segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A contística de Luci Collin



HETEROGENEIDADE IDENTITÁRIA DA PERSONAGEM CONTEMPORÂNEA EM LUCI COLLIN


Devido à expansão da literatura de autoria feminina registrada nas últimas décadas no campo literário brasileiro, é possível observar a conquista da expressividade da mulher e, consequentemente, o desnudamento dos múltiplos aspectos que comporta a categoria “mulher”. Conforme demonstram as pesquisas empreendidas no âmbito da crítica literária feminista, essa produção literária tem se mostrado sensível ao registro, por meio da representação da personagem feminina, dessa multiplicidade e heterogeneidade identitária. Tais personagens exibem identidades nem sempre concebidas como sujeitos, e muitas vezes fragmentadas, mas quase sempre mais próximas de mulheres reais - nem santas nem pecadoras, e incoerentes como o são os seres humanos. É o que se apresenta na contística de Luci Collin.

A escritora Luci Colin é uma das autoras de maior destaque no Paraná. Nascida em Curitiba, em 1964, é graduada no Curso Superior de Piano, em Letras Português/Inglês e no Curso Superior de Percussão Clássica. Em 1987, estudou na Wright State University, em Ohio, USA. Adquiriu a titulação de Mestre em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a de doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Foi presidente da Cooperativa de Artes no Paraná (1984/85). Recebeu premiações em concursos de literatura no Brasil e nos EUA e representou o Brasil no Projeto Literário da EXPO 2000 em Hannover. Participa de antologias nacionais e internacionais (EUA, Alemanha, Uruguai e Argentina), tendo também traduções publicadas em diversos jornais e revistas. Atualmente mora em Curitiba, é professora de Literaturas de Língua Inglesa na UFPR e trabalha também como tradutora. Possui coletâneas de poesias, contos e um romance. As de poesias são Estarrecer (1984), Espelhar (1991), Esvazio (1991), Ondas e Azuis (1992), Poesia Reunida (1996), Todo implícito (1998) e, Trato de silêncio (2012);  as de contos, Lição Invisível (1997), Precioso Impreciso (2001), Inescritos (2004), Acasos Pensados (2008) e Vozes um divertimento (2008); e o romance, Com que se pode jogar (2011).

De uma forma peculiar, sua ficção chama a atenção à crítica literária pelas opções estéticas de representarem e ilustrarem alguns dos mais significativos códigos estéticos e ideológicos da pós-modernidade. Suas narrativas curtas se afastam de narrativas mestras totalizadas e capazes de representar verdades pretensamente absolutas sobre o universo, fazendo com que seus contos pareçam estar na dúvida a cerca das noções tradicionais de verdade e objetividade.


Em suas cinco coletâneas de contos, Luci Collin deu voz às personagens protagonistas, para que elas relessem o interior fragmentário de suas mentes, representando imagens delas mesmas e como o mundo as cerceia. É neste sentido que são observadas as escolhas da escritora, percebendo em que medida, no contexto do século XXI, essas escolhas endossam, reduplicam, questionam e/ou ironizam os tradicionais papéis e as tradicionais relações de gênero cristalizadas no âmbito do patriarcalismo. Essas personagens cumprem trajetórias que se cruzam entre si, representando um mundo que vai além das construções sociais, centrando também no interior humano, projetando suas vidas, seus objetivos, seus conflitos, suas utopias e suas dificuldades.


Os contos de Luci Collin, em sua maioria, não apresentam a época em que a narrativa se insere, o que pode tanto ser uma das características do conto pós-moderno como resultar das escolhas da autora para situar suas narrativas num universo literário atemporal. As personagens são, em sua maioria, femininas, e os contos, igualmente, são narrados por personagens femininas. Predominam personagens heterossexuais e das faixas etárias da juventude e da idade madura. Ainda há a presença significativa de mulheres representadas no meio doméstico, mesmo que façam parte das classes média e alta.

As personagens trazem como temática dos contos toda esta dinâmica das relações amorosas contemporâneas, de pertencimento e não pertencimento, de dominador e dominado, de objetificação versus  subjetificação, de fazer amor versus fazer sexo, desejar e não desejar, o que é certo e/ou errado, etc. Este é o tema central dos contos: o relacionamento amoroso. Dessa forma, essas personagens vão além de ideologias sociais, políticas e religiosas, para então, começarem a construir as suas ideologias, que também se encontra em construção.

Ao mesmo tempo em que a autora mantém determinado padrão literário, ao representar figuras e identidades construídas pelo cânone literário, ela subverte esse padrão representando personagens fragmentados por uma sociedade pós-moderna, ao deixar brechas e "não ditos" propositais, conferindo ao seu texto um tom de sugestão que, muitas vezes, diz mais do que se fosse explícito. O resultado é um texto denso, prenhe de posturas críticas que caminham no sentido da contracorrente, expresso por uma linguagem irônica, carregada de humor.


Um pouco de leitura


IMAGENS DESABRIGADAS
por Luci Collin
às quatro. encontrar-me-ei com ela às quatro, conforme me disse. conforme eu disse a mim mesmo. conforme mentiu. às oito estarei ainda lá esperando? e qual relógio poderá afirmar: são quatro? meu relógio é de ouro e tem até aquela corrente mas esqueço de dar corda, me esqueço da sequência das horas. quantos minutos são necessários para que cada coisa se faça? na verdade um dos ponteiros caiu há muito, muito mesmo. ficou solto ali dentro daquele visor encardido. sim, é um relógio antigo e guarda o tempo passado. todas as horas são um punhado de grãos indistinguíveis. mas sei que quando o coronel sai e bate a porta daquele jeito são três em ponto. encontrar-me-ei com ela às quatro.
conforme disse, o lugar deve ser este. conforme combinamos. mas advertiu que mentia. mas não acreditei que mentia. mas não acreditei que fosse capaz de mentir. por isso vim. por isso estou aqui. e são talvez já oito horas. não neste meu relógio indolente. nos outros relógios do mundo são oito. serão nove, quem sabe? neste relógio que observo, tendo há muito esquecido qual dos ponteiros se perdeu, o tempo é sempre um caminho impossível. conforme menti a mim mesmo ela estaria aqui, conforme eu quis acreditar que jamais mentiria. são oito. punhado de intraduzíveis. não, ela não veio. e já que sempre me esqueço a sequência das horas, não importa se está atrasada – não significa que não vem. num relógio como o meu, de ouro e com aquela corrente, quatro pode ser imediatamente depois de oito. e isso quer dizer que encontrar-me-ei com ela daqui a pouco.
na verdade ela jamais disse que estaria aqui na hora combinada. eu é que inventei um horário. ela nem tem relógio! nem relógio ela tem! como poderia combinar um encontro comigo ou com qualquer outro alguém!? dei a ela um pequenino relógio com uma delicada pulseira. ela recusou. anos atrás. jamais quis aceitar presentes. e eu sempre a insistir, reconheço! lembro-me que tive que devolver à loja aquela gaiola com o casal de canários. anos atrás. punhado de impermanências. não quis o relógio e não quis os canários e nem o chapéu lilás que ofereci e nem as luvas e nem o pequeno lenço de seda e nem o livro de sonetos e nem o terço de madrepérolas e nem aquele abajur estampado com motivos orientais e nem o jarro de porcelana pintado à mão e nem a caixinha adamascada e nem o exótico vidro de perfume e nem a estatueta de jade e nem os chás importados e nem o colar de coral. e não tendo aceito o relógio jamais poderia estar aqui na hora combinada. se chegasse, eu poderia suspeitar que um dia aceitou um relógio, delicado ou não, de algum estranho. mas não de mim.
às cinco não aguentei e descasquei uma das laranjas que iria oferecer. às seis aquele gato esquisito sentou-se aqui ao meu lado. às sete três moças passaram apressadas para apanhar o bonde e eu soltei as flores que segurava. às oito uma folha de jornal perdida foi sendo arrastada pelo vento e eu acompanhei seus movimentos sem sentido. às nove minha cabeça começou a doer e os meus pés começaram a latejar. às dez uma sirene soou e não consegui distinguir de onde vinha aquele som. às onze garrafas foram quebradas no beco. à meia-noite uma criança pequena começou um choro monótono e depois o pai da criança começou a berrar. à uma hora eu olhei para o céu. às duas não aguentei e descasquei uma das flores que iria oferecer. às três aquela folha de jornal sentou-se aqui ao meu lado. às oito cinco moças saídas de um baile passaram apressadas em direção ao vento. às nove eu soltei as laranjas que segurava e acompanhei seus movimentos sem sentido. às dez um gato começou seu choro monótono e depois minha cabeça começou a latejar. às onze não consegui distinguir aquele som que veio do beco e olhei para os meus pés. ao meio-dia o pai da criança passou apressado para apanhar as garrafas. à uma o céu monótono será quebrado mas o som será confundido com aquele da sirene. às duas meus pés pararão de berrar. às duas e trinta a criança terá virado um homem esquisito que passa em direção à folha de jornal. às três em ponto o coronel sai, meus pés, então, conseguirão partir. às quatro, conforme me disse, mentirá.
outra vez.
conforme me disse.
conforme eu disse a mim mesmo. meu relógio é de ouro e tem até aquela corrente. esqueço de dar corda. esqueço a sequência das horas. um dos ponteiros caiu. sai e bate a porta daquele jeito. o lugar deve ser esse. nos outros relógios do mundo. encontrar-me-ei.
um relógio afirmou:
às quatro.
Fonte website da escritora : http://lucicollin.com.br/
Alguns links sobre Luci Collin:

MAXIMIANO DE MOURA, Andiara. Representação e  ideologia: a personagem na contística de Luci Collin. Dissertação de Mestrado, Universiade de Maringá, 2012.

TEIXEIRA, Níncia Cecília Ribas Borges, Escritas de mulheres e a (des)construção do cânone literário na pós-modernidade : cenas paranaenses.Guarapuava: Unicentro, 2008.

Sobre Acasos Pensados, por Níncia Borges Teixeira
 Sobre Inescritos, por Nelson de Oliveira
“Dor e bom humor”, Bernardo Ajzenberg (sobre Lição invisível)
“Solidão e soliedariedade em concerto”, Vilma Costa (Sobre Vozes num divertimento)
Entrevistas :
Entrevista em aúdio a Margarida Patriota
Entrevista em aúdio a Margarida Patriota
A escritora Luci Collin lendo texto inédito de sua autoria no Teatro Paiol (Junho/2009)

Profa. Lucia Zolin e Andiara M. de Moura 
Andiara Maximiano de Moura possui Mestrado em Letras pela Universidade Estadual de Maringá (2012), no campo dos Estudos Literários, mais especificamente em Literatura e construção de identidade, tendo sido bolsista pela CAPES. Graduou-se, pela mesma instituição, em 2009, no curso de Letras - Português/Inglês e respectivas literaturas. É integrante do Grupo de Pesquisa "Literatura de Autoria Feminina Brasileira - LAFEB", da UEM; "Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea", da UNB; e do curso de extensão "Apoio à Escolaridade - com Enfoque Pré-Vestibular", da UEM. Atualmente, é professora de literatura e produção textual.



3 comentários:

  1. Às quatro... felicito a escritora.

    http://isabelmontes-poemas.blogspot.pt/

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  2. Ocheee, olha minha orientadora diva ali! E minha colega Andiara o/
    Luci Collin é excelente escritora.

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