segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Um dedo de prosa com J. Borges


Um dedo de prosa com J. Borges


Este mês o blog Estudos Lusófonos  foi até Bezerros em Pernambuco para encontrar J. Borges. Assistam ao depoimento do maior xilogravurista brasileiro em que ele conta o seu amor pela literatura de cordel.

Percurso

José Francisco Borges nasceu a 20 de dezembro de 1935, no município de Bezerros, distante 95 km de Recife, capital pernambucana, no Nordeste do Brasil. Cidade de clima ameno, Bezerros naquela época era, segundo as palavras do próprio artista, um lugar onde "telefone era grito e remédios eram chás de folha de mato". Na família Borges, como tantas outras com mais de uma dezena de crianças, a meninada começava a trabalhar cedo. Com oito anos de idade, José Francisco já trabalhava na terra com o pai.
Um dia, as coisas começaram a mudar, como conta o próprio artista, no livro Memórias e contos de J. Borges, editado pela Gráfica Borges: "O que eu mais almejava na vida era aprender a ler e escrever, e um domingo eu estava numa venda que havia na região quando chegou um jovem que ensinava particular, num sítio vizinho. E o meu pai perguntou a ele assim: "David, na tua escola ainda cabe um burro?". Ele respondeu: "Cabe sim, seu Joaquim". Aí, meu pai me disse: "Olhe, seu pedaço de corno. Amanhã você vai para a escola, mas se fizer coisa errada eu mato você". O menino nem dormiu de tanta ansiedade. Os estudos, porém, só duraram 10 meses, tempo suficiente para J. Borges aprender a ler, escrever e fazer contas. Nunca mais voltou pra escola. "Daí em diante já fui explorar a pequena leitura que até hoje me serve, e procuro sempre cultivá-la ainda aprendendo", costuma dizer.
Na infância ainda, José Francisco trabalhava na lavoura e fazia cestos e balaios pra vender na feira. Na adolescência, atuou no jogo do bicho, fabricou lajes e tijolos e confeccionou brinquedos. Durante a década de 1940, sem rádio e sem televisão, a única forma de se conseguir informação e diversão no agreste pernambucano era pela leitura dos cordéis. Foi nesse ambiente que o então menino José Francisco Borges começou a se interessar pelos relatos do folclore nordestino e situações do cotidiano da população pobre daquela região que eram publicados em panfletos ilustrados com xilogravuras e vendidos nas feiras locais. "O cordel em mim nasceu desde criança", conta o autor de cordéis e xilografista, conhecido como J. Borges
Foi em 1956, que pegou o primeiro lote de folhetos para vender. "Sempre fazendo mais fé na poesia, abandonei todas as outras profissões para me dedicar à literatura de cordel", conta. Com 29 anos de idade, resolveu que iria escrever cordel. Nascia assim O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina, que tem na capa uma xilogravura do Mestre Dila. O primeiro cordel de J. Borges foi um tremendo sucesso: vendeu mais de cinco mil folhetos.
Foi preparando o original de O Verdadeiro Aviso de Frei Damião Sobre os Castigos que Vêm que o poeta se transformou em artista plástico. Sem dinheiro para pagar um ilustrador, J. Borges decidiu ele mesmo entalhar na madeira a fachada da igreja de Bezerros. Nunca mais parou. Começou a fazer matrizes por encomenda e também para ilustrar os mais de 200 cordéis que lançou ao longo de todos estes anos. Foi descoberto por colecionadores e marchands. Seu trabalho levado aos meios acadêmicos do País. Durante a década de 70, J. Borges começou a ampliar os horizontes de sua obra, gravando matrizes dissociadas dos cordéis, com grandes dimensões.
A partir daí, a obra de Borges passou a ser exposta também no exterior. Em 1992, pôde ser vista na Galeria Stähli em Zurique e no Museu de Arte Popular de Santa Fé, Novo México. Novas exposições foram organizadas na Europa e nos Estados Unidos. J. Borges tornou-se uma referência. Foi condecorado com Comenda da Ordem do Mérito, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, recebeu o prêmio UNESCO na categoria Ação Educativa/Cultural. Em 2002, foi um dos treze artistas escolhidos para ilustrar o calendário anual da ONU. Sua xilogravura A Vida na Floresta abre o ano no calendário.
Apesar de tanta visibilidade, J. Borges continua levando a vidinha que sempre quis levar, na pacata Bezerros, ao lado da família e dentro do ateliê. Segue escrevendo e entalhando a madeira. E confessa saber que o reconhecimento é fruto de um enorme esforço pessoal. Diz o artista, dando a receita: "Eles vêem o meu trabalho como peça de arte, mas para isso acontecer eu tive que enfrentar muitos anos de luta com otimismo e esperança de vencer as dificuldades que me apareciam ao longo dessa trajetória. Para isso eu tive que ter paciência, humildade, coragem, fé no ramo e cabeça fria".

Fonte: Revista Sim



Parcours

José Francisco Borges est né le 20 décembre 1935 dans la municipalité de Bezerrosà 95 km de Recife, capitale du Pernambuco dans le Nordeste brésilien.  Ville au climat tempéré, Bezerros était à l’époque, selon les propos de l’artiste, un endroit où «le téléphone était un cri et la médecine des infusions de feuilles de bruyère». Dans la famille Borges, comme dans tant d’autres familles comptant une tripotée d’enfants, le travail commençait tôt. A huit ans, José Fransisco était déjà aux champs avec son père.

Un jour, les choses ont commencé à changer, ainsi que le raconte l’auteur dans son livre Memórias e contos de J.Borges, publié par Gráfica Borges : «Ma plus grande motivation dans la vie était d’apprendre à lire et à écrire, et, un dimanche, dans un marché de la région, je suis tombé sur un jeune d’une ferme voisine qui donnait des cours particuliers. Mon père lui a alors demandé : «David, les ânes sont-ils admis dans ton école ?». Il a répondu : «Bien sûr, moi Joaquim.». Ah, me dit mon père : «Regarde bougre d’âne. Demain, tu vas à l’école, mais si tu fais des bêtises, je te tue.» D’angoisse, le gosse n’en dormit pas de la nuit. Pourtant, les études ne durèrent pas plus de dix mois, mais ce fut suffisant pour que J. Borges apprenne à lire, à écrire et à compter. Il ne retourna plus jamais à l’école. «Depuis la lecture ne me quitte plus, elle continue de m’accompagner et aujourd’hui encore, j’essaie de la cultiver en apprenant»

Toujours dans son enfance, José Fransisco labourait et tressait des corbeilles et des paniers pour vendre dans les foires. A l’adolescence, il travaillait pour la lotterie des animaux, fabriquait des dalles et des briques et confectionnait des jouets. Dans les années 1940, sans radio ni télévision, le seul moyen de rompre l’isolement culturel et de se divertir dans la société rurale du Pernambuco était de lire de la poésie populaire, la littérature de cordel. C’est dans ce contexte que le jeune garçon s’est intéressé  aux contes populaires du folklore nordestin et à la vie quotidienne de ses habitants, publiés sous forme de brochures illustrées par des gravures sur bois et vendus sur les marchés locaux. «Cette forme de littérature me vient de mon enfance», raconte l’auteur et  xylographiste désormais connu sous le nom de J. Borges.
C’est en 1956 qu’il est tombé sur le premier lot de brochures à vendre. Il raconte qu’ «ayant de plus en plus foi en la poésie, (il) abandonna tous les autres métiers pour se consacrer à la littérature de cordel». A 29 ans, il décide d’en faire sa profession. C’est ainsi que O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina voit le jour, illustré d’une gravure de Maître Dila en couverture. Ce premier conte de J. Borges rencontre un énorme succès : plus de cinq mille brochures vendues.

Depuis, le travail de J. Borges a fait le tour du monde. En 1992, ses oeuvres ont été exposées à la galerie Stähli à Zurich et au Musée d’art populaire de Santa Fé au Nouveau-Mexique. Suivies d’autres expositions en Europe et aux Etats-Unis. J. Borges est devenu une référence. Il a reçu la Décoration de l’ordre et du mérite des mains du président Fernando Henrique Cardoso et a reçu le prmier prix de l’Unesco dans la catégorie Action éducative et culturelle. En 2002, il a afit partie des treize artistes sélectionnés pour illustrer le calendrier annuel de l’ONU.  Sa gravure, A Vida na Floresta, illustrait le premier mois du calendrier.
Malgré son succès, J. Borges continue de mener la vie qu’il a toujours aimée auprès de sa famille et dans la tranquillité de son atelier de Bezeros. Il continue d’écrire et de tailler le bois. Et il confesse que la reconnaissance est le fruit d’un long effort personnel. «Ils voient mon travail comme une oeuvre d’art, mais pour en arriver là, j’ai dû affronter beaucoup de difficultés au fil des années et me battre avec optimisme pour en venir à bout. Pour cela, j’ai dû m’armer de patience, d’humilité, de courage, et garder la foi et la tête froide». 

Traduction : Catherine Charmant-Leber

A chegada da prostituta ao céu
(trecho)

Do rosto da poesia
eu tirei o santo véu
e pedi licença a ela
para tirar o chapéu
e escrever a chegada
da prostituta no céu

Sabemos que a prostituta
é também um ser humano
que por uma iludição
fraquesa ou desengano
o seu viver é volúvel
sempre abraça a o engano

Vive metida em orgia
e cheia de vaidade
é raro uma que trabalha
e usa honestidade
por isso fica odiada
perante a sociedade


Todas as religiões
pra ela escala uma pena
se o homem lhe abraça
a mulher casada condena
mas sabemos que Jesus
perdoou a Madalena

Falar sobre prostituta
é um caso muito sério
que é um ser sofredor
sua vida é de mistério
e para sobreviver
sempre usa o adultério

Perante a sociedade
ela é marginalizada
existe umas mais calmas
e outras mais depravadas
e quem tem mais ódio delas
é a própria mulher casada

Ela vive aqui na terra
enfrentando um sacrifício
se vende para os homens
muitas se entrega a o vício
enquanto nova se estraga
e faz da miséria ofício

Aconteceu que uma delas
morreu em um certo dia
e pela vida que levava
o povo sempre dizia
ela vai para o inferno
pêlos atos que fazia

Assim que foi enterrada
a alma se destinou
querendo ir ao céu
mas primeiro ela passou
pelo portão do inferno
e o diabo lhe acompanhou

Saiu correndo atrás dela
dizendo vem cá bichinha,
um bocado como tu
faz tempo que aqui não vinha
e eu estou gamadão
nesta garota novinha

Mas na carreira que iam
o diabo e a prostituta
passaram no purgatório
e no sindicato das puta
e lá no portão do céu
foi que começou a luta

(continua....)  
HISTÓRIA DO HOMEM DO PORCO



        Um matuto muito otário
que nunca aprendeu a ler
criou um casas de porco
dizendo ser pra comer
matou a porca e o porco
e foi pra feira vender.

        Chegou na feira cedinho
arranjou uma barraquinha
colocou a carne em cima
e gritou a carne é minha
um freguês pergunta o preço
da carne da bacurinha.


        Disse ele: a porca é da mulher
e o porco é todo meu
o preço do porco é o da porca
passou o dia e não vendeu
e já pela tardezinha
um comprador apareceu.

        O comprador lhe falou
a carne é do meu agrado
eu compro a porca e o porco
se o senhor vender fiado
o meu nome é Sou-Eu
o negócio está fechado.

        
O matuto disse: está
você é um bom freguês
o homem disse: eu comprei
toda carne de uma vez
e garanto lhe pagar
daqui para o fim do mês.

        O pobre homem foi embora
sem a carne e sem dinheiro
em casa disse à mulher:
encontrei um companheiro
que comprou-me a carne toda
e paga no fim de janeiro
    
A mulher disse: tu és
um otário convencido
depois de tanto trabalho
dá o ouro ao bandido
mesmo assim eu quero o meu
para comprar um vestido.

        Quando passou mais de um ano
numa noite calma e fria
o matuto viajou
e passando uma travessia
na mata escura ele viu
gente que vinha ou que ia.

        E com medo gritou
de lá alguém respondeu
não tenhas medo colega
quem está aqui sou eu
o homem encostou e disse:
eu quero o dinheiro meu.






Disse o homem : qual o dinheiro
que o  senhor diz que quer
ele disse: do meu porco
e da porca da mulher
você agora me paga
dê o caso no que der.

        A quem eu vendi a carne
disse: que era sou eu
você respondeu agora
que esse é o nome seu
e por isso me pagas logo
a carne que tu comeu.
     
O homem pagou a pulso
sem comer e sem beber
apertado no punhal
sem poder se defender
deu o dinheiro que tinha
pra se livrar de morre.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Meia-volta, volta e meia



Meia-volta, volta e meia


Wladyr Nader

— Eu sempre fui um puta cara de esquerda, está bem?
— Por que você diz isso?
— Por sempre enxergar longe e agir de acordo. Previam encrenca, me convocavam. Sempre previam encrenca, mesmo quando não previam, se é que me entende.
— Que mais?
— Reapareceram outro dia, ouviu, disfarçando as barriguinhas com as camisas pra fora das calças, em tese pra não dar na vista. Já, quanto aos cabelões e cavanhaques, retórica pura ligada aos apregoados bons tempos que na certa hão de arrastar desta aqui para a chamada melhor.
— Até pela idade, hipoteticamente não conheço nenhum deles.
— Com certeza, são caras bastante antigos. Falaram curto e grosso que não admitiam recusa, que recusar significava trair. Repetiram diversas vezes que se tratava de ideais da juventude, que precisavam reengrenar, aprontar alguma. O diabo é que isso acontece trinta e tantos anos decorridos, quando o mundo anda mais aos trancos e barrancos do que nunca.
— Compreendo.
— Compreende? Somente que nem imagina do que minha velha turma era capaz. Houve tempo, em plena ditadura, que não passávamos uma semana sem pichar um muro da cidade. Ou melhor, muro, parede, porta, fosse o que fosse.
— Devem ter enfrentado paradas duras, vocês.
— Para ser sincero, nunca de fato aquela da pesada, daí o faniquito. Agora quem falou que na democracia ou nos tempos democráticos, como supostamente os de hoje, não nos pegariam de surpresa? Lógico que sim.
— Sob quais acusações?
— Pichação indiscriminada, ora! Hoje nem dá pra rabiscar ianques, fora! ou abaixo o imperialismo!, porque ninguém ligará a mínima.
— Portanto a tendência é a acomodação? Veja, estou bancando o advogado do diabo justo pra colaborar. Para ajudá-lo a pôr os pontos nos is, fazer melhor juízo da situação e perceber o que anda ou andava pela cabeça do pessoal. Ajudo?
─ Adiantou resmungar que me faltava pique, verdade verdadeira, que me sentia enferrujado, que os cabelos brancos possuíam um sentido, no fundo a decantada acomodação? Nem pensar em cair fora, sentenciou meu amigo Mário, que a esta altura já manca da perna esquerda por excesso de peso, cem quilos pra mais,  acho, pra modestos um metro e setenta.
— Certo.
— O sexto telefonema deles foi a conta, quebrou o gelo, fiquei de quatro: eu não tinha nada a perder ou, se tinha, argumentaram, era  porque me corrompera. Tentei rejeitar o plano, ir pra cima, tive dó. Enfim acreditei que uma vezinha só não tiraria pedaço e que valia a pena dar ao grupo aquela esperança em nome da camaradagem. Acertamos os ponteiros, sabendo eu que não iríamos longe, nós, os desmiolados de ontem posando de recauchutados. Também reconheço que hajam crescido as justificativas deles, a que não prestei grande atenção. Para aquela gente, eu deveria me comportar à maneira de um mito, pela breve fama adquirida na política estudantil. Exatamente eu! Eis o que faltava pra me convencer. Covardia não casava com a personalidade deste cidadão aqui, etc. e tal, enfrentara lances arriscados, insistiram ─ quais, me pergunto agora encafifado? ─, e os superara sem qualquer hesitação. Fiz questão de lembrá-los de que a própria vida me assustou, eles riram, contra-atacaram com piadinhas. Quando se nasce líder, é uma bosta.  Ou seja, deixei de ver pormenores negativos na ação que combinamos pra uma semana depois. É que, por haver embarcado em várias canoas furadas, virara um ressentido, avesso a progressistas dos mais criativos matizes, alegaram, não recordo se em conjunto ou dois ou três. No fundo, acabei sem um norte, sem gás, larguei mão, desculpando-me particularmente só pra constar, mesmo quando não enxergava como fazê-lo.
— Você passou a tecer uma série de considerações e aí perdeu o fio da meada, o relato não avança.
— Pra compensar usarei o expediente de afirmar que a certa altura puxei o freio de mão e grunhi algo do tipo espere aí, gente, esse negócio vai gorar! Suponho que a turma inteira parou pra refletir sobre a questão, parou, sim, e em tese chegou à unanimidade: maluquice pura, eventualmente divertida. Os tipos, entretanto, bateram o martelo sob um ângulo diferente. Foda-se!,  gritou um e o resto seguiu. Por tal razão é que, vestida a carapuça de indiferente, me dispus a aguardar sentado as instruções daqueles velhos camaradas, pensando com meus botões. Têm ao menos uma vantagem os botões de nossa existência: são bons ouvintes até mesmo nas desgraças e não precisam dar-se ao trabalho de propor uma ou outra sugestão às criaturas e exagerar nos argumentos. A gente escapa aqui e tropeça logo adiante, esfacelando-se de repente numa emboscada solitária. Concordo, entretanto, que ninguém tem obrigação de ficar atento a analogias, pra não sucumbir neste que se tornou, pelos naturais avanços tecnológicos, o mais mecanizado dos períodos da humanidade. E isso vai piorar. Ou seja, meu manancial de restrições, pra rebater qualquer proposta deles, afastando a loucura de suas lindas cabecinhas, fora insuficiente, caíra por terra. O reencontro seguido da ação, como a ela se referiam, acabou marcado para o velho bar da alameda Santos que frequentávamos quando ainda tínhamos uns pares de ilusões.
— Daí vocês armaram todo aquele rebuliço e salve-se quem puder!
— Não foi efeito da bebida, juro. Escolhemos a praça do Belenzinho, o metrô ali mesmo, porque, digamos assim, já havíamos agido no pedaço em outros carnavais. Pichamos a praça toda, de fio a pavio, não escapou a menor portinha. Aí naturalmente baixou a polícia, que nos apanhou com a boca na botija enquanto procurávamos esconder tintas e pincéis. No entanto um detalhe sou forçado a reconhecer: nenhum deles deu no pé, além do que ouviram  calados o sermão oficial. Fui obrigado a jurar por minha mãe que obra nossa só tinha sido um murinho lá perto, a troco de banana. Estética, falei, por uma questão de estética, o que quer que significasse isso .  Julgo que engoliram nossa admissão de culpa pra não complicar o negócio. De qualquer forma não pudemos descartar o amável convite de comparecer ao distrito.
— E como é que a coisa virou uma festa do bairro, em plena madrugada?
— Porque, como você não ignora, a polícia é muito escandalosa, adora aparecer. De repente até os que estavam enganchados nos braços de Morfeu deram as caras ou surgiram à janela. Não poderia faltar bateria, claro, e veio de um canto qualquer que não consegui detectar. De manhã soubemos que um pessoal  ainda sambava numa rua do Brás e de passagem pintamos por lá.
— E a história acabou bem, suponho, porque vocês não são  nem por sombra criminosos comuns. Ou minha conclusão é equivocada?
— Só para você ver, como acabamos na delegacia, eu, óbvio, é que precisei responder às perguntas idiotas de um investigador pra lá de grosso, o delegado não quis se misturar com a gente, nem apareceu. O tipinho tinha menos de um metro e sessenta e era nervoso demais pro meu gosto, foi perspicaz e mandou a primeira pergunta rindo em nossa cara: "Que diabo quer dizer abaixo esta democracia de araque!, que vocês picharam lá? Por acaso são uns revolucionariozinhos de meia-tigela, de bosta, que ficam brincando em serviço?" Imagine o que me passou pela cachola no  momento e o esforço que fiz pra não partir pra cima dele! Além do que, eu queria era esganar meus companheiros. Aí, pausadamente, me defendi alegando que havíamos tomado pra umas e outras embebidos do veneno do álcool, que havíamos ultrapassado os limites do convívio humano e resolvido provocar um corintiano imbecil da turma que havia dito que palmeirenses e são-paulinos reuniam a escória das torcidas organizadas etc., etc. Escutou direitinho, procurei sair pela tangente do futebol, já que inexistia outra alternativa plausível? O sujeitinho caiu na gargalhada e deve ter repassado a besteira a todos os que entraram e saíram da sala, pelos mais diversos motivos, bem a nossa frente. Eu não me senti recompensado pelo triunfo de meus argumentos, embora feliz porque dali em diante estaria dispensado de me desculpar perante qualquer nova estupidez da turma: sugerissem o que sugerissem, fora de questão!
— Sem maiores problemas, como nas deliciosas comédias italianas dos anos 50 e 60. Então é isso?
— Imagina o que me senti obrigado a fazer pra compensar o fogo que não tomei, enquanto meus amigos permaneciam belos e formosos em casa com seus pilequinhos? Bater de porta em porta pra me desculpar com os moradores e comerciantes da praça e prometer recompor em menos de uma semana as cores originais dos muros. Envergonhado por tanta estupidez, de que me penitencio abrindo o jogo a você, me comprometi comigo próprio a jamais tornar a pisar no bairro, se é que é possível. Ridículo, ridículo! Ou seja, foi tudo duma babaquice atroz. Eu me olho no espelho e me pergunto como pude cair no conto dos revolucionários de fancaria de meu tempo. Apesar das contrariedades, claro, eu os quero bem porque quando jovens compartilhamos muitas coisas. A questão, hoje, é que não mais habito seu mundo, nem tenho por ele o menor interesse, embora pertençam àquela vaga esquerda que ainda existe por aí.
— Sinto por suas palavras que, embora a condene, a experiência valeu, não valeu?
— É, só que necessito deixar bem claro o seguinte: não desejo virar  personagem, prefiro continuar como criatura de carne e osso e ponto. Na verdade é cômodo e menos sujeito a emoções destrambelhadas. Gosto de minha vidinha, ela me basta. Talvez não seja adequada para quem deseje viver grandes emoções. Aliás, quem espalhou que a tranquilidade, mesmo que a pessoa se acovarde, não é uma bênção dos céus? 


O paulistano Wladyr Nader  é autor de nove livros, entre romances e coletâneas de contos. O Conto "Meia-volta, volta e meia" é retirado da antologia O Tamanho do Estrago, reunião de novas histórias curtas, que sera lançada dia 9 de Novembro de 2012 na Livraria Martins Fontes em São Paulo.

Wladyr Nader criou em 1975 a revista Escrita, com apoio de um grupo de amigos também escritores e hoje tem um blog literário:escritablog.blogspot.com

Obras do autor:

Lições de Pânico ─ contos (1968) ─ Vertente Editora
Espinha Dorsal ─  contos (1971) ─ Vertente Editora
Camisa-de-Força ─  romance (1975) ─ Vertente Editora
Cafarnaum ─ contos (1977) ─ Vertente Editora
Jogo Bruto ─ romance (1980) ─ Vertente Editora
A Última Bala do Cartucho ─ novela (1983) ─ Editora e Livraria Escrita
Confissões de um Mau Entendedor ─ romance (1987) ─ Tchê Editora
Vamos e Venhamos ─ contos (2005) ─ Arte Escrita Livraria e Editora
A Vida é  Sempre Assim às Vezes ─ romance (2009) – Arte Escrita Livraria e Editora.
Alavasto  ou Morrer Não é Bonito ─  novela (2011),  que integra  com  “O  Capote”,  de  Nikolai Gógol, e “A Volta do  Parafuso”,  de Henry  James,  o livro “Três  Fantasmas”,  da  coleção  Três Por Três ─ Atual Editora






quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Les marginaux, moteurs de la culture?



©Peter Lucas_Crime et châtiment
Interview avec  Paula Anacaona

Anacaona est une maison d'édition indépendante française, fondée en 2009 par Paula Anacona. Les éditions Anacaona se veulent une passerelle de diffusion de la littérature marginale brésilienne – littérature faite par les minorités, raciales ou socio-économiques, en marge des nerfs centraux du savoir et de la grande culture nationale, avec leur langage, leurs histoires, leur façon de raconter le Quartier. Une littérature de rue, une littérature populaire avec du sens, un principe, un idéal : honorer ce peuple qui a construit ce pays sans jamais recevoir sa part. Le talent littéraire est ici mis au service d’une cause politique ou sociale – éclairer les masses ignorantes, accroître la capacité critique du public, construire un futur meilleur. 


Bate-papo entre Paula Anacaona, Jean-Claude Barny et Leonardo Tonus

Anacaona, c’est toi ?
C’est avant tout une immense figure symbolique pour toute l’Amérique latine et les Caraïbes : Indienne, première victime et première résistante à l’ordre imposé par les Espagnols au moment de l’arrivée des conquistadors, elle prend la tête de l’insurrection et soulève son peuple contre l’envahisseur. Pendue en 1503, elle devient l’emblème des trahisons et des brutalités qui président à l’installation des Européens aux Amériques. Accessoirement, c’est aussi moi ! 33 ans, traductrice et grosse lectrice, avec une prédilection pour les auteurs engagés: Edward Bunker, Iceberg Slim, Zola, Jorge Amado,  James Ellroy, Dostoïevski et Zadie Smith, pour ne citer qu’eux…


Les débuts ?
Tout part d’un énorme coup de cœur. La lecture de ce livre, conseillée par mon ami Paulo Lins, [l'auteur de La Cité de Dieu] a été un électrochoc. Dès lors, je n’ai eu qu’une envie, faire découvrir ce livre aux français ! C’est cette association de dialogues de la rue, d’écriture tout à la fois romanesque, documentaire et émotionnelle qui m’a séduite. La construction, mûrement réfléchie, ne laisse rien au hasard. Ferréz a créé sa propre langue, son propre style – un style tendu comme un arc, chargé comme un fusil d’assaut, précis, réaliste et profondément poétique.

Et aujourd’hui les éditions Anacaona ?
J’ai ressenti l’envie de monter ma maison d’édition car j’ai toujours regretté, en France, de voir peu d’héroïne de fiction jeune, urbaine, cosmopolite, métissée, assise entre deux chaises, le cœur balançant entre deux pays. La problématique autour de cette bi-culture, de ces interrogations identitaires – enrichissantes et parallèlement schizophréniques – se reflètera clairement dans mes choix éditoriaux. Par ailleurs, la violence urbaine, le narcotrafic, la délinquance juvénile sont des thèmes qui me sont chers parce que je viens d’un continent où ces problèmes ont pris des proportions démesurées et  que je ne suis pas satisfaite de leur traitement dans les médias – violence glamourisée, vision romantico-mafieuse du narcotrafic. Enfin, et c’est le plus important, j’aime les romans-témoins, le talent romanesque au service d’une cause, en bref, j’aime lorsque l’écriture a la rage au ventre. Le Manuel Pratique de la Haine était tout trouvé pour initier notre collection.

Le choix des écrivains ?
Complètement déraisonné ! Je m’accorde le luxe de ne publier que mes coups de cœur.

Pourquoi des illustrations ?
Pour adapter les livres à notre mode de vie actuel, nous, les mégalopolitains de la génération hip-hop et graffiti. Pour renouer le lien entre culture urbaine et littérature : celle-ci s’est trop éloignée de ses jeunes lecteurs de la rue.

De nouveaux projets ?
Le dernier livre de Marçal Aquino, Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, est quasiment fini. Il devrait sortir mi-novembre (mais je me casse encore la tête sur le titre, aaah !). Je suis très enthousiasmée par de la publication de ce nouveau livre. Je m’éloigne certes un peu de mes auteurs « marginaux », mais je sens que mon premier cycle « favela », qui a lancé ma maison d’édition (la favela vue par ses bandits (le Manuel pratique de la haine), vue par ses habitants (Je suis Favela) et enfin vue par ses policiers et ses milices (Troupe d’élite 2), ce cycle est achevé. Je veux maintenant montrer une autre réalité sociale, géographique, littéraire du Brésil.

Ce nouveau roman de Marçal Aquino est une histoire d’amour qui se déroule en Amazonie. Mais je reste Anacaona quand même (on ne se change pas !) : cette histoire d’amour est totalement passionnelle, destructrice, violente…. En toile de fond, des orpailleurs sauvages, une société minière qui fait taire les gêneurs… et des personnages tous plus cinglés les uns que les autres. Donc je change de style… sans trop changer de style, vous voyez ?
A côté de cela, je lance également une nouvelle collection intitulée TERRA, axée sur la ruralité. Car le Brésil, au-delà de son urbanité souvent chaotique, se définit également par ces grands espaces mythiques du centre, du Nordeste, ces cow boys, ce Far-West…. Dont les légendes et le folklore me fascinent. Pour moi, lancer cette collection s’inscrit dans ma démarche de mieux comprendre les favelas – car qui habite les favelas ? Majoritairement des émigrés (ou descendants d’émigrés) de ces régions rurales, que la sécheresse, la féodalité, l’absence de perspectives ont poussés vers les villes…



Quel dialogue entre monde rural et monde urbain ?
Comme partout ailleurs, le Brésil s’est urbanisé à outrance, vidant les campagnes. Cette relation de pouvoir qu’exerce la ville sur l’espace rural me passionne, tout comme l’étude des relations de pouvoir au sein de l’espace rural : ces fazendeiros tout puissants, véritables seigneurs féodaux du 20ème siècle.
Personnellement, je m’explique la violence urbaine par toute une histoire de violences en zone rurale. La violence qui ravage les favelas de Rio ou de São Paulo n’est pas là par hasard : elle est l’héritage de toute une tradition de cangaceiros, jagunceiros, pistoleiros, etc. du monde rural.
Et puis, n’assombrissons pas le tableau : le Brésil rural, c’est pour moi « le Brésil transparent », comme disait Cendrars : la beauté du cœur de ses habitants, la richesse de sa culture métissée, la grandeur de ses paysages. Dernièrement, j’ai déserté Rio de Janeiro lors de mes voyages, avec la volonté de m’enfoncer toujours plus no interior…

L’Euphorie économique au Brésil, et les marginaux ?
Oui, c’est l’ascension de cette fameuse « classe C »…
Je vois de plus en plus de ressemblances entre le Brésil et les Etats-Unis – l’ascension d’une masse médiocre, uniquement préoccupée par la consommation et la réussite (désolée d’être aussi sévère !) mais néanmoins, c’est une société capable de produire parallèlement des héros marginaux, issus d’une contre-culture qui se renouvelle en permanence et qui arrive à se faire entendre. L’équivalent californien de cette contre-culture se trouverait-il dans les favelas de São Paulo ou dans les périphéries de certaines villes, comme Brasilia ?... Je m’interroge, et suis ce phénomène de près…
Eric Garault
Les marginaux, des transgresseurs ou un sujet à la mode ?
Tout dépend évidemment de ce que l’on appelle « marginal », mais c’est vrai qu’on a l’impression que c’est un thème à la mode. Tous ces moutons veulent faire croire qu’ils sont des rebelles – mais au bout du compte, ils consomment pareil, lisent pareil, pensent pareil – et il n’en y a pas un seul pour sortir du troupeau.
Qu’est-ce qu’être marginal ? Pour moi, être marginal se définit surtout par une indépendance – intellectuelle et économique. C’est refuser la sécurité matérielle, les schémas de pensée dominants, les circuits de production et de distribution dominants.

Cultures urbaines  en France et cultures urbaines au Brésil ?
L’euphorie économique au Brésil entraîne évidemment une ébullition culturelle, une soif de consommer qui se répercute également sur les biens culturels (tant mieux !) ; et c’est vrai que l’on sent moins ce dynamisme en France, où l’ambiance est plutôt…. à la sinistrose !
Au Brésil comme en France, on voit par exemple l’explosion de la culture street. C’est drôle comme cette contre-culture, qui ne rassemblait que des marginaux il y a vingt ou trente ans, est maintenant complètement intégrée dans la culture dominante et récupérée par la société capitaliste.
C’est bien la preuve que les marginaux, en France, au Brésil ou ailleurs, par leur singularité et leur indépendance intellectuelle et économique, sont le vrai moteur de la culture…


Paula Anacaona


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(*) Bate-papo avec Jean-Claude Barny ( Réalisateur) et Leonardo Tonus ( Responsable du Blog - Maître de Conférences à l'Université de Paris-Sorbonne