sexta-feira, 30 de novembro de 2012

o microfone é nossa arma


O rap do grupo Atitude Feminina e a escrita das mulheres negras


Andressa Marques

Há algum tempo investigo a escrita das mulheres negras, interesso-me pela construção narrativa dessas autoras com as quais me sinto contemplada esteticamente. Partindo de uma constatação difícil e tardia de que havia invisibilidade e estereotipia na maioria da literatura que consumi, decidi eleger pares na ânsia de me perceber representada de maneira mais cuidadosa na literatura. Durante esse caminho, percorri recônditos e encontrei o que procurava no trabalho de algumas escritoras negras contemporâneas e também na produção feminina do rap, espaço discursivo em que as mulheres negras encontraram e arquitetaram um canal acessível/possível de comunicação com o mundo. A entrada de maneira mais veemente de mulheres no gênero, inicialmente produzido por homens em maior escala, possibilitou ao público ter acesso à perspectiva de mundo daquelas que são a base da pirâmide social: as mulheres negras. Ocorreu uma tomada de voz bastante significativa dessa classe envolta pelo racismo e pelo sexismo, o grupo Atitude Feminina, originário da cidade satélite de São Sebastião- DF, é um forte exemplo dessa tomada discursiva, poética e musical.
            O Atitude é composto atualmente por Ana Cecília e Helen que iniciaram seu trabalho no ano 2000. As meninas mostraram ao que vieram de forma bastante combativa, pois, mesmo ainda adolescentes, se propuseram a tratar de temas caros à sociedade. A violência doméstica e a discriminação vivida pelas mulheres da periferia foram e são assuntos recorrentes nas letras desse grupo que rapidamente passou a tocar em rádios comunitárias, a fazer shows em todo o Distrito Federal, em várias cidades brasileiras e chegando ao exterior, recentemente o grupo fez apresentações em Cabo Verde.
A aliança entre os anseios políticos, a estética inovadora e a força dos discursos propositores de cortes epistemológicos na sociedade fazem do rap um espaço denso para encontra e compreender a manifestação da subjetividade dos(as) seus e suas enunciadores(as). Para Stuart Hall (2011), o povo negro articulou uma estratégia que serviu de resposta ao mundo que referenda apenas a escrita como maneira legítima de preservação e disseminação cultural, a música foi o instrumento encontrado para guardar a estrutura profunda da vida cultural negra, o corpo negro nela age como capital cultural. As canções de rap feitas por mulheres negras centralizam questões de foro íntimo cruciais para a representação da subjetividade dessas, esse exato ponto me instiga enquanto pesquisadora, me acolhe enquanto mulher negra, e me desafia enquanto pesquisadora-negra.
Tricia Rose (1994) diz que o rap é uma expressão das vozes negras à margem da sociedade. Para ela, a narrativa dos(as) rappers são falas de atores(as) e observadores(as) da vida nos grandes centros urbanos que apresentam um modelo “espacializado” das narrativas urbanas. Além da representação|construção do espaço público, o rap também evidencia questões da ordem privada, principalmente na perspectiva feminina dessa produção. O grupo brasiliense Atitude Feminina é um exemplo disso, em sua letra “Rosas” trouxe à tona uma voz protagonista que denuncia a subalternidade e as violências a que foi submetida.
Minha andança literária em busca de acolhimento também foi de encontro à teoria, isso me fez ter contato com autoras que problematizaram a homogeneidade com que o feminismo clássico tratou os olhares múltiplos de muitas mulheres ao redor do mundo. Nada mais, para mim, faz tanto sentido do que a sensação fronteiriça que permeia a problematização da experiência de vida das feministas afroamericanas e chicanas. Glória Anzaldúa, em uma carta endereçada às escritoras negras em formação, abordou as dificuldades que enfrentamos no momento da escrita, a autora imaginou construir um instrumento que nos inspirasse na hora de colocar sobre o papel nossos pensamentos e emoção. Anzaldúa escreveu essa correspondência para uma: “mulher negra, junto a uma escrivaninha no quinto andar de um prédio em Nova Iorque. Sentada em uma varanda, no Sul do Texas, uma chicana que abana os mosquitos e o ar quente, tentando reacender as chamas latentes da escrita. Mulher índia, caminhando para a escola ou o trabalho, lamentando a falta de tempo para tecer a escrita em sua vida. Asiático-americana, lésbica, mãe solteira, arrastada em todas as direções por crianças, amantes ou ex-marido, e a escrita” (ANZALDÚA, 2000, p.229).
Durante todos os fragmentos da carta intitulada “Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo”, Anzaldúa se aproxima de suas receptoras e nos diz que a neutralidade nada mais é do que um argumento forjado pelo homem branco para nos afastar do contato com a pena. Penso que a autora ficaria realmente realizada ao se deparar com o trabalho de quem lança mão do microfone como arma, as meninas do Atitude Feminina partilham da constatação de Anzaldúa que nos alertou sobre o fato de não termos “amigos(as)” nos postos da alta literatura e tampouco temos nosso discurso sendo reverberado e ouvido. A decisão dessas jovens diante do cenário de silenciamento foi a expressão via rap e assim elas iniciam sua música: “A cada quinze segundos uma mulher é agredida no Brasil / E a realidade não é nem um pouco cor-de-rosa / A cada ano dois milhões de mulheres são espancadas / por maridos ou namorados”.
A letra narra a trajetória da personagem que conhece o namorado ainda na adolescência, vive uma paixão a contragosto da mãe e logo sai de casa para viver com esse companheiro. Impulsionada pelos problemas que enfrentava em casa como o pai alcóolatra, muitos irmãos para cuidar, pouca privacidade e pelo desejo de amar e melhorar de vida, a adolescente abraça um sonho e parte em busca de sua realização: “No lugar onde eu morava me sentia tão só/ Aquele cheiro de maconha e o barulho de dominó/ A molecada brincava na rua/ E eu cheia de esperança/ De encontrar no futuro um rapaz”. A letra segue com a jovem ignorando os conselhos da mãe experiente que antevia um futuro violento para sua menina, o refrão da música é a repetição em primeira pessoa da fala da jovem já morta que recebe flores do seu assassino, o namorado, em seu túmulo.

            Não há espaço suficiente aqui para que eu faça uma análise mais aprofundada dessa letra direta e carregada de uma carga emotiva muito pesada. O grupo Atitude Feminina tem uma postura política e alcança o público inserido em uma periferia que enfrenta o abandono dos serviços estatais, que está envolta por toda a sorte de preconceitos e violências, mas que reinventa suas ferramentas de sustentação de maneira habilidosa. O rap surge como uma possibilidade de ecoar vozes outrora sufocadas, de não mais apenas ser objeto de representação alheia, considero isso uma ferramenta importante para os estudos de representação, não temos o mesmo espaço de atuação na literatura, o terreno mais propenso para compreendermos essas representações está em novos objetos literários e isso fere o status de legitimidade literária fomentado pela crítica.
 Anzaldúa nos alertou para o mecanismo discursivo das elites que querem nos afastar da criação literária dizendo ser necessário abandonar a escrita simples, rápida e direta para que possamos escrever. A foice educacional, os anos de negação da nossa autoestima e criatividade não acabaram de vez com a arquitetura do possível. O rap do grupo Atitude Feminina está aí ofertando rosas para quem quiser ouvi-lo. Essas garotas encontraram sua maneira solidária de estarem no mundo, elas desenvolveram uma forma (o rap) dentre as várias que podem ofertar a representação da nossa subjetividade e mostrar que a “escrita de mulheres do terceiro mundo”, para usar o termo de Anzaldúa, nos leva para longe da complacência paralisante.

Para saber mais sobre o grupo Atitude Feminina: http://www.atitudefeminina.com.br/
Para ouvir a música “Rosas”: http://www.youtube.com/watch?v=0h2f6NaEOmI

Andressa Marques é Mestranda em literatura pela Universidade de Brasília, pesquisa a literatura afro-brasileira e o rap feito por mulheres, é também blogueira e colaboradora do site Central Hip Hop. Outras informações:


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Clarice Lispector : Água Viva


Le blog Etudes Lusophones a rencontré Gabriella Scheer, actrice et metteur en scène du spectacle Água Viva à l’affiche  les 4 et 5 décembre 2012 à l’Espace Culturel Bertin Poirée  (Paris)

           
Votre parcours ?
Je suis née à Rio de Janeiro, où j’ai suivi des cours de danse classique. Puis j’ai quitté le Brésil, avec ma famille à l’époque de la dictature militaire. Et comme mon père était d’origine allemande, nous nous sommes installés en Allemagne. C’est là que j’ai découvert le théâtre. À Munich, j’ai suivi les cours de l’Ecole d’Art dramatique et j’ai travaillé avec Lee Strassberg à l’occasion d’un stage. Ensuite, j’ai été amenée à voyager pour exercer mon métier et j’ai progressivement senti que Paris était la ville qui me convenait le mieux. J’y vis maintenant.
Pendant longtemps, j’ai joué des pièces du répertoire allemand, russe, français et anglais. Je n’avais jamais travaillé sur des textes brésiliens. Or, en tant qu’actrice, je pense que la diffusion d’une littérature passe, aussi, par la parole et non seulement par des livres. C’est pour cette raison  j'ai créé le projet  "Scènes brésiliennes". J’ai eu envie de faire partager mon goût pour des auteurs brésilien peu connus en France, en traduisant un certain nombre de textes classiques, et, surtout, en les jouant sur scène.  Quel plaisir de rendre les rythmes de la langue portugaise, à la fois au travers de mes traductions et de mes spectacles !

Votre rencontre avec Clarice Lispector ?
La véritable découverte de la littérature brésilienne et ma rencontre avec l’écriture de Clarice Lispector s’est produite au Salon du Livre à Paris en 1998, lorsque le Brésil a été l’invité d’honneur. Ce fut un tel « coup de foudre » que l’année suivante je présentais mon premier spectacle issu du projet « Scènes Brésiliennes » que je venais de créer. Il s’agissait d’« Eclats des femmes », pièce écrite d’après trois auteurs brésiliens : Machado de Assis, Cecília Meireles et Clarice Lispector. J’ai joué cette pièce pour la première fois au Petit Théâtre du Salon du Livre de l’année suivante, grâce au soutien l’Institut Camões !


Comment définissez-vous L’univers de Clarice Lispector ?
L’univers et l’écriture de Clarice Lispector m’attirent énormément par leurs côtés novateurs. Clarice est souvent considérée comme un auteur difficile et compliqué, alors qu’elle écrit  à cause de son profond vouloir parler. Son langage change, selon les thèmes qu’elle aborde. Il y a plusieurs voix dans Clarice et cela consiste un attrait majeur pour tout acteur ! Clarice écrit avec des accents cariocas, nordestins, yiddish, russes, suisses, français, italiens Chez Clarice Lispector, il y a une profonde réflexion sur la condition humaine à partir de son intuition sur les choses cachées dans la nature ;  ces choses qui font partie intégrante de notre quotidien mais que nous faisons semblant d’ignorer, par peur, par intérêt, par paresse, par convenance…chez Clarice il y a cette volonté de rendre « l’œuf » visible, de découvrir les entrelignes – voilà ce qui m’intéresse chez cet écrivain!

Les défis du texte lispectorien pour un acteur et un metteur en scène ?
Le grand défi de la mise en scène des textes de Clarice, est de réussir à transmettre, par la voix et le jeu, l’intuition, la sensibilité, la respiration de son écriture. C’est de trouver le mouvement correspondant. Mes mises en scène se font  souvent en lisant et relisant ses textes, en les laissant « s’incorporer » eux-mêmes de la façon plus adéquate. Clarice écrit de façon très visuelle et cinématographique, ce qui confère à ses histoires cette atmosphère particulière. C’est à partir de cette atmosphère que j’élabore la scénographie, les costumes, la musique ou le bruitage de mes spectacles. Mon plaisir est, ainsi, de pouvoir transmettre tout ce que j’apprends à travers ses textes,  si variés. Le meilleur compliment pour moi c’est quand les gens me disent : « maintenant j’ai vraiment envie de lire Clarice Lispector ». Et, aussi, quand ils me disent que, finalement, elle n’est pas si difficile. Ceux qui la découvrent ont très souvent le même « coup de foudre », ce qui montre combien ses textes sont actuels !

Pourquoi Água viva ?
Cela fait des années que je fais des yeux doux à Agua Viva. J’avais déjà utilisé des extraits de ce texte dans d’autres mises en scène (Une Personne  ou Aller  Vers) ….Lors du colloque sur Clarice Lispector, organisé par l’Université de la Sorbonne en 2011, j’ai présenté une ébauche de ce spectacle écrit uniquement à partir  d’Água Viva. Ensuite, il a été programmé au Festival Vénézuelien de Paris et, maintenant, au Centre Culturel franco-japonais Bertin Poirée ! Décidément Clarice n’a pas de frontières ! C’est pratiquement une première, puisque je n’ai joué ce spectacle qu’une seule fois et il est encore « en mouvement » …

Propos recueillis par Leonardo Tonus



Água Viva  de Clarice Lispector
concéption et interprétation  Gabriella Scheer

Mardi, le 4 et Mercredi, le 5 décembre à 20:30H
Espace Culturel Bertin Poirée
8-10, rue Bertin Poirée , 75001 Paris
M° : Châtelet

rés. : 01 44 76 06 06 ou ecbp@tenri-paris.com
réservation fort conseillée, places limitées


On ne comprend pas la musique : on l’écoute.
Ecoute-moi alors avec ton corps entier. 
Clarice Lispector


Une femme peintre échange ses traits de pinceau pour des traits de lettres et avec lucidité et instinct entame un récit fragmenté d’instants-là  adressé à un homme. Entre confidence, délire et séduction elle lui parle dans un langage richement métaphorique des perceptions  autres  de la vie et de l’amour.

En portugais água viva veut dire la méduse, cet animal marin aux multiples tentacules qui se meut dans l’eau au gré des courants. Et c’est avec cette liberté et cette intuition que la femme écrit et parle à son amant, se laissant aller au gré « des instants qui s’écoulent dans l’air que je respire ».
Il n’y a pas d’histoire, pas de début, ni fin, il n’y a que des instants : les« instants-là » d’une femme peintre qui sent « maintenant la nécessité des mots ».  En échangeant ses traits de pinceau pour des traits de lettres, elle entame avec lucidité et instinct un récit fragmenté d’ « instants-là » adressé à un homme.
Inventant un langage richement métaphorique qui s’exprime par des néologismes et des constructions innovatrices, elle cherche « derrière ce qui est derrière la pensée » et entre confidence, délire et séduction propose des perceptions « autres » de la vie et de l’amour.
En effaçant de plus en plus les frontières entre la logique et l’instinctif, marchant « sur une corde raide jusqu’à la limite de mon rêve »,  la femme transforme son quotidien en une commémoration de « tout ce qui intensément EST ».

Malgré son apparence abstraite ce texte nous touche parce qu’il évoque des sensations, des pensées latentes en nous, mais que nous préférons esquiver pour ne pas remettre en question notre modus vivendi.
Le conformisme à un « mode d’emploi de vivre » dicté par des paramètres de société est transcendé par la femme en un « allegro con brio » de vainqueur de vie, car elle transforme, d’un instant à l’autre, l’espace réel, les objets, les actions quotidiennes, en grandioses détournements de questionnement sur le sens de l’existence et de la vie, où la subjectivité l’emporte sur les faits.

« Je ne veux pas la terrible limitation de qui vit seulement de ce qui est susceptible d’avoir un sens. Pas moi : ce que je veux c’est une vérité inventée ».

L’enjeu de la mise en scène est d’animer ces intuitions multiples que nous pouvons avoir de ce que nous appelons la vie, - si difficiles à définir en mots et qui pourtant font partie du mystère de notre condition humaine -, en cherchant l’équilibre entre la parole, le corps et le silence … des entrelignes. Le défi de la traduction est de transposer les innovations linguistiques en langue française.

La scénographie de ce spectacle propose un espace dans lequel la femme peintre vit et écrit. Le décor simple est constitué d’une table, d’une chaise, d’un tas de papier, d’une boule de verre taillée à la façon d’un diamant, de fleurs d’ail séchées, et de quelques autres objets de son quotidien. Elle se sert de ces objets pour évoquer « autre chose ».

Gabriella Scheer. 

domingo, 25 de novembro de 2012

Xingu


Ciné-club en espagnol et en portugais
Dans la thématique "L'Amérique Latine aujourd'hui"
Projection du film

XINGU de Cao Hamburger (Brésil 2012)
avec João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat
V.O. sous-titrée en anglais.

Mercredi 28 novembre 2012 à 16h30
Amphi Alexis de Tocqueville (Sorbonne: site Clignancourt)

Film présenté par Maria-Benedita Basto et Selma Pantoja

Début des années 40, Leonardo, Cláudio et Orlando Villas Boas quittent Minas Gerais en direction de la région centrale du Brésil, dans le cadre de l’Expédition Roncador-Xingu, organisée par le gouvernement brésilien, visant exploiter les terres vierges, dans le but de construire et développer des nouvelles villes. Ce projet ambitieux mettrait en péril toute la richesse culturelle et ethnique de la région. Initialement à la recherche d’aventures, les frères Villas Bôas vont devenir une part importante de l’histoire nationale, véritables héros et les plus grands défenseurs des peuples indigènes d’Amazonie, ayant contribué à la création du Parc National de Xingu, la première grande réserve indigène du Brésil. Xingu est une histoire de droits humains et d’activisme environnemental qui reste aussi controversée aujourd’hui qu’elle n’était il y a 60 ans.
(Source: http://kifika.utopolis.lu/film/7904)
Sorti le 6 avril 2012 au Brésil, "Xingu" le film événement de cette année raconte le parcours étonnant des frères Villas Boas et de leur première expédition dans le Centre-Ouest du Brésil en 1943. Un film vérité qui propose une relecture de l’histoire du Brésil et du peuple Xingu, qui vit le long du Rio Xingu, un affluent de l'Amazone. Une œuvre cinématographique épique et sensible qui, pour une fois, fait écho à l’actualité. “Je veux montrer que c’est une question d’urgence et d'actualité” a expliqué le réalisateur Cao Hamburger au journal Diário de Pernambuco. En effet, la discorde concernant le barrage de Belo Monte et la sauvegarde de la faune et la flore amazonienne se poursuit. Sélectionné pour le Festival de Tribeca à New York et de Berlin, "Xingu" s’annonce comme le film brésilien de l’année. Le film a été tourné dans le Parc même de Xingu pendant dix semaines avec la participation de 250 indiens de la réserve.
(Source: http://www.lepetitjournal.com/rio/bresil-en-bref-rio-de-janeiro/103248-cinema-qxinguq-unfilmdactualite.html)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Barbas pouco confiáveis


Barbas pouco confiáveis

Elvira Vigna

Tive um problema na minha leitura de Barba ensopada de sangue de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2012). Fiquei com vontade de pular páginas, ler outras na diagonal. Não no começo, mas já passando do meio, quase no fim. Ou seja, não era uma incompatibilidade minha em relação ao texto. Foi me dando. O que se segue é minha tentativa de explicar a razão disso.
A primeira frase do livro é brilhante:
"Vê um nariz batatudo, reluzente e esburacado como uma casca de bergamota."
(Isto é, primeira frase tirando a descrição, em itálico e entre páginas em branco, do suposto fato real que gerou a ficção, mas sobre isso volto mais tarde.)
Digo que é brilhante porque determina de imediato o que devo esperar do livro: um discurso regional ("bergamota" é regionalismo de Santa Catarina e Rio Grande do Sul), realista, com narrador-câmera (a primeira palavra é "vê") na terceira pessoa. Devo esperar, principalmente, uma determinada distância emocional entre narrador e narrado: pouca. O narrador está bem próximo do narrado. A ponto de ver buracos em uma pele de nariz.
Acabo de descrever o narrador em situação clássica de catarse. Alguém comum (a escolha de um nariz como ponto de partida determina o banal) que, por conta de uma decisão ou escolha, se vê em meio a emoções violentas, catárticas, que o "salvam" - e ao leitor, de cambulhada. Uma maneira de apresentar tais emoções violentas é justamente descrever detalhes, mesmo os que nenhuma importância têm, mas que se imprimem na memória de quem passa por elas.
E foi esse o problema.
O texto é frio.
Nada contra. Poderia ser um excelente texto frio. O problema é que há uma falsidade básica nas técnicas narrativas realistas e detalhistas a prometer uma catarse que não está lá. E não está lá porque a proximidade emocional prometida inexiste. O narrador é emocionalmente distante do narrado e, portanto, do leitor, em que pesem as técnicas de proximidade usadas. São várias: 1) o detalhamento minucioso, típico do emocionalmente impactante, mas usado de forma indiscriminada como, por exemplo, na descrição de uma tarde no circo, nem um pouco impactante; 2) o narrador-câmera que só vê , mas que não é um narrador-câmera já que entra na cabeça de todo mundo; 3) um linguajar "oral", com palavras grafadas como se fala e sempre no presente do indicativo, mas em frases que seguem um padrão regular, não importando quem e quando fala.
Além disso, outras coisas que, não sendo exatamente técnicas narrativas, sugerem um estar mais à vontade no longe do que no perto: 4) a escolha de um balneário turístico, local por definição fora-do-mundo-real, como base do presente narrativo; 5) as dualidades claras, dicotômicas, só possíveis quando vistas de forma esquemática, isto é, de longe; 6) a profissão do herói: um atleta, isto é, alguém que busca ativamente, através de limites físicos, seus impactos emocionais, em vez de sofrê-los, com tudo o que isso significa em termos de tentativa de controle - sendo que impactos emocionais minguam na exata razão inversa de tentativas de controle.

Mergulha, passeia um pouco entre as pedras marcando o tempo no relógio e só emerge quando começa a sentir atrás dos olhos aquela pressão desesperadora da falta de oxigênio. Um minuto e cinco segundos.( 203)

E, 7), há ainda a questão da decisão ou escolha que precipitaria a jornada catártica. Não há decisão. O distanciamento emocional do herói é tal que ele não participa daquilo que é dado como sendo a razão inicial de seu distanciamento emocional: a mulher da vida dele para sempre perdida ("Viviane") o abandonou para ficar com o irmão dele. Ela vai, ele não faz nada:

Eu não podia ir contigo naquele momento porque tava treinando pro mundial de Iron man no Havaí. Que era o sonho da minha vida. (414)

A decisão ou escolha, o fator de mudança, o gatilho da ação, é de Viviane, não dele. Ele continua a fazer o que já estava fazendo antes de o livro começar e que continuará fazendo depois que o livro acaba, isto é, sendo atleta.
De todos os itens que listei, incluindo esse da ausência da decisão deflagradora da ação, só vou me estender aqui em dois deles: o 2) do narrador cuja proximidade emocional é prometida mas não existe; e o 5) das dualidades dicotômicas, com um certo destaque para um aspecto que me é caro, o da dualidade dicotômica de gênero.

O falso falso narrador onipotente, onisciente e ubíquo

Primeiro, uma dificuldade de definição. Existe o falso narrador onipotente, onisciente e ubíquo. Aquele que, na terceira pessoa, acompanha de perto um determinado personagem, mas só ele. Vê tudo que ele vê e até entra na cabeça dele, sabe de seus pensamentos, mas só os dele. Ou seja, é um "eu" disfarçado de "ele". Achei que era o caso.
Mas não. Aqui é um falso falso narrador onipotente, onisciente e ubíquo. Ou seja, ele é de fato onipotente, onisciente e ubíquo. Só disfarça que não é. Segue um determinado personagem, o herói, mas na verdade entra na cabeça de todo mundo, personagens secundários como Dália (sua companhia na ida ao circo) ou um surfista que nunca mais vai aparecer no livro:

Dália repara que os assistentes de palco que montam e desmontam a cena em quase todos os números são ninguém menos que Los Bacaras. Ela suspeita que são todos da mesma família. (146)

É um dia de inverno que parece de verão. Sentado em cima da prancha, ele mexe os dedos dos pés dentro da água gelada e imagina que não há mundo do outro lado dos morros.(321)

Ao não se assumir como onipotente, onisciente e ubíquo, o narrador também não se assume como pensador. Discussões filosóficas, assim, são colocadas na boca de personagens que não as sustentam, ficando, eles também, falsos. Um bebum de beira de praia providencialmente teve no passado uma namorada muito culta que o introduziu ao pensamento de Nietzsche. Uma recepcionista de lojinha para turista disserta sobre a diferença entre mito e ídolo graças a um curso na universidade local. Ela também sabe tudo sobre a época da colonização da região, porque leu muitos livros e pode, inclusive, emprestá-los ao herói.

Isso tá nos livros de história de Garopaba, posso te emprestar um.( 260).

E ela também sabe o que é prosopagnosia.

Jasmim é a primeira pessoa que ele conhece que já sabia o que era prosopagnosia. É o tipo de coisa que ela estudou na faculdade e que fica lendo em sites de internet com um interesse insaciável. ( 268)

Esse narrador - distante emocionalmente do narrado, embora finja estar perto; que usa os personagens para expor ideias que não podem ser dos personagens - terá mais uma dubiedade: um curioso momento em primeira pessoa, o único do livro, sobre o qual falarei junto com a questão de gêneros, no item das dualidades dicotômicas.

As dualidades dicotômicas

Permeiam todo o livro.
A primeira é a do destino versus livre-arbítrio:
É uma discussão da época do existencialismo e que não teria mais muita relevância em nosso capitalismo tardio. Mas o ponto não é esse. É que é uma falsa dualidade mesmo dentro do escopo do livro. Quero dizer, é falsa no livro. Porque embora se apresente como uma discussão, ou seja, dois pontos de vista antagônicos que precisam se encontrar como tese, antítese e síntese, o que vem primeiro é a síntese. É o destino quem comanda o mundo, fico sabendo desde o início. Só que, para evitar dilemas morais, o herói - que é moralista - conclui que, mesmo apenas obedecendo ao que determina o destino, é preciso agir como se houvesse responsabilidade pessoal.

Ninguém escolhe nada e mesmo assim a responsabilidade é nossa. É assim. Não sei explicar por quê. (419)

Digo que sei desde o começo que é o destino quem ganha essa falsa dualidade porque há referências a "purezas de origem", sonhos premonitórios, lendas que se comprovam, personagens misteriosos a anunciar o que pode vir.

Levanta um pouco mais tarde sem saber ao certo se cochilou. Algo importante mudou na atmosfera mas é difícil dizer o quê. (...) O fim do mundo se aproximando em silêncio. (132/133)

De repente não há nada para fazer nem pensar e nesse hiato ele tem um vislumbre de como e onde irá morrer. A visão não surge em detalhes.(179)

Sua figura tem uma pureza ancestral. (191)

Não lembra de ter chegado à praia mas consegue evocar fragmentos vívidos de toda a noite anterior. Parece um pouco um sonho (...). (375)

A mulher começa a relatar outro sonho que teve com ele, mas ele a interrompe e diz que já sabe. (399)

A segunda dualidade dicotômica é a do homem versus natureza:
Haveria outros exemplos, a começar por um elogio à vida não urbana ou "em contato com a natureza" da casinha virada para o mar e não para a rua. Mas vou me ater à barba que dá título ao livro e que passa de um homem a outro homem (uma fantasia de procriação sem participação feminina, em que pese a anamorfose possível a transformar barba em pelos púbicos e sangue guerreiro em menstruação).
Essa segunda dualidade, homem versus natureza, se liga à primeira, a do destino. A barba passa de homem para homem para que um destino se cumpra, o destino da integração com a natureza, tentada pela primeira barba, mas só conseguida pela segunda. A barba intermediária, a do pai, nega sua presença. Ela é raspada ("Barba feita") até o suicídio de seu portador, que colabora no entanto com o dilema ao ofertar uma cachorra, a Beta (é uma fêmea, portanto do segundo sexo), para o embate final.
O atleta, em sua fisicalidade, é um ser superior ao avô e consegue passar de um mundo, o dos homens, ao outro, o da natureza - o que o avô não conseguiu, não totalmente. Talvez não seja graças à fisicalidade superior do herói. Afinal, o avô também tinha seus dotes físicos: sobreviveu a facadas múltiplas, nadava muito bem e ficava um tempo grande debaixo d'água. Talvez o sucesso de um e fracasso de outro se dê por causa da presença feminina, tolerada pelo avô (desde que em estado de submissão) e descartada pelo herói. De todo modo, ele consegue: o elo com a cachorra não se abate apesar de quilômetros e reveses. E uma baleia fica "a vinte, trinta metros de distância" do herói, sendo - tanto quanto a cachorra - uma cúmplice, uma irmã de destino:

Ela transmite calma e cumplicidade. ( 320)

É como uma fábula. Tu vê que a vida do cara e a vida da garoupa tavam ligadas de alguma forma, como a tua vida e a dessa cachorra. (124/125)

O livro tem um final feliz. O herói consegue ser um com a natureza, e tal calma e cumplicidade excluem a violência - e também, talvez, mudanças perturbadoras e a própria passagem do tempo.

Dentro das dualidades dicotômicas, a dos gêneros
As mulheres do livro. Estão no âmbito de "família" e não de "companheirismo", entendido sempre como algo possível apenas entre homens, ainda que seja entre um adulto (o herói) e um menino (o filho de uma ficante ocasional).
Como "família", mulheres se opõem ao "mundo" e o herói precisa escolher entre essas duas coisas, não havendo possibilidade de ter as duas:

Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. (399)

Não há gays.

Do tabu do homossexualismo e o monte de problemas que isso traz. Pessoas sofrendo na vida privada (263)

É o único momento do livro em que a homossexualidade é referida. Eu poderia analisar um por um os sintagmas escolhidos. Mas vou ficar só com "tabu", deixando de lado o reducionismo da "vida privada". Deixo de lado também a escolha de "homossexualismo" e seu sufixo denotador de anormalidade.
Tabu então. Tabu está no campo semântico do religioso, do sagrado. O narrador considera que a atitude antigay da comunidade de pescadores não é um preconceito, uma violência social e uma ignorância, mas uma consequência do sagrado. Posso colar esse comentário àquele da responsabilidade pessoal que as pessoas devem ter, mesmo quando sabem que apenas seguem seu destino.
Com gays e mulheres mantidos à distância, o herói pode se dedicar ao companheirismo masculino, inclusive no momento transcrito a seguir, o único em que o narrador assume uma primeira pessoa, ausente em todo o resto do livro:

Trocaram um abraço forte. Pedrão tinha se aproximado e dito Oi, é o Pedrão. Eram dois homens que se respeitavam. Tinham passado centenas de horas juntos, correndo, pedalando e nadando longas distâncias, se incentivando, se distraindo, puxando o ritmo do outro, tentando acompanhar o ritmo do outro, compartilhando o estado mental semimeditativo do exercício prolongado. Pedrão tem a mesma idade que ele, trinta e quatro anos, mas ele sabe que os dois parecem um pouco mais velhos que isso. Esforço demais, sol demais, radicais livres demais no sangue se somando aos percalços físicos e emocionais que afligem todo mundo e que carregamos no corpo (...). (206)

Voltando às mulheres.
A mãe. Não é confiável. Tem um namorado, ou seja, "trai" o pai na equação básica edipiana. Também trai o herói porque tem preferência pelo seu irmão. Trai o passado (que é algo que o narrador tem em alta conta embora não se saiba a razão para isso) ao fazer plástica. E está definitivamente do lado "errado" na dualidade dicotômica homens versus natureza, pois maltrata a cadela Beta. Além disso, a mãe usa o pejorativo "negrinha" para se referir à namorada do herói, a Jasmim, ofendendo, assim, sua masculinidade.
Viviane. A mulher da vida dele para sempre perdida. Acho mesmo que é a mulher da vida dele porque para sempre perdida, já que o herói, obedecendo a um romantismo muito em voga na literatura moderna (e não na contemporânea), só se entende sozinho.

Imaginou variações consecutivas dessa história por anos a fio. Em todas ele terminava sozinho. (403)

Jasmim. Faz compras, faz sopinha. E faz faxina. E, além de tudo, não espera ligação emocional. É a encarnação de uma fantasia masculina de mulher, a que doa de comida a afeto, sem necessidades emocionais ou materiais. Diz ela:

Sobre a gente ter se conhecido e qualquer coisa que acontecer daqui pra frente. Vamos tentar simplesmente não falar a respeito. Não perguntar se tá acontecendo mesmo, se a gente tem motivos, se vai ser assim ou assado. Querer saber o que um tá sentindo, o que o outro tá sentindo. Sei que devo parecer louca mas falar sobre as coisas avacalha tudo para mim. Falar estraga. (pg. 268)

***

Uma nota sobre o início do livro, com a explicitação do "fato real", gerador da ficcionalização.
Paulo Scott fez a mesma coisa em seu último romance, (O habitante irreal, Alfaguarra, 2011), também resenhado por mim. Gosto do recurso. Mas acho que melhor seria se em vez de separar "fato" e "ficção" os autores expusessem seu processo de ficcionalização enquanto ele se dá. Isso permitiria ao leitor uma maior entrada, um diálogo que, deste modo, fica impedido. Ao separar as duas coisas os autores obliteram suas falhas e hesitações, não deixam brechas para que autoria e leitura se deem de igual para igual.
Outra coisa de que gostei: a rememoração de uma trepada distante no tempo, nas pgs.81/82. É belíssimo.
Então é isso, achei o livro bem escrito paca, mas fingindo ser o que não é. Ou melhor, finge porque é bem escrito paca.
Há uma frase do livro que eu gostaria de ter escrito:

Dizem que a vida vista de perto é mais fascinante. ( 264)

Eu acho.

Elvira Vigna
Novembro de 2012

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confira no link:

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A contística de Luci Collin



HETEROGENEIDADE IDENTITÁRIA DA PERSONAGEM CONTEMPORÂNEA EM LUCI COLLIN


Devido à expansão da literatura de autoria feminina registrada nas últimas décadas no campo literário brasileiro, é possível observar a conquista da expressividade da mulher e, consequentemente, o desnudamento dos múltiplos aspectos que comporta a categoria “mulher”. Conforme demonstram as pesquisas empreendidas no âmbito da crítica literária feminista, essa produção literária tem se mostrado sensível ao registro, por meio da representação da personagem feminina, dessa multiplicidade e heterogeneidade identitária. Tais personagens exibem identidades nem sempre concebidas como sujeitos, e muitas vezes fragmentadas, mas quase sempre mais próximas de mulheres reais - nem santas nem pecadoras, e incoerentes como o são os seres humanos. É o que se apresenta na contística de Luci Collin.

A escritora Luci Colin é uma das autoras de maior destaque no Paraná. Nascida em Curitiba, em 1964, é graduada no Curso Superior de Piano, em Letras Português/Inglês e no Curso Superior de Percussão Clássica. Em 1987, estudou na Wright State University, em Ohio, USA. Adquiriu a titulação de Mestre em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a de doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Foi presidente da Cooperativa de Artes no Paraná (1984/85). Recebeu premiações em concursos de literatura no Brasil e nos EUA e representou o Brasil no Projeto Literário da EXPO 2000 em Hannover. Participa de antologias nacionais e internacionais (EUA, Alemanha, Uruguai e Argentina), tendo também traduções publicadas em diversos jornais e revistas. Atualmente mora em Curitiba, é professora de Literaturas de Língua Inglesa na UFPR e trabalha também como tradutora. Possui coletâneas de poesias, contos e um romance. As de poesias são Estarrecer (1984), Espelhar (1991), Esvazio (1991), Ondas e Azuis (1992), Poesia Reunida (1996), Todo implícito (1998) e, Trato de silêncio (2012);  as de contos, Lição Invisível (1997), Precioso Impreciso (2001), Inescritos (2004), Acasos Pensados (2008) e Vozes um divertimento (2008); e o romance, Com que se pode jogar (2011).

De uma forma peculiar, sua ficção chama a atenção à crítica literária pelas opções estéticas de representarem e ilustrarem alguns dos mais significativos códigos estéticos e ideológicos da pós-modernidade. Suas narrativas curtas se afastam de narrativas mestras totalizadas e capazes de representar verdades pretensamente absolutas sobre o universo, fazendo com que seus contos pareçam estar na dúvida a cerca das noções tradicionais de verdade e objetividade.


Em suas cinco coletâneas de contos, Luci Collin deu voz às personagens protagonistas, para que elas relessem o interior fragmentário de suas mentes, representando imagens delas mesmas e como o mundo as cerceia. É neste sentido que são observadas as escolhas da escritora, percebendo em que medida, no contexto do século XXI, essas escolhas endossam, reduplicam, questionam e/ou ironizam os tradicionais papéis e as tradicionais relações de gênero cristalizadas no âmbito do patriarcalismo. Essas personagens cumprem trajetórias que se cruzam entre si, representando um mundo que vai além das construções sociais, centrando também no interior humano, projetando suas vidas, seus objetivos, seus conflitos, suas utopias e suas dificuldades.


Os contos de Luci Collin, em sua maioria, não apresentam a época em que a narrativa se insere, o que pode tanto ser uma das características do conto pós-moderno como resultar das escolhas da autora para situar suas narrativas num universo literário atemporal. As personagens são, em sua maioria, femininas, e os contos, igualmente, são narrados por personagens femininas. Predominam personagens heterossexuais e das faixas etárias da juventude e da idade madura. Ainda há a presença significativa de mulheres representadas no meio doméstico, mesmo que façam parte das classes média e alta.

As personagens trazem como temática dos contos toda esta dinâmica das relações amorosas contemporâneas, de pertencimento e não pertencimento, de dominador e dominado, de objetificação versus  subjetificação, de fazer amor versus fazer sexo, desejar e não desejar, o que é certo e/ou errado, etc. Este é o tema central dos contos: o relacionamento amoroso. Dessa forma, essas personagens vão além de ideologias sociais, políticas e religiosas, para então, começarem a construir as suas ideologias, que também se encontra em construção.

Ao mesmo tempo em que a autora mantém determinado padrão literário, ao representar figuras e identidades construídas pelo cânone literário, ela subverte esse padrão representando personagens fragmentados por uma sociedade pós-moderna, ao deixar brechas e "não ditos" propositais, conferindo ao seu texto um tom de sugestão que, muitas vezes, diz mais do que se fosse explícito. O resultado é um texto denso, prenhe de posturas críticas que caminham no sentido da contracorrente, expresso por uma linguagem irônica, carregada de humor.


Um pouco de leitura


IMAGENS DESABRIGADAS
por Luci Collin
às quatro. encontrar-me-ei com ela às quatro, conforme me disse. conforme eu disse a mim mesmo. conforme mentiu. às oito estarei ainda lá esperando? e qual relógio poderá afirmar: são quatro? meu relógio é de ouro e tem até aquela corrente mas esqueço de dar corda, me esqueço da sequência das horas. quantos minutos são necessários para que cada coisa se faça? na verdade um dos ponteiros caiu há muito, muito mesmo. ficou solto ali dentro daquele visor encardido. sim, é um relógio antigo e guarda o tempo passado. todas as horas são um punhado de grãos indistinguíveis. mas sei que quando o coronel sai e bate a porta daquele jeito são três em ponto. encontrar-me-ei com ela às quatro.
conforme disse, o lugar deve ser este. conforme combinamos. mas advertiu que mentia. mas não acreditei que mentia. mas não acreditei que fosse capaz de mentir. por isso vim. por isso estou aqui. e são talvez já oito horas. não neste meu relógio indolente. nos outros relógios do mundo são oito. serão nove, quem sabe? neste relógio que observo, tendo há muito esquecido qual dos ponteiros se perdeu, o tempo é sempre um caminho impossível. conforme menti a mim mesmo ela estaria aqui, conforme eu quis acreditar que jamais mentiria. são oito. punhado de intraduzíveis. não, ela não veio. e já que sempre me esqueço a sequência das horas, não importa se está atrasada – não significa que não vem. num relógio como o meu, de ouro e com aquela corrente, quatro pode ser imediatamente depois de oito. e isso quer dizer que encontrar-me-ei com ela daqui a pouco.
na verdade ela jamais disse que estaria aqui na hora combinada. eu é que inventei um horário. ela nem tem relógio! nem relógio ela tem! como poderia combinar um encontro comigo ou com qualquer outro alguém!? dei a ela um pequenino relógio com uma delicada pulseira. ela recusou. anos atrás. jamais quis aceitar presentes. e eu sempre a insistir, reconheço! lembro-me que tive que devolver à loja aquela gaiola com o casal de canários. anos atrás. punhado de impermanências. não quis o relógio e não quis os canários e nem o chapéu lilás que ofereci e nem as luvas e nem o pequeno lenço de seda e nem o livro de sonetos e nem o terço de madrepérolas e nem aquele abajur estampado com motivos orientais e nem o jarro de porcelana pintado à mão e nem a caixinha adamascada e nem o exótico vidro de perfume e nem a estatueta de jade e nem os chás importados e nem o colar de coral. e não tendo aceito o relógio jamais poderia estar aqui na hora combinada. se chegasse, eu poderia suspeitar que um dia aceitou um relógio, delicado ou não, de algum estranho. mas não de mim.
às cinco não aguentei e descasquei uma das laranjas que iria oferecer. às seis aquele gato esquisito sentou-se aqui ao meu lado. às sete três moças passaram apressadas para apanhar o bonde e eu soltei as flores que segurava. às oito uma folha de jornal perdida foi sendo arrastada pelo vento e eu acompanhei seus movimentos sem sentido. às nove minha cabeça começou a doer e os meus pés começaram a latejar. às dez uma sirene soou e não consegui distinguir de onde vinha aquele som. às onze garrafas foram quebradas no beco. à meia-noite uma criança pequena começou um choro monótono e depois o pai da criança começou a berrar. à uma hora eu olhei para o céu. às duas não aguentei e descasquei uma das flores que iria oferecer. às três aquela folha de jornal sentou-se aqui ao meu lado. às oito cinco moças saídas de um baile passaram apressadas em direção ao vento. às nove eu soltei as laranjas que segurava e acompanhei seus movimentos sem sentido. às dez um gato começou seu choro monótono e depois minha cabeça começou a latejar. às onze não consegui distinguir aquele som que veio do beco e olhei para os meus pés. ao meio-dia o pai da criança passou apressado para apanhar as garrafas. à uma o céu monótono será quebrado mas o som será confundido com aquele da sirene. às duas meus pés pararão de berrar. às duas e trinta a criança terá virado um homem esquisito que passa em direção à folha de jornal. às três em ponto o coronel sai, meus pés, então, conseguirão partir. às quatro, conforme me disse, mentirá.
outra vez.
conforme me disse.
conforme eu disse a mim mesmo. meu relógio é de ouro e tem até aquela corrente. esqueço de dar corda. esqueço a sequência das horas. um dos ponteiros caiu. sai e bate a porta daquele jeito. o lugar deve ser esse. nos outros relógios do mundo. encontrar-me-ei.
um relógio afirmou:
às quatro.
Fonte website da escritora : http://lucicollin.com.br/
Alguns links sobre Luci Collin:

MAXIMIANO DE MOURA, Andiara. Representação e  ideologia: a personagem na contística de Luci Collin. Dissertação de Mestrado, Universiade de Maringá, 2012.

TEIXEIRA, Níncia Cecília Ribas Borges, Escritas de mulheres e a (des)construção do cânone literário na pós-modernidade : cenas paranaenses.Guarapuava: Unicentro, 2008.

Sobre Acasos Pensados, por Níncia Borges Teixeira
 Sobre Inescritos, por Nelson de Oliveira
“Dor e bom humor”, Bernardo Ajzenberg (sobre Lição invisível)
“Solidão e soliedariedade em concerto”, Vilma Costa (Sobre Vozes num divertimento)
Entrevistas :
Entrevista em aúdio a Margarida Patriota
Entrevista em aúdio a Margarida Patriota
A escritora Luci Collin lendo texto inédito de sua autoria no Teatro Paiol (Junho/2009)