na vida?, não?, Largo da Concórdia?, putamerda!, minha filha com cara de romã, de jeito nenhum, filhinha, seu pai não vai fazer isso com você, vai achar o raio da fruta, Senador Queiroz, vai, Carlinhos, Rangel Pestana, tem romã? romã?, sabe onde é que tem romã?, Pinheiros?, caraca, longe paca!, tem certeza?, jura?, que rua?, com esse trânsito?, qualquer caminho, Carlinhos, agüenta, é sua filha, é sua Gracinha, viaduto, túnel, medo não, espera que dá tempo, Gracinha, amorzinho, flor de romã, e romã tem flor? se dá fruta, tem, Gracinha, espera, minha flor que vai dar fruto, vai ser linda, minha filha, não vai ter cara de romã, não, Praça Roosevelt, Consolação, me ajuda Mãe do Céu!, Rebouças, pra Pinheiros, Rua Capote Valente, ei, meu!, onde é a maternidade?, sei lá, a que tem romã perto, não interessa, uma maternidade, Artur o quê?, é essa, cadê?, maternidade, ali, ei, bróder, porteiro, por favor, onde vende romã?, o quê?, essa planta aí é romã? um pé disso vivo em São Paulo?, no meio do cimento?, vejo nada, no escuro, nem conheço, por favor, chega aqui, abre essa grade, dá uma romã que eu tiro a moto, louco não, é minha mulher grávida com desejo, só quero uma romã, uma só, é romã?, tem certeza, cara, jura que é?, é esta fruta, se abrindo toda, cheia de pedra preciosa, linda desse jeito?, romã? já imaginou, meu irmão, minha filha nascer linda assim como romã, no cimento de São Paulo!?

Assistam ao depoimento de Maria Valéria Rezende para o Blog Estudos Lusófonos e à sua participação no encontro de escritores organizado pelo professor Leonardo Tonus  na Universidade da Sorbonne e  no Salão do Livro de Paris em 2012. Cliquem nos links :


Leiam a resenha de Alfredo Monte sobre a obra da escritora no link : 




[1] “Desejo”, in : Maria Valéria Rezende, Modo de apanhar pássaros à mão. Editora Objetiva : Rio de Janeiro, 2006, p. 43-46.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Barba enganada?


Este mês o blog Estudos Lusófonos publica um texto de Breno Kümmel em que ele retoma a resenha  de Elvira Vigna sobre romance Barba ensopada de sangue de Daniel Galera. Participe da discussão e envie os seus comentários

por Bruno Kümmer



O post de hoje tem origem neste texto: 

Eu gostei do romance e a Elvira não gostou. Parece que a prática cabível seria de dar os ombros e ignorar a existência ou qualquer validade do texto ou tentar escrever uma resposta furiosa-nas-entrelinhas dos porquês ela estaria errada. Afinal, o campo literário seria feito de disputas, não? É, não sei se acredito tanto nisto, ou pelo menos que eu teria interesse em participar desta maneira. O texto é bem escrito, bem argumentado, cita as coisas com pertinência. Certamente tem bem mais propriedade do que as primeiras impressões que postei aqui umas semanas atrás. Conversei brevemente com ela pelo twitter hoje, esbarrando toda hora no limite dos 140 caracteres, então resolvi fazer um post aqui, já que seus comentários inspiraram algumas ideias novas. 

(tenho como certeza de que os livros não terminam quando a gente lê a última página; quando a obra não é imediatamente esquecível, a gente vai relendo mentalmente, usando nossa memória faltosa, pelo resto da vida. Por isso é acho a resenha-de-lançamento é um desafio interessante porém bizarro, quase artificial, como um violonista tocando sem certas cordas)

(spoilers abstratos: não digo o que acontece no final da história mas vou esmiuçando o que vejo nas entrelinhas)

(Não vou escrever necessariamente para rebater o que a Elvira disse, este post é meio que escrito pensando em voz alta.)

Vi no twitter os primeiros comentários da Elvira sobre a leitura do livro do Galera e já imaginei que ela não fosse gostar. O livro de Galera não é um livro intelectual, crítico, como Elvira Vigna é (e não dou valor de "qualidade desejável" automático a essas duas palavras). É um livro de historinha, bem quadrado, e quem leu qualquer livro da Elvira sabe que não é bem este o caminho que ela trilha. 

Acho que um obstáculo central é a deliberada (ou aparentemente deliberada) falta de vontade de crítica em Galera. O que há é uma vontade de simplesmente ver, em vez de ver defeitos, construir, no lugar de refazer (melhor, diferente). Não é uma postura tão popular nos meios acadêmicos, ainda mais brasileiros. O intelectual no Brasil sempre se fez pela vontade de mudança diante da realidade tétrica do país (talvez um pouco menos hoje já que dá pra pobre comprar iPhone). Iniciativas intelectuais precisariam pautar por caminhos de mudança, ou crítica apontada e delineada, como quem sempre pergunta "o que há de errado?"

Vejo inteligência e sensibilidade na literatura de Galera, mas pelo que vejo ele não negocia com este repertório. Este caminho consagrado é um que conseguiria responder sem titubear a pergunta "no fim das contas, o que é que você está dizendo com este livro", e imagino o Galera meio perplexo se alguém chegasse a ele com esta pergunta. O livro simplesmente é.

Como exemplo deste aspecto de sua obra, acho que é possível citar a questão do sexo, sempre presente em seus livros mas sempre (pelo que consigo lembrar) sem qualquer libertação do cristianismo púdico. As mulheres no livro de Galera não aparecem gloriosamente libertas das amarras de casar virgens, ou de só fazer sexo por amor, depois de vários encontros "para ver se o cara é mesmo sério". Elas só trepam. Não são elogiadas como inteligentes /libertas/certas por fazer isto. Elas só fazem, com amor, sem amor, gozando e às vezes não. É algo que existe.

O método da obra dele é como se a todo tempo o autor falasse "olha".

(claro que não defendo que o autor é isento, imparcial, e "mostra a realidade como ela realmente é", etc etc, Não estou falando que é errado criticar as escolhas do livro ou o método do autor, só acho interessante notar o que há de diferente de muito que foi feito em literatura e crítica no Brasil)

É meio estranho lidar com um método estético como este. Posso citar como referência o reverenciado  (por mim e pelo Galera) Cormac McCarthy. Como dá pra perceber, gosto de falar de literatura, de tentar destrinchar um pouco o que acho de interessante, etc etc. Fico (se me deixarem)  horas e horas falando sobre o David Foster Wallace, sobre o Coetzee, sobre o Machado de Assis, sobre o Sérgio Sant'Anna. Com o Cormac McCarthy, só posso dizer que o cara é foda[3]. É outro cara que ressalta o que há de material, de plástico, (só que em um nível bem superior ao de Galera.

Não que seja demérito a Galera estar aquém do Cormac, estaríamos (quase) todos fodidos se isto fosse um xingamento. Blood Meridian, por exemplo, é um livro sobre chacina contínua, genocídio mesmo, sangue e ossos e cadáveres, sem qualquer  dicção do medo ou do nojento, e em nenhum momento vemos qualquer crítica, explícita ou implícita, na narrativa. O All the Pretty Horses passa um tempão falando de coisas que decorreram da revolução mexicana, e o tratamento da coisa é quase como se tivesse sido um evento do clima.

Não vejo o Galera como um seguidor/copiador do Cormac (existe um interesse pela oralidade bem diferente do laconismo quase bizarro dos diálogos do Cormac, por exemplo, e também uma vontade de registro de contemporaneidade e pequenas banalidades que não são as banalidades-levado-ao-grau-cósmico tudo-é-banal/genocídio-é-banal do Cormac. Quase tudo no Cormac é no grau cósmico), e sim como dois autores de sensibilidade produtiva semelhante. A obra de Galera é como uma foto (proposital, sim, autoral, sim, escolhida, sim) daquilo que ele viu. Uma foto muito bem escrita.


Mencionei este aspecto não-intelectual do livro para Elvira como indicativo de que ela não fosse gostar e ela falou que o novo livro do Lísias, sobre suicídio, não é um livro intelectual mas que ela gostou. A questão que vejo aí é que o livro de Lísias é pessoal, e o livro de Galera é impessoal. Quase tão impessoal quanto o Mãos de Cavalo (e tenho dificuldade em pensar em um livro mais frio na literatura brasileira, tirando os poemas do Cabral). O problema é que vejo como sendo os momentos mais pessoais do Barba como os piores, em que  se fala (em vez de se encenar) sobre o budismo, personagens conversando só para o Galera falar pro leitor a opinião dele (não muito comum, não desprovida de interesse, mas falada, meio achatada), e os mais distanciados, descrições de cenário e etc, da ação, como sendo os melhores. Como falei antes, um autor que me parece mais produtivo no caminho da especificação/especialização do que na vontade de abarcar todas as possibilidades presentes no texto.

(achei meio maldoso chamar a Jasmim de "recepcionista de lojinha de turismo que fala sobre mito" , o que dá a ideia de algo meio artificial/incomum/idiossincrático -como me parece a prostituta que lê Nietzsche-, quando o que vi foi uma mestranda que tira uma grana naquele servicinho turístico. Gostei da composição da personagem dela)

No final do texto da Elvira há um certo pedido/vontade de explicitação do processo ficcional, de abertura para o diálogo, e de fato isto não existe. 

Pelo que transitei e transito pelo mundo acadêmico/intelectual, vejo que esta é outra constante. O intelectual quer falar, quer discutir. Sim, isto é valoroso (e este post é uma vontade de conversa), mas de novo é uma ausência em Galera que me parece deliberada, proposital. Há uma ideia meio difundida no meio intelectual que diz que um livro hoje em dia que não explicita seus quês de artifício tem algo de mentiroso (sem qualquer conotação lúdica à palavra), que haveria aí uma vontade de objetividade, imparcialidade, superioridade implícita em procedimentos narrativos "naturais" ou "naturalizados". Que mostrar os andaimes é como que a coisa honesta a ser feita.

Será mesmo assim? A metalinguagem me parece interessante para enxergar os procedimentos e reconhecê-los como tal, mas seu encenamento artístico nem sempre é produtivo, não vejo que ela deve ser tomada como método contínuo. Os trechos sobre literatura no Cordilheira são os mais fracos do livro, a conversa do escultor em Cachalote eu achei um saco. Como postei anteriormente, é um autor do material, e não do abstrato. É uma coisa valorosa de se ter em consideração, mas nem sempre presente de forma explícita. E o que dessa predominância dos andaimes (no meio intelectual, nos romances literários, metalinguísticos, lidos no mundo acadêmico) expostos não teria de mera repetição?


Acho que este encobrimento é uma característica importante do texto: o livro é cheio de silêncios implícitos, meio fora de moda diante de tantos silêncios explícitos em outros textos.No lugar de falar tanto sobre a dificuldade de falar, sobre as imposições do falar, simplesmente se deixa os silêncios em silêncio, e achei eles suficientemente fortes desta forma, diria até mesmo perfeitamente cabível. 

O romance todo é uma coisa que não quer conversa (apesar de ter tantos diálogos) porque a enxerga como não sendo possível, não é só o pai do início do livro que acha que é impossível convencer alguém de qualquer coisa (um publicitário premiado, vale lembrar). O personagem ao fim chega a explicitar: não temos escolha, mas precisamos agir/pensar como se tivéssemos. É o radicalismo de um personagem radicalista, mas o que se sobressai do espírito da obra (e do Mãos de Cavalo, que narra uma tentativa fracassada de construção pessoal) é a de que os principais eventos de nossa vida estão fora de nosso controle, que somos arremessados para a existência com muito de nossas vidas já decidido por nós (raça, sexo, início social, impedimentos neurológicos, mundo com o qual temos que negociar). Temos um espaço de movimentação para não sermos sufocados (alguns de nós, pelo menos, e no livro nem isto é uma certeza), mas as questões e impasses que nos são impostos não são de escolha nossa. Não é tanto um destino que em algum lugar está traçado para nós (embora o livro negocie de forma incomum com o mítico...) quanto o reconhecimento de uma fraqueza inescapável. É um livro de desespero tranquilo.

Um livro que se mostrasse como construção seria um enfraquecimento destas entrelinhas (e linhas, quando o personagem fala). Construção não implica escolha?

Encerrando, vou rebater de forma mais pontual uma crítica da Elvira: é verdade que o livro é construído em dualismos, mas a meu ver eles não são "falsos no livro", e sim borrados: há a separação da vida urbana em relação a "vida afastada", mas qualquer paraíso possível de Garopaba é minado por uma corrente subterrânea de sinistro que permeia o livro, de segredos que ninguém fala, de cochichos que comentam todo movimento numa vígila incômoda. O próprio protagonista com sua condição neurológica ficaria bem mais bem servido no anonimato da urbe. O duelo do homem versus a natureza é feito, para nós, de vitórias sucessivas e derrotas aleatórias, que tiram o caráter definitivo das vitórias mas que não as destrói: o protagonista é exímio nadador e morre afogado. Continua tendo sido grande nadador. Não há lado que se sobressai, certo e errado claros, e sequer vejo uma tentativa de equilíbrio. A do destino, por exemplo, devemos reconhecer o destino e fingir que ele não existe. Qual a solução? A solução é que não existe solução.

(sobre a questão de gênero, no livro, claramente pertinente, não tenho o que dizer. Acho o livro curioso neste aspecto, mas não tenho leituras no assunto para falar muito. Talvez um dos privilégios de ser homem-branco é que o guideline genérico "don't be an asshole" me pareceu suficiente para lidar com questões assim. O que um homem heterossexual pode falar disso? A resposta não é "nada", mas eu não sei o que é. O livro parece ser algo neste sentido, mas não sei ainda se acho ele bom ou ruim por este lado)

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Post-scriptum mal escrito: Ah, se alguém se interessou em ler o Cormac, leia em inglês. Estou lendo "The Road" (bom, mas não é dos melhores) e por curiosidade abri a tradução brasileira e me desagradou logo no primeiro parágrafo. É uma história pós-apocalíptica, e a abertura do livro escreve como cada dia é mais cinza e frio que o anterior escrevendo "like the onset of some cold glaucoma dimming away the world". Não lembro exatamente das palavras da tradução, mas sei que foi colocado a palavra "progressivamente" no meio. "Progressivamente", pelo menos pra mim, ressoa como uma palavra do mundo moderno, da técnica, e a linguagem do Cormac é toda bíblica, mítica, épica (e todas essas coisas fora-de-moda "impossíveis hoje em dia"). E no Cormac a linguagem é só quase tudo.

Breno Kümmel nasceu em 1986, em Brasília. Em 2006, publicou um livro de contos, Estrada de Espelhos. Graduou em Letras pela UnB em 2007 e em 2012 terminou seu mestrado em literatura brasileira sobre a ditadura militar como tema literário, pela UFMG. Consulte o seu blog : http://asordensdadesordem.blogspot.com.br/






[3] O palavroso DFW falando sobre o Cormac: http://www.salon.com/1999/04/12/wallace/  : "Don't even ask".

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Les politiques sociales du Brésil


Les politiques sociales actuelles du Brésil : un «modèle», pour les institutions internationales,de développement économique par le développement social

Conférence par Mme Catherine Leterrier
(Lectrice de Portugais à l’Université de Paris-Sorbonne)

Jeudi 6 décembre 16h00 à 18h00,
Institut Ibérique, salle 24
31 , rue Gay-Lussac
75005 Paris

Comment comprendre les politiques sociales menées au Brésil depuis 2003, sous les deux mandats de Lula, et poursuivies sous celui de Dilma Rousseff depuis 2011, sans analyser le changement introduit par une nouvelle vision du développement : le développement social, levier vers le développement économique.
Il s’agira dès lors de se pencher sur les programmes publics de transfert de revenus au travers du plus symptomatique d’entre eux, le Bolsa Família, dans la mesure où ses résultats font consensus au-delà du Brésil : les organisations internationales de la famille des Nations Unies (FAO ou PNUD) ainsi que la Banque mondiale, qui ont - pour cette dernière plus particulièrement - prôné tout au long des années 80 et 90 le développement social par le développement économique, s’intéressent dorénavant de près au «modèle social» appliqué dans un pays qui, en commençant à s’attaquer aux profondes inégalités qui le caractérisent, a pu créer un marché interne et se hisser au 6ème rang économique mondial.
L’étude des mécanismes mis en place au Brésil pour combattre la pauvreté extrême permettra de saisir en quoi la forte croissance de ce BRIC(S) a fait d’un pays émergent, un émergé qui défend au G 20 de nouvelles solutions. Du Consensus de Washington au Consensus de Brasília, une nouvelle politique du développement, par l’inclusion sociale, est désormais proposée aux pays en dévelopement par les institutions internationales.

Catherine Leterrier est Lectrice à l’Université de la Sorbonne (Paris IV), où elle a commencé à enseigner, en 2006 comme chargée de cours en LEA Portugais, l’économie et la civilisation du Brésil ainsi que la traduction (version écrite et orale) : après une carrière de 25 ans comme interprète de conférence et traductrice trilingue spécialisée en portugais (diplôme de l’ISIT en 1980), Catherine Leterrier a écrit une thèse de doctorat (2005) sur l’affirmation nationale du Brésil face aux États-Unis. Après un article intitulé ”Du conflit Nord-Sud à la coopération Sud-Sud. Le modèle alternatif du Brésil de Lula”, mis en ligne en avril 2009 (www.gribresil.org), et une communication orale (Colloque Paris III), en avril 2010, sur la problématique «Où situer le Brésil dans les reconfigurations de l'espace latino-américain en cours ?», elle travaille actuellement sur le rôle géostratégique du Brésil contemporain.