terça-feira, 31 de julho de 2012

Digamos assim


Fabio Morais, Escombro, 2007

Digamos assim (*)

Wladyr Nader

Que fique bem claro, assunto proibido inexiste para escritor que se preze. Faço por isso minha reflexão progredir, absolutamente convencido de que me acenam de longe as chamas do inferno. Preciso dizer a mais alguém que a morte do papa serviu para frustrar o  lançamento do romance em que tanto  me empenhei, na esperança de obter a benevolência dos críticos e a  compreensiva atenção dos amáveis leitores? Não, talvez não seja o caso. Mas você há de concordar que o castigo tem origem conhecida.
Portanto, foi-se embora sábado o segundo João Paulo e, cancelada a festa, o pequeno volume não saiu da editora por razões algo obscuras mas, tratando-se de quem se tratava, perfeitamente aceitáveis. O encontro  havia sido marcado para um  Rotary desses da vida, sob protestos reconhecidamente religiosos de seus associados, de hábito avessos a voos da imaginação, supostamente os meus. A ira divina se voltaria contra eles se o lançamento fosse mantido, apesar do adeus do papa a esta existência amarga em que em conjunto estamos mergulhados. Se a ideia era mesmo essa, para que insistir, não é verdade? Quanto a mim, obviamente, já que nem católico sou, nada a ver com a questão, embora autoridade em enxergar barbaridades em qualquer dos santos credos da igreja que for, dos quais  espertamente me distancio.
Se encrencaram com o meu romance, recheado de  canalhices como o mais abusado  humanitarismo e a mais deslavada fé nos bons sentimentos de homens, mulheres e gays, não sei, porém rolou uma coisa  esquisita e imprecisa, que acabou com a minha dissimulada alegria pelo suposto retorno às prateleiras e gôndolas das livrarias, após anos de deliberado ostracismo. Aceitei as condições que me impuseram, fiz meia-volta volver e, se usasse chapéu, enfiaria o meu e cairia fora sem dar até logo.
Desejo acrescentar ao que acabei de narrar uma experiência diferente por que passei à época para ver se surge acordo entre nós dois, eu e você. Em resumo, é a história de um  amigo querido que, ao que tudo indica, morreu mas não morreu, o que explicarei na sequência. Chamava-se Arsênio não sei bem por quê — talvez  uma fraqueza dos pais pelo teatro clássico —, mas me importunava seguidamente vivo ou morto: vivo, quando  se postava no meio do caminho pelos motivos mais estapafúrdios, morto porque deixou sequelas em minha  vida acobertada pela desonra, o que, se sobrar tempo, esmiuçarei sem o menor constrangimento.
Sim, talvez não me tenha feito entender e aqui vai: dinamitávamos intelectualmente tudo que fosse suspeito que nos aparecesse pela frente, de fatos a pessoas. Era, e ainda é para mim hoje, uma espécie de vocação para desestabilizar os bem-comportados, quaisquer que eles sejam ou onde se encontrem. Não é por gosto, não, é a nossa maneira de  infelicitá-los, por conta do mal que suas omissões  fazem aos demais.
A nossa atitude é uma exceção ou foi, já que o meu bom Arsênio de guerra desapareceu ou coisa parecida. Pois não nos perfilamos todos no seu enterro, cada qual chorando ao seu modo e por motivos diversos, e o caixão nada de abrir-se para o nosso derradeiro e eterno  ósculo?  Vimos pela janelinha que se tratava dele mas lanço mão do cinema para levantar a suspeita de que a  sua imagem, ali clara e rica, resultava de efeitos especiais, uma vez que o meu companheiro de um sem-número de inquietações vem dando sinais de não haver abandonado este mundo.
Ou seja: fiquei meio perdido eu próprio e parti para as especulações aqui registradas, sob o argumento de que o escritor conta com toda a liberdade para fazer o que quiser se pretender tornar o seu texto verossímil  como manda o figurino. O problema é saber que figurino é esse.
Ponha o que der e vier no mesmo caldeirão do diabo, como batizaram no Brasil aquele melodrama barato com a Lana Turner — que a TV reprisa religiosamente  a cada semestre —, e terá um melhor quadro das  minhas dúvidas e dos meus passos em falso, que redundaram em alguma coisa nociva e estúpida.
Sem querer mergulhar ainda mais fundo, malgrado o fazendo, me sinto no dever de confessar que sou dado a intuições, quando não premonições. O mais certo é ficar com a primeira hipótese: considere-me apenas um intuitivo que encara a vida com indiferença, por desconfiar  que ela não dura muito. Assusta-me, com certeza, mas, cético por natureza, repito como Jamelão, que já passou dos 90, que estou na prorrogação, embora com 50 menos que ele. Não, não bebi nem cheirei, é realidade pura, a minha cabeça viaja longe,  me perco e, quando acordo da fantasia, descubro terra arrasada à vista.
Primeiro acentuemos as diferenças entre intuição e premonição, que são primas-irmãs: quando uma falha, a outra está lá, procurando emergir do fundo do poço da imaginação de gente doentia como eu. Tenho  consciência de que é uma desgraça sem tamanho  sobreviver com essa capacidade intuitiva que acaba virando premonitória, mas insisto em não misturar a com b. Porque, se fizer isso, me danarei e deixará de existir qualquer tipo  de escapatória. Digo o que digo porque venho sendo vitimado por estranhas espécies de  visões e preciso encontrar uma saída, no mínimo para  não enlouquecer, como o meu Arsênio odiado e querido. Com certeza, ele possui parte nisso, já que aparece e desaparece das minhas vistas, como se eu não existisse, sugerindo ações e comportamentos em geral condenáveis, para dizer o mínimo. Ele me aponta caminhos, ciladas, e isso é que me incomoda, como, por exemplo, diante da morte do papa. Tentou convencer-me por sinais, pormenores dos mais variados, e entrei de cabeça, não ignorando os perigos todos. Está bem que adiar um lançamento de livro não constitui nenhuma tragédia, contudo é como se o papa me houvesse impedido de cometer um tipo de crime, quem sabe contra as pessoas que se acotovelariam para obter o meu autógrafo, sob o pretexto de se acharem frente a frente com um dos grandes das letras nacionais.
Quero dizer é que não sou um grande das letras nacionais e sei disso. Os meus compromissos são, ao contrário do que pode ter parecido até aqui, diretamente ligados ao social. Existiu tempo — e de tal fantasma não me livrei em meia dúzia de livros — em que pensei demais em mim e me dei mal: o narcisismo aflorou e fui de alguma forma obrigado a me penitenciar, primeiro entre as quatro paredes da Santa Madre Igreja, depois com familiares e chegados. Compreendi que estava tudo errado e me redimi ou suponho haver me redimido, para o bem e para o mal.
Por tudo que falei é que admiro o Machadão, a  simplicidade e a sutileza dele: conta uma história e a  ninguém restam dúvidas a respeito. Sente-se à vontade ao atuar como simples narrador e não comete desatinos por mero esquecimento. Já os romances e contos que escrevo são circulares à minha moda, se você me entende, beligerante e pretensiosa, às vezes ganhando e às vezes perdendo o fio da meada. Ou seja, pretendo desculpar-me por eventuais fragilidades, até não apostando no meu taco. Não merece que apostem nele, realmente. Você é testemunha de que almejei desde o começo me pautar por uma linha de coerência para não largar nada pendente. Debite todas as obscuridades ao velho Arsênio, que some e ressurge sob os menores pretextos. A sua imagem vai e volta, trocamos uma dezena de palavras, nos acertamos, eu parto ou ele parte.
Não, não bebi nem cheirei, apenas me acho em estado de abandono. Com certeza houve falha de comunicação ou não fiz ligação direta entre uma coisa e outra. Se a narrativa derrapou ou sonegou informações, me ajude a reconstituir alguns amargos detalhes, o principal deles o da última e rica conversa que tivemos, em que resolvemos usar explosivos para destruir a ação maldita da memória e da imaginação. Ele aceitou os meus termos e eu aceitei os dele. Laboramos em juízo perfeito, pode-se falar assim. Estabelecemos as ações e agora só falta executá-las, com aquele espírito de persuasão que capacita os nossos passos. Com efeito, usar explosivos é a única alternativa para não explodirmos. Nenhum de nós deseja isso, porém  em tese Arsênio já foi desta para o desconhecido, embora o veja e alcance a sombra que o representa no decorrer dos  seus constantes desaparecimentos e reaparições.
Trocando em miúdos e procurando ser claro: estamos dispostos a explodir uma ideia, uma ideia que nos importuna desde a mais tenra idade de adulto, se é gramaticalmente correto falar-se assim. Pensamos adquirir  duas braçadas de dinamite, que é como as vendem,  num desmanche perto daqui. Tudo de segunda mão, que fique transparente, com aquele objetivo único acalentado há mais de década: o de tirar da cabeça e de  circulação, a um só tempo, a alegada superioridade da inteligência brasileira, erroneamente cantada em prosa e verso por artistas dos mais diversos calibres. Se dilapidada e destruída, ela jamais tornará a prosperar e nos sentiremos enfim iguais a todo o mundo, o que a nossa tradicional empáfia nunca foi capaz de engolir. Arsênio e eu, eu e Arsênio, já temos tudo acertado, para que, quando ele tornar a materializar-se, estejamos preparados: acionaremos a dinamite — é certo que  aprendemos a usá-la como raros neste Brasil varonil — e mãos à obra, embora conscientes de que segundos depois nada mais restará a fazer. Todos serão reduzidos à expressão mais simples, graças a Deus, eu e meu amigo de um lado, os demais do outro. E o nosso orgulho bobo e barato deixará de ser a pedra filosofal  do infortúnio a que fomos levados de roldão. Sim, é isso, reduzidos à expressão mais simples. Aí haveremos de começar de novo o admirável futuro que nos espera.  Fique sabendo, portanto, de uma vez por todas, que, quando Arsênio tornar a virar gente, o plano mais idiota que enfraquece a nossa personalidade estará enterrado, graças a Deus. 

( *) Conto inédito de Wladyr Nader enviado em Julho de 2012. Nossos agradecimentos ao autor. 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A poesia e humanidade dos pequenos dramas


A poesia e humanidade dos pequenos dramas

Ronaldo Cagiano(*)

            Uma grande literatura constrói-se não apenas por ousadias ou subversões das estruturas formais, com suas extravagâncias estilísticas e formais para impressionar, mas pelo artesanato que cria pequenas epifanias ao se contar uma história É possível falar com sutileza sobre o banal e o ordinário do quotidiano, sem perder a densidade nem cair na obviedade e simplificação ou incorrer na pieguice.
Essa é à sensação que se tem após a leitura de cada livro de João Anzanello Carrascoza e que se confirma especialmente no recém lançado Aquela água toda (CocacNaify, 2012). O volume de onze contos, confeccionado com primorosa arte editorial e enriquecido com ilustrações de Leya Brander, traz um panorama das peculiaridades da vida comum, dos corriqueiros episódios domésticos com suas relações e enfrentamentos, cheias aparências e  espantos.
 Desde sua estréia com Hotel solidão (1994), Carrascoza vem demarcando sua oficina criativa com grande habilidade e talento, aprisionando o leitor pela alta voltagem lírica, pela subjetividade e uma fiel representação psicológica de seus personagens, enfeixada por uma linguagem fluente, cristalina e de grande intensidade poética, plena de ritmo e melodia.
Nesses textos resta a palavra em potencial estado de graça, temperada com singelas metáforas, com referenciais e totens de sua infância vivida em Cravinhos, interior de São Paulo, cujas fontes são as reminiscências dos convívios, com toda sua carga de nostalgia e sentimento. O autor estabelece um trânsito onírico com o seu passado por meio de um olhar delicado que, ao fundir invenção e memória, reflete e questiona sobre o mundo e a passagem do tempo, uma sondagem em suas raízes históricas, verdadeira cartografia do menino exilado no homem. O foco de toda sua obra é a tensão que habita o núcleo familiar, ambiente em que são compartilhados dramas e conflitos, esperanças e amarguras, onde os ritos de passagem e o clarão insinuante da realidade e do imponderável constituem o coração da vida.

No conto que dá título ao livro, o domingo de verão na praia é o enredo trivial que se converte num território excitante, proporcionando o mergulho num imenso oceano de novidades e perigos, em que limites e fronteiras se interpõem. “Passeio” exemplifica outro instante sublime, quando a narrativa se desdobra de forma envolvente, como numa seqüência de palimpsestos, em que, instaladas a dúvida e o suspense, o mistério serve de pretexto para antecipar uma grande emoção. A promessa de um fim de semana diferente transforma-se numa epopéia para a família, quando o pai apresenta aos filhos um mundo novo e desconhecido na visita ao aeroporto. Em “Cristina”, quando afloram o desejo e a sensualidade, nascem também o primeiro beijo e a insegurança no coração aos pulos de um adolescente. Já em “Paz”, a cobrança de aluguel atrasado é motivo para uma indagação que culmina numa descoberta dolorosa, com o sofrimento silencioso do garoto, destronado de seu mundo e de seu quintal, ao perceber nas entrelinhas de uma conversa enviesada um momento de instabilidade no lar.
Em todo o conjunto, povoado de situações e experiências distintas e antagônicas, Carrascoza desvela o mundo real, a nossa existência permeada de ilusões e t(r)emores, de afetividades e lacunas,com suas possibilidades e seus contrastes. Como em Duas tardes e outros encontros silenciosos (2002), Dias raros (2004), Espinhos e alfinetes (2010), A vida naquela hora e Amores mínimos (2011), os contos de Aquela água toda transportam temas recorrentes e caros ao autor, aqui revisitados com eficiência renovadora por um novo e pulsante olhar, tocando no que é essencial e palpável em nossa natureza e condição, porque falam das tormentas e fantasmas que nos afetam. A sofisticação da linguagem funciona também como recurso que harmoniza forma e conteúdo, um ponto de equilíbrio que mimetiza a placidez e ternura de alguns episódios e suaviza a aridez, as feridas e o escuro de outros.
Na atual safra da ficção brasileira, quando muitos se apropriam do grotesco, da violência, do surreal e do nonsense para expressar uma literatura que flerta com o mercado, é salutar poder comover-se com a leitura de histórias contadas com profunda humanidade.
____


(*) Autor de Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio 2006) e O sol nas feridas (Poesia, Dobra Editorial, 2011, SP), dentre outros, é mineiro de Cataguases e vive em São Paulo. Assistam ao depoimento que Ronaldo Cagiano concedeu ao Blog Estudos Lusófonos e no qual ele homenageia os escritores João Antonio, Samuel Rawet e Augusto Roa Bastos. Cliquem neste link

Confiram também, a intervenção de João Carrascoza no encontro “A jovem literatura brasileira” realizado na Universidade da Sorbonne em Março de 2012 e a sua participação no Salão do livro em Paris (2012). Cliquem nos links abaixo  para acessar os vídeos.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um dedo de prosa com Alberto Bresciani


Um dedo de prosa com Alberto Bresciani

Assistam ao depoimento do poeta Alberto Bresciani para o blog Estudos Lusófonos.

Num primeiro vídeo, Alberto Bresciani fala de sua antologia de poemas Incompleto movimento lançada em 2011 pela Editora José Olympio. Nesta Antologia, o poeta compartilha, através de uma escrita sóbria e minimalista, suas inquietações acerca da incompletude humana. Para assitir ao depoimento, clique aqui

Num segundo momento, Alberto Bresciani evoca sua trajetória de leitor e escritor apaixonado pela literatura brasileira e portuguesa. O poeta comenta, também, de que maneira seu texto busca atingir o  “movimento das palavras”. Veja o video neste link

Neste último vídeo, Alberto Bresciani homenageia a poetisa Angélica Torres Lima, sua escrita elíptica e seu incoformismo feminino. Clique aqui para ver o video.

Mitologia
O muro não me libertará
(sei porque sou tempo)

Conhecendo também
suas entranhas, armadilhas
saliências e entraves

eu o escalo
até o alto
onde ameias são faces tantas
e arranham ou assaltam
a vida

Lá, debruço-me
pendo, estico-me
jogo as mãos
a pele

e mesmo que não encontre
matéria de igual trama
ainda tenho

céu, vento, ar
ou desejo e dúvida e ilusão

Este (é um murmúrio)
o meu plano de voo
ramo de salvação

Sim, no relume das horas
arranco uma ou outra
de suas plumas e
do cimo
sinto

o doce estrépito
de um corpo
que arde e responde 
                sob o meu.

Nicolas de Staël, Nu couché bleu (1955)

Harmonização



sobre o meu ombro



e me nasceriam asas

Em silêncio
logo o pressentimento
o pacto e  voo:

grades e escarpas
ruindo sob as pernas
cúmplices, entrelaçadas
                     as nossas.



Christian Boltanski,Personnes, 2010
Minicontos


Tática
Era imperceptível. Estendia cada aperto de mão por um segundo a mais; cada abraço, por dois. Bem contabilizados, subtraía os excessos ao relógio da solidão.

Sísifo I
Manhã. Miram-lhe os sapatos pretos de amarrar. Breve, devorarão seus pés e, sobre eles, seu corpo inteiro. Não precisam de pegadas ou roteiros. Já sabem para onde o levam — com esse peso invisível, maior do que pedras; peso que dispensa subir ou descer montanhas.

Sísifo II
Os sapatos cansados, solas já amaciadas pelo tempo. Sem perceber, pisou na tampinha de cerveja, que aderiu a um dos pés. Depois, no outro, uma tacha. À sua revelia, os passos faziam percussão. O ritmo crescente, presto, convencendo. Lembrou-se: Fred Astaire, Carlinhos de Jesus… Derrubou batente, janela. Abriu larga porta e o sol acendeu toda a casa.

A indústria da sorte
Percebeu que não poderia mudar a vida. Seria doloroso; o tempo não o favorecia. A borra do café — como a leitoras místicas — revelava que deuses não reconhecem destinos, nem as tatuagens que sabia trazer nos rins. Sua história escrita em textos de alheia autoria. Eram falsos os prêmios e os adornos. Pensou em peregrinar a qualquer monte sagrado. Olhou o relógio. Já eram quase seis. Logo, o trânsito seria impossível.


Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Desde 1988, vive em Brasília, e,  em 2011, publicou Incompleto Movimento, pela Editora José Olympio. Ele escreve para o blog Nóstres: http://nostres-amv.blogspot.com.br/

terça-feira, 10 de julho de 2012

O riso amargo das distopias

Adeus à carne,  de Michel Melamed
O riso amargo das distopias

Elvira Vigna

Em 1957, Charles Chaplin fazia o seu "Um rei em Nova York".
Semana passada fui ver "Adeus à carne", de Michel Melamed (*). Me lembrei de Chaplin. Deste Chaplin. Com o passaporte confiscado e impedido de entrar nos Estados Unidos pelo mccarthismo. Chaplin ri. O riso amargo (mas amoroso) das distopias. Melamed também. O passaporte confiscado de Melamed o foi pelo mercado, pela TV. Pelos bons costumes, pelo politicamente correto. É deles que ele se vinga aqui.
Um rei em Nova York, Charles Chaplin
O espetáculo abre, como em um filme, com a passagem dos "créditos". Os atores. Vêm de máscara teatral borrada, figurinos teatrais rasgados, gestos cansados. Passam, sempre  na mesma direção (da esquerda para a direita), na nossa frente. Passam e passam, em silêncio. Enquanto isso, um holofote ilumina ... a plateia.
E isso já é resumo suficiente.
Vamos nos ver, nós, que lá fomos. E vamos nos ver depois de terminado o fingimento, a ficção, o entretenimento. Vamos nos ver no cansaço.
A partir daí uma sequência de esquetes arrumados, mal e mal, como um desfile. O desfile máximo pátrio, o de uma escola de samba. De que gostaremos sempre, mesmo este, composto por erros e dores. Porque perpassa, nesta crítica, um amor ao criticado, a um Brasil pouco definido. E por ser pouco definido. Músicas cantadas em inglês e português, tanto faz. Referências sem fronteiras, enquanto canta um sabiá. Aliás vários. Não sei se é sabiá o que escutei na trilha sonora. Acho que é.
Algumas das risadas que eu dei e outras nem tanto:
- o cu enfeitando o centro da cruz de malta. Gratuito. Justamente por ser gratuito, só assim, para chatear (e o epílogo hilário da frase dita para a plateia: "que dia cu, hein!");
- o sinal da cruz feito por atriz segurando um pau de razoável proporções. Idem. Idem;
- as cusparadas alentadas das atrizes, de resto tão bonitinhas, em direção à plateia. Idem, idem;
- a historinha da cidadezinha que batizou todos os paus com nomes femininos e todas as xoxotas com nomes masculinos, só para terminar com uma pouco edificante versão de João e Maria;
- os dois verdugos da Inquisição católica que se enrabam em um canto porque sobra um tempinho;
- a mesa de bar de subúrbio. Empregadas, secretárias, motoristas vão falando suas frases de submissão cada vez mais ritmadas, à medida que ficam bêbados, até os sins-senhoras, os é-pra-já-doutores virarem um sambinha. Recebem nota de um jurado-deus, em off: nota sete.
Nada funciona muito bem. Todas as músicas, em algum momento, sofrem uma pane elétrica e saem de sintonia, obrigando a interrupção de coreografias e atuações. Acidentes fortuitos se integram sem problema algum. No dia em que fui, uma vassoura perdeu o cabo. Podia estar no script. Vai ver estava. No fim do espetáculo, quem agradece os aplausos é uma trupe de quase mendigos, mortos de frio. A cortina fecha. Um braço aparece por trás do pano e deixa um pratinho no proscênio. Esmolinhas serão bem-vindas em uma última risada, esta autoral, a de uma classe teatral sem dinheiro a rir, ainda assim, de si mesma.
Mas é sério.
Melamed usa a técnica televisiva de nunca se estender no que não for absorvível rapidamente pelo olho de quem olha. São estereótipos, quase. Só que a falar do que não é estereotipado. Estereótipos a falar do antônimo do estereótipo. Carnaval é lantejoula. Que é vermelha e que é cuspida por foliã ao ser esganada por outrem. O grito de alegria vai sendo mostrado em câmera lenta até virar grito de angústia. O passista pode estar tendo, na verdade, um ataque epiléptico. O romântico casal canta junto românticas canções, que interrompem no meio, abraçados, em gargalhadas de ironia.
E uma tristeza enorme, pelo tempo todo. Nas músicas que falam de tristeza. Na infantilização caricata, de propagandas recitadas com voz de professora primária, a terminar com o plim, plim esperado. Nas redes de TV a lutar para chegar em primeiro lugar na frente do palco. E, para mim com especial apreço, nos sapatos de salto alto que prendem as mulheres no chão; nas grávidas presas em correntes que acabam por se beijar entre elas, as barrigas comprimidas. E na noiva, terrível, que passa em lentidão excruciante, com um grito à la Munch, mudo, preso na garganta. Na idiotinha que diz sim para tudo e principalmente para o pedido de casamento ("Mas eu sou gay!" "Sim, sim! Este é o dia mais feliz da minha vida!").
Um rei em Nova York, Charles Chaplin
No filme de Chaplin, a música inicial faz citação ao hino nacional americano e o Rei Shadov fala, assim que chega em Nova York, "This wonderful America!", com uma ironia apenas pela metade.
Porque é isso o que fica. O que não está lá. Em Melamed e em Chaplin, o que fica é o que poderia ser e não é. O que gostamos como se lá estivesse, mas não está. Um e outro nos obrigando a ver a ausência.
Chaplin também usa a estrutura de desfile. Em mesa de restaurante ou em quarto de hotel, passam os estereótipos da vida americana: o bangue-bangue, o erotismo de buraco de fechadura de falsos pudicos, a cirurgia plástica da juventude eterna. Uma auto ironia, aqui também, em cenas de pastelão na cara. E principalmente, a sociedade de consumo e publicidade. Mais do que qualquer sonho de energia barata que traria a utopia para todos, é a participação em filmes publicitários de televisão o que vai tirar o rei-Chaplin da miséria em que se encontra.
Na obra de Chaplin, o personagem Rupert, um menininho politicamente de esquerda, é quem dá o recado que Chaplin gostaria de dar, e é também quem paga o preço por isso (é destruído psicologicamente pelo governo, escola e demais autoridades). Em Melamed é ele mesmo quem dá o recado. E é ele mesmo quem paga o preço, ao estender simbólica e, acredito, realmente, o prato para uma plateia para lá de desconcertada. O teatro era da rede Sesc. É um esforço que poucas vezes vejo elogiado. O Sesc traz, para uma classe média de televisão e ideias pouco expostas a mudanças, espetáculos experimentais, criativos, de uma qualidade inovadora que, sem esta rede, talvez não se viabilizassem. O mérito é duplo, justamente por ser esta a plateia, a que se desconcerta. A plateia de associados que têm assim, na sua frente, e por preço pagável, o que de outra maneira não teriam. O preço, que Melamed também, pelo visto, considera pagável, é o de desconcertar o público que só queria rir de um pastelão.

(*) Adeus à carne. De 07/07/2012 a 19/08/2012, no Sesc-Santana, São Paulo.
Atuação: Alessandra Colasanti, Bruna Linzmeyer, Giselle Motta, Michel Melamed, Pedro Henrique Monteiro, Thiare Maia
Criação e direção: Michel Melamed
Produção: Bianca de Felippes
Direção musical: Lucas Marcier e Fabiano Krieger
Cenografia e objetos: Bia Junqueira
Iluminação: Adriana Ortiz
Figurino: Luiza Marcier


Elvira Vigna
Julho de 2012

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora no link http://vigna.com.br/

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos no link : Elvira Vigna




Julho

segunda-feira, 9 de julho de 2012

estudos de literatura brasileira contemporânea


capa de Elvira Vigna

Fora do retrato: estudos de literatura brasileira contemporânea
Fora do retrato traz para a cena um estudo das minorias invisibilizadas ao longo da história da literatura brasileira. Para refletir sobre esse tema, é indispensável uma análise multidisciplinar, que abarque desde as questões da identidade nacional até a configuração do campo literário brasileiro e as exclusões na produção e na crítica literárias.

Apresentação
Regina Dalcastagnè e Anderson Luís Nunes da Mata

À margem da BR: imagens do nacional no romance brasileiro contemporâneo
Anderson Luís Nunes da Mata

Algumas questões sobre a ficcionalização identitária: uma visita ao Waffel´s Hooland Original
Ricardo Barberena

Escrever entre fronteiras: a condição do escritor brasileiro em Berkeley em Bellagio, de João Gilberto Noll
Giovanna Dealtry

Desfazer-se do legado nacional: os modos de narrar da contemporaneidade
Paulo César Thomaz

Como se faz um autor: Milton Hatoum: “permanência e transformação do regionalismo”
Luciene Azevedo

Viagem e experiência comum: O filho da mãe, de Bernardo Carvalho
Paloma Vidal

O imigrante na literatura brasileira: instrumentalização de uma figura literária       
José Leonardo Tonus

Presença do imigrante alemão na literatura brasileira: Valsa para Bruno Stein, de Charles Kiefer, e Jornada com Rupert, de Salim Miguel
Maria Isabel Edom Pires

O puro amarelo do verão: “O japonês dos olhos redondos”, de Zulmira Ribeiro Tavares
Stefania Chiarelli Techima

Pôr do sol global: itinerários urbanos e identidade globalizados em O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho
Leila Lehnen

A cidade e seus restos: de Samuel Rawet a Luiz Ruffato
Regina Dalcastagnè

A Brasília que Clarice construiu: o desmonte da nação nas crônicas lispectorianas
Claire Willians

Estereótipos em ruínas: a mulher contemporânea no imaginário de Luci Collin
Lúcia Osana Zolin

Organização:
Regina Dalcastagnè e Anderson Luís Nunes da Mata
Editora Horizonte, 2011


domingo, 1 de julho de 2012

Um dedo de prosa com Marçal Aquino


Um dedo de prosa com Marçal Aquino


Assistam à entrevista que Marçal Aquino concedeu ao Blog Estudos Lusofonos.

Num primeiro video, o Marçal Aquino evoca o seu percurso literário e fala de suas inquietações estéticas enquanto escritor andarilho. Acesse o video aqui.

Num segundo vídeo evoca sua admiração pela obra de Luiz Ruffato, uma das melhores vozes, segundo ele, da recente literatura brasileira. Clique aqui para acessar o video.



Marçal Aquino (Amparo SP 1958). Contista, romancista, jornalista e roteirista. Na infância, tem contato com as narrativas orais da zona rural, o que influencia mais tarde a sua obra. Na adolescência, apaixonado pelo cinema, literatura e história em quadrinhos, decide tornar-se escritor. Cursa jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC/Campinas, São Paulo, graduando-se em 1983. No ano seguinte, faz sua estréia literária com a edição independente do livro de poemas A Depilação da Noiva no Dia do Casamento. Muda-se para São Paulo em 1985, e trabalha nos jornais Gazeta Esportiva, O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, nas funções de revisor, repórter, redator e subeditor. Posteriormente, prefere ser redator freelance. Publica seu primeiro livro de ficção, As Fomes de Setembro, em 1991. A partir de 1997, quando é lançado o filme Os Matadores, de Beto Brant (1965), em que é co-roteirista com Fernando Bonassi (1962), dedica-se a roteiros para o cinema. Sua obra mostra uma visão realista do submundo, com abordagem original de temas como sexo, crime, violência e corrupção.

Obras publicadas - primeiras edições 
Poesia
A Depilação da Noiva no Dia do Casamento - 1984
Por Bares Nunca Dantes Naufragados - 1985
Abismos: Modos de Usar - 1990

Conto
As Fomes de Setembro - 1991
Miss Danúbio - 1994
O Amor e Outros Objetos Pontiagudos - 1999
Faroestes - 2001
Famílias Terrivelmente Felizes - seleção de contos dos livros anteriores e mais quatro inéditos - 2003

Romance
O Invasor - inclui o roteiro do longa-metragem com o mesmo título - 2002
Cabeça a Prêmio - 2003
Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios - 2005

Infantil e juvenil
A Turma da Rua Quinze - 1989
O Jogo do Camaleão - 1992
O Mistério da Cidade-Fantasma - 1994
O Primeiro Amor e Outros Perigos – 1996

Fonte : Enciclopédia de Literatura – Itaú Cultural  : http://conexoesitaucultural.org.br/

Na França Marçal Aquino é publicado pelas Edições Anacaona : http://www.anacaona.fr/


O AMOR É SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEL[1]

Não adianta explicar. Você não vai entender.
Às vezes, como num sonho, vejo o dia da minha morte. É uma coisa meio espírita, um flash. E, embora a mulher não apareça, sei que é por causa dela que estão me matando. E tenho tempo de saber que não me deixa infeliz o desfecho da nossa história. Terá valido a pena.
Hoje, a Lua está transitando por sua casa astrológica favorita. Câncer. Uma criança nascida neste dia terá personalidade calma e cordata. Gente boa, portanto. Sofrerá num lugar como este.
Sopra uma brisa vinda do rio e a noite está silenciosa e com um cheiro de dama-da-noite tão intenso que chega a ser enjoativo. Faz calor ainda. À tarde, vi pássaros voando em formação rumo ao norte. Não demora e teremos frio. Menos aqui, claro.
O homem que sai na varanda da pensão é calvo e barrigudo, e usa camiseta, bermuda listrada e chinelos. Ele diz um boa-noite torcendo a boca - derrame? - e senta-se na cadeira de palhinha. Abre o jornal com suas mãos micóticas e passa a grunhir a cada notícia que lê. Tosse, bufa. O mais próximo que um ser humano pode chegar de um bovino.
Um garoto da redondeza vem sentar-se nos degraus da escada, como já aconteceu em outras noites. Não gosta de conversar, mas fica ali, ouvindo a prosa alheia. As roupas dele são ordinárias, porém limpas. O garoto tem altivez no olhar, uma espécie de confiança em estar no mundo. Algo secreto na cabeça dele, que não consegue se exprimir ainda, mas que o informa: você é melhor do que essa gente ao seu redor. É só uma questão de tempo para que todos saibam disso.
Dona Jane aparece com a garrafa térmica numa bandeja. O café costuma ser infernalmente adocicado.
Vai chover, dona Jane.
Isso quem diz é o careca, sem tirar os olhos do jornal. Uma notícia se destaca na página que consigo enxergar: estão liberando o rio para mineração outra vez. A cidade à beira de um novo surto de prosperidade. É só ver como aumentou o número de putas que circulam pelo centro e pelos lados da rodoviária. Noite e dia. São as primeiras a farejar o ouro.
Ainda demora pra chover, seu Altino.
Dona Jane também fala sem olhar para o careca. Ela coloca a bandeja sobre a mesinha e me presenteia com um sorriso que mistura afeto e apreensão.
Minhas juntas estão doendo, o careca diz.
É só o reumatismo, seu Altino.
Mas à tardinha eu vi relâmpagos na serra.
Dona Jane espia a noite na lateral da varanda. Uma enorme casa de marimbondos dependura-se do forro verde-água. Está abandonada.
Não vai chover, já mudou a lua.
Dona Jane apóia as mãos nas cadeiras. Veste uma blusa de mangas compridas, apesar do calor. Para esconder o nome de um homem que tem gravado no antebraço esquerdo. Nunca mostra a ninguém. Pecados de juventude.
O segredo, dizia Chang, o china da loja, não é descobrir o que as pessoas escondem, e sim entender o que elas mostram. Mas Chang está morto. Existe algo mais íntimo para exibir ao mundo do que as entranhas? Existe algo tão obsceno?
O careca grunhe e farfalha as folhas do jornal, como se quisesse derrubar as notícias que o desagradam. Dona Jane volta para dentro e sua passagem desprende uma lufada agradável. Lavanda. O menino me observa de forma direta. Tem traços bonitos, cabelos escorridos e a pele bem escura. Chang teria gostado dele.

Pensar no china faz com que eu me lembre da mulher, nesta noite escura como breu em que Urano, o deus cordial, atravessa o grande corcel de fogo. Além de mim, era a única ali que acreditava nessas coisas.
Foi na loja de Chang. Enquanto esperava que ele embalasse os filmes que havia comprado, distraí os olhos nas fotos da vitrine. O rosto de uma mulher num porta-retrato capturou minha atenção. Era jovem ainda, e muito bonita. Tinha os olhos grandes e escuros e sorria como se estivesse vendo, atrás de quem a fotografava, algo que a deixava imensamente feliz. Só vi mulheres sorrindo daquela maneira quando olhavam para gatos ou crianças.
Que rosto maravilhoso, eu disse.
E ouvi uma voz às minhas costas:
Muito obrigada.
Eu me virei e dei de cara com ela, a mulher do porta-retrato. Os cabelos estavam mais compridos e sorria de um jeito bem diferente do sorriso da foto. Um rosto com uma luz extraordinária. Cravou em mim um par de olhos cor de lodo de bauxita. Perdi o rebolado.
Desculpe, eu disse.
Ela balançou a cabeça, sem tirar os olhos dos meus.
Que pena. Tanto tempo sem receber um elogio e, quando recebo, logo depois pedem desculpas.
Senti um espasmo elétrico me percorrer abaixo da cintura. Com o canto do olho, vi que Chang me observava.
Nesse caso, mantenho o elogio, eu disse.
Que bom, fico feliz.
E continuou feliz ao encostar-se no balcão para entregar a Chang um canhoto de revelação de filmes. Usava uma camiseta que deixava à mostra, em seus ombros, meia dúzia de sardas e as alças de um sutiã preto.
O professor Benjamim Schianberg escreveu sobre as tentações em seu livro O que vemos no mundo. Segundo ele, alguns homens sublimam seus desejos, projetando-os num plano apenas mental, e isso é suficiente para satisfazê-los. Outros, diz Schianberg, apesar de resistirem com diferentes graus de esforço, acabam por ceder às tentações. São o que ele chama de "homens de sangue quente".
Ela abriu o envelope e espalhou as fotos sobre o balcão de vidro. Um arco-íris; o número de metal enferrujado na fachada de uma casa antiga; raízes de uma árvore que pareciam um casal num embate amoroso de muitas pernas e braços; a chaminé de uma olaria; uma bicicleta caída na chuva. Nenhuma pessoa ou animal. Apesar disso, fotos boas, feitas por alguém com olho e senso.
Ela notou meu interesse.
Gostou?
Esta aqui é muito boa.
Indiquei uma das imagens: fachos de sol entrando pelas falhas no telhado de uma casa em ruínas.
Poesia e precisão.
Falei isso, vê se pode. Ela me olhou, intrigada. Daí, riu.
Você é fotógrafo?
Já fui, eu disse. Hoje em dia só fotografo pra consumo próprio.
E o que você fotografa?
Um pouco de tudo.
Que nem eu.
Peguei a foto e a examinei de perto.
Você não fotografa gente.
Não gosto.
Porra, pensei, a foto que eu tinha nas mãos não era só boa, era formidável. Um dos fachos de sol incidia, em segundo plano, sobre uma boneca de pano jogada num monte de entulho. Parecia um spot iluminando uma bailarina caída num palco.
A boneca já estava lá?
Claro.
Chang empurrou o pacote de filmes em minha direção. E ela já estava guardando as fotos no envelope, quando falei:
Eu adoraria ter uma cópia.
Ela congelou o gesto de colocar as fotos no envelope, virou o rosto e me estudou, como se avaliasse se eu tinha mérito suficiente para receber o que pedia. Sustentar aquele olhar escuro foi uma experiência difícil. Fez com que eu me sentisse desamparado. Fiquei com a impressão de estar sendo visto de verdade pela primeira vez na vida. E também de estar vendo algo que o mundo não tinha me mostrado até então.



[1] No momento em que começa a narrar os fatos de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, o fotógrafo Cauby está convalescendo de um trauma numa pensão barata, numa cidade do Pará prestes a ser palco de uma nova corrida do ouro. Sua voz é impregnada da experiência de quem aprendeu todas as regras de sobrevivência no submundo - mas não é do ambiente hostil ao seu redor que ele está falando. O motivo de sua descida ao inferno é Lavínia, a misteriosa e sedutora mulher de Ernani, um pastor evangélico. A trajetória do fotógrafo, dado a premonições e a um humor desencantado, vai sendo explicada por meio de pistas: a história de Chang, fotógrafo morto num escândalo de pedofilia; o mistério de Viktor Laurence, jornalista local que prepara uma vingança silenciosa; a vida de Ernani, que tirou Lavínia das ruas e das drogas no passado. Mesmo diante de todos os riscos, Cauby decide cumprir seu destino com o fatalismo dos personagens trágicos. "Nunca acreditei no diabo", diz ele. "Apenas em pessoas seduzidas pelo mal." Marçal Aquino. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios.  São Paulo : Companhia das Letras, 2005. Fonte : Companhia das Letras. http://companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11927



Caravaggio está morto

São Jerônimo que escreve, Caravaggio

Caravaggio está morto

Elvira Vigna

Caravaggio estará a partir do dia 27 de junho, no MASP. É a segunda vez.
“A lição de Caravaggio”, no mesmo MASP, em 1998, trouxe duas telas do artista e dezenas das de seus seguidores e colegas de ateliê. Nesta de agora, chamada "Caravaggio e seus seguidores", curiosamente diminui o número de seguidores. Aumenta a de telas do artista: são oito. A mesma curadora em ambas as exposições: Rossella Vodret. E repetição de alguns dos caravaggistas: Giovanni Baglione (c.1566-1643), Hendrick van Somer (1615-1684/85), Jusepe di Ribera (1591-1652), Leonello Spada (1576-1622), Simon Vouet (1590-1649), entre outros. Orçamento de R$ 3,5 milhões. Patrocínio do governo italiano e brasileiro, Fiat e  Bradesco.
Como ver Caravaggio.
Posso dizer como eu veria: como algo morto.
Mas como não sou ninguém e o Caravaggio é uma vaca sagrada da cultura europeia, me escondo atrás de outra vaca sagrada, o Pasolini: "(...) as coisas pintadas por Caravaggio estão em um universo separado, em certo sentido morto". No seu texto, o cineasta e pensador italiano cita a possibilidade - já aventada por Roberto Longhi - de Caravaggio pintar os quadros através de reflexos em espelhos - e não diretamente a partir dos modelos vivos, ali, posando.
Cito um cineasta e vou citar outro daqui a pouco. Tem a ver. Caravaggio foi "redescoberto", no século XX, por causa de algumas técnicas cinematográficas avant-la-lettre. Por exemplo: contre-plongées, zooms, profundidade de campo e uma luz que sempre vem de fora.
(Para quem quiser ler, em vez de mim, o Pasolini na íntegra, o link é: http://www.pasolini.net/madrid-saggi01.htm pier paolo pasolini)
Além da história de pintar através do espelho, há várias outras:
O nome é Michelle Merisi. Caravaggio, porque é deste povoado que se origina a família. Ele mesmo nasce em Milão. O pai é mestre de obras aclamado. A família tem dinheiro. A família perde todo o dinheiro. Caravaggio vai viver seus 38 anos bêbado, em meio a moradores de rua e prostitutas. Mata um cara e passa a fugir da justiça, sem contudo parar de pintar. Aliás, pinta sem parar. Faz dois, três retratos por dia para quem lhe der uns trocados. Santinhos de qualquer tamanho. Cópias de imagens de outros. Qualquer coisa. Só há, hoje, pouco mais de sessenta quadros reconhecidos. Mas caravaggios podem estar, neste exato momento, em qualquer feirinha ou porão italianos.
Mais histórias: não transa só com mulheres. Com homens também. Isso inclui o cara que ele mata, embora, ao que parece, a briga (ou foi duelo) seja por causa de uma mulher que ambos repartem - e com mais sócios. Entre seus amantes homens estaria seu benfeitor por uns tempos, o cardeal Del Monte. Morre de malária, doença tropical desconhecida na Itália. Um jovem assistente mantém o corpo morto escondido, inconsolável, antes de anunciar a morte. Não. Morre no hospital sem ninguém ao pé da cama. Não é malária a causa da morte, é um ferimento mal curado ainda da briga/duelo. Não é ferimento nem malária, é cirrose. Não é cirrose, é pneumonia e exaustão. Isso porque, quando acorda de uma bebedeira, vê que perdeu o barco que o levaria à Roma e onde está toda sua bagagem. Segue a pé mesmo. Quase sem roupa. Chega. Mas morre. É um homem atraente. É um homem repulsivo.
E por aí vai.
O que traz a pergunta. Não só como ver Caravaggio. Mas o que exatamente se vê ao ver Caravaggio. E os caravaggistas. Porque tem isso, a assinatura: é um campo (no conceito de física quântica) mais do que uma assinatura. No sentido de serem muitas, em movimento constante, e com futuro pouco determinável.
E isso não só em relação às circunstâncias de produção. Mas também com as de recepção. É a assinatura perfomática que Derrida descreveu em seu livro Otobiographies, de 1984 e sem tradução em português. Como se vê, complica-se, essa ida ao MASP.
Começo por experiência própria. Quanto mais você tenta representar o real, mais fica claro o teu fracasso. E o problema não está na palavra real, mas no representar. Representou? Isso significa: tirou aquilo do mundo e o inseriu em outra instância, a que vem separada do mundo real por algum tipo de quadrilátero - moldura, tela, pedestal ou papel. E aí, pode ser real o quanto quiser, não será real. É do que falava Pasolini.

Quanto a Caravaggio tentar pintar o real, há discussões. Seus pretos não são uma superfície de chegada. Explico. Quando se pinta na técnica a óleo tradicional europeia, que é a técnica da época de Caravaggio, os valores absolutos do claro e do escuro, primeiro não são absolutos, só parecem. E, segundo, são uma meta a se chegar. Nunca um ponto de partida. Você começa pelos neutros da metade do caminho. E vai indo, puxando o claro e puxando o escuro. Você não sabe até onde isso vai dar. Digamos que chegue no preto-preto. Não é preto-preto. É um preto calçado. No azul, no marrom, no vermelho. O preto de Caravaggio é preto-preto. Não é uma chegada. É uma partida. Igual e contrária aos claros tão claros das pinturas medievais. Nelas, o fundo é dourado ou branco. Um ponto de partida, digamos, "positivo". Glorificação do Senhor, êxtase a ser alcançado, ou simplesmente o céu prometido (realmente visto?) dos cristãos. Igual ao preto do Caravaggio. A mesma tentativa de exacerbação emocional a induzir o paroxismo do sublime x horror hegeliano. Com ou sem religião (mas na verdade, sempre com). Na literatura, seria o "realismo" não-realista da violência gráfica, personagens brutais, ambientes marginais etc. Igual. A mesma metafísica, só que invertida. O "bom" é o "ruim".
É, então, a representação não realista, e que não o seria ainda que o pretendesse, assinada por um "Caravaggio" que não é o signo de uma pessoa física real, mas o de histórias contadas sob este nome. E que se afasta, este signo, da pessoa física que o signo representaria, a cada nova história/exposição realizada. Derrida outra vez: uma assinatura icônica dessas é ao mesmo tempo a marca do autor e o que o separa de sua obra. Que adquire vida própria, na ausência de quem a faz presente.
Se incluirmos nesse angu a tendência tão contemporânea de mesclar ficção e autobiografia em tudo que fazemos, chegamos ao seguinte: de um lado, a busca/necessidade contemporânea de autenticidades incontestáveis, explicitadas aqui pela assinatura famosa, embora nos venha junto, incongruentemente, um campo de reflexos em mutação constante. De outro lado, a exclusão mesmo dessa presença fixa e apaziguadora (apaziguadora por se pretender fixa), na medida que Caravaggio e sua Europa hoje incorporam mais morte do que seria imaginável até bem pouco. É uma cultura que hoje, hum, não está viva.
Ainda Derrida: toda assinatura é apócrifa. Já que ela é feita e refeita, sem parar, pelos receptores da obra. Diz ele que o autor é o autor da assinatura e também o produto dessa mesma assinatura. O autor definido, por assim dizer, a posteriori.
Nós produzimos o Caravaggio que vamos ver.
Derek Jarmen, cena do filme Caravaggio
Há outro cineasta, além do Pasolini. Derek Jarmen. Seu filme, Caravaggio, data de 1986. Mortes a granel. E não só no banquete, ápice da narrativa, que acaba com os convivas passando por seus próprios cadáveres já consumidos pelo tempo e cheios de teias de aranha.
Para começar, a morte do tempo. Jarmen faz o que outros (eu, modestamente, aí incluída) farão: emparelhará a recepção (atualizada) do produto no próprio produto (um século XVII), matando assim as referências de passagem de tempo.
Exemplos pescados do filme:
- O banqueiro que janta com o cardeal Del Monte faz contas sem parar, usando uma calculadora eletrônica;
- Sonoplastia de jazz, trens que se afastam, música flamenca;
- Coreografia de dança contemporânea para dançarina de cabelo punk pintado de laranja e figurantes em summer jacket;
- Fumam um cigarrinho maneiro em diversas cenas;
- Burocratas do Vaticano teclam em máquina de escrever Royal. Teclam o texto de um livro. O livro é da coleção Skira. E é sobre ...Caravaggio.
E mais: um velho caminhão Ford em paiol de feno; luzes elétricas no bar da briga; bigodes falsos, desses de teatro, na cara de cardeais; garçons oferecendo desde um sorvetinho até preciosidades da vinicultura italiana como Lambrusco e Lacrima Christi.
Derek Jarmen, cena do filme Caravaggio
Jarmen também faz referências a outros filmes relacionados a pintores: A menina dos brincos de pérola, de Peter Webber (2003), sobre o quadro famoso de Johannes Vermeer; o clássico de Abel Gance, Napoléon, com sua cena antológica, que repete a pintura de David representando a morte de Marat (1927), e que foi atuada por Artaud. Há uma Ofélia shakespeariana lá pelas tantas. É a arte fechada na história da arte, história essa que se desenvolve em paralelo e independente da história real. E que gera, por sua vez, outras obras de arte, também auto referenciadas.
No seu texto, Pasolini termina dizendo:

O que me entusiasma é esse diafragma luminoso que torna as figuras distantes, artificiais, como que refletidas em um espelho cósmico. Seus rostos vulgares adquirem uma característica mortuária. Os personagens estão doentes. Eles, que por definição, deveriam ser vitais, trazem a pele abatida pela cinzenta palidez da morte.

Quando Pasolini fala que os personagens, por definição, deveriam ser vitais, está se referindo ao pan-erotismo que Caravaggio exerceu na vida (mais uma vez, as histórias!) e que tentou simular nos corpos nus, ou quase, dos seus amigos mendigos e putas, os modelos de seus santos e anjos. Sem escândalo, aliás. Aliás, até com incentivo. O barroco e seu erotismo sendo uma arma da igreja da época, em crise. Urbano VIII, morador do Vaticano ali do lado, enquanto Caravaggio pintava, escrevia versos eróticos igualmente famosos, igualmente teatrais.

São Paulo, Junho de 2012