segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A arte nunca é inútil

Foto de Sandra Bernardo
Artistas portugueses mobilizam-se contra a expulsão dos moradores do Bairro Santa Filomena em Lisboa

Mickaël C. de Oliveira (*)

« O gueto sempre esteve em crise. Portanto, a situação atual não é novidade para nós, mas só irá piorar sendo nós os primeiros a pagar esta crise com mais pobreza e repressão nas ruas. » Assim se exprimia o conhecido rapper português Chullage, à margem da manifestação do 15 de outubro contra a austeridade. A situação atual, de que tanto fala este nativo da Arrentela, é mais que desesperante no caso do bairro de Santa Filomena. Habitantes em maioria de origem cabo-verdiana com rendimentos mínimos de 250-300 euros, ameaçados de despejo. Emocionados e revoltados contra essa ameaça permanente, Ana Santos e Diogo Doria, alunos finalistas de Design de Comunicação da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, decidiram dar outra visibilidade a este bairro, em vias de ser demolido.
Arte mural no Bairro de Santa Filomena
Se a força das suas imaginações não deverá ser suficiente para evitar a invasão das escavadoras e o consequente despejo dos habitantes dos bairro, os dois artistas decidiram « atribuir um rosto e uma voz aos moradores, e reproduzi-los nos muros do bairro. » O projeto #65, segue o artigo de lei que diz entre outras coisas o seguinte : « Não pode haver despejos sem alternativas dignas para as famílias. » Os habitantes, eles, acolheram o projeto com grande entusiasmo, mesmo que pareça à primeira vista um pouco utópico. « Tínhamos sofrido uma derrota no final de Julho com o despejo de várias famílias, todos estavam cansados e desanimados. Existem muitos preconceitos à volta de Sta Filomena, mas também à volta dos conceitos de "bairro ilegal", "imigrantes"... O projeto deu uma nova esperança aos moradores e ajudou a sensibilizar o público ao facto de que não é um ‘bairro de lata’ que vão derrumbar, mas mulheres, homens, crianças, idosos, adolescentes, pessoas às vezes doentes ou deficientes, que perdem o que construiram (literalmente e metaforicamente) durante anos. Não é só um desastre material que põe em perigo a dignidade e a vida das pessoas, mas também uma situação de uma grande violência psicológica”, confia-nos Morgane Masterman, uma das forças vivas do Coletivo Habita, e uma das porta-vozes do bairro de Santa Filomena. “A arte nunca é inútil, continua. Estávamos justamente a precisar de ideias novas, de algo de novo para encarar a situação. Claro, não deu teto às pessoas que já o tinham perdido. Mas as pessoas estavam felizes por poderem contar a história delas. O Diogo e a Ana tiveram uma grande sensibilidade e acho que fizeram algo de muito importante para essas pessoas. A nível artístico e humano.” Se outros artistas como o VHILS costumam deixar marcas por onde passam criando rostos de anónimos, aqui a ideia do Diogo e da Ana era mesmo escolher rostos de residentes do bairro. “Os rostos nas paredes são das próprias pessoas que vivem atrás daquelas paredes. Era como dizer : ‘Quando mandam esta casa abaixo, mandam-me a MIM também’. Não fazia sentido pôr pessoas de fora. Era justamente mostrar quem está escondido atrás dessa parede.”
Arte mural no bairro de Santa Filomena
Morgane conta como começou a luta ao lado do bairro. “O Habita foi criado há uns meses atrás, quando moradores de Santa Filomena ligaram para uma das ativistas para avisá-la da situação e pedir ajuda. Várias pessoas do coletivo eram do DAH (Direito à Habitação) e têm imensa experiência na área do direito à habitação, nomeadamente em lutas parecidas noutros bairros (na Amadora, em Loures, Cascais...). Somos um núcleo de 8 pessoas cada um com um percurso e capacidades diferentes... Tivemos que responder à situação de urgência em Santa Filomena durante o verão. Devido às poucas condições que temos, não conseguimos fazer mais nada! Os moradores de Santa Filomena também ganharam autonomia e estão a organizar-se, continuamos a apoiá-los e a acompanhar de perto a situaçao neste bairro, mas também estamos a trabalhar outras questões ligadas ao direito à habitação, por exemplo a nova lei sobre o crédito à habitação”.
Franco-britânica, a Morgane não desiste e tem um orgulho especial por fazer parte deste momento único que atravessa Portugal. Uma adaptação perfeita que também teve lugar no bairro da Amadora, onde rapidamente se entendeu bem com toda a gente (tirando os problemas linguísticos) : “Não tirei crioulo cabo-verdiano na escola! Com certas pessoas foi mais fácil que com outras , é normal, vais tocar na vida delas, na privacidade das famílias, ainda por cima numa situação de luta. Mas foi muito natural, foi mais fácil do que teria pensado.” A pouco e pouco, a bretã deixou de ir com regularidade ao bairro, confiante no destino dos quase 400 residentes. Até receber a chamada de Eurico, um dos membros mais ativos da Comissão do bairro. “Disseram às pessoas para deixar as suas casas. ‘todas as construções acima da capela estão em risco e nenhuma solução será proposta aos habitantes não-incluídos no PER, Programa Especial de Realojamento, apresentado em 1980 e que visava a erradicar todos os bairros de lata do Porto e de Lisboa.”
Foto de Sandra Bernardo
Mas outra situação também explica este despejo repentino, algo que nos lembra curiosamente aquilo que se passou antes da Expo 98. «Na colina, uma residência novíssima. Ao lado, palmeiras, centros de fitness… e sobretudo uma petição a circular para que as pessoas do bairro de lata sejam expulsadas o mais rapidamente possível, e porque não “para os países deles.”  Estes portugueses, de quem ninguém fala, não fazem capa de jornais, nem passam na TV. Não emigram porque simplesmente não o podem. “A situação atual não é novidade para nós, mas só ira piorar sendo nós os primeiros a pagar esta crise com mais pobreza », dizia Chullage…

Todas as fotografias foram retiradas do site do Coletivo Habita. 
Mais informações sobre no site : http://www.habita.info/

(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne (Paris-IV), sempre teve como objetivo principal a divulgação das artes portuguesas, mas, sobretudo, a promoção de artistas emergentes ou simplesmente não conhecidos. Colaborador do LusoJornal em Paris, do blogue BandCom, consagrado à nova música portuguesa em Lisboa, e também do website francês Chronofoot, pretende estimular e criar laços entre mundo lusófono e francófono. Neste espaço, consagrado às culturas urbanas, o Mickaël pretende mais dar voz aos que não têm uma projeção mediática ao nível do seu talento. Mickaël C. de Oliveira é também escritor e colabora para o Blog Estudos Lusófonos. Para outras informações e contatos, consultem os links : 







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