segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Um dedo de prosa com J. Borges


Um dedo de prosa com J. Borges


Este mês o blog Estudos Lusófonos  foi até Bezerros em Pernambuco para encontrar J. Borges. Assistam ao depoimento do maior xilogravurista brasileiro em que ele conta o seu amor pela literatura de cordel.

Percurso

José Francisco Borges nasceu a 20 de dezembro de 1935, no município de Bezerros, distante 95 km de Recife, capital pernambucana, no Nordeste do Brasil. Cidade de clima ameno, Bezerros naquela época era, segundo as palavras do próprio artista, um lugar onde "telefone era grito e remédios eram chás de folha de mato". Na família Borges, como tantas outras com mais de uma dezena de crianças, a meninada começava a trabalhar cedo. Com oito anos de idade, José Francisco já trabalhava na terra com o pai.
Um dia, as coisas começaram a mudar, como conta o próprio artista, no livro Memórias e contos de J. Borges, editado pela Gráfica Borges: "O que eu mais almejava na vida era aprender a ler e escrever, e um domingo eu estava numa venda que havia na região quando chegou um jovem que ensinava particular, num sítio vizinho. E o meu pai perguntou a ele assim: "David, na tua escola ainda cabe um burro?". Ele respondeu: "Cabe sim, seu Joaquim". Aí, meu pai me disse: "Olhe, seu pedaço de corno. Amanhã você vai para a escola, mas se fizer coisa errada eu mato você". O menino nem dormiu de tanta ansiedade. Os estudos, porém, só duraram 10 meses, tempo suficiente para J. Borges aprender a ler, escrever e fazer contas. Nunca mais voltou pra escola. "Daí em diante já fui explorar a pequena leitura que até hoje me serve, e procuro sempre cultivá-la ainda aprendendo", costuma dizer.
Na infância ainda, José Francisco trabalhava na lavoura e fazia cestos e balaios pra vender na feira. Na adolescência, atuou no jogo do bicho, fabricou lajes e tijolos e confeccionou brinquedos. Durante a década de 1940, sem rádio e sem televisão, a única forma de se conseguir informação e diversão no agreste pernambucano era pela leitura dos cordéis. Foi nesse ambiente que o então menino José Francisco Borges começou a se interessar pelos relatos do folclore nordestino e situações do cotidiano da população pobre daquela região que eram publicados em panfletos ilustrados com xilogravuras e vendidos nas feiras locais. "O cordel em mim nasceu desde criança", conta o autor de cordéis e xilografista, conhecido como J. Borges
Foi em 1956, que pegou o primeiro lote de folhetos para vender. "Sempre fazendo mais fé na poesia, abandonei todas as outras profissões para me dedicar à literatura de cordel", conta. Com 29 anos de idade, resolveu que iria escrever cordel. Nascia assim O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina, que tem na capa uma xilogravura do Mestre Dila. O primeiro cordel de J. Borges foi um tremendo sucesso: vendeu mais de cinco mil folhetos.
Foi preparando o original de O Verdadeiro Aviso de Frei Damião Sobre os Castigos que Vêm que o poeta se transformou em artista plástico. Sem dinheiro para pagar um ilustrador, J. Borges decidiu ele mesmo entalhar na madeira a fachada da igreja de Bezerros. Nunca mais parou. Começou a fazer matrizes por encomenda e também para ilustrar os mais de 200 cordéis que lançou ao longo de todos estes anos. Foi descoberto por colecionadores e marchands. Seu trabalho levado aos meios acadêmicos do País. Durante a década de 70, J. Borges começou a ampliar os horizontes de sua obra, gravando matrizes dissociadas dos cordéis, com grandes dimensões.
A partir daí, a obra de Borges passou a ser exposta também no exterior. Em 1992, pôde ser vista na Galeria Stähli em Zurique e no Museu de Arte Popular de Santa Fé, Novo México. Novas exposições foram organizadas na Europa e nos Estados Unidos. J. Borges tornou-se uma referência. Foi condecorado com Comenda da Ordem do Mérito, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, recebeu o prêmio UNESCO na categoria Ação Educativa/Cultural. Em 2002, foi um dos treze artistas escolhidos para ilustrar o calendário anual da ONU. Sua xilogravura A Vida na Floresta abre o ano no calendário.
Apesar de tanta visibilidade, J. Borges continua levando a vidinha que sempre quis levar, na pacata Bezerros, ao lado da família e dentro do ateliê. Segue escrevendo e entalhando a madeira. E confessa saber que o reconhecimento é fruto de um enorme esforço pessoal. Diz o artista, dando a receita: "Eles vêem o meu trabalho como peça de arte, mas para isso acontecer eu tive que enfrentar muitos anos de luta com otimismo e esperança de vencer as dificuldades que me apareciam ao longo dessa trajetória. Para isso eu tive que ter paciência, humildade, coragem, fé no ramo e cabeça fria".

Fonte: Revista Sim



Parcours

José Francisco Borges est né le 20 décembre 1935 dans la municipalité de Bezerrosà 95 km de Recife, capitale du Pernambuco dans le Nordeste brésilien.  Ville au climat tempéré, Bezerros était à l’époque, selon les propos de l’artiste, un endroit où «le téléphone était un cri et la médecine des infusions de feuilles de bruyère». Dans la famille Borges, comme dans tant d’autres familles comptant une tripotée d’enfants, le travail commençait tôt. A huit ans, José Fransisco était déjà aux champs avec son père.

Un jour, les choses ont commencé à changer, ainsi que le raconte l’auteur dans son livre Memórias e contos de J.Borges, publié par Gráfica Borges : «Ma plus grande motivation dans la vie était d’apprendre à lire et à écrire, et, un dimanche, dans un marché de la région, je suis tombé sur un jeune d’une ferme voisine qui donnait des cours particuliers. Mon père lui a alors demandé : «David, les ânes sont-ils admis dans ton école ?». Il a répondu : «Bien sûr, moi Joaquim.». Ah, me dit mon père : «Regarde bougre d’âne. Demain, tu vas à l’école, mais si tu fais des bêtises, je te tue.» D’angoisse, le gosse n’en dormit pas de la nuit. Pourtant, les études ne durèrent pas plus de dix mois, mais ce fut suffisant pour que J. Borges apprenne à lire, à écrire et à compter. Il ne retourna plus jamais à l’école. «Depuis la lecture ne me quitte plus, elle continue de m’accompagner et aujourd’hui encore, j’essaie de la cultiver en apprenant»

Toujours dans son enfance, José Fransisco labourait et tressait des corbeilles et des paniers pour vendre dans les foires. A l’adolescence, il travaillait pour la lotterie des animaux, fabriquait des dalles et des briques et confectionnait des jouets. Dans les années 1940, sans radio ni télévision, le seul moyen de rompre l’isolement culturel et de se divertir dans la société rurale du Pernambuco était de lire de la poésie populaire, la littérature de cordel. C’est dans ce contexte que le jeune garçon s’est intéressé  aux contes populaires du folklore nordestin et à la vie quotidienne de ses habitants, publiés sous forme de brochures illustrées par des gravures sur bois et vendus sur les marchés locaux. «Cette forme de littérature me vient de mon enfance», raconte l’auteur et  xylographiste désormais connu sous le nom de J. Borges.
C’est en 1956 qu’il est tombé sur le premier lot de brochures à vendre. Il raconte qu’ «ayant de plus en plus foi en la poésie, (il) abandonna tous les autres métiers pour se consacrer à la littérature de cordel». A 29 ans, il décide d’en faire sa profession. C’est ainsi que O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina voit le jour, illustré d’une gravure de Maître Dila en couverture. Ce premier conte de J. Borges rencontre un énorme succès : plus de cinq mille brochures vendues.

Depuis, le travail de J. Borges a fait le tour du monde. En 1992, ses oeuvres ont été exposées à la galerie Stähli à Zurich et au Musée d’art populaire de Santa Fé au Nouveau-Mexique. Suivies d’autres expositions en Europe et aux Etats-Unis. J. Borges est devenu une référence. Il a reçu la Décoration de l’ordre et du mérite des mains du président Fernando Henrique Cardoso et a reçu le prmier prix de l’Unesco dans la catégorie Action éducative et culturelle. En 2002, il a afit partie des treize artistes sélectionnés pour illustrer le calendrier annuel de l’ONU.  Sa gravure, A Vida na Floresta, illustrait le premier mois du calendrier.
Malgré son succès, J. Borges continue de mener la vie qu’il a toujours aimée auprès de sa famille et dans la tranquillité de son atelier de Bezeros. Il continue d’écrire et de tailler le bois. Et il confesse que la reconnaissance est le fruit d’un long effort personnel. «Ils voient mon travail comme une oeuvre d’art, mais pour en arriver là, j’ai dû affronter beaucoup de difficultés au fil des années et me battre avec optimisme pour en venir à bout. Pour cela, j’ai dû m’armer de patience, d’humilité, de courage, et garder la foi et la tête froide». 

Traduction : Catherine Charmant-Leber

A chegada da prostituta ao céu
(trecho)

Do rosto da poesia
eu tirei o santo véu
e pedi licença a ela
para tirar o chapéu
e escrever a chegada
da prostituta no céu

Sabemos que a prostituta
é também um ser humano
que por uma iludição
fraquesa ou desengano
o seu viver é volúvel
sempre abraça a o engano

Vive metida em orgia
e cheia de vaidade
é raro uma que trabalha
e usa honestidade
por isso fica odiada
perante a sociedade


Todas as religiões
pra ela escala uma pena
se o homem lhe abraça
a mulher casada condena
mas sabemos que Jesus
perdoou a Madalena

Falar sobre prostituta
é um caso muito sério
que é um ser sofredor
sua vida é de mistério
e para sobreviver
sempre usa o adultério

Perante a sociedade
ela é marginalizada
existe umas mais calmas
e outras mais depravadas
e quem tem mais ódio delas
é a própria mulher casada

Ela vive aqui na terra
enfrentando um sacrifício
se vende para os homens
muitas se entrega a o vício
enquanto nova se estraga
e faz da miséria ofício

Aconteceu que uma delas
morreu em um certo dia
e pela vida que levava
o povo sempre dizia
ela vai para o inferno
pêlos atos que fazia

Assim que foi enterrada
a alma se destinou
querendo ir ao céu
mas primeiro ela passou
pelo portão do inferno
e o diabo lhe acompanhou

Saiu correndo atrás dela
dizendo vem cá bichinha,
um bocado como tu
faz tempo que aqui não vinha
e eu estou gamadão
nesta garota novinha

Mas na carreira que iam
o diabo e a prostituta
passaram no purgatório
e no sindicato das puta
e lá no portão do céu
foi que começou a luta

(continua....)  
HISTÓRIA DO HOMEM DO PORCO



        Um matuto muito otário
que nunca aprendeu a ler
criou um casas de porco
dizendo ser pra comer
matou a porca e o porco
e foi pra feira vender.

        Chegou na feira cedinho
arranjou uma barraquinha
colocou a carne em cima
e gritou a carne é minha
um freguês pergunta o preço
da carne da bacurinha.


        Disse ele: a porca é da mulher
e o porco é todo meu
o preço do porco é o da porca
passou o dia e não vendeu
e já pela tardezinha
um comprador apareceu.

        O comprador lhe falou
a carne é do meu agrado
eu compro a porca e o porco
se o senhor vender fiado
o meu nome é Sou-Eu
o negócio está fechado.

        
O matuto disse: está
você é um bom freguês
o homem disse: eu comprei
toda carne de uma vez
e garanto lhe pagar
daqui para o fim do mês.

        O pobre homem foi embora
sem a carne e sem dinheiro
em casa disse à mulher:
encontrei um companheiro
que comprou-me a carne toda
e paga no fim de janeiro
    
A mulher disse: tu és
um otário convencido
depois de tanto trabalho
dá o ouro ao bandido
mesmo assim eu quero o meu
para comprar um vestido.

        Quando passou mais de um ano
numa noite calma e fria
o matuto viajou
e passando uma travessia
na mata escura ele viu
gente que vinha ou que ia.

        E com medo gritou
de lá alguém respondeu
não tenhas medo colega
quem está aqui sou eu
o homem encostou e disse:
eu quero o dinheiro meu.






Disse o homem : qual o dinheiro
que o  senhor diz que quer
ele disse: do meu porco
e da porca da mulher
você agora me paga
dê o caso no que der.

        A quem eu vendi a carne
disse: que era sou eu
você respondeu agora
que esse é o nome seu
e por isso me pagas logo
a carne que tu comeu.
     
O homem pagou a pulso
sem comer e sem beber
apertado no punhal
sem poder se defender
deu o dinheiro que tinha
pra se livrar de morre.





Alguns links

Artigos
Artigo de Rodrigo Bento Correia. “A Literatura de Cordel e Xilogravura: interfaces de representação do imaginário popular”

Artigo de Maria Aparecida dos Santos. “J. Borges – A arte da Xilogravura”, in : Revista educação, São Paulo, v.(4) n.(1), 2009.

Artigo de Clarissa Loureiro. “A Importância das capa na simbolização da literatura de corder ao longo de sua história.” In : Linguagens - Revista de Letras, Artes e Comunicação  ; Blumenau, v. 4, n. 3, p. 260-271, set./dez.  2010

Artigo de Maria Ângela de Fada GriIlo, “Da cantoria ao folheto: O Nascimento da literatura de cordel nordestina”. In: Cadernos de estudos sociais, Vol. 24, N° 2 (2008)

Entrevistas :
Documentário de Mauricio Corrêa da Silva
(Prêmio Sistema de Incentivo a Cultura SIC - Sec de Educação e Cultura Gov. Pernambuco)

Domumentário realizado pela Galeria estação (2011) http://galeriaestacao.com.br

Entrevista a Arthur Lobato ( 22 de Setembro de 2008)

J. Borges e Eduardo Galeano

J. Borges : a leitura e o cordel

Entrevistas a Renato Lima do Café Colombo  : (http://www.cafecolombo.com.br)

Outras páginas:


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