domingo, 29 de abril de 2012

Um dedo de prosa com Cintia Moscovich


Um dedo de prosa com Cintia Moscovich

Assistam ao depoimento que a esritora Cíntia Moscovich concedeu  ao Blog Estudos Lusófonos durante o IV  Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural - Diálogos Galiza-Brasil, realizado em Santiago de Compostela  (Outubro 2011). Nestes vídeos, Cíntia Moscovich fala de sua trajetória de constista, da presença da cultura judaica em sua obra e comenta o belíssimo romance Diário da queda de Michel Laub. 

Para assistir aos videos, cliquem nos links abaixo : 


Nascida em 15 de março de 1958 na cidade de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul (Brasil), Cíntia Moscovich é escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária. Exerceu atividades de professora, tradutora, consultora literária, revisora e assessora de imprensa. Dentre os vários prêmios literários conquistados, destaca-se o primeiro lugar no Concurso de Contos Guimarães Rosa, instituído pelo Departamento de Línguas Ibéricas da Radio France Internationale de Paris.

Em 1996, publicou sua primeira obra individual, O reino das cebolas, que, numa co-edição entre a Prefeitura Municipal de Porto Alegre e a Editora Mercado Aberto, mereceu a indicação ao Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Um dos contos que integram a coletânea foi traduzido para o inglês e faz parte de uma antologia que reúne escritores judeus de língua portuguesa. Em 1998, pela L&PM Editores lançou a novela Duas iguais - Manual de amores e equívocos assemelhados, que recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura, na modalidade de Narrativa Longa.. Em outubro de 2000, também pela L&PM Editores, lançou o livro de contos Anotações durante o incêndio. Com apresentação de Moacyr Scliar, a obra reúne onze textos de temáticas diversas, com destaque ao judaísmo e à condição feminina (Prêmio Açorianos de Literatura). Em 2004, publicou a coletânea de contos Arquitetura do arco-íris (Record), livro que lhe valeu o terceiro lugar em contos no prêmio Jabuti, além da indicação para o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira e para a primeira edição do Prêmio Bravo! Prime de Cultura. Em novembro de 2006, lançou o romance Por que sou gorda, mamãe?, também pela editora Record. Em dezembro de 2007, lançou seu sexto livro individual, o romance infanto-juvenil  Mais ou menos normal, que faz parte da série Cidades visíveis, da Publifolha.

Ex-diretora do Instituto Estadual do Livro, órgão da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, a autora trabalhou como editora de livros do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, além de colaborar para jornais e revistas de todo o país. Em outubro de 2006, participou da Copa da Cultura, na Embaixada Brasileira em Berlim. Em novembro de 2007, representou o Brasil na Bienal do Livro de Santiago do Chile e em 2008, foi uma das convidadas à Flip, Festa Literária Internacional de Paraty. Em 2009, passou a integrar a antologia Os melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi para a editora Objetiva e em 2011, integrou a delegação brasileira no Projeto Rumos, do Itaú Cultural, em Santiago de Compostela, na Espanha.


Um pouco de leitura

O telhado e o violinista[1]

Não há escolha: estamos presos ao livre-arbítrio
I. B. Singer


- Judia suja.

Eu, que nunca havia experimentado a sério ser quem era - porque uma menina de nove anos apenas tem nove anos -, passei, de uma hora a outra, a ser judia e a ser também suja - o ódio na boca de Paula fazia com que as duas palavras se equivalessem. Fiquei ali, parada, paradinha, olhando para a menina, que, subitamente, se tornara dona de uma voz tão impositiva que se assemelhava à verdade. Sem sabermos, ela ou eu, obedeciam-se a velhas tradições - era um conhecimento com que os ruins já nascem. O ódio cintilando a ponto de zunir no miolo dos olhos negros, Paula repetiu a ofensa, arrastando-a escandida:

ju-di-a-su-ja.

Então em mim, pela primeira vez, se abriu uma violenta ferida de sangue, uma hemorragia de raiva e dor grande demais para o espírito de uma menina. E a criança que eu era arranjou ainda ânimo de fazer a pose da insolência, as duas mãos na cintura, e arranjou ainda instinto para retrucar:

- E você é uma bocó. E uma burra.

Pronto, eu, como ela, também obedecia a antigas tradições - pela minha lei de talião, ser bocó e ainda por cima ser burra era pior do que ser suja. E a fúria com que a insultei inaugurava em mim um novo sentido para a verdade, aquela da qual, enfim, eu também podia ser autora. Recolhi a boneca do chão, penteei com a ponta dos dedos a franja muito loura, muito simétrica, e agora desfeita: magoava-me que minha Suzi fosse o inocente motivo de desavença. Dei as costas para Paula e para sua porqueira de casinha em madeira pintada de azul e subi de dois em dois os degraus do prédio. Empurrei com raiva a porta da área de serviço de nosso apartamento, que estava sempre aberta.

Suja era ela. E toda a família dela. E os filhos, netos e bisnetos que ela ia ter.


Desde a morte de meu avô e desde que viera morar conosco, virava e mexia, a pose era a mesma: sentada na beira do sofá, pés paralelos, cotovelo apoiado no joelho, queixo descansando na palma da mão.

Nessas horas, o olhar de minha vó se perdia num alheamento de fulgurações azuis, fixo na imprecisão de quem recolhe lembranças encravadas numa rebarba de tempo. A imobilidade daqueles instantes era sempre cortada por um longo - tão longo - suspiro, arrematado por um oi, veis is mir, a lamentação dos judeus em todo o universo. "Pobre de mim", comiserava-se ela. Que triste era aquilo.

Na sala, encontrei-a na mesma posição, interrompendo-se num lamento que remontava a eras lá bem remotas. Sentei a seu lado no sofá. Fiz beiço para contar:

- Vó, me chamaram de judia suja.

Ela, a quem nunca fez falta o delicado essencial, me olhou espantada.

- Quem?

"Quem?" era pergunta de espectro amplo. Podia também significar, "por quê?". Respondi, ainda dolorida, que Paula, a menina que morava no trezentos e quatro, queria que minha Suzi fosse a empregada no brinquedo de casinha. A vó, que farejava de longe as disposições hierárquicas mal-intencionadas, teceu um impropério em iídiche. Depois falou devagar, para que eu compreendesse:

- Você é a menina mais limpa do planeta. Ela que é uma mischigne. Entendeu?

Paula era, na voz da vó, uma louca - dito no antigo dialeto, o insulto era muito maior. O mundo voltara a se organizar, as terríveis histórias que sempre escutei passaram a fazer todo o sentido. Abraçada à minha Suzi, descansei a cabeça sobre as pernas da vó, aspirando o perfume da florzinha de jasmim - mimo que a dona da casa ao lado lhe alcançava todas as manhãs e que ela, faceira, sempre trazia dentro do sutiã.

Entremeava os dedos de juntas nodosas em meu cabelo, crespo como o seu: fazia e desfazia a mesma trança numa mecha cuidadosamente repartida. Pelos repetidos suspiros, soube que estava angustiada - tanto que começou a reprisar aquela história de cossacos com sabres em seus cavalos. Melhor não ter contado a ela sobre a briga: reavivava na coitada uma dor grande. Não queria que ela sofresse.

E eu também fazia e desfazia uma trança no cabelo da Suzi. Num suspiro que interrompeu minhas ternuras, fui gêmea de minha vó: odiava tanto Paula quanto ela odiava os cossacos.   [...]


Amor, corte y confección[2]

Por casualidad, sólo por casualidad, Helena había olvidado que existían más cosas en el mundo. Los alfileres y agujas puestos en la almohadilla bordó, hilos formando finos garabatos de colores, la cinta métrica enrollada sobre sí misma en un rincón de la mesa, el dedal boca abajo, todo en orden, bastándose en la suficiencia del mundo que se organizó. La tijera, con golpes secos sobre la tela de florcitas, era lo único que se movía. La tijera y la mano que la empuñaba, mano segura y fuerte, de venas salientes y articulaciones gruesas. Se dio cuenta por primera vez aquella tarde, al mirar el movimiento de las tijeras y los dedos que las guiaban. La tela de un estampado delicado temblaba tímidamente ante los golpes de la tijera; lo constató no sin cierta sorpresa y un poco de desconcierto.

En plena toma de conciencia, llamaron a la puerta y fue como si la arrancaran de ese lugar de orden propio y bueno. Había más cosas en el mundo, por lo tanto, tenía que atender. Dejó las tijeras abiertas sobre la mesa; el brillo del metal contrastaba con lo floreado de muchos colores sobre un fondo oscuro, casi negro. Caminó sin prisa, arrastrando las pantuflas de lana, dándose cuenta que las cosas podían desorganizarse de vez en cuando, con el peligro que puede venir de esos desequilibrios leves y eventuales. Abrió la puerta.

La niña tendría seis, siete años, no más . Estaba parada, realmente parada, con los pies en unos zapatitos con hebilla, calcetines blancos y vestido con la pechera de puntilla barata. Venía de la mano de una señora de pelo fantásticamente rubio y boca roja, muy roja, como una muñeca a quien se le exageran las facciones. De las dos - se dio cuenta que era la mujer- emanaba un perfume casi asqueroso. La niña miraba a la dueña de casa con ojos vivaces; esbozaba una sonrisa. Helena sintió un leve vértigo, muy breve, como algo que a penas se insinúa. La mujer pintada de manera escandalosa habló primero: venía por recomendación de una amiga, quería que le hiciera una prenda a la hijastra. La niña bajó la vista, con una timidez repentina. Helena trató de decir alguna cosa, no cocía para niñas, no lo hacía más , pero su voz se había apagado, así que ya no había caso. Se limitó pues a pedirles que entraran, cediéndoles el paso con el cuerpo en un movimiento lento y forzado.

Estuvieron mirando revistas de moda - L'enfant chic, ejemplar muy usado, primero - durante un largo cuarto de hora; el olor dulce y ofensivo del perfume alcanzaba hasta el rincón más remoto de la casa. La mujer ojeaba las revistas con dedos de uñas rojas como la boca, buscando algún modelo, no sabía bien cómo, no sabía bien qué color, era la primera comunión de la sobrina, ¿por qué era tan difícil encontrar algo que le sirviera a una niña? La niña estaba sentada en el sofá al lado de la mujer, sin el más mínimo interés en lo que pasaba; miraba alrededor con los piecitos colgando en el aire. Helena sintió una vieja angustia y tuvo ganas de salir de allí, deseo que se convirtió en realidad. Pidió permiso, ya volvía, ¿desean tomar algo? La mujer agradeció, no, no quería nada; la niña no contestó nada y se limitó a agarrar con los dedos el dobladillo de su vestido y retorcerlo, subiéndoselo hasta las rodillas. Helena fue a la cocina y trajo dos vasos de jugo, sin saber a ciencia cierta a quién estaba destinada la amabilidad. La mujer, que estaba entretenida eligiendo y encontraba todo poco agradable, rechazó nuevamente el ofrecimiento. La niña agarró el vaso con ambas manos con una cautela estudiada. Tomó el jugo a sorbos cortos, lo tomó todo, todito y volvió a poner el vaso en la bandeja, que depositó sobre el mantelito de croché. Se levantó, así, de repente, tomando impulso desde el sofá Dio unos pasos y se quedó allí, al lado de la madrastra, parada, realmente parada, con los brazos para atrás del cuerpo y las manos en la espalda. Helena se puso alerta, en un estado de atención extraordinaria, como en un vértigo que le venía de la nuca o de la espalda, no podía precisarlo. La niña estaba allí, parada de manera provocativa en su belleza de la infancia, radiante, plena, completa, losa de la piel y brillantes en los ojos. La mujer no prestó mayor atención al hecho.

Un cuarto de hora más y una brisa de atardecer movía las cortinas, haciendo flamear el vual blanco. A esa altura, la niña caminaba por la sala, toqueteando los objetos que estaban en los estantes. Helena no tenía más interés en la mujer, se concentró, tensa e inquieta, en los movimientos de la pequeña quien, ahora, en puntas de pie, trataba de alcanzar una muñeca de trapo que se veía en lo alto de los estantes. Anticipándose a la tragedia, la dueña de casa se adelantó y con una agilidad que no tenía desde hacía mucho, buscó el juguete, se estiró y se lo entregó a la interesada, maternal y con cuidado. La pequeña agradeció y se sentó en el sofá, con la muñeca en la falda. Helena se acomodó, tranquila, en el sillón pues algún equilibrio se había restituido.

Finalmente, la señora cerró el Burda con gesto decidido, suspiró metida en una idea silenciosa y, sin mirar otra cosa más que un punto impreciso en la pared, dijo ven aquí a la niña. Obedeciendo la orden, la niña dejó la muñeca con displicencia ; la abandonó en el asiento y se puso frente a la madrastra. La mujer blandió el dedo en el aire formando volutas carmesí, quiero así, decía, diseñando el escote en la pechera de puntilla, redondo ¿usted entiende? Helena afirmó con la cabeza. La otra seguía mostrando el modelo que quería, la niña con los brazos abiertos a los lados del cuerpo, las manos colgando laxas, se dejaba ser utilizada como maniquí, dando una lenta vuelta sobre sí misma, permitiendo que allí se diseñara el vestido de mentirita; y el esmalte rojo se movía ante la vista cansada de Helena, mangas flojas, con un corte que rodee la cintura, rematado por un tope atrás, que le apretara a la altura de los riñones , sacudía a la niña, así, aquí, así, entiende? Entendía, entendía, ya había hecho muchos con ese corte y trató de recomendarle que comprara una tafeta sin mucho cuerpo. En las casas Safira debía haber buenas telas, las mangas de organdí y la cinta de la cintura de satén, le parecía bien? Ahora, a arreglar una cita; traería la tela al día siguiente. Se pusieron de acuerdo. Antes, sin embargo, debía tomar las medidas. Esperen un poco. [….]

quarta-feira, 25 de abril de 2012

les mystères du mal


Heloneida Studart, Le bourreau
François Prost[1]


Le roman Le bourreau de l’écrivaine brésilienne Heloneida Studart[2] s’ouvre sur la vision d’une héritière, un abandon d’enfant et une scène de torture à mort, pour se clore sur un massacre gratuit et un gouffre de folie. C’est le sang, divinisé par les puissants de la terre, ignoré de la filiation du bâtard, dégoulinant du supplice de l’opposant, contaminé par la rage du damné, qui, par une terrible ironie, irrigue inlassablement, de part en part, les 345 pages de ce roman époustouflant, situé pour l’essentiel sur le sol brûlé et assoiffé du Nordeste brésilien, où le feu du ciel s’allie à son silence pour abandonner toutes les créatures à leur malédiction.
Une quinzaine d’années avant d’écrire Les huit cahiers, roman de femmes, soumises ou rebelles, et roman du rapport mère-fille(s), HS s’était glissé dans la peau d’un homme, enfant abandonné hanté par la figure absente et inconnue de sa mère, et devenu tortionnaire professionnel, consciencieux rouage sans états d’âme d’une machine à broyer les corps et les esprits (dictature qui sévit au Brésil de 1964 à 1985). L’exercice de son activité occulte conduit le protagoniste, loin de sa ville de Rio, de ses habitudes et de ses certitudes, à côtoyer le monde clos et suffocant de l’aristocratie d’un Nordeste déroutant, anachronique, gorgé de superstitions et peuplé de fantômes. Son chemin d’ange de la mort, ainsi tracé depuis son « pacte avec le diable » (p. 241), croise alors à Fortaleza celui d’une énigmatique jeune femme qui deviendra pour lui l’agent exécuteur des volontés du destin, dans un étourdissant retournement des rôles de victime et de bourreau. Autour du personnage principal, gravitent des comparses qui portent la même malédiction de cette maladie sans remède qu’est l’amour brisé, trahi ou impossible, et toutes ces trajectoires, d’abord autonomes et prisonnières de leur solitude, en viennent à converger selon une commune ligne de fuite, celle d’un pèlerinage, hallucinant et halluciné, à travers le quasi-désert infernal du sertâo, chaque pèlerin guidé sur son chemin de croix par une même volonté d’ « échapper à soi-même » et en même temps d’aller à « la rencontre de son destin » (p. 332-333).

« Aucun sentiment n’est ardent comme celui d’un fils pour sa mère »
 (p. 241)

L’axe principal du roman est donc la quête, inlassablement poursuivie par le héros (ou anti-héros), d’une mère qui l’a abandonné peu après sa naissance aux mains, ou aux griffes, d’une marraine-marâtre, vieille fille aigrie auprès de laquelle il a surtout fait le double apprentissage de la cruauté : cruauté des violences subies, et cruauté de la souffrance infligée exprès à autrui ou méprisée par indifférence. Une telle ronde de mauvaises fées entourant le berceau ne pouvait que condamner le personnage à un destin de cauchemar  -- mais d’une espèce particulière, qu’on pourrait qualifier, avec la mode du temps, de « bipolaire », car à chacun de ses pôles correspond un pôle contraire.
Ainsi, son activité de quête-enquête  s’écartèle entre rêve et réalité, qui s’imposent comme la caricature, pathétique ou monstrueuse, l’un de l’autre. Son métier, si l’on ose dire, consiste à déployer tous les trésors de l’inventivité pour extirper des corps mutilés une « confession », autrement dit une vérité, en particulier l’identité de complices opposants à l’autorité ; son esprit libre de vaguer torture quant à lui la matière molle de ses rêves diurnes et nocturnes pour en façonner les traits et la personne d’une mère inexistante ; le premier saisit avec zèle les vivants pour les réduire en fantômes civils disparus anonymes dans des charniers, le second enfante à plaisir des chimères elles aussi fantômes dissipés par les vents. Le désir orgiastique, souvent évoqué, pris par le bourreau à la souffrance de ses victimes répond à l’amour inassouvi de l’enfant pour sa mère ; de la victime ravalée à une masse de chair sanglante, à la Vierge-Mère fantasmée jusque dans les détails les plus menus, c’est toujours l’être plein et complexe qui échappe, et qui échappe à celui dont, précisément, la fonction et comme la mission sont de poursuivre, d’attraper et d’extirper. Tout se brise ou s’abaisse jusqu’à se nier entre les mains de ce prétendu chasseur hors pair : la ferme bucolique cache derrière ses portes des camps de concentration, le courage et l’héroïsme des suppliciés se délitent en viscères et en trahisons, les femmes aimées ne sont que des chairs baisées vite renvoyées à leur inexistence.
Roman de la cruauté, Le bourreau dévoile avec une lucidité elle-même cruelle les impostures de la soi-disant force virile de l’autorité sanguinaire, qui se dissout ainsi en fantasme pathologique de vieux garçonnets noyés dans l’Œdipe, tout juste bons à éventrer des femmes enceintes à la place de grenouilles, et encore persuadés qu’un jour ils se marieront avec leur maman. Ce partage brutal entre la sublimation de l’image maternelle et l’abomination des comportements adultes se marque dans le rythme du texte, qui fait tout au long de son cours alterner visions d’une mère rêvée et scènes de torture ; ces dernières sont d’une dureté rendue d’autant plus insoutenable que les descriptions sont toujours lapidaires et dépourvues de tout pathos – restituant ainsi au texte la froideur technicienne de cette chirurgie de la mort :
« Sous la torture, elle se comporta comme un agneau, gémissant sans jamais crier. Je lui avais coupé l’oreille droite au ciseau : elle était tombée sur ma chaussure comme un papillon déformé. Je m’étais ensuite dit qu’il fallait agrandir ses petits yeux en amande avec une lame de rasoir (…) Elle saigna trop. Elle mourut aveugle. » (p. 8)
Mais il n’y a pas une ligne, pas un mot de complaisance gratuite dans ces évocations, qui chacune se présentent dans le texte à la faveur d’une réminiscence ou d’une analogie dans l’esprit du personnage confronté à tout autre chose : montrant ainsi à quel point cet esprit lui-même « torturé » en vient à ne plus percevoir le monde qu’à travers le souvenir de ses propres atrocités, comme il ne peut plus voir de femme qu’à travers le prisme plus que déformant de sa fixation névrotique. L’ « ardent » sentiment du fils pour sa mère est un brasier dévorant qui brûle tout – non pas un feu salvateur et purificateur, mais un foyer destructeur, une révolte promise à l’échec contre l’absence irrémédiable de la mère, où puise comme à sa source la violence méthodique et déshumanisante contre les révoltés insoumis à l’autorité patriarcale des despotes : les flaques de sang versé par le bourreau recouvrent les pollutions nocturnes de l’enfant incestueux.

« Tout le monde semblait condamné au châtiment » (p. 335)

Bien sûr, la récurrence, martelante, de telles scènes d’horreur d’un côté, de fantasmes infantiles de l’autre, serait lassante et suspecte à la longue, si leur succession ne ponctuait pas une sensible évolution, qui est celle de l’expérience et du destin du protagoniste. Carmelio  le bourreau est un damné – non pas un de ces innombrables damnés de la terre qui peuplent ce continent de misère et d’oppression, mais une âme qui a pactisé avec le diable (en la personne de son supérieur, fantoche graisseux de croisé néo-nazi confit en certitude d’immunité), et le temps vient pour lui de régler le compte qu’il a ouvert auprès du maître des ténèbres semées par lui en ce monde. En la figure de Dorinha, la femme aimée et sa victime indirecte (conséquence d’un meurtre par lui commis), s’imprimeront peu à peu les traits de la mère rêvée, donc de la Femme interdite, évoquée du néant pour hanter ses nuits et ses jours du cri de sa damnation : « Assassin ! ». Le parcours de Carmelio à la poursuite de son rêve amoureux se fait progressivement descente aux enfers, le tortionnaire pressé du fouet d’une Erinye entraînant avec elle les fantômes et les membres amputés des anciennes victimes : avec l’implacable rigueur d’une tragédie classique, le cercle infernal se resserre autour du héros, condamné à chercher dans la souffrance – non plus celle des autres, mais la sienne propre – un espoir de rédemption.
Cette tragédie donc, la principale, constitue aussi le point focal autour duquel s’en agencent d’autres, qui reflètent, répètent ou diffractent ce parcours fondamental. Le monde nordestin du Bourreau se transforme insensiblement un paysage apocalyptique rappelant Jérôme Bosch, où des hordes de démons multiformes assaillent de leurs danses macabres les victimes soumises à leurs supplices, dans un décor dont la violence et la beauté naturelles (décrites avec une rare force poétique) semblent faites pour égarer, fasciner et finalement broyer l’homme comme le serpent sa proie :
« Si la ville n’avait pas été pestiférée par le sang de Célio, j’aurais pu m’y installer définitivement. Languir dans cette clarté qui allongeait les jours, entre les murs blanchis à la chaux, l’ombre mouvante des anacardiers, la flamme rouge des bougainvillées. Là, la vie aurait été douce pour un bourreau portant un faux nom, et n’ayant pour seule tâche que d’oublier. Le temps aurait traîné dans la lumière perpétuelle, dans la trajectoire lente des pirogues, dans le crépuscule subit. La nuit tombait rapidement sous le poids des immenses étoiles. Qui sait ? J’arriverais peut-être à me faire pardonner peu à peu, sous la bénédiction de ces nuits étoilées. » (p. 313)
Comme on sait, avec des « si »… Surtout quand l’hypothèse porte sur une possibilité d’oubli, de pardon et de bénédiction, et l’annulation magique d’une souillure de sang versé qui marque précisément l’ouverture du drame. Les personnages secondaires eux aussi aspirent à cette purification d’effacement qui seule pourrait les sauver et qui seule leur est refusée ; aussi, comme Carmelio, fuient-ils aveuglés de douleur, poussés qui par la soif d’une inaccessible vengeance, qui par le mirage d’un amour impossible, qui par quelque autre passion qui est tout autant un déni et une révolte.

« Je commençais à penser qu’il existait un mystère du mal » (p. 284)

Ce monde du Bourreau est donc un monde hanté de fantômes et de démons, mais aussi de martyrs et de saints, de bigotes et de marabouts ; un monde imprégné de superstitions immémoriales, de croyances archaïques et de convictions plus fortes que la vie même et, parfois, dévastatrices comme la mort. On en ressort, en tout cas, étourdi, partagé entre la fascination et la répulsion, comme d’une plongée dans un espace où s’entremêlent toutes les dimensions de la nature, de la raison, de la foi et du surnaturel.
Ce mélange est, pour partie, le reflet d’une sociologie en mille-feuilles où se superposent les différentes strates de peuplement et se reflètent les désordres de l’histoire du continent. Fidèle, bien entendu, à ses convictions progressistes, HS dissèque avec acuité les strates d’obscurantisme (et de misère sociale) qui condamnent la population à des peurs et des pratiques moyenâgeuses, pour ne rien dire d’une insalubrité propice à l’épanouissement de toutes les épidémies rongeant l’âme comme le corps : la crédulité et l’ignorance s’allient dans le traitement des plaies infectées par application de poudre de corne d’un bœuf supposé saint, avec les effets qu’on peut imaginer. Comme elle le fera plus spécifiquement dans Les huit cahiers, HS s’attache en particulier à cette forme précise d’anachronisme moral et social qui condamne encore la femme à un statut à la fois d’infériorité, de soumission et d’impureté : tout l’être de la femme se concentre dans l’intégrité de son hymen, dont la déchirure hors mariage vaut condamnation à mort – mort au moins sociale, quand ce n’est pas physique – et qui, même dans les liens sacrés du mariage, se voit tout autant interdire le plaisir, même le désir, que nier toute volonté.
Au fond, tout ce monde est hanté par le spectre du mal : la violence et le meurtre sont réalités quotidiennes ; le péché est partout – du moins on le voit partout ; des salutations anodines aux grands conseils de famille, on n’a que bénédictions ou malédictions à la bouche ; les reliques et autres objets de superstition sont en toutes les mains, et le monde – ce monde-là – bruit aujourd’hui comme naguère des miracles confirmés ou infirmés de saints canoniques ou locaux à la protection desquels on rapporte les plus petites comme les plus grandes choses de la vie, essentiellement à des fins d’exorcisation. Étendu à cette échelle, de la séquestration de la fille perdue à la torture d’État, le mal gagne sans peine son sinistre certificat de banalité – jusqu’à s’imposer à (presque) tous dans une lumineuse évidence : « défloration récente » se traduit sans un battement de cil en « plutôt morte qu’impure » (p. 307), aussi simplement que le contestataire est fait pour être déchiqueté avant d’être jeté à la décharge après usage. L’obsession du mal et du Malin est à ce point aveuglante qu’elle rend invisible les vrais suppôts de ces derniers, et détourne la bigote de voir le sang sur ses mains qu’elle lave pourtant avec la compulsion d’une Lady MacBeth. Pour ces croyants-là, le salut de l’universelle damnation est, pour soi, dans la mortification, pour autrui, dans le supplice : même le tortionnaire-chef se croit, à l’égard de ses victimes, l’exécuteur du châtiment rédempteur.
A défaut de véritable rédemption, au moins est-il possible, dans ce monde d’une fausse luminosité, en fait étouffé de ténèbres, d’accéder à l’amorce d’une lucidité qui laisse briller une lueur d’espoir. Un pas immense est déjà franchi par celui qui se dépouille de ses illusions manichéennes, de ce simplisme meurtrier de sacristie, de salle de torture et de cachot conventuel, et commence à percevoir qu’il y a, bel et bien, « un mystère du mal » :
« Cette inspiration, qui conduit un homme à en torturer un autre, ne peut venir que d’une zone de ténèbres. » (p. 307)

« Je connais les tortionnaires. J’ai vécu parmi eux » (p. 291)

Certains personnages parviennent ainsi à briser leur gangue de mensonge et d’illusion pour atteindre une autre vision du monde. L’un de ces personnages, qui donne toute sa mesure dans les dernières pages du roman, remplit en cela la fonction de porte-parole de l’auteur, qui lui prête bien des traits de sa propre personne. C’est alors l’ultime « confession » (p. 290) recueillie par le bourreau, qui jette un jour cru sur les dessous sordide d’une société gangrenée, profondément archaïque et injuste, aux mains d’une caste recouvrant ses crimes ancestraux d’une chape d’idéologie particulièrement perverse. Le témoignage est bien sûr d’autant plus fort qu’il est avancé de l’intérieur de cette caste, tant par le personnage que par l’auteur, elle-même issue d’une grande famille de la région.
Telle sera donc la dernière confession entendue par le bourreau avant qu’il ne s’enfonce dans sa nuit de damnation. Avec juste assez de temps tout de même pour découvrir sa propre vérité :
« Je me découvrais lâche. Les cours de lutte libre et de musculation, la haine contre ma mère adoptive, la recherche éperdue de ma vraie mère, ma passion pour les chats, ma profession de tortionnaire – tout cela n’était que les différents versants d’un seul et même phénomène : la peur. J’avais eu peur toute ma vie et ces ténèbres avaient grandi en moi, s’intensifiant jusqu’à m’envahir complètement. » (p. 321)
Oserai-je confesser, à mon tour, que la réussite de ce texte magnifique, profonde réflexion sur la condition humaine, est telle, qu’il m’a fait éprouver, pour ce personnage à bien égards abominable, la sympathie (au sens premier du terme) qu’appelle l’universalité de la souffrance et de la faiblesse ? J’ai pensé, en fermant le livre, à l’invitation, lancée par Albert Cohen dans Ô vous frères humains, à éprouver même pour les bourreaux le plus sacré des sentiments : « tendresse, tendresse de pitié ».


[1] François Prost est Maître de Conférences de Latin à l’Université de Paris-Sorbonne. Contact : francois.prost@hotmail.fr. Plus d'informations sur : 
http://www.paris-sorbonne.fr/IMG/pdf/prost.pdf.


[2] Traduction du portugais (Brésil) par Paula Salnot et Inô Riou, Les Allusifs, 2007, 345 p., ISBN 978-2-9228-6857-9.  Titre original : O torturador em romaria (1986)




sábado, 21 de abril de 2012

Fotocroniquinha : O livro Maria Valéria


Maria Valéria Rezende por Daniel Mordzinski
O livro Maria Valéria
Maria Valéria Rezende atravessou - era quase primavera - aquela agora verde  esplanada-alameda Clignancourt, olhar interessado, interesseiro, dirigido a tudo que à sua volta era estória-história que Paris-fronteira-Saint Ouen ora lhe oferecia.

Ao lado do portão de um grande prédio moderno, neste Boulevard que não era Saint Michel,  lia-se : Université Paris IV – Sorbonne.
Encantamento.

Subimos ao quinto andar.
Escondi Maria Valéria na sala dos professores do Departamento de Langues et de Littératures Ibéro-Américaines.


Após 20 minutos de reflexão sobre a história republicana do café-com-leite brasileiro, disse-lhes : « Esqueci-me, na sala dos professores, de um livro ilustrativo e esclaredor. Aguardem 5 minutos. Vou buscá-lo ».




Maria-Valéria abriu a porta.


Ofertou, durante aquela manhã de março, aos nossos numerosos passarinhos-passaredos-presentes, fartas xícaras de café-com-leite, saídas das fumegantes páginas mineiras, paulistas e até nordestinas,trazidas da passarela brasileira, Maria Valéria.

Prosa caudalosa. Obrigada.

Regina Antunes Meyerfeld.  

Maria Valéria Rezende ministrou uma palestra aos alunos do Departamento de Português na Universidade da Sorbonne em Março de 2012.


Assistam à participação de Maria Valéria Rezende no Salão do Livro de Paris em Março de 2012 (em francês). Consultem aqui.

Vejam o depoimento de Maria Valéria Rezende para o Blogo Estudos Lusófonos e sua apresentação no encontro de escritores promovidos pelo Departamento de Estudos Lusofonos da Universidade da Sorbonne. Cliquem nos links :

Leiam a resenha do Professor François Prost ( Universidade da Sorbonne) sobre o romance O voo da guará vermelha (em francês). Cliquem aqui


Nos remerciements à  Daniel Mordzinski.
Connu comme "le photographe des écrivanis", l’Argentin Daniel Mordzinski vit à Paris depuis plus de trente ans. Correspondant du journal espagnol El País, il a travaillé pour les agences "Sipa, Sygma II", ainsi que pour Le Figaro Magazine. En 2001, il a été sélectionné par le prestigieux journal Gatopardo comme l’un des meilleurs photographes latino-américains. http://www.danielmordzinski.com/#/home




quinta-feira, 19 de abril de 2012

Quase nada


Marcelo Cidade, ...e agora José?, 2012
Quase nada

 Elvira Vigna

Ver Beckett hoje é experiência desconfortável. Não que esteja datado. É que gostaríamos muito que não estivesse. A análise acadêmica mais comum fala do mergulho para dentro de personagens que perdem assim um contato significativo com o mundo exterior. Ou vice-versa, que a falta de sentido de um mundo em guerra faz com que os personagens se virem para dentro em busca do significado que já não encontram fora. Visão otimista. Supõe a possibilidade de sentido. Supõe que, não fosse o mergulho interior dos Murphy, Moran, Gogo e Didi, o mundo teria sentido. Ou que o mergulho interno deles traz uma possibilidade de sentido a um mundo destituído de.
Essa visão otimista em geral se contrapõe a outra, a do realismo socialista. Nem o mergulho provoca a falta de sentido, nem a falta de sentido provoca o mergulho. Tudo se resolve dentro de um cenário de  relações sociais.
Igualmente otimista.
Se unirmos as duas, como fez Theodor Adorno em seus ensaios sobre o autor, dá para ver uma época em que a falta de sentido - ou sua busca - era assunto. E dá para ter inveja.
E dá para pensar em Beckett como um artista político radical, que recusou qualquer compromisso, qualquer reconciliação com o ideário de acumulação desvairada que se iniciava em sua época. A ponto de escolher o francês em vez do inglês como língua de criação, porque se falava bem menos francês do que inglês. A ponto de ir abrindo mão de qualquer coisa que cheirasse a excesso, desde cenários até palavras, passando pelo movimento corporal dos atores.
É esta então a saudade. Da época em que falta de sentido era assunto.
Foi pensando nisso que sentei para escrever sobre Marcelo Cidade, um jovem artista paulistano (nasceu em 1979) que abre agora a exposição “Quase Nada”. Galeria Vermelho, São Paulo.
São três instalações, um vídeo. E um release em que tentam deixar bem claro: não se trata de obra política.
Não?
Marcelo Cidade, ...e agora José?, 2012
"... e agora, José?" é um outdoor ao contrário. Na frente, as placas de compensado pintadas de cinza fosco não têm nada. Atrás, como se fosse um reaproveitamento de material usado, um outro "outdoor", o que teria sido cortado em pedaços para ser reaproveitado, e que ainda guarda suas figuras enormes, suas frases chamativas.
As figuras são Juscelino Kubitschek, o marechal Lott, vagos contornos de Brasília. Dá para ler "bandeirante" em algum lugar.
São esses os personagens. Suas poucas palavras, emudecidas pela posição pouco nobre: no avesso, aos pedaços e nem sempre na posição mais digna. Tem um, por exemplo, que está de cabeça para baixo. Seus figurinos ridículos. Sua sensação de que nada deu muito certo (Lott, inclusive, perdeu a eleição para Jânio Quadros).
Tudo pobre, mal pintado, em preto e branco e olhe lá.
Marcelo Cidade, Adição por subtração, 2012
Aí você sobe a escada da galeria e o teatro do absurdo se abre em um segundo ato. Quadros dessa vez. Não são quadros. Seriam. Molduras enormes. Nada dentro.
Bem na entrada, já havia uma apresentação da radicalidade sendo encenada. Umas fotos pequenas, todas parecendo de um mesmo descampado montanhoso. Aqui e ali o que seriam monumentos. Insígnia, homenagem, escultura, bronze, grande nome, estátua, glória, obelisco e outros substantivos com que o poder público costuma lembrar a todos de sua existência, enfiando coisas grandes, vistosas e duráveis, em todos os cantos do planeta. Ou do que consideram sua nação.
Só que não.
Em vez daquilo tudo, placas do mesmo compensado vagabundo, recortadinhas no formato do que não está lá.
Marcelo Cidade, Obra obsoleta, 2011

E tem o vídeo. Abre com seus atores vestindo roupa de marginal. Capuzes, luvas. Tampam a cara com a camiseta. Quando não tampam, uma tarja preta providencial, fornecida na edição do vídeo, se encarrega de transformá-los nos necessários meliantes. Afundam o boné na cara. Invadem um lugar fechado. Descem. E descem. Chegam num trilho de metrô. Trens passam. Fazem cara de mau. Gestos que poderiam dizer alguma coisa, só que ninguém sabe o quê. A câmera é partícipe da ação. Conivente. Solidária. Ela também corre, treme, focaliza luzes. Pretos totais. Brancos totais. Um branco total dura quase três minutos. E aí eles sobem as mesmas escadas. Saem. A cidade continua a mesma.
Não gosto de símbolos. Mas não resisto. Um mergulho "interior"? Uergh. Não. Justamente. Sem significado. Apenas uma leve sensação de perigo. Que, aliás, não está só no vídeo. As molduras vazias têm cacos de vidros pontiagudos presos a elas. A paisagem montanhosa dos não-monumentos é tudo menos idílica.
E voltamos para "...e agora, José?".
Marcelo Cidade, ...e agora José? , 2012
Marcelo Cidade, pela idade que tem, não viveu a era JK. Portanto o que ele faz é uma espécie de arqueologia. Arqueologia pode ser entendida como uma construção. O passado "redescoberto" (invadido masculina e agressivamente?) através de meios tecnológicos para provar o quão formidável é a tecnologia usada no presente e quão infindável será o futuro que a tecnologia oferece. Arqueologia é sempre texto. E propaganda.
Nada disso por aqui. Reformulando, então: seria uma arqueologia. Não fosse a ironia becktiana do artista. Nenhuma estátua grega. Nenhum ohhhh admirativo, nem para o passado, nem para o presente e muito menos para o futuro. O que é "redescoberto" são as figuras ridicularizadas de uma ficção cujo adjetivo, nacional, é igualmente ridicularizável. Não só Brasília, em sua artificialidade, mas desde bem antes. Os bandeirantes - JK está vestido de bandeirante. E até hoje e depois. Um outdoor? Uma propaganda? Se desse para rir, eu estaria rindo aqui. Inclusive do conceito de aura. Aura, segundo Walter Benjamin, é o que parece estar longe mesmo estando a dois palmos do seu nariz. Essencial em arqueologias. Mas propaganda está a dois passos do nosso nariz em qualquer lugar em que estejamos. E propaganda é antônimo de autenticidade, um dos pré-requisitos para que a arqueologia funcione a contento. E a propaganda aqui é propaganda do nada. E tem no avesso vários níveis de invenção, todas com defeito.
Marcelo Cidade, à la Beckett, vai falando o que fala enquanto abre mão de tudo que é excessivo. Quadros não precisam ter nada dentro, narrativas podem dar em lugar nenhum, outdoors na verdade berram o nada, e descampados comemoram o que há de mais vagabundo e precário. E falso.
Sobra só o pensamento. Um registro de que a falta de sentido nos faz um pouco de falta.
Ou, como diz o personagem Nell, só com a cabeça do lado de fora de um cinzeiro desses de hall de elevador, na peça Fim de jogo:
"Não tem nada mais engraçado do que a infelicidade. Garanto a você. É, é sim. É a coisa mais cômica que existe. E a gente ri e ri e ri. Com vontade. Isso no começo. Mas é sempre igual. É como essas histórias engraçadas que a gente ouve várias vezes. A gente continua achando engraçado, mas não ri mais."
São Paulo, Abril de 2012

Para maiores informações sobre a exposição "Quase Nada" de Marcelo Cidade, consultem o website da Galeria Vermelho, no link : Galeria Vermelho

Consultem o Website da escritora Elvira Vigna e a entrevista concedida ao blog Estudos Lusófonos nos links abaixo : 



domingo, 15 de abril de 2012

Um dedo de prosa com João Carrascoza

João Carrascoza por Daniel Mordzinski 
Um dedo de prosa com João Anzanello Carrascoza

 Num primeiro momento, o escritor João Carrascoza evoca o seu percurso literário e o seu trabalho sobre a linguagem. Ele sublinha o seu gosto pessoal pelo ato prosaico do narrar  e por temas ligados às experiências do cotidiano. Acesse o vídeo aqui

Num segundo vídeo, Carrascoza fala do seu  conto “Umbilical”, e em particular de sua  estrutura polifônica. Clique aqui e assista ao video.

Na última parte da entrevista, o escritor sublinha sua filiação ao universo romanesco do  Raduan Nassar, que,  segundo ele,  tematiza as experiências do mundo moderno e contemporâneo. Veja o video neste link.

Assistam, também, à intervenção de João Carrascoza no encontro “A jovem literatura brasileira” realizado na Universidade da Sorbonne em Março de 2012.
Para assistir ao video clique aqui

Neste último vídeo, podem assistir  à participação do escritor no Salão do Livro em Paris de 2012. O encontro foi organizado pela Embaixada do Brasil na França e contou com a participação do  Professor Leonardo Tonus da Universidade da Sorbonne.
Cliquem aqui para acessar o video.

Um pouco de leitura

SÓ UMA CORRIDA[1]

            Ele se sentou aí, no banco de trás, bem no canto, encostado à porta, na posição em que você está, e quando o passageiro se acomoda assim, sei que  não está pra conversa, procuro não me intrometer, eu sempre digo, é só uma corrida, melhor que seja confortável, trajeto curto ou longo, o que importa é a gente fazer a viagem em paz. Pra que complicar? É só uma corrida, daqui até ali, de um bairro ao outro…, mas naquela hora é tudo o que temos, a nossa vida, por isso eu gosto de manter o táxi limpo, dar atenção ao cliente, dirigir com cautela, já basta o que temos de enfrentar: desvio, blitz, congestionamento… É só uma corrida, que seja boa pra todo mundo… Ele entrou e disse, Congonhas, por favor!, eu perguntei, o senhor tem preferência por algum caminho?, ele respondeu, não, vai por onde você achar melhor, eu falei, tudo bem!, aquela hora não tinha saída mesmo, era pegar a 23 de Maio, entrar na procissão de carros e torcer pra Rubem Berta andar. Devia ser seis da tarde, eu fui guiando devagar, no meu normal, um olho lá na frente, outro no retrovisor pra ver os motoqueiros que vinham costurando, e como era horário de verão, não tinha escurecido ainda, e foi aí, num relance, ao conferir o trânsito lá atrás, que eu percebi que ele estava chorando. Olha, eu entrei na praça há muitos anos, já fiz corrida com artistas, políticos, gringos…Aqui dentro já teve de tudo: pedido de casamento, parto, desmaio…Mas nunca um homem chorando. Fiquei pensando no que teria acontecido com ele. Será que tinha feito um mau negócio? Não, ninguém chora por isso... Será que estava cheio de dívidas e não tinha como pagar? Não, quem não tem dívidas hoje em dia? Será que estava fugindo com aquela maleta? Talvez estivesse doente, com dor, às vezes o corpo não aguenta mesmo… E qual o problema de chorar? Nascemos assim, não é?! Talvez tivesse levado um fora, não de uma fulana qualquer, mas da mulher da sua vida... Quem sabe? Ele chorava em silêncio, com dignidade, secando os olhos, assim, com a mão. É provável que tivesse perdido uma pessoa querida, que nunca mais poderia abraçar, a esposa, companheira fiel, seu único amor. Ou um irmão, um irmão que ele não via há tempos, com quem brigara, e nunca mais se falaram, pra se perdoar, você sabe, é só uma corrida, uma corrida não dá tempo pra nada. Não, não, devia ser algo mais triste, uma perda maior, dessas que arrancam a vontade da viver, um filho, um filho pequeno, que tinha tudo pra rodar com ele pelo mundo, um menino que era a sua cara, mas que, sabe-se lá porquê, nascera com uma doença incurável. Pior: um filho que se afogara, perdendo a chance de aprender muitas coisas com ele, um garoto, uma corrida curta demais… Eu ia ligar o rádio, perguntar se precisava de algo, mas fiquei quieto, em respeito. E, aí, sem poder conversar, ou ouvir as notícias, me vi pensando na vida, a gente passa o dia no trânsito, esquece que tem uma história… Lembrei de minha infância no interior, em Cravinhos, cidade cercada de fazendinhas de café, o começo da minha viagem; lembrei do meu pai, que morreu num acidente, justo quando ia cumprir a promessa de me levar em Ribeirão Preto num jogo do Comercial. A família se reunia no domingo pra macarronada na casa da avó, eu adorava ficar na varanda no meio dos adultos, ouvindo os casos, o Tor pulando nas minhas pernas e abanando o rabo, meu irmão me fazendo uma pipa, uma calmaria aquele tempo, tudo era devagar… E aí, como quem sai de uma rua estreita e desemboca numa avenida, eu me lembrei da Maria Cândida, uma menina da capital que viera passar umas férias na casa da tia, vizinha nossa, foi paixão no ato, uma coisa louca, mas eu sem coragem de me declarar… Até que uma noite, num bailinho, eu dancei de rosto colado com ela… Depois passeamos de mãos dadas, uma lua linda no céu, a nossa primeira vez… As férias acabaram e a Maria Cândida se foi. Cresci. Acabei vindo pra cá, motorista de caminhão, ônibus, van escolar. Casei. Minha mulher é uma pessoa muito boa, passamos uns pedaços difíceis, mas a gente se gosta, não fosse ela eu não teria comprado esse táxi. Temos duas filhas, vão crescendo com saúde, não posso reclamar, não… Pois outra noite levei uma senhora, com uma criança de colo que vomitava, direto pro Hospital das Clínicas, eu pisava fundo, e aí ela disse que tinha pouco dinheiro, o senhor pára quando o taxímetro marcar vinte reais, e eu falei, não, minha senhora, pelo amor de Deus, não me custa nada, imagine se eu ia deixar uma senhora no meio do caminho com uma criança doente, era só uma corrida, não ia me fazer falta... Quando parei na frente do pronto-socorro iluminado, e ela saiu apressada, Deus lhe pague, moço!, eu levei o maior susto: era a Maria Cândida. A Maria Cândida. Envelhecera. Quem não envelhece? Eu prefiro dizer que é a vida deixando em nós a sua passagem, o que é uma bênção, você não acha?, uma corrida mais longa… Ela continuava bonita. Eu nem disse nada, não era hora de me apresentar, mas fiquei aliviado pela ajuda que pude dar. Voltei lá no dia seguinte, perguntei por ela, ninguém sabia. É assim: a gente vai se desencontrando por esses caminhos. Acena pra uma pessoa aqui, buzina pra outra lá, fica uns tempos sem ver, parece que nem vivemos na mesma cidade; mas, de repente, do nada, a gente se reencontra numa avenida, num posto de gasolina. O dia está ganho, compensa tudo! O trânsito, eu acho, o trânsito é um mistério… Olhei pelo espelho e o passageiro continuava chorando, de mansinho, uma garoa nos olhos; aliás, quando vim pra cá, São Paulo era a terra da garoa, hoje quase nem chove mais... E, quando chove, é enchente na certa. Mas aí eu percebi que ele também não era daqui, a gente se reconhece, sabe, não dá pra esconder que esse não é o nosso mundo… A corrida era pra Congonhas, então eu tive certeza, ele estava indo embora, ia pegar o seu vôo, voltar pra casa, era o fim da viagem, retornava com o coração dolorido, a saudade já machucando… Sim, era isso. E é o que eu mais vejo no meu trabalho, pessoas partindo, o tempo todo, aeroporto, rodoviária, hospital… Aí eu continuei a lembrar da Maria Cândida (queria ter encontrado ela outra vez, só pra conversar, andamos um trechinho juntos!), e lembrei das meninas lá em casa me esperando, eu sempre chego quando elas já estão dormindo, lembrei do meu pai me ensinando a jogar bola (deu uma vontade de ver ele), lembrei da manhã em que tivemos de sacrificar o Tor, umas cenas tristes, mas no meio delas, de repente, surgiam umas alegrias, como a gente num sinal fechado vendo uma moça bonita atravessar a rua, ou uma criança andando de bicicleta no parque, um casal de mãos dadas acenando, sempre é bom começar uma corrida assim – porque depois de ver carros o dia inteiro, são só essas imagens que ficam. Lembrei de outras alegrias, o último aniversário da mãe, com todos os parentes ao redor, até meu irmão veio do estrangeiro; lembrei da lua naquela noite em Cravinhos com a Maria Cândida; lembrei do dia em que o Comercial ganhou do Santos (o Santos tinha um timaço na época!); lembrei de outras coisas boas, que eu tinha me esquecido, e só de lembrar eu me senti um homem de sorte, era tudo o que eu era naquela hora… E eu me senti feliz e agradecido por estar ali, fazendo a corrida com aquele passageiro…, claro, era só uma corrida, mas era uma coisa grande pra mim, eu estava compreendendo, e se o motorista do carro da frente parasse no farol vermelho e olhasse pelo retrovisor, ele ia ver também a garoa nos meus olhos.

[1] In : Amores mínimos, Rio de Janeiro : Record, 2011.


Un peu de lecture
Là-haut[1]
Le petit garçon revint en courant, essoufflé, avec le filtre à café que sa mère lui avait demandé d’acheter. La baraque, distante de l’avenue où se situait l’unique bazar qui fournissait toute la favela, s’équilibrait en haut du morro, parmi des dizaines d’autres semblables, séparées par des ruelles qui s’entrecroisaient, comme les lignes de ses mains. Il ôta la feuille de zinc qui servait de porte, entra et la remit à sa place. Il avait une chemisette trouée à plusieurs endroits, des sandales en plastique abîmées, un short trop large qui laissait voir les os de son bassin, bien qu’il ait glissé dans les passants une ficelle en guise de ceinture et qu’il l’ait nouée pour la faire tenir.
Il remit le filtre à sa mère affairée sur la cuisinière, laissa la monnaie sur la table grossière, enleva sa chemise, la pendit à un clou au mur et s’allongea sur le matelas dans un coin, unique confort auquel il avait droit. Il serra dans ses bras son ballon de foot dégonflé qu’il avait un jour trouvé dans la décharge. Il se reposa un instant, observant sa mère de dos qui cuisinait, silencieuse, et au-dessus de sa tête, l’ouverture dans le mur qui servait de fenêtre, par laquelle il pouvait voir le soleil évoluant dans le ciel, comme un jaune d’œuf. Dehors, l’été illuminait les eaux de la baie, à l’intérieur la chaleur était suffocante et la sueur ruisselait sur son visage. Il aimait la voir, sa mère, vivant silencieusement sa vie devant lui, sans cri ni marmonnement, comme lui devant elle. Et la force de son regard était telle que la femme sentit quelque chose, comme s’il lui mettait une braise sur la nuque et se tourna, craignant que les années ne l’aient trompée et, qu’en se retournant, subitement, elle ne trouve plus son petit garçon mais un homme dont la tête touchait presque le plafond, l’homme qu’il serait un jour, et non l’enfant qu’il était aujourd’hui – et, qu’imperceptiblement, l’usine de son corps avait engendré.
-           Qu’est-ce que tu regardes ? demanda-t-elle.
-           Rien, répondit-il.
Sa mère l’examina comme quelqu’un qui épluche un oignon, ôtant les peaux qui cachent la chair saine et, si le fils s’était attendri en la voyant de dos – espérant qu’elle se tournerait et lui adresserait un sourire de complicité – sa mère pouvait détecter ce qui n’était encore qu’à l’état de semence chez lui, de racine, et le reconnaître par l’envers, feuille détachée de son corps, comme la plume qui tombe appartient encore à l’oiseau.
Une brise entra par la brèche du mur et rafraîchit le visage rougi de chaleur du petit garçon, l’odeur du café serpenta dans l’air jusqu’à se glisser dans ses narines à la recherche d’une autre, par atavisme.
-           Fatigué ? demanda-t-elle.
-           Fatigué, répondit-il.
-           Pourquoi tu es revenu en courant ?
Le petit garçon ne répondit pas, en tout cas ne parla pas, mais son corps répondit par un mouvement d’épaules et il ferma les yeux, le cœur bondissant dans sa poitrine, comme une fleur qui jette toutes ses forces dans l’acte de s’ouvrir. Les enfants sont comme ça, pensa-t-elle comme les autres mères, ils courent alors qu’ils n’ont rien d’autre à faire après. Bon, quand elle avait l’âge de son fils, elle ne savait pas qu’elle passerait sa vie à faire tant de choses toujours dans la hâte, et que toutes ces choses ne déboucheraient sur rien, que ce rien était toute sa vie, qu’elle ne supportait que grâce à ces yeux qui l’enveloppaient en silence – seules graines de lumière dans le nuage de poussière qu’elle était.
-           Alors viens te reposer, dit-elle le torchon dans les mains, en revenant vers la cuisinière.
Parfois, elle demandait au garçon de trier le riz, pendant qu’elle s’occupait de réaliser le miracle du jour – trouver, parmi le peu de vivres, de quoi caler leur faim – et il l’aidait, enlevant les graines étrangères, chassant les petits cailloux et les cosses sèches, découvrant ainsi, de façon inespérée, un moyen d’oublier les choses dont il rêvait et qui n’arrivaient jamais entre ses mains.
Et maintenant, immobile, il écoutait les sons qui naissaient de la favela, le fer entrechoqué d’une timbale, le grésillement d’une radio, les voix des femmes qui passaient dehors avec des bidons d’eau sur la tête, et il les isolait des saletés du riz, attentif à n’en perdre aucun, composant avec ces bruits sa perception momentanée du monde. Il se souvint de la boite de crayons de couleur et du cahier qu’il avait gagnés des femmes qui, de temps en temps, venait jusqu’au morro distribuer dans les familles des paniers de nourriture, des jouets, des médicaments. Il se leva, brusquement, répondant à l’appel urgent de ses sens, souleva le matelas et prit en-dessous sa boîte de crayons de couleur et son cahier froissé, aux coins rongés par les rats, avec quelques pages encore blanches.
-           Je vais dessiner dehors.


João Carrascoza e Leya Mira Brander
São Paulo/ Avril 2012

Lançamento do livro Aquela água toda
Livraria Martins Fontes ( Abril de 2012)

Um dos contistas mais talentosos da literatura brasileira contemporânea, João Anzanello Carrascoza traz ao catálogo juvenil da Cosac Naify o primeiro livro de contos de um autor brasileiro lançado pela editora. Com sua já conhecida prosa poética, Carrascoza faz, em Aquela água toda, uma bonita celebração da vida ao transformar situações cotidianas – e aparentemente banais, em acontecimentos memoráveis e profundos. Em comum, as onze histórias reúnem relatos de primeiras experiências ou vivências marcantes – o primeiro amor, a primeira decepção com um amigo, o encontro com o mar, a mudança de casa. Ambientadas quase sempre dentro do núcleo familiar, envolvem a delicada – e por vezes conturbada – convivência entre pais, mães, filhos e tios, suas descobertas, fraquezas, tristezas e surpresas. Em seu primeiro trabalho em livro de ficção, a artista Leya Mira Brander, da Galeria Vermelho, criou imagens-síntese de cada conto que, impressas em papel gordura, proporcionam, pela transparência, a sensação de continuidade e acúmulo, como se cada episódio narrado fosse parte de toda uma vida.