domingo, 9 de dezembro de 2012

Uma romã furou o asfalto!



No artigo Narradores sobre duas rodas, publicado pelo Blog Estudos Lusófonos em novembro de 2012,  Laeticia Jensen Eble interrogava-se sobre a existência de uma “cultura motoboy”. A escritora Maria Valéria Rezende responde-lhe com o seu belíssimo conto “Desejo” que transcrevemos abaixo. A todos, boa leitura!


Desejo[1]

Eu vou, filhinha, por você vou até o fim do mundo achar romã, disse que não ia porque estava quase morto, rodando São Paulo nesta moto desde as quatro e meia da manhã, chegando em casa, Jardim Nordeste!, voltar pro centro a esta hora!, aí outro querendo me fechar!, pô!, ô seu... pára, Carlinhos, esquece, corre, voa, hoje não, amanhã, qualquer dia, morre motoboy todo dia, hoje não é o meu dia, não pode ser, ou pode?, ontem foi o Rui, anteontem o Cascalho aqui nesta desgraça de Radial Leste, quando chegar meu dia vai ser aqui mesmo, pressentimento que eu tenho, uau!, Carlinhos, olha a brecha, voa!, não é medo não, pressentimento, mas hoje não tem pressentimento que é atraso, vai lá, pelo corredor da morte, adrenalina, meu!, hoje é o dia da minha filha, de viver!, você não é doido, Carlinhos, deixar sua filha nascer com cara de romã!, nem sei como é romã, nunca vi, esse povo da Paraíba vive querendo o que não tem aqui, Gracinha não podia ter desejo de maçã, pêra, laranja, ou até galinha de cabidela, que eu sei o que é?, sei lá!, tanta coisa pra desejar, vai inventar logo uma fruta que eu nem conheço!, já estou aqui, agora é correr sem medo que a sogra disse que é perigoso abortar, Deus me proteja!, isso minha Mãe Aparecida não vai deixar, não é, santinha?, ou periga da menina nascer com a boca aberta, com cara de romã, sei lá!, será que não é aquela frutona verde, com uns bicos pretos pela casca, que o tio dela trouxe de lá?, meu Deus!, minha filha com aquela cara?, já imaginou minha filha nascer com cara de romã?, e eu acredito nisso?, não acredito, mas a sogra, aquela mulher sabe coisas... pô!, a saída!, preso aqui no meio, saio agora ou nunca mais chego no Mercado Central, vai, Carlinhos, acelera que dá!, lá tem de tudo, s’embora, concentra, voa, tira esse farol alto, ô cara!, pô!, e eu hoje moído de rodar São Paulo inteira, se pudesse dar o número do celular da firma a sogra ligava e eu já tinha achado essa droga de romã!, pra lá, Mercado Central, quase, ei, bróder, segura essa moto aqui pra mim, meu irmão, um minuto só, pelo amor de Deus, questão de vida ou morte!, tem romã aí?, romã?, tem romã?, olhar, como?, se eu nunca vi romã na vida?, não?, Largo da Concórdia?, putamerda!, minha filha com cara de romã, de jeito nenhum, filhinha, seu pai não vai fazer isso com você, vai achar o raio da fruta, Senador Queiroz, vai, Carlinhos, Rangel Pestana, tem romã? romã?, sabe onde é que tem romã?, Pinheiros?, caraca, longe paca!, tem certeza?, jura?, que rua?, com esse trânsito?, qualquer caminho, Carlinhos, agüenta, é sua filha, é sua Gracinha, viaduto, túnel, medo não, espera que dá tempo, Gracinha, amorzinho, flor de romã, e romã tem flor? se dá fruta, tem, Gracinha, espera, minha flor que vai dar fruto, vai ser linda, minha filha, não vai ter cara de romã, não, Praça Roosevelt, Consolação, me ajuda Mãe do Céu!, Rebouças, pra Pinheiros, Rua Capote Valente, ei, meu!, onde é a maternidade?, sei lá, a que tem romã perto, não interessa, uma maternidade, Artur o quê?, é essa, cadê?, maternidade, ali, ei, bróder, porteiro, por favor, onde vende romã?, o quê?, essa planta aí é romã? um pé disso vivo em São Paulo?, no meio do cimento?, vejo nada, no escuro, nem conheço, por favor, chega aqui, abre essa grade, dá uma romã que eu tiro a moto, louco não, é minha mulher grávida com desejo, só quero uma romã, uma só, é romã?, tem certeza, cara, jura que é?, é esta fruta, se abrindo toda, cheia de pedra preciosa, linda desse jeito?, romã? já imaginou, meu irmão, minha filha nascer linda assim como romã, no cimento de São Paulo!?

Assistam ao depoimento de Maria Valéria Rezende para o Blog Estudos Lusófonos e à sua participação no encontro de escritores organizado pelo professor Leonardo Tonus  na Universidade da Sorbonne e  no Salão do Livro de Paris em 2012. Cliquem nos links :


Leiam a resenha de Alfredo Monte sobre a obra da escritora no link : 




[1] “Desejo”, in : Maria Valéria Rezende, Modo de apanhar pássaros à mão. Editora Objetiva : Rio de Janeiro, 2006, p. 43-46.

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