domingo, 30 de dezembro de 2012

Um dedo de prosa com Franscisco Brennand



Source : Oficine Brennand
Um dedo de prosa com Franscisco Brennand

Este mês o blog Estudos Lusófonos publica uma entrevista exclusiva do escultor Francisco Brennand na qual ela evoca suas inquietações estéticas e sua formação na Europa durante as décadas de 1950 e 1960.

Cliquem no link abaixo e assistam à entrevista.




Source : Oficina Brennand
Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand (Recife PE 1927). Ceramista, escultor, desenhista, pintor, tapeceiro, ilustrador, gravador. Inicia sua formação em 1942, aprendendo a modelar com Abelardo da Hora (1924). Posteriormente, recebe orientação em pintura de Álvaro Amorim (19-?) e Murilo Lagreca (1899 - 1985). No fim dos anos 1940, pinta principalmente naturezas-mortas, realizadas com grande simplificação formal. Em 1949, viaja para a França, incentivado por Cicero Dias (1907 - 2003). Freqüenta cursos com André Lhote (1885 - 1962) e Fernand Léger (1881 - 1955) em Paris, em 1951. Conhece obras de Pablo Picasso (1881 - 1973) e Joán Miró (1893 - 1983) e descobre na cerâmica seu principal meio de expressão. Entre 1958 a 1999, realiza diversos painéis e murais cerâmicos em várias cidades do Brasil e dos Estados Unidos. Em 1971, inicia a restauração de uma velha olaria de propriedade paterna, próxima a Recife, transformando-a em ateliê, onde expõe permanentemente objetos cerâmicos, painéis e esculturas. Em 1993, é realizada grande retrospectiva de sua produção na Staatliche Kunsthalle, em Berlim. É publicado o livro Brennand, pela editora Métron, com texto de Olívio Tavares de Araújo, em 1997. Em 1998, é realizada a retrospectiva Brennand: Esculturas 1974-1998, na Pinacoteca do Estado - Pesp, em São Paulo. Desde os anos 1990, são lançados vários vídeos sobre sua obra, entre eles, Francisco Brennand: Oficina de Mitos, pela Rede Sesc/Senac de Televisão, em 2000.


Francisco Brennand inicia sua carreira como pintor e escultor no fim da década de 1940. Em seus quadros, pinta flores e frutos que parecem flutuar no espaço pictórico, realizados com linhas simplificadas e cores puras. Posteriormente, descobre seu meio de expressão na cerâmica, incentivado por obras de Pablo Picasso (1881 - 1973), Joán Miró (1893 - 1983) e Léger (1881 - 1955), que conhece durante uma estada em Paris. Em 1971, reforma a fábrica de cerâmica de seu pai, próxima a Recife, então quase abandonada, transformando-a em um ateliê, que povoa de seres fantásticos, representados em relevos, painéis, objetos cerâmicos e esculturas. O artista trabalha a cerâmica não só com a forma mas também com a cor. Obtém uma grande quantidade de tonalidades por meio das variações de temperatura que atuam sobre os pigmentos durante a queima das peças. As esculturas de Brennand apresentam o caráter de tótens, ou se relacionam a signos da tradição popular. Em muitas obras, apresenta criaturas aterradoras, monstros, seres deformados ou que revelam um caráter trágico. Algumas esculturas estão ligadas a rituais de fertilidade, de culturas arcaicas, apresentando um caráter fortemente sexual. Produz figuras que freqüentemente têm um aspecto trágico, cuja estranheza é acentuada pelo acabamento rude.
 Fonte : Itaú Cultural


Source : Oficina Brennand
Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand (Recife, PE 1927). Céramiste, sculpteur, dessinateur, peintre, tapissier, illustrateur, graveur. Il commence sa formation artistique en 1942, et apprend le moulage avec Abelardo da Hora (1924). Par la suite, il étudie la peinture avec Álvaro Amorim (19-- - ?) et Murilo Lagreca (1899 - 1985). À la fin des années1940, il peint principalement des natures-mortes d'une grande simplification formelle. En 1949, il part en France, encouragé par Cicero Dias (1907 - 2003). Il suit les cours d'André Lhote (1885 - 1962) et de Fernand Léger (1881 - 1955) à Paris, en 1951. Il découvre les oeuvres de Pablo Picasso (1881 - 1973) et de Joán Miró (1893 - 1983) et voit que la céramique est son meilleur moyen d'expression. De 1958 à 1999, il réalise plusieurs panneaux muraux en céramique, placés dans des villes du Brésil et des Etats-Unis. En 1971, il commence à restaurer une vieille fabrique de céramique de son père, à côté de Recife. Il la transforme en atelier et y expose des objets en céramique, des panneaux et des sculptures. En 1993, la Staatliche Kunsthalle, de Berlin, organise une vaste rétrospective de son travail. En 1997, les éditions Métron publient le livre Brennand, accompagné d'un texte d'Olívio Tavares de Araújo. En 1998, la rétrospective Brennand: Esculturas 1974-1998, est réalisée à la Pinacothèque de l'Etat de São Paulo.  Depuis les années 1990, plusieurs vidéos ont été réalisées à propos de son oeuvre, dont: Francisco Brennand: Oficina de Mitos [Francisco Brennand: Atelier de Mythes], par la maison d'édition Rede Sesc/Senac de Télévision, en 2000.


À la fin des années 1940, Francisco Brennand commence sa carrière artistique comme peintre et sculpteur. Il peint des fleurs et des fruits qui semblent flotter dans l'espace picturel, réalisés avec des lignes simplifiées et des couleurs pures. Puis, il découvre son moyen d'expression dans la céramique, encouragé par les oeuvres de Pablo Picasso (1881 - 1973), Joan Miró (1893 - 1983) et Léger (1881 - 1955), qu'il connaît lors d'un séjour à Paris. En 1971, il rouvre l'usine de céramique de son père, presque abandonnée, et la transforme en atelier qu'il peuple d'êtres fantastiques, représentés sur des reliefs, panneaux, objets et sculptures. Il ne travaille pas seulement la céramique avec la forme mais aussi avec la couleur. Il obtient une vaste gamme de tonalités par le biais des variations de température qui agissent sur les pigments lors du brûlage des pièces. Il sculpte des totems ou des emblèmes de la tradition populaire. Dans de nombreuses oeuvres, il présente des créatures terrorisantes, des monstres, des êtres déformés ou possédant un caractère tragique. Certaines sculptures sont liées à des rituels de fertilité, de cultures archaïques et contiennent une prédominance sexuelle. Il produit des formes qui ont souvent un aspect tragique, dont l'étrangeté est accentuée par une finition grossière.
 Source : Itaú Cultural

Consultem o site da Oficina Brennand no link : http://www.brennand.com.br/

Testamento I : O oráculo Contrariado

por Franscisco Brennand*



O Oráculo contrariado
No meu diário falo muito mais de outros assuntos do que propriamente sobre cerâmica ou pintura. Falo de mulheres, por exemplo. Publiquei uma pequena parte desse jornal íntimo quando recebi o prêmio Gabriela Mistral, em abril de 1994. Naqueles textos (do diário da Itália) fica bem visível a minha paixão pela arte da pintura a óleo e pelos afrescos, quando faço anotações das visitas permanentes aos museus italianos e europeus e revelo o meu fascínio por Tomaso Masaccio. Foi na Igreja de Santa Maria Del Carmine e na Igreja de Santa Maria Novella que encontrei os mais belos afrescos realizados durante sua curta vida.
Não custa lembrar que Leonardo Da Vinci o associou à hierática dramaturgia de Giotto, os dois juntos formando um inviolável paradigma. Masaccio é sem dúvida a representação mesma da probidade artística florentina. Quanto a Piero Della Francesca, fui vê­lo em seu terreno, ou seja, em Arezzo e Borgo San Sepolcro, cidade onde nasceu. Dele podemos afirmar o que lembrava Henri Focillon, quando se referia à dignidade impessoal das formas: “Exprime uma missão mais alta e mais serena que a desgraça, a aflição e a morte”. [1]
Comentários como esses preenchem, ao lado de algumas aventuras amorosas, todo o meu caderno da Itália, o que não quer dizer que reflitam o espírito de minha obra. Afinal, poderia afirmar que tudo o que fazemos sempre parece o mínimo e a grande arte não se satisfaz com o pouco. Curioso é que o meu interesse pela pintura era bastante forte. Depois de uma fase intermediária, me voltei para a cerâmica e agora reencontro a pintura, o mesmo amor da juventude na maturidade. Não é interessante, isso? Essa observação, na sua origem, foi feita pelos poetas Mário Hélio e Weydson Barros Leal. Agora me pertence, para justificar o que pode parecer o final de todas as explicações.
Tudo faz pressentir que o ciclo de minhas viagens está definitivamente encerrado. Esse estranho e compulsivo desejo de rever cadernos e notas é o sintoma mais alarmante, que de antemão comprova e prefigura a imobilidade. Na conclusão dos Estudos Renascentistas de Pater há uma referência a uma provável afirmação de Heraclito, quando afirma em alguma parte que tudo passa e nada permanece. A compilação dessas notas obrigou-me a ordenar cronologias e, conseqüentemente, a reivindicar um passado, o que de imediato me dá a ilusória sensação de ter vivido. No princípio, tudo não passava de confusos sonhos de um forasteiro, desencadeados pela rosa das tempestades...
Todavia, o que pareceu impossível foi cumprido, não propriamente à risca, nem tão somente ao acaso, que em si não parece existir, mas, como alguém que mesmo no deserto, se pondo na rota das caravanas, depara com beduínos e camelos, prosseguindo com eles em demanda aos oásis de águas claras ou, quem sabe, as de águas turvas...
Comentando as minhas notas d’Itália, presumi o mundo europeu como algo inevitável e, imprudentemente, cheguei a afirmar que qualquer organismo estranho seria de pronto atraído para o interior daquele refluxo contínuo... E não foi outra a força que, igualmente, me arrastou para seu núcleo vital, fazendo-me de pronto, pulsar uma de suas imperceptíveis células no mesmo ritmo, capaz de afinidades, de encontros e de até estranhos sortilégios. Daí em diante, nada foi impossível. O pouco que presenciei e o muito que pude ver me pareceram suficientes e propícios a sonhar os milênios. Num deliberado anacronismo, como se todas as coisas tivessem acontecido ao mesmo tempo, ou seja, num certo momento do sonho, neste desarrumado mosaico, farei desfilar recordações de fatos passados ou presentes de criaturas vivas ou mortas, pouco importa.

[1] H.Focillon, Vie des Formes, Presses Universitaires de France, Paris, 1947.


Aventura final
Num velho provérbio inglês somos advertidos: “Nunca se explique, nunca se queixe”. Acredito que no fundo não possa me desvencilhar da minha alma de pintor. Tenho a impressão de estar criando com o conjunto de minha obra um vasto cenário, talvez uma cosmogonia, ou então, como diz um crítico pernambucano, uma simples gliptoteca, mas sempre como um pintor. Quem sabe se essas esculturas, relevos, murais, tapetes cerâmicos, anfiteatros, colunadas, construções, lagos, fontes e alamedas não sejam senão o resultado de uma pintura maior? O terrível é que acabo sempre descobrindo que sou eu próprio, tentando explicar o inexplicável, o racionalmente incompreensível. Quanto aos equívocos de avaliação, retorno mais uma vez ao Hybris para revelar uma sugestão de poema nascido de um sonho. A maior parte dele é resultante de frases feitas, mas, no conjunto, se torna significativo e, sobretudo, ameaçadoramente atual:
Deus avisa sempre
Antes de castigar.
Já não há sacramentos
Nem destino.
Perdemos o sinal.
Agora,
Resta o grande macaco negro,
Verde como a floresta escura,
Vindo do coração das trevas
Sem cor - dominando a cena.
Oh, o horror... o horror!...
Tudo embola no extravio
Do pecado.
Como quem esqueceu os trapos de uma branca
Túnica que nos cobriu
Na saída dos dourados portões do paraíso.
Nada escapará
Desse oráculo contrariado:
Nenhum só dos homens,
Nenhum só dos anjos,
Nem mesmo os deuses que se afastam
Em silêncio.

Como Baudelaire registra nos seus Escritos Íntimos, parece-me que derivei para aquilo a que as pessoas de profissão dão o nome de “ex-tra-assunto”. De qualquer modo, deixarei estas páginas porque quero datar a minha tristeza. 


* Brennand, Francisco, 1927­. Testamento I: o oráculo contrariado / Francisco Brennand – Recife: Bagaço, 2005.23p. Fonte : Oficina Brennand. 

Consultem o artigo da Profa Ana Luiza Andrade " Ruinas de mundos perdidos : a estética residual de Brennand" no link : Artigo 



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