domingo, 30 de setembro de 2012

Um dedo de prosa com Mário Araújo


Um dedo  de prosa com Mário Araújo
Neste vídeo, Mário Araújo fala de sua paixão pelos livros, de seus projetos e evoca sua trajetória  desde a publicação de sua  primeira antologia de contos A hora extrema em 2005. O escritor sublinha sua preferência pela escrita contística que, para ele, melhor traduz a experiência hermnêutica de revelação das coisas ocultas.  Para assistir à entrevista de Mario Araújo, clique aqui.
Neste segundo vídeo, o escritor lê um trecho  do seu conto  “O garçom” e fala também de sua relação com o universo literário de Clarice Lispector e de  Dalton Trevisan. Assista aos dois vídeos pelso links abaixo:
O Garçom
Literatura Brasileira

Ao tratar dos autores que o marcaram nos últimos anos, Mário Araújo salienta a importância de Luiz Ruffato dentro do cenário literário brasileiro contemporâneo. Para o escritor, a obra de Ruffato abre novas possibilidades de se pensar o Brasil contemporâneo, sobretudo ao trazer para o espaço literário a figura do operário.  Consulte o depoimento de Mário Araújo aqui.


Mário Araújo nasceu em Curitiba, Brasil.Em 2005 publicou seu primeiro livro de contos A Hora Extrema  vencedor do Prêmio Jabuti em 2006. Seu segundo livro Restos  foi publicado em 2008. Além disso, participou deantologias no Brasil, Espanha e México e tem publicado textos nem jornais e revistas literários e na internet. Atualmente, prepara seu primero romance.
 A HORA EXTREMA
(trecho)

O menino deixa o quarto, tomando cuidado para a madeira do chão não rosnar sob suas pisadas, apalpando os móveis, controlando a cócega na garganta. Pé ante pé, entra na cozinha e encontra o rádio, que liga baixinho. O rádio é um modelo antigo, dos que não mostram as horas, mas apenas as revelam com palavras, nos intervalos entre uma música e outra. No momento não há música tocando, mas um palavrório sem fim, um longo diálogo cujo conteúdo não se consegue discernir naquele volume, e assim ele tem que esperar. O que se ouve parece um jogo de perguntas e respostas. Depois, entram as notícias da noite.
Quando finalmente o rádio dá as horas, são onze e quarenta e oito. Inicia imediatamente uma nova contagem, como nas lutas de boxe e nas partidas de basquete. Desta vez, a pulsação dos números na cabeça é acompanhada pelas batidas do coração aflito. Envereda para o quarto devagar, obrigado a ter cuidado, o ritmo dos passos em desarmonia com o restante de si. Alcança a janela e contempla a noite que segue em branco, fazendo duvidar do que acaba de dizer o rádio e do que diria qualquer relógio. Então, de joelhos numa cadeira, põe-se a abrir a janela, impaciente, mas lentamente devido à sua força pequena, fazendo a vidraça escorregar macia nos caixilhos até que se trave, enquanto a noite começa a acender o quarto, com seu vento fresco, seus aromas e suas luzes de vaga-lumes. Falta um minuto. Sente um arrepio, que se explica certamente por sua afeição inata à natureza, por conter ele também ramos, orvalho, folhas e pedras. Começa a contar mais lento agora, bêbado dos cheiros do jardim, e sessenta morosos segundos depois, compreende que a meia-noite é a hora secreta em que lesmas e jasmins reúnem-se para exalar. As cores sombrias explodem, numa vibração não perceptível às criaturas diurnas. O silêncio de fora se sobrepõe ao silêncio de dentro, sendo aquele um silêncio mais fresco, molestado por ruídos sempre imprevisíveis, ao passo que o silêncio de dentro está estagnado, oprimido entre os rugidos do pai e os suspiros do bebê – somente a mãe aprendeu a arte da sublimação mesmo inconsciente. Invadido pelo silêncio, pelo olor e negror da noite, o quarto do menino não pertence mais à casa, foi anexado pelo mundo. A meia-noite é, na verdade, a hora da noite extrema.
Mas a meia-noite só dura um segundo, ou um minuto, e não há que esperar pelo desenrolar do novelo da madrugada. Então, com o rosto acariciado pelo vento cordial do enigma decifrado, ele desce a vidraça e devolve o corpo à imobilidade sob as cobertas quentinhas. No seu mais íntimo, sabe que a noite é mesmo uma estátua, inalterada das oito às cinco. Dorme tranquilo.

                   A Palavra perdida

Juarez disse que amanhã, quando o chefão chegar, vai acabar com essa… Foi então que Juarez usou a palavra, a palavra de que Álvaro não se recordava. Por mais esforço que fizesse, a palavra não vinha, e Álvaro decidiu chamá-la provisoriamente de balbúrdia. O chefe chegaria de viagem para pôr fim àquela balbúrdia, murmurou para si mesmo, esperando que logo aparecesse a palavra verdadeira. Esta era muito pior, sem dúvida, e por isso o ofendera tanto. Qualificar daquela forma o trabalho que ele desenvolvia com tamanho zelo. Um absurdo!
Precisava da palavra para contar à mulher, no sofá. A mulher tinha um olhar compreensivo, mas não o bastante, pois a palavra não era a correta. Encheu-se de expectativas para o jantar: talvez de estômago cheio, ou mesmo enquanto mastigasse, com o movimento dos músculos faciais a palavra escorregaria do esconderijo em sua cabeça para a boca, e daí para fora.
Na hora em que a ouviu, na sala do subchefe, não quis retrucar. Preferiu engolir a raiva devido à presença de Clóvis, colega dado a salpicar de cascas de banana o chão alheio; se protestasse, o colega teria munição para atacá-lo em mexericos de corredor. Assim, Álvaro saiu da sala com a palavra ultrajante debaixo da língua, como se a estivesse guardando para mastigar ao longo do dia. Prometia a si mesmo retornar mais tarde para, a sós com Juarez, reivindicar um tratamento mais respeitoso. Ao chegar à sua mesa, porém, a palavra havia sumido, como um veneno que tivesse se dissolvido na sua saliva; a palavra se esquivava de ser pronunciada e, portanto, esconjurada.
Depois de um jantar em branco, com um amigo ao telefone recorreu novamente a balbúrdia, dessa vez acompanhada de sinônimos, como bagunça e baderna, mas nenhum deles servia. A conversa versou também sobre outros assuntos, nos quais Álvaro não conseguiu se concentrar. Debaixo do chuveiro, refrescou-se pensando na reparação que exigiria do subchefe, no conjunto de qualidades que possuía e que tornavam injustificado o uso da palavra terrível. Mas para isso era fundamental lembrar-se dela. Dela. Não podia aceitar refugiar-se em paráfrases, diluir sua revolta em metáforas. Tinha que ser claro e objetivo. Poderia até mesmo fechar a conversa com o pedido de demissão que há muito acalentava.
O encontro do corpo com a toalha limpa e macia, porém, neutralizou a aspereza dos pensamentos de Álvaro. Já de pijama, reconsiderou o pedido de demissão e, enquanto ajeitava o travesseiro, a exigência de uma retratação pareceu-lhe ridícula. A mulher respirava em paz, o rosto voltado para o outro lado, as costas serenas. Com a luz apagada, entregou-se à prece que antecedia o sono de todas as noites, ao mesmo tempo em que procurava pelos quatro cantos da mente a palavra perdida. Concluiu que esta se extraviara de propósito para protegê-lo de uma atitude tresloucada, e em meio à oração logo surgiram expressões de agradecimento pelo extravio. Enfim, deu a palavra por definitivamente desaparecida e, sentindo-se a salvo da própria imprudência, adormeceu.



Alguns links

Website do autor
 Entrevista programa Imagem da palavra ( 16/02/2012):
 Entrevista para TV Senado(8/04/20012):
 Resenha do livro Restos no Jornal Rascunho :
 Resenha do livro Restos no Jornal Gazeta do Povo :
 Orelha da Antologia de contos  A Hora Extrema, por Luiz Ruffato: 
 Contos sobre futebol na Revista Continuum, do Itaú Cultural:




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