domingo, 4 de novembro de 2012

Cultura motoboy




Narradores sobre duas rodas

Por Laeticia Jensen Eble

A cidade de São Paulo desde sempre despertou fascínio em seus moradores e nos mais diversos artistas, que não se demoram em tentar retratá-la quer seja na música, nas artes visuais ou na literatura. Da Pauliceia desvairada, de Mario de Andrade (1922), a Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, a cidade é o tema, mas ela só pode ser capturada de forma fragmentada, por meio do olhar que cada personagem dirige para ela.
Recentemente, no álbum Crônicas da cidade cinza, o rapper Rodrigo Ogi também traz, em cada música que compõe seu disco, uma miríade de personagens que perambulam pela cidade de São Paulo: o nordestino que construiu a cidade (“Eu tive um sonho”), o rapaz que sai cedo de casa para procurar emprego (“A vaga”), o ladrão e o policial (dois lados da mesma moeda, em “Por que, meu Deus?”) etc. Em “Profissão perigo”, que tem como narrador um motoboy, o refrão é bastante enfático:

Filho do stress paulistano, dessa cidade maluca
Mas eu já sou veterano, conheço as arapucas
Que esse gigante preparou pra nos capturar
Tem que ser profissão perigo para se salvar

É justamente esse personagem da letra de Ogi que motiva esse texto, numa tentativa de contemplar o universo cultural de uma categoria que, apesar de tão presente, ainda é tão pouco ouvida no que se refere a narrar a cidade. Na apresentação do livro infanto-juvenil Hermes, o motoboy, de Ilan Brenman e Fernando Vilela (Companhia das Letras, 2006), o jornalista Gilberto Dimenstein também afirma: “Se eu tivesse de escolher um personagem que melhor sintetizasse a cidade de São Paulo, escolheria o motoboy.”
Atualmente, estima-se que haja cerca de 500 mil motoboys e motogirls trabalhando todos os dias na grande São Paulo. Eles são necessários e indispensáveis ao funcionamento de uma série de atividades comerciais. Quase todo mundo, algum dia, já usou os serviços de um motoboy, seja para entregar um documento urgente no prazo, trazer o jornal de manhã cedinho, a pizza quentinha ou, ainda, fazer chegar o tão esperado remédio da farmácia. Contudo, estigmatizados e invizibilizados, às vezes só lembramos de que existem quando um deles se acidenta e vira notícia na mídia, não por sua tragédia pessoal, mas por ter sido a causa do trânsito que parou.

Extremamente interessante para se conhecer melhor o lado de quem anda em cima da moto, para além dos estereótipos, é o documentário Motoboys – Vida loca, com direção de Caito Ortiz, lançado em 2003 e eleito pelo público como melhor documentário da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo naquele ano. Conhecendo, por exemplo, uma senhora que ingressou na profissão para conseguir esquecer a dor de ter perdido um filho, entre outras figuras singulares, vamos mergulhando na lógica e nas razões de ser dessa categoria.
O fato de a sociedade em geral ignorar quem está por trás dos capacetes não significa que os motoboys não tenham voz. Os motoboys configuram uma rede muito forte de cooperação. Percebendo isso, o artista plástico espanhol Antoni Abad, responsável pelo megafone.net, criou o Canal*MOTOBOY. O megafone.net é um espaço de expressão para grupos de pessoas em risco de exclusão social. Por meio dos recursos de som e imagem integrados aos celulares, grupos de colaboradores de várias partes do mundo registram seu dia a dia e publicam imediatamente na internet, operação que amplifica a voz de pessoas que são normalmente ignoradas pelos meios de comunicação.
Desde 2004, vinte projetos já foram desenvolvidos: de taxistas da Cidade do México a cadeirantes em Genebra, de prostitutas de Madrid a cegos em Barcelona, os grupos que experimentam esse veículo nos trazem diversas narrativas sob uma perspectiva que, de outra forma, talvez, nunca teríamos.
Em São Paulo, um grupo de doze motoboys participam do Canal*MOTOBOY, registram e publicam o que observam pelos locais por onde passam em sua jornada, e também suas experiências fora do horário de trabalho: a família, os amigos, a cultura, a rua. Um dos responsáveis pelo canal em São Paulo é o ex-motoboy e professor de filosofia Eliezer Muniz (Neka).
Vale muito a pena passear pelas imagens postadas pelos motoboys do coletivo nesses cinco anos de existência. Entre notícias sobre o trânsito e flagrantes de acidentes, cobertura de eventos, denúncias de irregularidades e de injustiças, é possível garimpar imagens que vão, pouco a pouco, construindo uma narrativa que fala muito acerca de quem são esses personagens e de uma cidade que nos escapa. Em uma das postagens, por exemplo, Alexandre denuncia por meio de uma foto e um áudio a discriminação sofrida pelos motoboys em um banheiro público da rodovia Castelo Branco. Segundo ele, os motoboys são proibidos de usar o banheiro porque não pagam pedágio, sendo o banheiro liberado apenas àqueles que pagam pedágio.
Autoretrato, Eliezer Muniz ( Neka)
Eliezer Muniz, por sua vez, compõe um autorretrato, após sua jornada: “Nada como chegar em casa”, diz ele no áudio que acompanha a publicação (26/11/2010). 

Homenagem a Cézanne, Eliezer Muniz( Neka)

Em outra publicação, a bem-humorada referência intertextual a Paul Cézanne, na foto tirada no dia 3/11/2010 é inusitada e provocadora. 


The peppermint bottle, Paul Cézanne

Essas e outras postagens contrastam com as demais por concederem um momento de descontração, mas também acrescentam ao site um ingrediente humano para além do ambiente hostil das ruas.

Na página de Neka encontramos ainda alguns registros que procuram mapear o trabalho de um colega, Izu, que grafita muros e paredes em diferentes lugares da cidade. Sua marca registrada, uma abelha, é uma bela metáfora do trabalho de leva e traz executado pelos motoboys, alimentando a cidade para que esta possa crescer e prosperar.
Abelha-símbolo do trabalho do motoboy grafiteiro Izu pelas ruas de São Paulo
Em 2010, a editora Aeorplano lançou o livro Coletivo Canal*MOTOBOY, organizado Eliezer Muniz, o Neka (coleção Tramas Urbanas, curadoria de Heloisa Buarque de Hollanda). No livro, além de um histórico e apresentação das atividades do canal, também se encontram narrativas de alguns dos motoboys que compõem a equipe. Narrativas de homens e mulheres que contam memórias de infância, falam da paixão pelas motos, de como entraram para a profissão, de suas experiências amorosas. Entre elas, a de Andréa Sadocco Giannini de Oliveira destaca-se pela sensibilidade:

Estive observando a dificuldade que as pessoas têm em lidar umas com as outras. Durante meu trabalho, encontro pichações em muros com frases como “mais amor, por favor”, “o amor é importante, porra!”, “odeie seu ódio, ame seu amor”, frases que me inspiram, e sem perceber fico remoendo o significado destas palavras, assim como também outras que fazem parte do nosso dia a dia sem que percebemos. Ser motogirl é um privilégio? Além de motofretista, sou mãe, filha, tia, catequista, musicista, dançarina e fotógrafa. (...)
Sinto liberdade, o movimento de dirigir é como o de dançar. Podemos reconhecer o sincronismo da dança na natureza e nas ruas, a liberdade está em ver outros lugares e pessoas. Dediquei muitas horas em três anos trabalhando como motogirl, na dança também dedicava muitas horas de ensaio até a exaustão completa.

Mais adiante, Neka também reflete sobre sua identificação com as duas rodas, que lhe deram tudo com o que ele realmente se identifica hoje: “Foi como motoboy que esta vontade de saber tudo me levou a compreender muitas das coisas que sei agora, entrar em contato com alguns aspectos da vida, que antes eu somente ouvira falar.” Em sua parte no livro, Neka revela-se também escritor, pois ao longo de sua narrativa intercala alguns contos que foi escrevendo com o passar do tempo. Um desses contos é “Miltinho”, cujo protagonista, que dá nome ao conto, tinha de, entre suas responsabilidades, cuidar do irmão menor, Cassiano.

O menino tinha uns olhos perdidos no mundo e um tanto deixava para olhar as molecadas das redondezas, que corriam em bando pelos becos da favela em alta velocidade numa gritaria danada. E foi numa tarde abafada dessas que Miltinho entrou pela viela subindo em primeira marcha até o portão de sua casa. Acelerou, antes de desligar. Quando punha a moto para dentro, no canto da laje, ao lado do tanque, era porque tinha que esperar o entardecer, até o horário de a pizzaria abrir. Então tombava no sofá com as pernas abertas. Quando não, deixava a moto travada do lado de fora e entrava rapidamente em casa, bebia algo e já logo saia, outra vez acelerando, deixando um rastro de fumaça pelo ar. Um sentido de gratidão, de quem recebe, e apenas silencia a alma, foi o que sentiu quando passou pelo pequeno Cassiano sentado ali.
O tempo passava, pensou, “logo o menino ia ter que ir a escola”. Um dia perguntou ao menino “se ele não sonhava com o futuro, ser alguém na vida”. O garoto, que tinha os olhos longe, enquanto o irmão inclinava a moto pra medir o óleo, respondeu do ombro da janela: “Se não se sonha com o futuro, morre-se no presente.”
Coisas assim a gente não ouve da boca de um guri. Mas foram estas as palavras do pequeno Cassiano ao irmão motoboy.

Semeando imagens e narrativas como essas, os integrantes do Canal*MOTOBOY estão alcançando seu objetivo de amplificar “a voz de pessoas e minorias ignoradas ou desfiguradas pelos meios de comunicação predominantes”. Estão enriquecendo os olhares sobre a cidade e devolvendo a dignidade a uma categoria cuja autoestima vinha sendo insistentemente degradada. Viabilizar a pluralidade de perspectivas sobre o mundo e atribuir-lhes um valor social através da cultura é essencial à cidadania.

Saiba mais:
Trailer e roteiro do filme Os doze trabalhos, do diretor Ricardo Elias.  Fazendo referência ao mito de Hércules, o filme traz um herói contemporâneo: Herácles é um ex-interno da Febem, um adolescente negro que quer mudar de vida trabalhando como motoboy. Em efêmera interação com seus parceiros e clientes, ele é mensageiro de pedidos de divórcio a ordens de despejo e até de drogas. Mas, apesar de breves, as experiências mostram-se intensas, pois ele testemunha momentos de dor, separação, angústia, sofrimento.
Entrevista com Giuliano Cedroni, roteirista do documentário Motoboys – Vida loca
Clipe de “Profissão perigo”, do rapper Ogi: http://www.youtube.com/embed/mv_Lh5mmbjk

Observação: todas as fotos aqui reproduzidas foram retiradas do site do Canal*Motoboy.


Laeticia Jensen Eble é doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília e integra o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (UnB/Cnpq). Sua pesquisa atual, na linha de pesquisa de representação, detém-se ao movimento hip-hopm como Ferréz, Sérgio Vaz, Emicida, GOG, entre outros.  Para ler a matéria que Laeticia Jensen Eble escrevou sobre o romance  Deus foi almoçar de Ferréz clique aqui.



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