sexta-feira, 30 de novembro de 2012

o microfone é nossa arma


O rap do grupo Atitude Feminina e a escrita das mulheres negras


Andressa Marques

Há algum tempo investigo a escrita das mulheres negras, interesso-me pela construção narrativa dessas autoras com as quais me sinto contemplada esteticamente. Partindo de uma constatação difícil e tardia de que havia invisibilidade e estereotipia na maioria da literatura que consumi, decidi eleger pares na ânsia de me perceber representada de maneira mais cuidadosa na literatura. Durante esse caminho, percorri recônditos e encontrei o que procurava no trabalho de algumas escritoras negras contemporâneas e também na produção feminina do rap, espaço discursivo em que as mulheres negras encontraram e arquitetaram um canal acessível/possível de comunicação com o mundo. A entrada de maneira mais veemente de mulheres no gênero, inicialmente produzido por homens em maior escala, possibilitou ao público ter acesso à perspectiva de mundo daquelas que são a base da pirâmide social: as mulheres negras. Ocorreu uma tomada de voz bastante significativa dessa classe envolta pelo racismo e pelo sexismo, o grupo Atitude Feminina, originário da cidade satélite de São Sebastião- DF, é um forte exemplo dessa tomada discursiva, poética e musical.
            O Atitude é composto atualmente por Ana Cecília e Helen que iniciaram seu trabalho no ano 2000. As meninas mostraram ao que vieram de forma bastante combativa, pois, mesmo ainda adolescentes, se propuseram a tratar de temas caros à sociedade. A violência doméstica e a discriminação vivida pelas mulheres da periferia foram e são assuntos recorrentes nas letras desse grupo que rapidamente passou a tocar em rádios comunitárias, a fazer shows em todo o Distrito Federal, em várias cidades brasileiras e chegando ao exterior, recentemente o grupo fez apresentações em Cabo Verde.
A aliança entre os anseios políticos, a estética inovadora e a força dos discursos propositores de cortes epistemológicos na sociedade fazem do rap um espaço denso para encontra e compreender a manifestação da subjetividade dos(as) seus e suas enunciadores(as). Para Stuart Hall (2011), o povo negro articulou uma estratégia que serviu de resposta ao mundo que referenda apenas a escrita como maneira legítima de preservação e disseminação cultural, a música foi o instrumento encontrado para guardar a estrutura profunda da vida cultural negra, o corpo negro nela age como capital cultural. As canções de rap feitas por mulheres negras centralizam questões de foro íntimo cruciais para a representação da subjetividade dessas, esse exato ponto me instiga enquanto pesquisadora, me acolhe enquanto mulher negra, e me desafia enquanto pesquisadora-negra.
Tricia Rose (1994) diz que o rap é uma expressão das vozes negras à margem da sociedade. Para ela, a narrativa dos(as) rappers são falas de atores(as) e observadores(as) da vida nos grandes centros urbanos que apresentam um modelo “espacializado” das narrativas urbanas. Além da representação|construção do espaço público, o rap também evidencia questões da ordem privada, principalmente na perspectiva feminina dessa produção. O grupo brasiliense Atitude Feminina é um exemplo disso, em sua letra “Rosas” trouxe à tona uma voz protagonista que denuncia a subalternidade e as violências a que foi submetida.
Minha andança literária em busca de acolhimento também foi de encontro à teoria, isso me fez ter contato com autoras que problematizaram a homogeneidade com que o feminismo clássico tratou os olhares múltiplos de muitas mulheres ao redor do mundo. Nada mais, para mim, faz tanto sentido do que a sensação fronteiriça que permeia a problematização da experiência de vida das feministas afroamericanas e chicanas. Glória Anzaldúa, em uma carta endereçada às escritoras negras em formação, abordou as dificuldades que enfrentamos no momento da escrita, a autora imaginou construir um instrumento que nos inspirasse na hora de colocar sobre o papel nossos pensamentos e emoção. Anzaldúa escreveu essa correspondência para uma: “mulher negra, junto a uma escrivaninha no quinto andar de um prédio em Nova Iorque. Sentada em uma varanda, no Sul do Texas, uma chicana que abana os mosquitos e o ar quente, tentando reacender as chamas latentes da escrita. Mulher índia, caminhando para a escola ou o trabalho, lamentando a falta de tempo para tecer a escrita em sua vida. Asiático-americana, lésbica, mãe solteira, arrastada em todas as direções por crianças, amantes ou ex-marido, e a escrita” (ANZALDÚA, 2000, p.229).
Durante todos os fragmentos da carta intitulada “Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo”, Anzaldúa se aproxima de suas receptoras e nos diz que a neutralidade nada mais é do que um argumento forjado pelo homem branco para nos afastar do contato com a pena. Penso que a autora ficaria realmente realizada ao se deparar com o trabalho de quem lança mão do microfone como arma, as meninas do Atitude Feminina partilham da constatação de Anzaldúa que nos alertou sobre o fato de não termos “amigos(as)” nos postos da alta literatura e tampouco temos nosso discurso sendo reverberado e ouvido. A decisão dessas jovens diante do cenário de silenciamento foi a expressão via rap e assim elas iniciam sua música: “A cada quinze segundos uma mulher é agredida no Brasil / E a realidade não é nem um pouco cor-de-rosa / A cada ano dois milhões de mulheres são espancadas / por maridos ou namorados”.
A letra narra a trajetória da personagem que conhece o namorado ainda na adolescência, vive uma paixão a contragosto da mãe e logo sai de casa para viver com esse companheiro. Impulsionada pelos problemas que enfrentava em casa como o pai alcóolatra, muitos irmãos para cuidar, pouca privacidade e pelo desejo de amar e melhorar de vida, a adolescente abraça um sonho e parte em busca de sua realização: “No lugar onde eu morava me sentia tão só/ Aquele cheiro de maconha e o barulho de dominó/ A molecada brincava na rua/ E eu cheia de esperança/ De encontrar no futuro um rapaz”. A letra segue com a jovem ignorando os conselhos da mãe experiente que antevia um futuro violento para sua menina, o refrão da música é a repetição em primeira pessoa da fala da jovem já morta que recebe flores do seu assassino, o namorado, em seu túmulo.

            Não há espaço suficiente aqui para que eu faça uma análise mais aprofundada dessa letra direta e carregada de uma carga emotiva muito pesada. O grupo Atitude Feminina tem uma postura política e alcança o público inserido em uma periferia que enfrenta o abandono dos serviços estatais, que está envolta por toda a sorte de preconceitos e violências, mas que reinventa suas ferramentas de sustentação de maneira habilidosa. O rap surge como uma possibilidade de ecoar vozes outrora sufocadas, de não mais apenas ser objeto de representação alheia, considero isso uma ferramenta importante para os estudos de representação, não temos o mesmo espaço de atuação na literatura, o terreno mais propenso para compreendermos essas representações está em novos objetos literários e isso fere o status de legitimidade literária fomentado pela crítica.
 Anzaldúa nos alertou para o mecanismo discursivo das elites que querem nos afastar da criação literária dizendo ser necessário abandonar a escrita simples, rápida e direta para que possamos escrever. A foice educacional, os anos de negação da nossa autoestima e criatividade não acabaram de vez com a arquitetura do possível. O rap do grupo Atitude Feminina está aí ofertando rosas para quem quiser ouvi-lo. Essas garotas encontraram sua maneira solidária de estarem no mundo, elas desenvolveram uma forma (o rap) dentre as várias que podem ofertar a representação da nossa subjetividade e mostrar que a “escrita de mulheres do terceiro mundo”, para usar o termo de Anzaldúa, nos leva para longe da complacência paralisante.

Para saber mais sobre o grupo Atitude Feminina: http://www.atitudefeminina.com.br/
Para ouvir a música “Rosas”: http://www.youtube.com/watch?v=0h2f6NaEOmI

Andressa Marques é Mestranda em literatura pela Universidade de Brasília, pesquisa a literatura afro-brasileira e o rap feito por mulheres, é também blogueira e colaboradora do site Central Hip Hop. Outras informações:


3 comentários:

  1. Maravilhoso. Sem palavras. parabens!

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  2. Andressa Marques vc permite que o grupo possa postar a sua dissertação no site delas?

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    1. DJ Raffa,
      Sou ocoordenados do Blog. Vou falar com Andressa. Seria possivel passar-me os seus contatos?

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