sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Meia-volta, volta e meia



Meia-volta, volta e meia


Wladyr Nader

— Eu sempre fui um puta cara de esquerda, está bem?
— Por que você diz isso?
— Por sempre enxergar longe e agir de acordo. Previam encrenca, me convocavam. Sempre previam encrenca, mesmo quando não previam, se é que me entende.
— Que mais?
— Reapareceram outro dia, ouviu, disfarçando as barriguinhas com as camisas pra fora das calças, em tese pra não dar na vista. Já, quanto aos cabelões e cavanhaques, retórica pura ligada aos apregoados bons tempos que na certa hão de arrastar desta aqui para a chamada melhor.
— Até pela idade, hipoteticamente não conheço nenhum deles.
— Com certeza, são caras bastante antigos. Falaram curto e grosso que não admitiam recusa, que recusar significava trair. Repetiram diversas vezes que se tratava de ideais da juventude, que precisavam reengrenar, aprontar alguma. O diabo é que isso acontece trinta e tantos anos decorridos, quando o mundo anda mais aos trancos e barrancos do que nunca.
— Compreendo.
— Compreende? Somente que nem imagina do que minha velha turma era capaz. Houve tempo, em plena ditadura, que não passávamos uma semana sem pichar um muro da cidade. Ou melhor, muro, parede, porta, fosse o que fosse.
— Devem ter enfrentado paradas duras, vocês.
— Para ser sincero, nunca de fato aquela da pesada, daí o faniquito. Agora quem falou que na democracia ou nos tempos democráticos, como supostamente os de hoje, não nos pegariam de surpresa? Lógico que sim.
— Sob quais acusações?
— Pichação indiscriminada, ora! Hoje nem dá pra rabiscar ianques, fora! ou abaixo o imperialismo!, porque ninguém ligará a mínima.
— Portanto a tendência é a acomodação? Veja, estou bancando o advogado do diabo justo pra colaborar. Para ajudá-lo a pôr os pontos nos is, fazer melhor juízo da situação e perceber o que anda ou andava pela cabeça do pessoal. Ajudo?
─ Adiantou resmungar que me faltava pique, verdade verdadeira, que me sentia enferrujado, que os cabelos brancos possuíam um sentido, no fundo a decantada acomodação? Nem pensar em cair fora, sentenciou meu amigo Mário, que a esta altura já manca da perna esquerda por excesso de peso, cem quilos pra mais,  acho, pra modestos um metro e setenta.
— Certo.
— O sexto telefonema deles foi a conta, quebrou o gelo, fiquei de quatro: eu não tinha nada a perder ou, se tinha, argumentaram, era  porque me corrompera. Tentei rejeitar o plano, ir pra cima, tive dó. Enfim acreditei que uma vezinha só não tiraria pedaço e que valia a pena dar ao grupo aquela esperança em nome da camaradagem. Acertamos os ponteiros, sabendo eu que não iríamos longe, nós, os desmiolados de ontem posando de recauchutados. Também reconheço que hajam crescido as justificativas deles, a que não prestei grande atenção. Para aquela gente, eu deveria me comportar à maneira de um mito, pela breve fama adquirida na política estudantil. Exatamente eu! Eis o que faltava pra me convencer. Covardia não casava com a personalidade deste cidadão aqui, etc. e tal, enfrentara lances arriscados, insistiram ─ quais, me pergunto agora encafifado? ─, e os superara sem qualquer hesitação. Fiz questão de lembrá-los de que a própria vida me assustou, eles riram, contra-atacaram com piadinhas. Quando se nasce líder, é uma bosta.  Ou seja, deixei de ver pormenores negativos na ação que combinamos pra uma semana depois. É que, por haver embarcado em várias canoas furadas, virara um ressentido, avesso a progressistas dos mais criativos matizes, alegaram, não recordo se em conjunto ou dois ou três. No fundo, acabei sem um norte, sem gás, larguei mão, desculpando-me particularmente só pra constar, mesmo quando não enxergava como fazê-lo.
— Você passou a tecer uma série de considerações e aí perdeu o fio da meada, o relato não avança.
— Pra compensar usarei o expediente de afirmar que a certa altura puxei o freio de mão e grunhi algo do tipo espere aí, gente, esse negócio vai gorar! Suponho que a turma inteira parou pra refletir sobre a questão, parou, sim, e em tese chegou à unanimidade: maluquice pura, eventualmente divertida. Os tipos, entretanto, bateram o martelo sob um ângulo diferente. Foda-se!,  gritou um e o resto seguiu. Por tal razão é que, vestida a carapuça de indiferente, me dispus a aguardar sentado as instruções daqueles velhos camaradas, pensando com meus botões. Têm ao menos uma vantagem os botões de nossa existência: são bons ouvintes até mesmo nas desgraças e não precisam dar-se ao trabalho de propor uma ou outra sugestão às criaturas e exagerar nos argumentos. A gente escapa aqui e tropeça logo adiante, esfacelando-se de repente numa emboscada solitária. Concordo, entretanto, que ninguém tem obrigação de ficar atento a analogias, pra não sucumbir neste que se tornou, pelos naturais avanços tecnológicos, o mais mecanizado dos períodos da humanidade. E isso vai piorar. Ou seja, meu manancial de restrições, pra rebater qualquer proposta deles, afastando a loucura de suas lindas cabecinhas, fora insuficiente, caíra por terra. O reencontro seguido da ação, como a ela se referiam, acabou marcado para o velho bar da alameda Santos que frequentávamos quando ainda tínhamos uns pares de ilusões.
— Daí vocês armaram todo aquele rebuliço e salve-se quem puder!
— Não foi efeito da bebida, juro. Escolhemos a praça do Belenzinho, o metrô ali mesmo, porque, digamos assim, já havíamos agido no pedaço em outros carnavais. Pichamos a praça toda, de fio a pavio, não escapou a menor portinha. Aí naturalmente baixou a polícia, que nos apanhou com a boca na botija enquanto procurávamos esconder tintas e pincéis. No entanto um detalhe sou forçado a reconhecer: nenhum deles deu no pé, além do que ouviram  calados o sermão oficial. Fui obrigado a jurar por minha mãe que obra nossa só tinha sido um murinho lá perto, a troco de banana. Estética, falei, por uma questão de estética, o que quer que significasse isso .  Julgo que engoliram nossa admissão de culpa pra não complicar o negócio. De qualquer forma não pudemos descartar o amável convite de comparecer ao distrito.
— E como é que a coisa virou uma festa do bairro, em plena madrugada?
— Porque, como você não ignora, a polícia é muito escandalosa, adora aparecer. De repente até os que estavam enganchados nos braços de Morfeu deram as caras ou surgiram à janela. Não poderia faltar bateria, claro, e veio de um canto qualquer que não consegui detectar. De manhã soubemos que um pessoal  ainda sambava numa rua do Brás e de passagem pintamos por lá.
— E a história acabou bem, suponho, porque vocês não são  nem por sombra criminosos comuns. Ou minha conclusão é equivocada?
— Só para você ver, como acabamos na delegacia, eu, óbvio, é que precisei responder às perguntas idiotas de um investigador pra lá de grosso, o delegado não quis se misturar com a gente, nem apareceu. O tipinho tinha menos de um metro e sessenta e era nervoso demais pro meu gosto, foi perspicaz e mandou a primeira pergunta rindo em nossa cara: "Que diabo quer dizer abaixo esta democracia de araque!, que vocês picharam lá? Por acaso são uns revolucionariozinhos de meia-tigela, de bosta, que ficam brincando em serviço?" Imagine o que me passou pela cachola no  momento e o esforço que fiz pra não partir pra cima dele! Além do que, eu queria era esganar meus companheiros. Aí, pausadamente, me defendi alegando que havíamos tomado pra umas e outras embebidos do veneno do álcool, que havíamos ultrapassado os limites do convívio humano e resolvido provocar um corintiano imbecil da turma que havia dito que palmeirenses e são-paulinos reuniam a escória das torcidas organizadas etc., etc. Escutou direitinho, procurei sair pela tangente do futebol, já que inexistia outra alternativa plausível? O sujeitinho caiu na gargalhada e deve ter repassado a besteira a todos os que entraram e saíram da sala, pelos mais diversos motivos, bem a nossa frente. Eu não me senti recompensado pelo triunfo de meus argumentos, embora feliz porque dali em diante estaria dispensado de me desculpar perante qualquer nova estupidez da turma: sugerissem o que sugerissem, fora de questão!
— Sem maiores problemas, como nas deliciosas comédias italianas dos anos 50 e 60. Então é isso?
— Imagina o que me senti obrigado a fazer pra compensar o fogo que não tomei, enquanto meus amigos permaneciam belos e formosos em casa com seus pilequinhos? Bater de porta em porta pra me desculpar com os moradores e comerciantes da praça e prometer recompor em menos de uma semana as cores originais dos muros. Envergonhado por tanta estupidez, de que me penitencio abrindo o jogo a você, me comprometi comigo próprio a jamais tornar a pisar no bairro, se é que é possível. Ridículo, ridículo! Ou seja, foi tudo duma babaquice atroz. Eu me olho no espelho e me pergunto como pude cair no conto dos revolucionários de fancaria de meu tempo. Apesar das contrariedades, claro, eu os quero bem porque quando jovens compartilhamos muitas coisas. A questão, hoje, é que não mais habito seu mundo, nem tenho por ele o menor interesse, embora pertençam àquela vaga esquerda que ainda existe por aí.
— Sinto por suas palavras que, embora a condene, a experiência valeu, não valeu?
— É, só que necessito deixar bem claro o seguinte: não desejo virar  personagem, prefiro continuar como criatura de carne e osso e ponto. Na verdade é cômodo e menos sujeito a emoções destrambelhadas. Gosto de minha vidinha, ela me basta. Talvez não seja adequada para quem deseje viver grandes emoções. Aliás, quem espalhou que a tranquilidade, mesmo que a pessoa se acovarde, não é uma bênção dos céus? 


O paulistano Wladyr Nader  é autor de nove livros, entre romances e coletâneas de contos. O Conto "Meia-volta, volta e meia" é retirado da antologia O Tamanho do Estrago, reunião de novas histórias curtas, que sera lançada dia 9 de Novembro de 2012 na Livraria Martins Fontes em São Paulo.

Wladyr Nader criou em 1975 a revista Escrita, com apoio de um grupo de amigos também escritores e hoje tem um blog literário:escritablog.blogspot.com

Obras do autor:

Lições de Pânico ─ contos (1968) ─ Vertente Editora
Espinha Dorsal ─  contos (1971) ─ Vertente Editora
Camisa-de-Força ─  romance (1975) ─ Vertente Editora
Cafarnaum ─ contos (1977) ─ Vertente Editora
Jogo Bruto ─ romance (1980) ─ Vertente Editora
A Última Bala do Cartucho ─ novela (1983) ─ Editora e Livraria Escrita
Confissões de um Mau Entendedor ─ romance (1987) ─ Tchê Editora
Vamos e Venhamos ─ contos (2005) ─ Arte Escrita Livraria e Editora
A Vida é  Sempre Assim às Vezes ─ romance (2009) – Arte Escrita Livraria e Editora.
Alavasto  ou Morrer Não é Bonito ─  novela (2011),  que integra  com  “O  Capote”,  de  Nikolai Gógol, e “A Volta do  Parafuso”,  de Henry  James,  o livro “Três  Fantasmas”,  da  coleção  Três Por Três ─ Atual Editora






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