domingo, 30 de setembro de 2012

Um dedo de prosa com Mário Araújo


Um dedo  de prosa com Mário Araújo
Neste vídeo, Mário Araújo fala de sua paixão pelos livros, de seus projetos e evoca sua trajetória  desde a publicação de sua  primeira antologia de contos A hora extrema em 2005. O escritor sublinha sua preferência pela escrita contística que, para ele, melhor traduz a experiência hermnêutica de revelação das coisas ocultas.  Para assistir à entrevista de Mario Araújo, clique aqui.
Neste segundo vídeo, o escritor lê um trecho  do seu conto  “O garçom” e fala também de sua relação com o universo literário de Clarice Lispector e de  Dalton Trevisan. Assista aos dois vídeos pelso links abaixo:
O Garçom
Literatura Brasileira

Ao tratar dos autores que o marcaram nos últimos anos, Mário Araújo salienta a importância de Luiz Ruffato dentro do cenário literário brasileiro contemporâneo. Para o escritor, a obra de Ruffato abre novas possibilidades de se pensar o Brasil contemporâneo, sobretudo ao trazer para o espaço literário a figura do operário.  Consulte o depoimento de Mário Araújo aqui.


Mário Araújo nasceu em Curitiba, Brasil.Em 2005 publicou seu primeiro livro de contos A Hora Extrema  vencedor do Prêmio Jabuti em 2006. Seu segundo livro Restos  foi publicado em 2008. Além disso, participou deantologias no Brasil, Espanha e México e tem publicado textos nem jornais e revistas literários e na internet. Atualmente, prepara seu primero romance.
 A HORA EXTREMA
(trecho)

O menino deixa o quarto, tomando cuidado para a madeira do chão não rosnar sob suas pisadas, apalpando os móveis, controlando a cócega na garganta. Pé ante pé, entra na cozinha e encontra o rádio, que liga baixinho. O rádio é um modelo antigo, dos que não mostram as horas, mas apenas as revelam com palavras, nos intervalos entre uma música e outra. No momento não há música tocando, mas um palavrório sem fim, um longo diálogo cujo conteúdo não se consegue discernir naquele volume, e assim ele tem que esperar. O que se ouve parece um jogo de perguntas e respostas. Depois, entram as notícias da noite.
Quando finalmente o rádio dá as horas, são onze e quarenta e oito. Inicia imediatamente uma nova contagem, como nas lutas de boxe e nas partidas de basquete. Desta vez, a pulsação dos números na cabeça é acompanhada pelas batidas do coração aflito. Envereda para o quarto devagar, obrigado a ter cuidado, o ritmo dos passos em desarmonia com o restante de si. Alcança a janela e contempla a noite que segue em branco, fazendo duvidar do que acaba de dizer o rádio e do que diria qualquer relógio. Então, de joelhos numa cadeira, põe-se a abrir a janela, impaciente, mas lentamente devido à sua força pequena, fazendo a vidraça escorregar macia nos caixilhos até que se trave, enquanto a noite começa a acender o quarto, com seu vento fresco, seus aromas e suas luzes de vaga-lumes. Falta um minuto. Sente um arrepio, que se explica certamente por sua afeição inata à natureza, por conter ele também ramos, orvalho, folhas e pedras. Começa a contar mais lento agora, bêbado dos cheiros do jardim, e sessenta morosos segundos depois, compreende que a meia-noite é a hora secreta em que lesmas e jasmins reúnem-se para exalar. As cores sombrias explodem, numa vibração não perceptível às criaturas diurnas. O silêncio de fora se sobrepõe ao silêncio de dentro, sendo aquele um silêncio mais fresco, molestado por ruídos sempre imprevisíveis, ao passo que o silêncio de dentro está estagnado, oprimido entre os rugidos do pai e os suspiros do bebê – somente a mãe aprendeu a arte da sublimação mesmo inconsciente. Invadido pelo silêncio, pelo olor e negror da noite, o quarto do menino não pertence mais à casa, foi anexado pelo mundo. A meia-noite é, na verdade, a hora da noite extrema.
Mas a meia-noite só dura um segundo, ou um minuto, e não há que esperar pelo desenrolar do novelo da madrugada. Então, com o rosto acariciado pelo vento cordial do enigma decifrado, ele desce a vidraça e devolve o corpo à imobilidade sob as cobertas quentinhas. No seu mais íntimo, sabe que a noite é mesmo uma estátua, inalterada das oito às cinco. Dorme tranquilo.

                   A Palavra perdida

Juarez disse que amanhã, quando o chefão chegar, vai acabar com essa… Foi então que Juarez usou a palavra, a palavra de que Álvaro não se recordava. Por mais esforço que fizesse, a palavra não vinha, e Álvaro decidiu chamá-la provisoriamente de balbúrdia. O chefe chegaria de viagem para pôr fim àquela balbúrdia, murmurou para si mesmo, esperando que logo aparecesse a palavra verdadeira. Esta era muito pior, sem dúvida, e por isso o ofendera tanto. Qualificar daquela forma o trabalho que ele desenvolvia com tamanho zelo. Um absurdo!
Precisava da palavra para contar à mulher, no sofá. A mulher tinha um olhar compreensivo, mas não o bastante, pois a palavra não era a correta. Encheu-se de expectativas para o jantar: talvez de estômago cheio, ou mesmo enquanto mastigasse, com o movimento dos músculos faciais a palavra escorregaria do esconderijo em sua cabeça para a boca, e daí para fora.
Na hora em que a ouviu, na sala do subchefe, não quis retrucar. Preferiu engolir a raiva devido à presença de Clóvis, colega dado a salpicar de cascas de banana o chão alheio; se protestasse, o colega teria munição para atacá-lo em mexericos de corredor. Assim, Álvaro saiu da sala com a palavra ultrajante debaixo da língua, como se a estivesse guardando para mastigar ao longo do dia. Prometia a si mesmo retornar mais tarde para, a sós com Juarez, reivindicar um tratamento mais respeitoso. Ao chegar à sua mesa, porém, a palavra havia sumido, como um veneno que tivesse se dissolvido na sua saliva; a palavra se esquivava de ser pronunciada e, portanto, esconjurada.
Depois de um jantar em branco, com um amigo ao telefone recorreu novamente a balbúrdia, dessa vez acompanhada de sinônimos, como bagunça e baderna, mas nenhum deles servia. A conversa versou também sobre outros assuntos, nos quais Álvaro não conseguiu se concentrar. Debaixo do chuveiro, refrescou-se pensando na reparação que exigiria do subchefe, no conjunto de qualidades que possuía e que tornavam injustificado o uso da palavra terrível. Mas para isso era fundamental lembrar-se dela. Dela. Não podia aceitar refugiar-se em paráfrases, diluir sua revolta em metáforas. Tinha que ser claro e objetivo. Poderia até mesmo fechar a conversa com o pedido de demissão que há muito acalentava.
O encontro do corpo com a toalha limpa e macia, porém, neutralizou a aspereza dos pensamentos de Álvaro. Já de pijama, reconsiderou o pedido de demissão e, enquanto ajeitava o travesseiro, a exigência de uma retratação pareceu-lhe ridícula. A mulher respirava em paz, o rosto voltado para o outro lado, as costas serenas. Com a luz apagada, entregou-se à prece que antecedia o sono de todas as noites, ao mesmo tempo em que procurava pelos quatro cantos da mente a palavra perdida. Concluiu que esta se extraviara de propósito para protegê-lo de uma atitude tresloucada, e em meio à oração logo surgiram expressões de agradecimento pelo extravio. Enfim, deu a palavra por definitivamente desaparecida e, sentindo-se a salvo da própria imprudência, adormeceu.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Tinha uns iranianos me vendo


Bahman Kiarostami
Tinha uns iranianos me vendo

Por Elvira Vigna

No que eu pensava antes de entrar na "Pulso iraniano", exposição de fotos e vídeos de artistas contemporâneos iranianos (Sesc-Vila Mariana, São Paulo):
1) vou ver espaços de tensão entre a) exigências locais de  auto identificação de uma cultura milenar e pouco flexível e b) um  cosmopolitismo, exigência do público a que a exposição se destina.  Vou ver isso em uns não-lugares - vias expressas, aeroportos, shoppings;
2) ou então serão "paisagens naturais" (como se tal coisa existisse!) de desertos. Umas tendas e tal, com direito a pastores, ovelhas, muita areia e mulheres dentro de seus sacos escuros.
Resumindo: um drama transcultural ou intercultural.
Quebrei a cara.
Quer dizer, é tudo isso, mas é mais próximo. São um eu, eles. Ou assim a muito boa curadoria do francês Marc Pottier os/nos apresenta.
Começando pelo vídeo do Bahman Kiarostami, filho do Abbas. Muito simples. Uma plateia de cinema filmada de frente durante a duração de um filme. Só isso. Eles olham para o que seria a tela e que é a câmera de vídeo. Eles olham para você. Fui  lá ver iranianos? Tinha uns iranianos me vendo.
Prestei atenção no plano escolhido para o enquadramento, na ausência de decupagem. Foi uma constante, isso, na exposição inteira. Fotos em composições de linhas horizontais e verticais, clássicas, calmas. Figuras centradas. Distância média. Vídeos praticamente sem trabalho de montagem, também em plano médio, parados, sem travelling.
(Há um escritor brasileiro que faz a mesma coisa em seu último livro. Ricardo Lísias em "O céu dos suicidas". Frases curtas e diretas, poucos adjetivos, drama nenhum, personagem principal banal. E uma derrocada fenomenal de tudo e de todos.)
A derrocada que a exposição dos iranianos mostra é a de uma formação identitária rígida face a mudanças, entendidas como destruição.
Copiei um poema que a curadoria pôs na parede. É de Ahmad Shamlou:

"Nesta vereda para o litoral de Amou Daria
correu um ribeirão que já não existe.
Um rio que há muito
dissipou-se e perdeu-se na memória.
Um rio que secou e foi varrido pelo vento.
Nessas ondas que chegavam ao rio Indo
navegou uma embarcação que já não existe.
Um barco que durante algum tempo permaneceu na memória de alguém
e então abruptamente caiu num precipício e foi destruído."

Morteza Ahmadvand fez uma instalação com nove vídeos compondo uma única tela. São nove momentos diferentes de um voo de canário. O canário está preso em uma gaiola. O voo é curto, frustrado.
Mehran Mohajer fotografa sombras de pessoas no chão, pés de pessoas andando na rua. Sua câmera não vai mais alto que um joelho. Exceção: bandeiras nacionais ao alto tremulando ao vento. Sem chão.
Jalal Sepehr faz uma comparação visual entre pesados tapetes persas e a água, sempre fluida, adaptável, movente.
Sadegh Tirafkan
Sadegh Tirafkan traz instantâneos de gente que cobre a própria cara ou que tem a cara coberta sem o desejar por objetos na sua frente.
Shirin Neshat tem dois vídeos concomitantes, um na frente do outro. A sala dele é escura. Se trata,  pois, de convite a um mergulho em mundo ou tempo diferente do "real". Num deles, um conjunto de velhinhos. No outro, um conjunto de velhinhas. Falam de namoros de juventude. De como era bom "antes".
Shirin Neshat

Peyman Hoosmandzadeh fotografa seus personagens sempre de cabeça para baixo. Encostados em muro, dentro do metrô ou no corredor vazio de uma casa. Um mundo de cabeça para baixo.
Amirali Ghasemi documenta uma festinha. Bebidas, música, risadas. Só que os convivas não tem cara. Todos os rostos estão recortados na foto, em branco.
Bahman Jalali é mais externo. A violência não é psicológica, é social. Seu espaço é a rua. A burka que passa na frente de uma arquitetura urbana arrojada; vitrines de joias que são o único ponto iluminado de um beco escuro; cruzamento com pedestre em vestimenta tradicional, carro caindo aos pedaços e cartaz publicitário, bem atual, de detergente de pia; terreno baldio na frente de edifício-sede de banco internacional; quintal modesto com cesta de basquete, ícone de uma cultura ... americana.
Bahman Jalali

Shadi Ghadirian é mais panfletária. Vai para o simbolismo. Botas militares manchadas de sangue e sapatos femininos de salto altíssimo no mesmo vermelho sanguíneo. Fiquei na dúvida de quem mata quem na visão da artista.
Um eu não gostei. Arash Hanaei. Mora em Paris. Estetizou a guerra. Fotos pequenas de soldados e armas. Personagens na contraluz, a silhueta em preto, e fundo amarelo-laranja-vermelho. Mais publicitário impossível.
A exposição faz a contabilidade de uma perda, o que qualquer programa jornalístico de TV também faria. A diferença é a proximidade com o assunto tratado. O curador evita a tentação usual de tomar posse do assunto para "vendê-lo" como catarse a seu público ocidental. Não há busca por comoções, o que retiraria sua eficácia estética. Há a tensão frente à quebra das estruturas e as próprias estruturas, tão claras, de linhas horizontais e verticais, estáveis, lá presentes como fantasmas do que não mais existe.
E há a recusa de colocar o tema como objeto passivo do olhar do outro. A exposição diz, na documentação de um cotidiano banal, que a derrocada também é de quem vê.
Os espaços exibidos nas fotos e roteiros escolhidos resistem à  narrativa de roteiros pré-estabelecidos. Há um jogo entre quem habita esses espaços, quem os documenta e quem vai lá vê-los. É mais difícil do que eu pensava, certo. Mas há outra dificuldade. Está no que a curadoria e seus artistas não mostram.
Falei de uma formação identitária rígida. O que está na exposição é o embate entre a rigidez e a mudança. Não fala da rigidez. Não fala da lei da sharia que se considera acima das leis nacionais de outros países, instituindo "tribunais" clandestinos e criminosos.
No livro do Lísias, o narrador também não fala sobre o caminho que leva seu amigo ao suicídio. Qual foi o beco sem saída. O narrador, tal qual o fruidor da exposição dos iranianos, também é afetado, também faz parte. Também ele se verá incluído na derrocada que à primeira vista seria só do outro. Mas o processo de exclusão impiedosa de possibilidades que levaria a isso, os "eus" oprimidos pela não flexibilização de uma normatividade entendida, se não como divina, pelo menos fora de um mundo "real" que não a influencia (uma metafísica aqui também), isso não é mostrado.
Um trechinho do livro:

"A gente tentava ajudá-lo, mas ele estava incontrolável. A vida tinha que continuar. Ele depois pediu para vir à minha casa. Ficou uns poucos dias e transtornou tudo, quebrou tudo. Eu o flagrei cortando a pele das mãos com o canivete. Fiquei muito nervoso e gritei. Ele se levantou com o canivete. Peguei uma cadeira. - Se você vier, te acerto, você não pode comigo, André, - Lembro direitinho: - Nunca vou te fazer mal, Ricardo. Ele foi embora nesse momento. Acho que no dia seguinte, ou uns dois dias depois, ele me ligou: - Ricardo, vou me internar de novo, fica de olho em tudo e me ajuda. - André, eu não aguento mais, foi isso que respondi. Então acho que se passaram mais uns dois dias e me telefonaram dizendo que ele tinha se enforcado."




Lista dos artistas da "Pulso iraniano":
Morteza Ahmadvand, Shirin Aliabadi, Gohar Dashti, Siamak Filizadeh, Shadi Ghadirian, Amirali Ghasemi, Ghazel, Arash Hanaei, Peyman Hoosmandzadeh, Bahman Jalali, Rana Javadi, Abbas Kiarostami, Bahman Kiarostami, Mehran Mohajer, Zadoc Nava, Shirin Neshat, Jalal Sepehr, Mitra Tabrizian, Jinoos Taghidazeh, Newsha Tavakolian e Sadegh Tirafkan.

Referência bibliográfica:
LÍSIAS, Ricardo. O céu dos suicidas. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2012. p. 143/4.


Elvira Vigna
Setembro de 2012

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  : 

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confira no link: 




Fernando Pessoa et le Quint-Empire de l'Amour


PRESENTATION D’UN ESSAI SUR FERNANDO PESSOA

Le mercredi 3 octobre, à 18h30
A la Fondation Calouste Gulkbenkian
(39 bl de la Tour Maubourg 75007 Paris)


Anibal FRIAS, Fernando Pessoa et le Quint-Empire de l'Amour. Quête du Désir et alter-sexualité, Paris, Petra, 2012

Présentation et débat, en présence de l'auteur, avec Maria Graciete Besse (Université de Paris-Sorbonne/Paris IV) et Pierre Rivas (Université Paris Ouest Nanterre La Défense).


En poète du soupçon, Fernando Pessoa se joue des identités, des corps, des sexualités afin d’«être tout de toutes les manières». Son Odyssée littéraire est trop souvent ramenée à un théâtre cérébral, à une oeuvre sans corps, à un désir refoulé. En vers ou en prose, avec le Livre de l’intranquillité, son aventure nous transporte au coeur du Désir, dans ses flux et reflux, depuis les fêlures de son moi et la multiplicité de son être. Les sensations voyageuses du poète libèrent les potentialités d’une création pleine, jusqu’à une réinvention de soi.
Pessoa a esquissé un «cycle du sentiment amoureux» qu’il ordonne poétiquement en cinq «empires», de la Grèce d’Antinoüs à la Modernité pan-érotique, et où se déploie la figure variable et évolutive d’Éros. La dernière étape, nommée « Quint-Empire », est le règne d’Antéros. Ce personnage divinisé incarne, dans un futur rêvé, un Outre-Amour néopaïen –un Amour à la fois autre et projeté au-delà de la sexualité et des divisions en genres. Cet ouvrage inaugure une lecture approfondie de ce Cycle, en souligne la richesse poétique et la portée intellectuelle au regard d’autres écrits majeurs, et établit qu’Antéros est le nom personnifié d’un singulier et universel Quint-Empire de l’Amour à bâtir.
Anibal Frias innove en faisant dialoguer Pessoa avec Proust, Merleau-Ponty, Rimbaud, Foucault, Freud ou Nietzsche. Son étude originale apporte une contribution décisive, et critique, au tout nouveau paradigme des études pessoennes, fondé sur la corporéité, le gender, la sexualité. Elle se veut aussi une traversée claire et vivante de l’oeuvre connue, et surtout méconnue, d’un écrivain qui s’est voulu « toute une littérature ».


EXTRAIT DE LA PRÉFACE DE ROBERT BRÉCHON


Depuis la mort de Pessoa, il y a trois quarts de siècle, il a paru des centaines de livres sur son œuvre, mais aucun, à ma connaissance, ne traite exclusivement ni systématiquement la question du rôle qu’y joue le désir sexuel. Moi-même, qui ai abondamment écrit sur lui, je n’ai jamais osé m’y aventurer, tant il y avait dans mon esprit d’incertitudes, d’ambiguïtés et de contradictions. L’ouvrage d’Anibal Frias est donc une première. J’aime toutes les premières fois, dans la culture comme dans la vie. On a l’impression de repartir à zéro, de tout reconsidérer d’un regard neuf. Pessoa lui-même aimait les premières fois.
[...] Il a, le premier, eu l’idée toute simple, et lumineuse, de comparer les deux grands mythes forgés par Pessoa, de les calquer l’un sur l’autre : le mythe du Quint-Empire, qui est au cœur de Message, et celui du « cycle du sentiment amoureux » à travers les âges, qui inspire "Antinoüs" et "Épithalame".

Chercheur en anthropologie et en littérature, Anibal Frias est docteur en ethnologie et diplômé de philosophie, de sociologie et d’arabe. Il est affilié à plusieurs centres de recherche européens: LAS (Collège de France), IEMO (Université nouvelle de Lisbonne), CEIS20 (Université de Coimbra), et IHU (Université de Salamanque).




sábado, 22 de setembro de 2012

As manhãs adiadas de Eltânia André


As manhãs adiadas de Eltânia André

Alexandre Staut (*)

Esses dias, num bate-papo com meu editor, falávamos nos tantos autores mineiros que fundaram a literatura contemporânea nacional. São poetas, crônicas, romancistas e contistas, de temas e obras diversas. Começamos a enumerar um ou outro escritor. Dezenas de nomes foram lembrados. Tão vasta é a lista, que há até mesmo um Dicionário biobibliográfico de escritores mineiros (2010), obra deConstância Lima Duarte. Há ainda o livro de Humberto Werneck, O desatino da rapaziada (de 1992, reeditado recentemente), fonte e tanto sobre o celeiro que representa Minas na seara da literatura, com verbetes sobre Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Ivan Ângelo, Silviano Santiago, Murilo Rubião, entre dezenas de outros, que fizeram bonito entre 1920 e 1970.
Pois bem, dentro de tal república das Gerais, há microrregiões produtivas, como se fossem microclimas, caso estivéssemos falando de geografia. Um desses lugares chama a atenção. Trata-se de Cataguazes, cidade operária da Zona da Mata, que se situa a 320 quilômetros da capital do Estado. De lá, destacam-se vários nomes. Para ficar em alguns, cito Rosário Fusco, Ascânio Lopes, Ronaldo Werneck, Chico Peixoto, Luiz Ruffato, Ronaldo Cagiano e Eltânia André. É sobre o trabalho dela que escrevo aqui.
Autora do livro de contos de título charmoso, Meu nome agora é Jaque (2007), Eltânia André acaba de lançar sua segunda coletânea de histórias curtas, Manhãs adiadas, que sai pela Dobra Editorial.
Logo no primeiro dos 14 contos, “Parábola para Olgamaria”, é possível perceber o domínio técnica da escritora, que cria imagens poéticas por meio do encadeamento de palavras, em frases de carpintaria poética. Aqui, ela investiga o cotidiano de uma mulher surda, de “rosto coberto por mapas, que traçavam rotas insondáveis: duas geografias distintas que se cruzam com o silêncio da boca”, seu cotidiano comezinho, construído de forma a mostrar os vazios e ecos da alma da protagonista.
A observação microscópica, detalhada de personagens, lugares, coisas continua em outros contos e chega ao ápice no texto “O canto da cigarra”, em que uma personagem se aproxima de um inseto. “Retenho em minha mão uma cigarra, entre tantas espalhadas pelas árvores. Os machos numa sinfonia histriônica anunciam o verão, serenatam para as fêmeas. Ela, a cigarra, encara-me; somos seres da natureza, vivos, mas se eu decidisse, bastaria um ágil gesto de fechar as mãos para aniquilar um inseto”, diz a autora, num diálogo com certa “nobre senhora”, que ao entrar no quarto da ex-empregada, avista uma barata, a “barata-de-Clarice”, conforme escreve Eltânia.
Cada história traz uma frase, com pílula de ideias daquilo o que o leitor vai encontrar nas páginas seguintes. Em “Monólogo sobre leões e borboletas”, por exemplo, a autora diz: “(...) eu via sinais de sorte, mas tava montado era no azar”. Já em “Pássaros que não voam”, surge a frase: “Viver é essa gaiola aberta: o medo da liberdade”, pequena ideia, que, por si só, representa um instante poético inspirado.  
Em antítese aos contos de observações microscópicas, em que a autora parece se apropriar de pequenas formas da vida, com precisão quase cirúrgica, há textos que parecem ter sido escritos para se ler em pé, com voz empostada. Exemplo: “Dias de rato”. Aqui, o estopim da ação traz a cena de um sujeito deitado, abandonado à própria sorte, na Rua da Consolação, em São Paulo, um obstáculo que parece morto em meio às tantas pernas da multidão anônima que atravessa o lugar. Assim como neste exemplo, outros textos se aproximam da crônica. Trazem os dramas do cenário urbano, em que a linguagem se aproxima do popular, com crendices e conflitos de um Brasil contemporâneo.
Se no pequeno texto introdutório do conto “A solidão de Alzira”, a autora sugere uma figura que não entendia de metáforas - “Ela não entendia as metáforas, sucumbiu à fantasia de não ter vivido como queria, mas nunca em vão” -, é preciso dizer que ela consegue captar, neste livro, as tantas metáforas de um Brasil múltiplo, que vai do extremo da luminosidade a pontos mais sombrios e dramáticos. Por isso este livro merece ser lido. 

(*) Escritor e jornalista, é autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toda edições, SP, 2010)  e Um lugar para se perder (Dobra, SP, 2012)

Eltânia André

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ilegalidades da street art



Entrevista com o grafiter português VHILS

por Mickaël C. de Oliveira (*)

« Nas mãos do VHILS, o vandalismo torna-se um ato de criação ». É assim que Marc e Sara Schiller definem a arte do português Alexandre Farto na revista Wooster Collective de Nova Iorque. Artista consciente, Alexandre Farto insiste em querer demonstrar nas suas obras as suas principais preocupações : a condição humana e a relação que os homens cultivam com o mundo urbano que os rodeia. Escava, constrói destruindo, cria. Trabalha com ácido, madeira, ou sprays. VHILS tem tudo do artista completo.
Das primícias aos 13 anos como grafiter aos dias de hoje já com 25, o natural do Seixal traz ainda nele os estigmas de uma infância marcada pelo período de transição que viveu Portugal, da ditadura salazarista à integração europeia e ao consumerismo. Poeta na alma, Alexandre Farto também participou em diversos projetos culturais para a inclusão social e continua muito ligado ao mundo musical português. Expôs na Galerie Magba Danysz no início de verão. Residente em Londres, é hoje considerado um dos maiores artistas portugueses da atualidade.



Como nasceu a sua paixão pela arte ?
Das primeiras memórias que guardo são os murais políticos que cobriam as paredes de Lisboa e arredores que tinham sido pintados depois do 25 de Abril, sentia um grande fascínio por eles, mesmo se já decadentes. Depois comecei a pintar graffiti com cerca de 10 anos e comecei a prestar mais atenção ao que se passava no meio urbano em termos visuais: os murais decadentes, a proliferação da publicidade, o graffiti. Foi através do graffiti que cheguei ao mundo da arte, foi essa prática de desenhar e pintar na rua que me suscitou interesse pela área de criação visual, e com isso o interesse pela arte em geral.

A street art sempre teve um lado incisivo e revelou-se um dos principais fenómenos de contestação depois do punk. Essa arte podia existir sem a atual sociedade de consumo?
A arte urbana é contestatária por natureza, emergiu com o intuito de tentar mudar percepções, questionar, fazer reflectir, é ousada o suficiente para questionar o status quo e com isso tentar alterar o sistema e o meio no qual emergiu. Mas faz parte dele, surgiu como oposição, como reacção a ele. Sem ele não faria sentido – seria apenas uma arte livre. Todos os fenómenos contestatários fazem parte do mesmo meio que os gera, é uma das dinâmicas contraditórias deste meio em que vivemos: de dar origem a anti-corpos que alargam as fronteiras e depois mais tarde são absorvidos pela cultura dominante. A grande diferença entre um fenómeno contracultural como o Punk e a street art é que esta última é ilegal, e como tal pode ser absorvida e comercializada em certa medida nas galerias e museus, mas a sua dinâmica no exterior não se deixa manipular, continua livre.
  
Como vê a situação portuguesa atual? Acha que  o país caiu numa ditadura mais violenta (por ser menos visível) do que a o período salazarista?
A questão é complexa. A tentação actual é dizer que sim, devido a essa invisibilidade, mas sem ter vivido antes de 1974 é difícil de comparar. São realidades diferentes. No entanto, apesar das diferenças entre sistemas, há semelhanças entre as formas de controlo social aplicadas. As democracias europeias são muito parecidas nesta questão. Uma das diferenças que vemos em relação a formas de controlo social repressivas do passado é a do controlo sobre o acesso à informação: se antigamente era altamente restritivo, hoje em dia é o oposto, mas a sua liberalização trouxe a mesma consequência, o excesso de informação banal acaba por ter o mesmo efeito perverso de nos inundar com futilidades. A educação crítica continua ausente, a crítica social é tolerada mas não incentivada, alternativas sociais, económicas ou políticas não são levadas a sério – não há investimento no testar de outros modelos. Temos um sistema de impossibilidades: diz que permite a diferença mas o único investimento que faz é para o conformismo. O mesmo modelo é aplicado em regiões do mundo muito diferentes, por exemplo, não há investimento em procurar alternativas regionais para adaptar estes modelos políticos e económicos. Na Europa estamos a atravessar um período de consequência deste tipo de políticas: as fissuras entre uma Europa do Sul e outra do Norte estão a ficar novamente visíveis. Mas um modelo económico, social, político que foi imposto na direcção Norte-Sul, originário de contextos completamente diferentes sem levar variações regionais e culturais em conta, só podia ter dado nisto.


Tem tido algumas colaborações com o mundo da música portuguesa (Chullage, Orelha Negra), de que géneros se sente mais próximo ?
Gosto de todos os géneros, tudo me suscita interesse, nem que seja para conhecer. No caso dessas colaborações, Chullage é um amigo próximo que teve uma grande influência na minha formação; Orelha Negra são mestres naquilo que fazem e naquilo que conseguiram até agora. Tem sido um prazer trabalhar com estes e outros músicos, está tudo ligado.

Haveria um street art fundamentalmente português?
Creio que hoje em dia com o processo de comunicação aberta criado pela internet as particularidades nacionais têm se esbatido um pouco. No entanto há traços específicos do carácter nacional e cultural que acabam por vir ao de cima, como em qualquer outra forma de arte. Em determinadas regiões isso é mais evidente, como no caso do Brasil ou do Chile, que cunharam estilos muito próprios antes de terem sido ligados ao resto do mundo, mas também em Portugal, em França, na Ucrânia, México e outros países encontramos traços genuinamente exclusivos. Mas, depois, tem muito a ver com a individualidade de cada artista ou criador. De um modo geral é mais seguro seguir a obra do indivíduo ou do colectivo do que tentar fazer uma abordagem por país.

Que relações vê entre o poder da imagem da street art e o da publicidade ? A street art teria, também, uma mensagem a inculcar a «clientes» potenciais?  
95% do meu trabalho tem fins artísticos, por isso mesmo quando me é comissionada uma peça não os vejo como clientes. Faço uma vez por outra trabalhos de natureza comercial, mas são encarados sob outra perspectiva. Quanto à produção artística, esta tem duas vertentes: uma quando é feita na rua de forma livre, e outra quando é comissionada, seja para galerias ou para intervenções no espaço urbano. Ambas diferem radicalmente de uma produção para fins comerciais, seja na forma ou no conteúdo. A publicidade impõe conteúdos de ordem ideológica ou comportamental, não é uma prática inocente. Na criação livre de rua, pelo contrário, o objectivo é a partilha de algo com os cidadãos, não pretende inculcar nada em ninguém, e se impõe algo é apenas a sua imagem visual, a sua presença no espaço urbano. Estamos a dar algo à cidade e a quem a vê, a humanizar o espaço urbano, torná-lo mais habitável – nada tem a ver com a prossecução de fins comerciais, não vai ao bolso de ninguém.


A fugacidade do tempo e a caducidade das coisas constituem questões fundamentais na sua obra?
Certamente; creio que a grande diferença reside no facto de que não só assumo a natureza efémera das matérias, como procuro instigá-la, catalisá-la e torná-la parte das peças em que trabalho. O meu objectivo é o de trabalhar com a natureza; se tudo muda com o tempo, quero incorporar isso no meu trabalho – assumir que essa mudança, essa deterioração inevitável faz parte do trabalho e, consequentemente, que uma peça não está nunca completa, mas vai-se completando com essa transformação ao longo do tempo.

A ruína  permeia uma boa parte de seus trabalhos. Como se faz a escolha dos “materais” e dos “suportes” ? 
Há definitivamente um elemento profundamente poético no modo como a matéria se mostra frágil face ao desenrolar do tempo, e o meu trabalho tem procurado explorar e interagir com essa dimensão. A ruína mostra a fragilidade da cidade, das suas estruturas edificadas, de algo que tomamos como garantido, sólido, imutável. É algo que já teve o seu tempo, cumpriu talvez o seu propósito, algo que já teve interesse e já não tem. A realidade está dependente de ciclos de criação e destruição, uns mais longos e outros mais curtos. O processo destrutivo pode ser igualmente visto como um dos elementos do processo criativo. O meu trabalho valoriza essa interacção, cria através de processos e ferramentas destrutivas, joga com os dois elementos na mesma equação. Por outro lado, o uso dos espelhos na peça do Elevador da Bica em Lisboa foi uma reflexão sobre e uma homenagem às pessoas que vivem aquela realidade que se transformou num pólo turístico e raramente são valorizadas. Os espelhos reflectem a vivência do espaço à volta do funicular, as pessoas, as marcas nas paredes, o graffiti e demais elementos, formando uma composição que se altera com o movimento do suporte.

O que significa, finalmente,  dar rostos «anónimos» aos muros da cidade?
Creio que uma leitura atenta da realidade dos meios urbanos nos permite concluir que as cidades são um meio de contrastes, reflectem e trazem ao cimo tanto o melhor como o pior da espécie humana. São ambientes complexos por natureza, mas de uma forma geral a sua criação e gestão não reflecte preocupação ou interesse na potencialização do indivíduo no meio social. O crescimento urbano desenfreado, aglomerado, sem planeamento virado para a realização do indivíduo resulta sempre em espaços excessivamente desumanizados. A arte no meio público pode em parte assumir essa função, de embelezar e devolver algo às pessoas, tornar os espaços mais aprazíveis, mas não só – precisamos igualmente de áreas de lazer e espaços verdes, de uma gestão mais próxima dos cidadãos, de políticas de integração social e de valorização das pessoas, entre muitas outras coisas. Dar rostos às paredes e muros é um acto simbólico de recuperação dessa dimensão humana, é uma forma de chamar a atenção das pessoas para essa realidade, assumo inteiramente essa intenção. E para mim, num presente saturado e obcecado com a imagem pública, com o culto da celebridade, faz todo o sentido que se volte a sublinhar a importância do indivíduo anónimo. De enaltecer as qualidades que nos fazem humanos sem artificialismos movidos por interesses económicos, sem estereótipos, sem a photoshopização da figura humana que encontramos na publicidade, que fala uma linguagem cega aos interesses dos indivíduos.

Sites para consulta: 
Site oficial do artista 



(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne Paris-IV, sempre teve como objetivo principal a divulgação das artes portuguesas, mas, sobretudo, a promoção de artistas emergentes ou simplesmente não conhecidos. Colaborador para o LusoJornal em Paris, o blogue BandCom consagrado à nova música portuguesa em Lisboa, e também para o website francês Chronofoot, pretende estimular e criar laços entre mundo lusófono e francófono. Neste espaço, consagrado às culturas urbanas, o Mickaël pretende mais dar voz aos que não têm uma projeção mediática ao nível do seu talento. Mickaël C. de Oliveira é também escritor e colaborapara o Blog Estudos Lusófonos. Para outras informações e contatos, consultem os links :  








sábado, 15 de setembro de 2012

Um dedo de prosa com Luzilá Gonçalves Ferreira


Um dedo de prosa com Luzilá Gonçalves Ferreira

Assistam ao depoimento da escritora Luzilá Gonçalves Ferreira para o blog Estudos Lusófonos.

Num primeiro vídeo, Luzilá fala de sua trajetória literária, de suas leituras e de sua responsabilidade enquanto escritora.  Vejam o vídeo neste link.

Luzilá comenta, também, o seu trabalho de pesquisa em torno da presença e da atuação das mulheres (professoras, poetisas, escritoras, jornalistas, revolucionárias) nos jornais e na sociedade pernambucanos do século XIX. Consultem a entrevista da escritora neste link.

Para terminar, Luzilá comenta o seu romance Voltar a Palermo em que, a partir de uma história de amor impossível, ela evoca um dos momentos mais trágicos da histórica da América Latina.  Assistam ao vídeo, neste link.


 Percurso

Caminhos. Nasci em Garanhuns, na terra do Lula. Estudei Letras, fiz doutorado em Estudos Literários na Universidade Paris VII. Sou separada, três filhos. Morei dez anos na França, quatro na Argentina, em Buenos Aires. Mas o resto do tempo, é o Recife mesmo minha cidade de eleição e coração.

Literatura, leituras e leitores. Sou professora universitária, sempre foi esse meu alvo. Como foi, desde cedo, o desejo de escrever, quando por volta dos dez anos, descobri Goethe, Selma Lagerloff, Katherine Mansfield, imagine, aos 10 anos. Logo depois foi Dostoievski, foi o Jean-Christophe de Romain Rolland, o Sparkenbroke de Charles Morgan, as Cartas a um jovem poeta, de Rilke. De repente eu me sentia ouvindo esses seres extraordinários e aprendia a ver o mundo com eles. Decidi então que um dia também escreveria coisas belas, uma pretensão enorme. Minha relação com a leitura é obsessiva. Morro de pena de quem não gosta de ler. Leio muito, sobretudo ficção, poesia. E livros sobre História. Meus autores preferidos: Rainer Maria Rilke, Katherine Mansfield, Tchekov. O dinamarquês Jens Peter Jacobsen e a canadense Gabrielle Roy. No Brasil: Drummond, minha querida amiga Rachel de Queiroz, Mario de Andrade. E esse admirável e injustiçado romancista Gilvan Lemos.

Inspiração. No quotidiano, sempre tão inesperado e mágico. No passado, que não cessa de me intrigar e fascinar. A cultura regional está latente em tudo o que eu sou, em experiências vividas ou lidas. Alimento-me muito com o que nos deixaram os pernambucanos do passado, sobretudo as mulheres. Pesquisando esse passado, descobri a atuação das nordestinas do século XIX  na Imprensa, na Abolição da escravatura, na poesia. Escrever sobre o que fizeram essas mulheres é um pouco recuperar sua fala que durante anos foi silenciada, esquecida, apagada. Trazê-las ao presente, ouvir o que têm a nos dizer, reata fios partidos, ilumina nossa história de brasileiros, de mulheres.

Mulheres. A condição da mulher teve avanços significativos no século XX, em muitos países da Europa. Na América Latina, muito menos; na África e Ásia, de um modo geral, a situação é ainda quase trágica. Há um longo caminho a se fazer. Luzilá no dia-a-dia. Uma mulher sempre ocupada: com as aulas, com sua coluna no Diário de Pernambuco, com as coisas de casa, com o jardim. Uma mulher que às vezes se cansa com tanto telefonema, mas que na medida do possível, atende, escuta. Uma mulher que tenta tornar felizes os que a cercam. Que gosta de estar só, mas também ama a companhia de amigos. Que adora rir e quem a faça rir. Que se alegra em preparar comidas gostosas para si e para o povo de casa. Que ama o que é belo, sejam pessoas, objetos, antiguidades.


Leitores. Meus leitores.  Como saber exatamente quem são? Tenho um público fiel, formado de pessoas sensíveis que me escrevem cartas, mandam mensagens, sobretudo mulheres que se reconhecem um pouco em minhas personagens. Muitos alunos e ex-alunos também, orgulhosos da professora que escreve.

(*) Adaptação de uma entrevista concecida por Luzilá Gonçalves Ferreira para a Cultura News

Um pouco de leitura

O Espaço do teu rosto
                                                                   
A mulher sozinha na sala apagou a luz, guardou o Rilke sobre a mesinha. Foi à janela, a cidade lá embaixo, ruas desertas, vitrines se dissolvendo na escuridão e nos edifícios raramente uma lâmpada acesa, a vida lutando: insônia, algum trabalho inadiável ou alguém doente.

A mulher foi sentar na varanda e olhou o céu. Prosaicamente estrelado.

Da varanda ao lado, invisível, veio um cheiro de jasmim-laranja: a vizinha cultivava num vaso um jasmineiro, feito quem cultiva amor. Cheiro de jasmim num décimo andar em plena cidade.  A mulher fechou os olhos, abandonou-se, e o cheiro e as estrelas a transportaram longe, ela pequena. Havia um jasmineiro perto do curral e as estrelas davam vertigem. Mãe, ela perguntava, em que longe estão as estrelas? A mãe explicava, as estrelas, tem delas que já nem existem, deixaram de brilhar há anos, séculos talvez, e eu vendo mãe? , eu vendo o que não existe?, então a gente também pode ver fantasma e comadre Florzinha?, e tudo era misterioso mas o mistério se explicava e o mundo era grande e pequeno. E a mãe contara que estrela cai e aí não tem brilho nem nada e ela imaginava sair catando pedaço de estrela e guardando num saco feito fazia com as estrelas do mar e as cestinhas de ouriço: aquilo sim, fora revelação, dentro de um bicho tão feio havia coisa linda assim? O mundo era enorme e cabia todo na cabeça dela e era tão simples.

Levantou-se, foi ao quarto. O homem na cama era um náufrago, confiante. A mulher olhou: o corpo longilíneo de bruços, a pele morena no branco do lençol. Os braços corriam ao longo do corpo, as pernas ligeiramente afastadas, mais escuras que as nádegas, que o calção protegera do sol da praia.  Um homem. Um metro e setenta de cálcio, gordura, sais e água, dispostos de modo a formar um belo corpo amado. Pouca coisa. Tão pouco espaço ocupava no mundo aquele amontoado de carne e ossos. Entretanto aquilo vivia e os braços enlaçavam para a amizade e o amor e os,pés se inventavam caminhos.

O homem se voltou, o rosto se oferecendo ao olhar. Ela contemplou os lábios grossos, semi-abertos. Eu sei o gosto deles, ela pensou, eu sei o jeito de seu beijo e sua boca na minha, dizendo coisas sem pronunciar palavras e seu modo de apenas roçar os lábios. Suave.

Ele dormia com os olhos semi-cerrados, as pálpebras tremiam às vezes. Sonhava? Ela imaginou: os mundos nos quais ele navegava e nos quais ela estaria. Sentiu saudades dele, desejo acorda-lo. Para nada. Só porque.

Teu rosto, ela falou baixinho com medo de o acordar, teu rosto que eu conheço, que meus dedos percorreram tantas vezes te refazendo, descendo pela testa, passando pelos teus lábios, teu rosto, rosto meu, meu não sei por que mistério e nem sei até quando, meu como se o houvesse criado.O espaço do teu rosto, ela disse, resumo do mundo para mim e abertura para mundos infinitos. Teu corpo me leva longe, desintegra, despedaça. Mas teu rosto devolve-me a mim mesma e no espaço do teu rosto eu me integro ao mundo.

Passou o dedo de leve sobre a testa, desenhou-lhe o perfil, roçou a boca. Ele fez um trejeito, como para afastar um inseto, mas a boca sorriu suave.  Eu conheço esse rosto, ela falou, se cegasse nunca mais voltasse a ver, eu o reconheceria entre milhões de rostos do mundo. Uma ternura muito grande cresceu dentro dela. Nós dois, a gente se entende. E eu me aproximo de ti como de nenhum outro ser humano e minhas lágrimas e fraquezas te são conhecidas. E tu não me temes e te desnudas e eu conheço em ti a doçura que ninguém sabe e o medo de viver. Separados, apresentamos distintas máscaras às pessoas, que nos conhecem fortes e duros. Mas nós sabemos em nós o espaço que nos criamos e como cada um é o elo que une o outro às coisas, ao cosmos. Eu te amo, ela falou. E se sentiu muito tola e era bom.

Do livro O espaço do teu rosto, Recife 1982

Deixar ir meu povo

Finalmente eu sabia muito pouco sobre aqueles homens barbudos, de chapéus de feltro negro, aquelas crianças sardentas de cabelos encaracolados, aquelas mulheres silenciosas, que pareciam carregar nos olhos claros toda a tristeza do mundo. Cada manhã, quando ia pesquisar na Biblioteca Histórica da rua Pavée, eu os via passar. Imaginava o quanto de sofrimento e medo se haviam comprimido um dia nos corações, nos espíritos daqueles indivíduos habituados ao olhar de discriminação, de piedade, quando não de desprezo, de ódio até, por onde quer que andassem.

Algumas vezes, em finais de tarde das sextas-feiras, ousei entrar na sinagoga, para lhes escutar as preces, os cantos. Subia ao espaço reservado às mulheres, permanecia ali, discreta, silenciosa, reservada, desconhecida. Ninguém nunca me perguntava nada, ninguém nunca me dirigiu um olhar, ninguém dava mostras de ser incomodado por uma presença estranha em um lugar onde todo mundo se conhecia, certamente. Os tempos da desconfiança haviam passado. Nenhuma daquelas mulheres parecia notar minha presença ali no meio delas, cada uma encerrada dentro de seu próprio mundo de preces e de lembranças. Eu não entendia uma palavra das orações que faziam, nem dos cânticos, cujas melodias monótonas, lentas, eram marcadas por um por uma mel tom que parecia buscar caminhos nos territórios da alma e ali instalar uma dor ancestral. Dor que atravessara séculos, percorrera países nos quatro cantos da Terra. E eu buscava as palavras que nos longes de minha infância alguém lera para mim, ou pronunciara em meio a um sermão que eu não entendia, um homem vestido de negro: “far-te-ei uma grande nação. E também: sereis como as estrelas do céu, como as areias do mar, que não se podem contar. Em ti serão benditas todas as famílias da Terra.”

 Eu achava lindo, aquelas comparações, aquelas palavras me fascinavam, mas minha mãe explicara que se referiam a judeus, ao povo judeu. Os judeus que eu conhecia eram esquisitos, feios até, mal-vestidos, muitos cheiravam mal. Andavam cabisbaixos, com semblantes tristes, discretos, davam a impressão de se esconder, de querer passar despercebidos. Enquanto as estrelas, brilhantes, colocadas no mais alto dos céus, no imenso firmamento, pareciam vaidosas, orgulhosas de serem vistas, admiradas. Como se dissessem olhem para nós, e para as ver era preciso erguer os olhos, esquecer a Terra. Mas os judeus, os judeus...  Do mesmo modo, as areias do mar eram claras, lavadas todos os dias, cheiravam a coisa limpa. À noite, quando as crianças brincávamos na rua, eu gostava de me deitar na calçada e olhar as estrelas. Meu pai se sentava ao meu lado, me dizia seus nomes, explicava que muitas delas levavam anos para chegar até nós. Eu aceitava, entre mim e as estrelas um entendimento se fazia, elas me falavam, me dirigiam mensagens que só eu compreendia. Anos depois, quando já não acreditava que estrelas falassem, descobri que um poeta as escutava, abria a janela pálido de espanto e aconselhava: Amai para entendê-las, pois só quem ama pode ter ouvidos capaz de ouvir e de entender estrelas. Um certo matemático também me mostrara outros caminhos,  me levou a refletir, a temer: le silence de ces espaces infinis m’effraie.  E vim a pensar que era da mesma natureza o silêncio dos homens com quem eu cruzava pelas ruas de minha cidade ou de Paris, o silêncio das mulheres, que eu cotejava na sinagoga, e o silêncio das estrelas. De fato, o que se escondia por trás do seu silêncio?

 Eu era uma historiadora. Fizera uma escolha na vida: descobrir, ressuscitar, buscar e entender vozes adormecidas em velhos documentos no fundo de estantes. Após um dia inteiro de mergulho em papéis do passado, carinhosamente guardados na Biblioteca, vetustos jornais e revistas relatando feitos da humanidade, do que haviam deixado os antepassados, todos agora dormindo, o ambiente escuro da sinagoga, os cantos, a fala monótona do rabino me ofereciam sutilmente a correspondência de que necessitava para voltar ao presente, me reinserir no mundo dos vivos.  Tornava atuais os tempos pretéritos que me haviam atraído, meu objeto de estudo.

Eu olhava aqueles rostos de mulheres ao meu lado, os vultos de homens nas cadeiras ao rés do chão, as cabeças coroadas por um solidéu negro. Imaginava suas vidas, as paisagens que a memória havia guardado, lembranças que carregavam, ocultavam, desejavam talvez esquecer, eram judeus, tinham fugido. Eu pensava nas florestas que haviam atravessado, escuras, sinistras, mas que protegiam dos olhares, dos perseguidores.  Quando a neve cobria o mundo, eles se escondiam: cavavam a espuma branca, até encontrar a terra, ali estendiam um manto e se esquentavam, deitados uns sobre os outros, calados em meio ao silêncio que a neve imprimia nas coisas.  Então, nem um canto nem um pio de pássaro, nem uma pegada de animal: todos se escondiam dos homens, inimigos permanentes, eles também fugitivos sempre. Judeus.