quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Rapeando e as empreguetes

MC Marechal, Higo Melo, Dino Black. Yalê Gontijo e MC Ahoto. 

A nova classe média e as mudanças no rap
Por Andressa Marques[i]
www.blogueiratardia.blogspot.com

Está para surgir novidade que cause tanto debate quanto a tal “ascensão da classe C”. A preocupação em avaliar o impacto do consumo da “nova classe” é discutida com alvoroço e frisson em diversos setores. Recentemente, Brasília foi palco de um evento que refletiu acerca desse advento econômico brasileiro com mais densidade do que vem ocorrendo. O projeto RAPensando (que reuniu shows de artistas do rap do DF e outros Estados durante todo o mês de julho) encarou a responsabilidade de promover um debate acerca da nova classe média e as possíveis mudanças que isso ocasionou no rap. Qual seria a relação do avanço econômico com avanço do rap em termos de público e mídia?
Os artistas Marechal, Higo Melo (Ataque Beliz), Dino Black (ex – Morte Cerebral) e MC Ahoto, sob a mediação da jornalista Yalê Gontijo, protagonizaram a conversa acerca do impacto dessas novas dinâmicas no meio em que atuam. Esse texto não é uma reportagem do que ali foi dito, já passou o tempo de ser uma notícia, mas sim, uma breve reflexão acerca das ideias que ali surgiram.
Segundo dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República*, está na classe média quem vive em uma família de renda mensal per capita entre R$ 291 e R$ 1.019. Então, se o somatório dos salários e rendimentos de quatro pessoas de uma família superar R$ 1.164 por mês, todos serão considerados de classe média. O crescimento econômico brasileiro e as políticas públicas de distribuição de renda são alguns dos responsáveis para que um número cada vez maior de pessoas pudesse lançar mão de diversas ferramentas, produtos e serviços outrora nada acessíveis. Pensando no nosso cotidiano, é evidente que a possibilidade de comprarmos computadores, celulares, termos acesso à internet ou mesmo termos os dois reais para pagarmos a hora da lan house confere novas formas de lidarmos, inclusive, com a arte. No entanto, a fala dos artistas aqui citados alerta para o fato de que essa “facilidade” pode escamotear outros interesses. A discussão da mesa foi norteada pela comum compreensão de que a categoria “classe C” é configurada mais como um discurso dissolutivo empreendido pelo Estado e pela mídia coorporativa que visa o desmantelamento de algumas posturas combativas, do que como um evento que desencadeie mudanças efetivas nas classes sociais.
O rap está acostumado a ter como matéria os acontecimentos políticos, sociais e econômicos historicamente maquiados pela máquina estatal. Se deparar com percepção de artistas que colocam para jogo a estagnação existente nessa tramada mobilidade é algo inesperado para os que forjam as ilusões de bem estar para a classe que carregou “Brasis” nas costas. Os(as) artistas do rap que não compraram o discurso estatal-midiático da explosão do consumo da classe pobre estão na contramão da ideologia, essa que tem como objetivo fazer o(a) dominado(a) acreditar e agir como se a exploração fosse natural ou até mesmo “glamourosa”, vide a jornada de gliter que inventaram para as empregadas domésticas das novelas.  Todo esse confete para cima da “classe C” me instiga e me transformou em um ser que pisa em ovos diariamente. Já olhei com mais otimismo para esse evento, não quero, absolutamente, negar os avanços, temos mais jovens de classes populares nas universidades hoje, porém não é bom perder de vista que as exclusões são apenas atualizadas nessa sociedade. Há vinte anos, ter um diploma superior garantia um salário que sustentava a família “clássica” com tranquilidade, atualmente esse mesmo diploma sustenta o eterno aperto do cheque especial sempre no vermelho, o carnê das Casas Bahia, os infinitos juros dos cartões de créditos e daí, o patrão está lucrando menos com isso?
A parte boa dessa instrumentalização da classe C como a educação, o acesso à comunicação e aumento da autoestima dos jovens da periferia precisa ser trabalhada para que não caiamos no fosso arquitetado pela ideologia: a improdutiva sensação de “bem estar social”. O rap e toda uma gama de agentes que atuam sem o braço do Estado como as mídias alternativas e as ONG’s (algumas delas), estão formando boa parte da juventude herdeira de anos de exploração de toda uma classe e isso fez com que o poder começasse a forjar mecanismos que freassem a sagacidade reflexiva que essa combinação pode causar. Daí o burburinho e a cansativa repetição de que o rap está mudado e expressando uma variedade temática inédita. Será mesmo que o rap mudou seus temas ou o poder estatal-midiático percebeu nele um potencial agente de reflexões e resolveu criar uma caixinha oportuna de “futilidades” para enquadrar sua produção?
MC Marechal, quando questionado na mesa acerca dessa “mudança temática” do rap, respondeu que sempre existiu variedade temática no gênero, mas o que ocorre hoje é a tentativa (já tão repetida) de apropriação de algumas manifestações genuinamente populares por parte das elites. Assim fica fácil manipular: ou o rap tem de ser sempre guetizado ou diluído para ser consumido por um público maior e comercializado nos meios de comunicação que estão a serviço da ideologia.
O lema punk setentista do “faça você mesmo” é importante para a configuração do momento que estamos vivenciando. A manipulação de ferramentas sofisticadas e equipamentos refinados deixou a precariedade no passado, o rap hoje é produzido com alta qualidade técnica e a agência comunicativa de seus produtores(as) expandiu seu consumo de forma considerável. O otimismo temático que a ideologia tenta referendar para o rap hoje é um fosso perigoso. Manipular a falsa impressão de que seus temas estão diversificados pode ser mais uma forma de promover o “bem estar social” e facilitar sua “apropriação” por parte das elites, como bem colocou Marechal.
Esse debate tem mil pormenores, construir pensamentos ao passo que as coisas estão acontecendo é estar disposto a re(formular) ideias constantemente. O rap é um gênero disposto a desconstruir discursos, prisões e violências a partir de matéria do cotidiano e isso o obriga a empreender uma autorreflexão sobre sua cena sempre. A discussão empreendida no projeto RAPensando deixou o alerta para que estejamos atentos(as) à ilusão que querem nos vender. Ser empregada doméstica não é tão glamuroso como diz a novela das sete, a “modernização” das cidades que receberão a Copa do Mundo e as Olimpíadas não é tão benéfica quanto parece (essa classe C “consumista” está indo viver onde agora?)**. Diluir o discurso do rap em litros de água com açúcar e no “avanço da classe C” pode ser o desenho de uma alegria vaporosa tão falsamente ilustrativa quanto a das Empreguetes.




*  Fonte “O que define a classe média”, por Moreira Franco e Ricardo Paes: http://www.sae.gov.br/site/?p=12489
**  Texto bacana do Observatório de Favelas sobre esse problema aqui: http://rioonwatch.org.br/?p=3464



[i]Artigo publicado no site da Central Hip Hop. Andressa Marques é Mestranda em literatura pela Universidade de Brasília, pesquisa a literatura afro-brasileira e o rap feito por mulheres, é também blogueira e colaboradora do site Central Hip Hop. Outras informações nos sites :



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sozinho ninguém existe

Foto: Agência Periferia Revista

Sozinho ninguém existe
Uma leitura de Deus foi almoçar, novo romance de Ferréz

por Laeticia Jensen Eble

Para quem acompanha a trajetória literária de Ferréz, não há como ler Deus foi almoçar (Planeta, 2012) sem ter em mente seus romances anteriores, especialmente Capão pecado e Manual prático do ódio. A comparação é inevitável e pode até gerar certa frustração ao percorrer as primeiras páginas, quando, então, percebe-se que o livro exige um outro olhar. Aqui a escrita foge a tudo que o autor havia explorado antes, a injustiça social, as drogas e a violência física não são mais o foco; os personagens são em número reduzido; a linguagem não tem nada do dialeto suburbano e das gírias, pelas quais o autor alimentava apreço; nem mesmo o ritmo ágil e dinâmico das narrativas embaladas pelo rap aqui encontra eco; enfim, o estilo se apresenta completamente diverso. No entanto, encontramos em algumas passagens deste romance um tom bastante próximo ao de alguns contos de Ninguém é inocente em São Paulo, marcado por um estilo mais leve, reflexivo e poético.
Fonte: http://ferrez.blogspot.com.br
Se, como o autor afirma, trata-se de um romance psicológico, não é difícil ao leitor deduzir o diagnóstico: depressão. Ao mapearmos as ações e reflexões do personagem, vemos um homem que vai gradativamente evoluindo em um quadro depressivo, até chegar ao colapso. Talvez o distúrbio psíquico que leva à prostração física e ao abatimento moral do personagem justifique o ritmo arrastado e a fragmentação que se fazem presentes nos primeiros capítulos, quase desestimulando o leitor de seguir adiante. Contudo, a partir da metade do livro, a narração começa a crescer, ganhar intensidade e fazer sentido, prendendo, finalmente, a atenção e instigando a leitura.
Ainda que se pretenda um romance psicológico, esta obra de Ferréz não deixa também de ser realista. Diferentemente de seus livros anteriores, em vez do propósito de retratar a realidade da periferia e de uma coletividade, em Deus foi almoçar, Ferréz apresenta a realidade vivida internamente por um único personagem, que se mantém alheio a tudo que o cerca, quase que em uma realidade paralela. Se, por um lado, nesse romance, não há a espetacularização da violência, que tanto atrai leitores, por outro, há a possibilidade de identificação com as angústias do personagem. Mas, para além dessa constatação, o que há de comum com os romances anteriores? Em uma tentativa de resposta, pode-se mencionar o tom fatalista que predomina ao não indicar possibilidades de fuga para seus personagens. A narração parece ser necessária para justificar a morte, a morte que o personagem procura desde as primeiras páginas, já que “a vida não interessa a ninguém” (p. 142).
O protagonista, Calixto, sem conseguir se recuperar do trauma da separação e, principalmente, do fato de ter de viver apartado da filha – com a qual mantém uma ligação poética que pode ser mencionada como um dos pontos altos do livro –, é um homem que se debate diante da desilusão com a vida e, como consequência, cultiva a solidão e a misantropia. Distanciando-se cada vez mais de seu único amigo, quando não se refugia no ambiente deteriorado de sua casa, entrega-se à rua, onde vivencia experiências um tanto quanto bizarras, que só fazem ferir sua autoestima e sua masculinidade, aumentando sua prostração.
Se os laços sociais são importantes para a constituição de um ser, na medida em que é em relação à família, ao trabalho e às relações afetivas que o indivíduo se identifica e se reconhece, em Deus foi almoçar, acompanha-se passo a passo a perda de referências e o esfacelamento total do personagem. Por um lado, Calixto tenta se apegar às poucas pessoas com quem esbarra em sua perambulação pelas ruas, por outro, percebe que as tentativas são insuficientes para preencher o vazio afetivo que o consome e que ele tenta aplacar com fantasias, sonhos e delírios. O amor que alimenta pela vizinha, uma senhora que lava insistentemente a calçada de casa, revela-se, afinal, nada mais que a carência do amor maternal.
Como alternativa para estruturar seu romance e construir a narração, Ferréz lança mão de um narrador autodiegético, que orienta, assim, as intercalações temporais da narrativa, ora no presente, ora no passado. A confusão do narrador, que alterna a narração em primeira e em terceira pessoa,[1] tumultua também a percepção do leitor, mas não se dá por acaso. O que temos é um personagem/narrador que dialoga consigo mesmo, enquanto rememora alguns eventos relevantes dos últimos momentos de sua vida e de seu passado, refletindo sobre eles, para, então, depurá-los (e editá-los), enquanto se põe a escrever um livro de histórias infantis, que o personagem deixa para sua filha por ocasião de sua morte.
Em uma mostra de desapego, em vários momentos, o narrador tece críticas ao colecionismo, personificado na pessoa do amigo Lourival. Enquanto, em vida, a acumulação de objetos parecia algo inútil para ele, ao final, após atravessar o “portal”, tem-se uma nova reflexão – que deixa o leitor em suspensão, forçando a rememoração de todo o romance. No que seria uma experiência de além-morte, Calixto se depara com inúmeras gavetas, as quais guardavam, cada uma, como em uma coleção, um objeto de sua vida, pleno de significações afetivas e construções subjetivas – do boletim da escola às fotos com sua filha. Esta imagem faz lembrar a exposição sobre Clarice Lispector, montada pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em 2008. Em uma das salas montadas, repleta de gavetas em todas as paredes (ver foto), cada gaveta acondicionava um objeto pessoal, um fragmento da memória da autora, surpreendendo os que se punham a abri-las e iam, como num quebra-cabeças, montando uma biografia sentimental de Clarice. É assim que, finalmente, as palavras de Seu Roberto fazem sentido: “As coisas só existem quando a gente acredita nelas” (p. 36).
Fonte: http://rostovms.blogspot.com.br/2010/06/gavetas.html
Para concluir com uma observação crítica, não se pode deixar de comentar a intenção declarada por Ferréz com este livro, que é sair um pouco do rótulo de marginal e do gueto da periferia, mostrando que pode e sabe fazer diferente. E fez, com certeza, saiu-se bem. No entanto, apesar de mostrar habilidade ao estruturar esse romance, fica a impressão de que ele acaba caindo nas mesmas armadilhas e esquemas empregados pelos autores da elite – que ele tanto critica em seus discursos públicos –, como se disso dependesse fazer parte do “clube”. Infelizmente, o discurso político de Ferréz não parece ter muito eco aqui. Não obstante a crítica recorrente ao sistema, que o autor sempre coloca, Em Deus foi almoçar, os personagens principais são todos brancos. Não há, por exemplo, problematização de questões raciais ou de gênero – assim, a ex-mulher de Calixto, é muito mais retratada por suas qualidades ao cuidar da casa do que por suas capacidades intelectuais. Daria uma boa reflexão analisar a forma abjeta como as várias prostitutas que aparecem ao longo do romance são representadas. Ferréz já afirmou a pretensão de que seu próximo romance seja narrado por uma mulher, fica a expectativa, então, de que ele consiga amadurecer mais essas questões.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um dedo de prosa com Maria Valéria Rezende


Um dedo de prosa com Maria Valéria Rezende


Confiram a  entrevista que Maria Valéria Rezende concedeu ao Blog Estudos Lusófonos. Nos vídeos aqui apresentados, a escritora  fala de seu projeto em torno dos neoleitores,  do seu último trabalho Ouro dentro da cabeça, lançado pela Editora Autêntica em 2012 e comenta o  romance O que deu para fazer em matéria de história de amor da escritora Elvira Vigna.

Assistam aos depoimentos  de Maria Valéria Rezende através dos links :








Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, em Santos (SP), onde morou até os 18 anos. Em 1965 entrou para a Congregação de Nossa Senhora - Cônegas de Santo Agostinho. Sempre se dedicou à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste. Formada em Pedagogia e em Língua e Literatura Francesa, e mestre em Sociologia, trabalhou durante 20 anos como educadora em movimentos e organizações populares urbanas e rurais e na formação de educadores. Viveu no meio rural de Pernambuco e da Paraíba e, desde 1986, mora em João Pessoa. Já esteve em Angola, Cuba, França e Timor, entre outros países, convidada a falar sobre seus projetos sociais. Em 2001, começou a publicar ficção e poesia para adultos, jovens e crianças, tendo recebido importantes prêmios nessa área.
A experiência de Maria Valéria com a dor do analfabetismo e também com a educação de jovens e adultos foi o mote para O voo da guará vermelha. “Uma personagem se apaixona por aprender a ler e a outra descobre um sentido para sua vida, ensinando”. A autora constrói no livro o encontro de Irene, uma nordestina que vira prostituta em São Paulo, com Rosálio, um servente pedreiro. Dona de uma escrita inventiva e conhecedora da realidade de “Rosálios” e “Irenes”, Maria Valéria fez uma obra poética e forte, que dispensa trivialidades.
Em seu  última trabalho, Ouro dentro da cabeça, lançado pela editora Autêntica, a escritora evoca a história de um lutador que correu sérios perigos e andou o Brasil todo buscando um tesouro nem de prata nem de ouro: de coisa mais preciosa. No fim da longa jornada, que valeu uma vida inteira, quando ele estava perdido, sem saber por onde ir, foi que encontrou o tesouro na frente de suas vistas, onde o olho desprevenido só vê miséria e tristeza. Segundo Maria Valéria, Ouro por dentro da cabeça tem um leitor muito específico em vista, embora não exclua leitor nenhum. "Eu mesma, vetero-leitora, depois que ele chegou, li de capa a capa com prazer, como se nunca o tivesse lido. Nasceu doVôo da guará vermelha, na verdade, que contava a história, entre outras, de um jovem analfabeto que descobre a magia da literatura e cai no mundo tentando aprender a ler. Muitos amigos que, como eu, trabalham ou trabalharam justamente com a educação de adultos privados de escola na infância, que agora são milhões no país (categoria hoje chamada de neo-leitor), quiseram levar seus alunos a lê-lo, mas a estrutura do texto e o formato gráfico do livro mostraram-se complicados demais para esses leitores. Por isso, decidi fazer uma autobiografia linear desse personagem, reescrevedo e montando o texto de modo a diminuir as dificuldades para esse leitor e ir mais diretamente à história que, de algum modo, é a história dele. E a editora compreendeu o que eu propunha, fazendo o projeto gráfico adequado, enriquecido com a ilustração belíssima do Diogo Droschi (*), ao mesmo tempo popular, com jeitão de xilogravura, e sofisticada", diz a autora. E será que a literatura é capaz de nos fazer garimpar ouro dentro da cabeça? "Para quem não se contenta com seu mundinho individual e tem fome do mundão inteiro, a literatura, seja escrita ou oral, lida, dita ou cantada, semeia e garimpa ouro dentro de qualquer cabeça!", conclui Maria Valéria

Um pouco de leitura 

OURO DENTRO DA CABEÇA

ROMANCE



COMO NASCEU ESTE LIVRO


Meus queridos leitores,

este livro é filho de duas paixões que animam minha vida.

A primeira delas começou desde criança, muito cedo,
e nunca mais me deixou: a paixão pelas histórias,
o desejo imenso e urgente de aprender a ler  para explorar
todas as vidas e os mundos escritos em todos os livros;
a paixão de ler, ler, ler que tem me acompanhado sempre,
há quase 70 anos, e me faz continuar crescendo até hoje.

Ao descobrir as desigualdades e injustiças deste mundo,
fui agarrada por uma outra paixão: a de lutar para que todos,
crianças, jovens e adultos,  possam conquistar o direito de ler
e de alargar sempre mais seu mundo e sua vida.

Aos 15 anos, pela primeira vez, alfabetizei um grupo
de jovens trabalhadores do porto, na minha cidade de Santos, São Paulo.
Nunca mais abandonei a educação de jovens e adultos:
rodei o Brasil e o mundo com essa mesma paixão, 
por causa dessa missão.

Conheci muito de perto inúmeros Coisa-Nenhuma,
Piás, Marílios e Marílias, cujos sonhos, aventuras, paixões,
desventuras e lutas vocês vão encontrar aqui neste romance.


Maria Valéria Rezende  

Venho aqui me apresentar
Vim contar a minha vida, pra quem quiser conhecer
a história de um lutador que correu sérios perigos,
andou o Brasil inteiro, tentando achar um tesouro
nem de prata nem de ouro: de coisa mais preciosa.
Procurei por toda parte onde disseram que havia
um mapa desse tesouro, ou onde eu mesmo inventei
que ele poderia estar, mas não conseguia achar.
No fim de longa jornada, que valeu uma vida inteira,
quando eu estava perdido, sem saber por onde ir,
foi que encontrei o tesouro na frente das minhas vistas,
onde o olho desprevenido só vê miséria e tristeza.
Estava onde, o tesouro?
Ah, esse é o grande segredo que só no fim contarei. 

COISA-NENHUMA, filho DAS NUVENS 
É difícil explicar como foi que começou essa vida,
que é a minha, e que aqui quero contar.
Até o meu nascimento, que é o começo de tudo,
ninguém sabe explicar bem, muita coisa se adivinha,
mas sem saber de certeza. Nasci e cresci sem nome,
num lugar bem escondido que não se acha no mapa,
e vivi por muito tempo sem ter nome de respeito.
Então não posso contar como se contam as vidas:
dizendo certo o lugar e a data do nascimento, dia e ano,
bem certinho, nome do pai e da mãe.
Pra explicar quem eu sou, tem de fazer um arrodeio.
O lugar de onde eu venho, onde nasci e me criei,

fica no pé de uma serra de que ninguém sabe o nome

e tem no alto umas penhas: são as Pedras do Perdão. 


Confiram também as outras entrevista de Maria Valéria Rezende para o Blog Estudos Lusófonos, bem como suas intervenções no no Salão do livro de Paris em 2012 e no encontro “A jovem literatura brasileira” organizado pela Universidade da Sorbonne.  Cliquem nos links abaixo  para acessar os vídeos.


(*) Diogo Droschi. Nasceu em 1983, na cidade de Belo Horizonte, MG, onde ainda vive. É formado em Design Gráfico pela UEMG e em Artes Gráficas pela Escola de Belas Artes da UFMG. Pela Autêntica Editora, ilustrou os livros Histórias daqui e d’acolá, Vagalovnis e Desenrolando a língua.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A literatura brasileira em ebulição


Zadok Ben-David, Looking Back, 2005, bronze, 200 inches
Gelbc promove quarta edição de simpósio internacional sobre
literatura brasileira contemporânea

Edma Góis (*)

Depois da rodada de encontros, em janeiro, na Université de Paris-Sorbonne (Paris IV), foi a vez da Universidade de Brasília (UnB) reunir, no mês de Junho, os pesquisadores/as do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (Gelbc), em mais uma agenda com o objetivo de socializar e refletir sobre as investigações em desenvolvimento no grupo. Além de professores da UnB, pesquisadores de universidades brasileiras e estrangeiras, reuniram-se, por três dias, no auditório do Instituto de Ciências Biológicas. O IV Simpósio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea: autoria, experiência e aportes críticos rasurados contou ainda com participação, via internet, de investigadores que não puderam estar no Brasil naquele período.
A proposta desta edição foi apresentar aos trabalhos que estão em andamento. Assim, os estudantes e demais presentes puderam dar sugestões, fazer críticas e apontar outras possibilidades de produção dos trabalhos. A análise das obras literárias foi apenas um dos aspectos presente nas apresentações. Além dela, debates sobre o papel do escritor, a profissionalização da escrita literária, problemas de representação e autoria, experiências que remontam a paisagens estrangeiras e sobre o que faz um texto ser literário permearam as mesas. No último dia, o evento focou a participação dos alunos de pós-graduação, em quatro rodadas de apresentação das pesquisas aos convidados das universidades Federal do Amazonas, Federal Fluminense, Federal da Bahia, Federal de São Paulo, Estadual de Maringá, PUC-RS, Novo México, Santiago de Compostela e Paris-Sorbonne.
“Este simpósio não é apenas um espaço de trocas sobre pesquisas. Ele recupera nossa certeza de que a literatura brasileira contemporânea é um terreno fértil para discussões que aparecem em vários domínios de investigação”, avaliou a professora Regina Dalcastagnè, que coordena o Gelbc desde 1997. O encontro realizado em Brasília, assim como o de Paris e os próximos simpósios, previstos também na Europa, pretende aproximar pesquisadores que trabalham fora do Brasil dos trabalhos da UnB. Além da troca de experiências, há um caráter político nesta aproximação. “Notabilizar as investigações fortalece aqueles que ensinam esse tipo de literatura fora do Brasil e que, muitas vezes, trabalham isolados, dada a área de pesquisa”, disse o professor da Universidade Paris-Sorbonne, Leonardo Tonus.
Há quinze anos, o Gelbc tem como preocupação a relação entre literatura e sociedade. Mais recentemente, o grupo também tem incorporado investigações sobre a literatura produzida na América Latina, numa tentativa de olhar para o que é produzido no Brasil no contexto continental. O grupo também edita a revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, publicação semestral com pesquisas e ensaios de estudiosos/as de diversas instituições, nacionais e internacionais.

Consultem o programa e leiam os resumos dos trabalhos apresentados durante o IV Simpósio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea: autoria, experiência e aportes críticos rasurados no link  abaixo : 
RESUMOS
PROGRAMA


O que vem pela frente:

III Edição da Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos.
De 24 a 26 de setembro na Universidade de Brasília

Colóquio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea: Traduções e Intermediações.
Dias 7 e 8 de março na Universidade de Paris-Sorbonne e dias  11 e 12 de março na Freie Universität em Berlim.
















Edma Cristina de Góis é jornalista e doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília. Pesquisa as representações de corpos femininos na literatura brasileira contemporânea.

Outras informações nos sites dos grupos de pesquisa

sábado, 4 de agosto de 2012

Os novíssimos novíssimos.


Os novíssimos novíssimos.

Elvira Vigna

Fiz uma pergunta, com meus olhos, a cada um dos 22 artistas da Novíssimos, uma exposição anual organizada pela galeria do IBEU do Rio de Janeiro há 42 anos. A pergunta foi sobre o futuro. Como eles viam e se viam, se é que viam e se viam, eles e a arte, amanhã.
A pergunta não estava pronta. Foi se fazendo depois que entrei, ao ver um ou dois quadros ou vídeos, ao notar o bom humor e a ausência de grandiloquência. Nenhuma. Zero.
Aliás, uma digressão. A Granta dos melhores jovens escritores brasileiros. No caso, em vez de 22, 20. E com um aposto falso, marqueteiro, o geracional, somado a uma bazófia, seriam os "melhores", o futuro da literatura brasileira e outros ridículos. Nada disso aqui. Os Novíssimos do IBEU são de todas as idades e respondem à minha pergunta dizendo que não se trata desse tipo de futuro, o de um pouco definido "sucesso", mas o da garantia do jogo, da troca. Chamemos de arte. Aceita-se a palavra significado. Linguagem. Jogar o jogo infinito da linguagem, eis o "sucesso" almejado.
Vou falar um pouco do que vi, começando pelo que mais gostei.
Alex Topini trouxe três vídeos. Num, a referência literária a Mário Quintana ("Todos estes que ai estão / Atravancando o meu caminho. / Eles passarão. / Eu passarinho!").
O "eu passarinho" vem escrito na camiseta de um cara comum (o artista) que fica lá, assobiando trinados. Com cara de pobre,  brasileiro a mais não poder. No segundo vídeo, Topini berra "artista!" para o nada branco e fica lá, mão em concha no ouvido, tentando ouvir pelo menos um eco. O terceiro fala sobre o silêncio. Quer dizer, não fala. Cartazes apresentam frases sobre o silêncio. As frases são banais, ele não se vende como um grande pensador, não é isso.
Alex topini
Sofia Caesar, formada em dança pela Angel Vianna, dança. Dança em silêncio dentro de uma sala burguesa, no espaço pequeno entre mesas e armários, bibelôs, toalhinhas. Uma mulher que existe nos espaços pequenos que conseguiu obter. O vídeo é em looping, o que aumenta sua força, é uma dança que não para, apesar de tudo e todos.
Alexandre Hypólito também faz, como Sofia Caesar, um comentário de gênero a partir de suas pequenas baionetas, presas na parede. Uma delas carrega, à guisa de culhões, dois desses saquinhos de pano que, nas HQs infantis, estão sempre cheias de moedas de ouro. A outra baioneta tem uma bolinha vermelha na ponta. Quase um nariz de palhaço.
Alexandre Hypólito
A portuguesa (radicada aqui) Ana Carolina Druwe, desmancha, com tíner, imagens da cultura de massa. Faz o mesmo que Moisés Crivelaro, com imagens da cultura de massa cobertas de uma tinta a óleo pesada, texturizada. Ambos se afirmam, assim, como sujeitos que enfrentam um processo de desindividuação, que é o do consumo. 
Moisés Crivelaro
Também nessa lista entra Alexandre Rangel, que usa chiclete de bola para fazer lindo tapetinho cor-de-rosa, onde gruda sua carteira escolar, ela também cheia de chiclete. O título também é bom: "Pequenas transgressões".
Arthur Arnold pinta o tema, em vez de apontá-lo através da linguagem como seus três colegas recém citados. Seus dois acrílicos de grandes dimensões, "Mary" e "John", mostram um casal de meia-idade tomando sol com suas banhas e seus objetos caros, tecnológicos.
Pedro Victor Brandão também denuncia a tentativa mercadológica de caracterizar a tecnologia como instrumento de status, como garantia de alguma coisa. Mas, a meu ver, com um grau de sutileza e eficácia maior do que Arthur Arnold. Faz o seguinte: na galeria, eis uma televisão de última geração com a tela quebrada. Nessa televisão, passam filminhos institucionais típicos de ambientes de alta tecnologia. Tudo asséptico, todos sorrindo, jovens de futuro levemente estrangeiros, e tudo funcionando às mil maravilhas. Lá, no filminho. Mas a tela do computador que foi filmado coincide com a tela da televisão quebrada onde passa o filminho que mostra tudo sendo tão perfeito e lindo. E você só pode rir. Chama-se "A exaustão dos dêiticos" e vou voltar a esse título daqui a pouco.
Pedro Victor Brandão
Nena Balthar também quer chegar lá. Sendo que seu "lá" nada tem de asséptico. Pelo contrário. Sua obra é um tríptico. Três vídeos de alguém nadando, ponto de vista de quem nada. E nada e nada. Sem horizonte à vista. No segundo, o perfil do Rio de Janeiro lá longe, a dar novo alento. No terceiro, é o prédio do Parque Lage (centro principal do estudo de arte da cidade), o que o pobre nadador vê, entre uma braçada e outra, de dentro da água agora não mais oceânica, mas a do laguinho retangular do edifício histórico. Para se chegar ao Parque Lage, muito esforço, muita água. E é isso o que ela quer. Nenhuma máquina que funciona às mil maravilhas. Não. É um sonho do difícil, de prováveis fracassos, nenhuma perfeição à vista. O da arte. Também gostei bastante.
Há os que apontam os limites da tecnologia "infalível" contrapondo-a a obsolescências, uns de forma mais irônica do que outros. É o caso de Paula Scamparini e seus papeizinhos artesanais cortados, sujos, simples. De Bete Esteves e suas duas máquinas hilárias, uma de frente para a outra. Fazem lembrar carrinhos de algodão doce. Fazem um "bum" e soltam um anel de fumaça. Do tempo em que se fumava. Do tempo em que se fazia anéis de fumaça. É ainda o caso de Jonas Arrabal, que ressuscitou um mimeógrafo. E de Maikel da Maia, que usa um carimbinho de galinha e com ele sai carimbando paredes, suportes das obras e "livros de arte". Em um deles, a galinha anda para trás, se o folheamos rapidamente.
Quatro artistas buscaram a violência. Uma dessas violências é a atual, num assassinato encenado e fotografado (Elen Gruber). Outra violência é medieval, na tortura feita em aguada sobre papel, cuja leveza de técnica teve o mérito de reforçar o tema (Paul Setúbal).
Paul Setúbal
Lucas Osório se filmou pixando as paredes de um túnel urbano. Luana Aires pôs em looping sua chegada a um porto supostamente seguro, seu apartamento.
Pedro Moraes faz um exercício de perspectiva, pondo o quarto pé de uma cadeira como rastro no chão, o que a faz desabar; Fabiano Devide, com formação em educação física, faz quatro figuras cansadas e bem pouco atléticas; Felipe Fernandes se rende ao mercado com duas grandes telas em acrílico perfeitamente vendáveis; e a dupla de artistas Nathalia Gonçales e Marina Murta revive Duchamp assinando-se "Mãe Duchampa": o que ele seria se vivesse hoje. Temos um dos pontos altos do humor do grupo nesse Duchamp assumido, transexual, a oferecer um passe, um descarrego, para "romper com as ervas daninhas" que prejudicam a criatividade. Talvez por uma módica quantia, talvez apenas através da venda de incensos, oferecidos no local.
Mãe Duchampa

E volto ao dêitico. E ao artista que falta: Felippe Moraes. Sua obra é simples. Um tronco fino cortado ao meio no sentido longitudinal. Dentro está escrito "1/2". Ou seja, metade. Isso, em uma metade. A outra metade tem o mesmo "1/2", mas espelhado. Como se o tronco, antes de ser cortado, contivesse o seu futuro de tronco cortado, e já, humildemente, (se) dissesse metade.
(Ou como se o "1/2", aberto assim, uma metade espelhando a outra, fosse um fóssil. Um fóssil lá desde sempre, contendo, há milênios, sua afirmação, lá, para quando alguém o abrisse. E descobrisse: o fóssil, lá, presente no futuro, e sabendo disso desde sempre.)
Felipe Fernandes

Não vou repetir aqui a perda da centralidade do humano. Ok, vou repetir: primeiro a terra a girar em redor do sol, depois o lance da hereditariedade a partir do macaco, depois Freud, depois, ai, você sabe. Também não dá vontade de falar sobre a viagem construtivista, sobre a tentativa de ordem e controle, a independência da obra de arte em relação a seu contexto e entorno. Só vou dizer que, ao pôr as condições de significação, a sintaxe do artístico, junto com o "pronto" artístico, com uma finalização exibida como temporária, esses artistas novíssimos são de fato novíssimos. No meu entender, estabelecer as condições de interpretação, os limites, "erros" e o funcionamento da obra, junto com a obra em si, é a melhor e mais atual maneira de poder existir. Ou a única.
É um breque eficientíssimo contra o que Karl Marx (sorry) chamou de Entfremdung. Estranhamento. A nossa velha e conhecida alienação dos anos 1960. Segundo ele, causada pela perda de capacidade da sociedade em produzir significado a seus membros. Culpa dos processos industriais do tempo dele ou dos tecnológicos, no nosso, mas com um só remédio: empatia. Ou Einfühlung. Que só acontece quando há uma relação panteística (não só artística, não só tecnológica, não só nada, mas tudo junto, deslizando, deslocando) e uma confiança em algum tipo de futuro comum. Nunca fixo, mas de jogo, das articulações infinitas do jogo.

Elvira Vigna
Agosto de 2012

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