sábado, 15 de setembro de 2012

Um dedo de prosa com Luzilá Gonçalves Ferreira


Um dedo de prosa com Luzilá Gonçalves Ferreira

Assistam ao depoimento da escritora Luzilá Gonçalves Ferreira para o blog Estudos Lusófonos.

Num primeiro vídeo, Luzilá fala de sua trajetória literária, de suas leituras e de sua responsabilidade enquanto escritora.  Vejam o vídeo neste link.

Luzilá comenta, também, o seu trabalho de pesquisa em torno da presença e da atuação das mulheres (professoras, poetisas, escritoras, jornalistas, revolucionárias) nos jornais e na sociedade pernambucanos do século XIX. Consultem a entrevista da escritora neste link.

Para terminar, Luzilá comenta o seu romance Voltar a Palermo em que, a partir de uma história de amor impossível, ela evoca um dos momentos mais trágicos da histórica da América Latina.  Assistam ao vídeo, neste link.


 Percurso

Caminhos. Nasci em Garanhuns, na terra do Lula. Estudei Letras, fiz doutorado em Estudos Literários na Universidade Paris VII. Sou separada, três filhos. Morei dez anos na França, quatro na Argentina, em Buenos Aires. Mas o resto do tempo, é o Recife mesmo minha cidade de eleição e coração.

Literatura, leituras e leitores. Sou professora universitária, sempre foi esse meu alvo. Como foi, desde cedo, o desejo de escrever, quando por volta dos dez anos, descobri Goethe, Selma Lagerloff, Katherine Mansfield, imagine, aos 10 anos. Logo depois foi Dostoievski, foi o Jean-Christophe de Romain Rolland, o Sparkenbroke de Charles Morgan, as Cartas a um jovem poeta, de Rilke. De repente eu me sentia ouvindo esses seres extraordinários e aprendia a ver o mundo com eles. Decidi então que um dia também escreveria coisas belas, uma pretensão enorme. Minha relação com a leitura é obsessiva. Morro de pena de quem não gosta de ler. Leio muito, sobretudo ficção, poesia. E livros sobre História. Meus autores preferidos: Rainer Maria Rilke, Katherine Mansfield, Tchekov. O dinamarquês Jens Peter Jacobsen e a canadense Gabrielle Roy. No Brasil: Drummond, minha querida amiga Rachel de Queiroz, Mario de Andrade. E esse admirável e injustiçado romancista Gilvan Lemos.

Inspiração. No quotidiano, sempre tão inesperado e mágico. No passado, que não cessa de me intrigar e fascinar. A cultura regional está latente em tudo o que eu sou, em experiências vividas ou lidas. Alimento-me muito com o que nos deixaram os pernambucanos do passado, sobretudo as mulheres. Pesquisando esse passado, descobri a atuação das nordestinas do século XIX  na Imprensa, na Abolição da escravatura, na poesia. Escrever sobre o que fizeram essas mulheres é um pouco recuperar sua fala que durante anos foi silenciada, esquecida, apagada. Trazê-las ao presente, ouvir o que têm a nos dizer, reata fios partidos, ilumina nossa história de brasileiros, de mulheres.

Mulheres. A condição da mulher teve avanços significativos no século XX, em muitos países da Europa. Na América Latina, muito menos; na África e Ásia, de um modo geral, a situação é ainda quase trágica. Há um longo caminho a se fazer. Luzilá no dia-a-dia. Uma mulher sempre ocupada: com as aulas, com sua coluna no Diário de Pernambuco, com as coisas de casa, com o jardim. Uma mulher que às vezes se cansa com tanto telefonema, mas que na medida do possível, atende, escuta. Uma mulher que tenta tornar felizes os que a cercam. Que gosta de estar só, mas também ama a companhia de amigos. Que adora rir e quem a faça rir. Que se alegra em preparar comidas gostosas para si e para o povo de casa. Que ama o que é belo, sejam pessoas, objetos, antiguidades.


Leitores. Meus leitores.  Como saber exatamente quem são? Tenho um público fiel, formado de pessoas sensíveis que me escrevem cartas, mandam mensagens, sobretudo mulheres que se reconhecem um pouco em minhas personagens. Muitos alunos e ex-alunos também, orgulhosos da professora que escreve.

(*) Adaptação de uma entrevista concecida por Luzilá Gonçalves Ferreira para a Cultura News

Um pouco de leitura

O Espaço do teu rosto
                                                                   
A mulher sozinha na sala apagou a luz, guardou o Rilke sobre a mesinha. Foi à janela, a cidade lá embaixo, ruas desertas, vitrines se dissolvendo na escuridão e nos edifícios raramente uma lâmpada acesa, a vida lutando: insônia, algum trabalho inadiável ou alguém doente.

A mulher foi sentar na varanda e olhou o céu. Prosaicamente estrelado.

Da varanda ao lado, invisível, veio um cheiro de jasmim-laranja: a vizinha cultivava num vaso um jasmineiro, feito quem cultiva amor. Cheiro de jasmim num décimo andar em plena cidade.  A mulher fechou os olhos, abandonou-se, e o cheiro e as estrelas a transportaram longe, ela pequena. Havia um jasmineiro perto do curral e as estrelas davam vertigem. Mãe, ela perguntava, em que longe estão as estrelas? A mãe explicava, as estrelas, tem delas que já nem existem, deixaram de brilhar há anos, séculos talvez, e eu vendo mãe? , eu vendo o que não existe?, então a gente também pode ver fantasma e comadre Florzinha?, e tudo era misterioso mas o mistério se explicava e o mundo era grande e pequeno. E a mãe contara que estrela cai e aí não tem brilho nem nada e ela imaginava sair catando pedaço de estrela e guardando num saco feito fazia com as estrelas do mar e as cestinhas de ouriço: aquilo sim, fora revelação, dentro de um bicho tão feio havia coisa linda assim? O mundo era enorme e cabia todo na cabeça dela e era tão simples.

Levantou-se, foi ao quarto. O homem na cama era um náufrago, confiante. A mulher olhou: o corpo longilíneo de bruços, a pele morena no branco do lençol. Os braços corriam ao longo do corpo, as pernas ligeiramente afastadas, mais escuras que as nádegas, que o calção protegera do sol da praia.  Um homem. Um metro e setenta de cálcio, gordura, sais e água, dispostos de modo a formar um belo corpo amado. Pouca coisa. Tão pouco espaço ocupava no mundo aquele amontoado de carne e ossos. Entretanto aquilo vivia e os braços enlaçavam para a amizade e o amor e os,pés se inventavam caminhos.

O homem se voltou, o rosto se oferecendo ao olhar. Ela contemplou os lábios grossos, semi-abertos. Eu sei o gosto deles, ela pensou, eu sei o jeito de seu beijo e sua boca na minha, dizendo coisas sem pronunciar palavras e seu modo de apenas roçar os lábios. Suave.

Ele dormia com os olhos semi-cerrados, as pálpebras tremiam às vezes. Sonhava? Ela imaginou: os mundos nos quais ele navegava e nos quais ela estaria. Sentiu saudades dele, desejo acorda-lo. Para nada. Só porque.

Teu rosto, ela falou baixinho com medo de o acordar, teu rosto que eu conheço, que meus dedos percorreram tantas vezes te refazendo, descendo pela testa, passando pelos teus lábios, teu rosto, rosto meu, meu não sei por que mistério e nem sei até quando, meu como se o houvesse criado.O espaço do teu rosto, ela disse, resumo do mundo para mim e abertura para mundos infinitos. Teu corpo me leva longe, desintegra, despedaça. Mas teu rosto devolve-me a mim mesma e no espaço do teu rosto eu me integro ao mundo.

Passou o dedo de leve sobre a testa, desenhou-lhe o perfil, roçou a boca. Ele fez um trejeito, como para afastar um inseto, mas a boca sorriu suave.  Eu conheço esse rosto, ela falou, se cegasse nunca mais voltasse a ver, eu o reconheceria entre milhões de rostos do mundo. Uma ternura muito grande cresceu dentro dela. Nós dois, a gente se entende. E eu me aproximo de ti como de nenhum outro ser humano e minhas lágrimas e fraquezas te são conhecidas. E tu não me temes e te desnudas e eu conheço em ti a doçura que ninguém sabe e o medo de viver. Separados, apresentamos distintas máscaras às pessoas, que nos conhecem fortes e duros. Mas nós sabemos em nós o espaço que nos criamos e como cada um é o elo que une o outro às coisas, ao cosmos. Eu te amo, ela falou. E se sentiu muito tola e era bom.

Do livro O espaço do teu rosto, Recife 1982

Deixar ir meu povo

Finalmente eu sabia muito pouco sobre aqueles homens barbudos, de chapéus de feltro negro, aquelas crianças sardentas de cabelos encaracolados, aquelas mulheres silenciosas, que pareciam carregar nos olhos claros toda a tristeza do mundo. Cada manhã, quando ia pesquisar na Biblioteca Histórica da rua Pavée, eu os via passar. Imaginava o quanto de sofrimento e medo se haviam comprimido um dia nos corações, nos espíritos daqueles indivíduos habituados ao olhar de discriminação, de piedade, quando não de desprezo, de ódio até, por onde quer que andassem.

Algumas vezes, em finais de tarde das sextas-feiras, ousei entrar na sinagoga, para lhes escutar as preces, os cantos. Subia ao espaço reservado às mulheres, permanecia ali, discreta, silenciosa, reservada, desconhecida. Ninguém nunca me perguntava nada, ninguém nunca me dirigiu um olhar, ninguém dava mostras de ser incomodado por uma presença estranha em um lugar onde todo mundo se conhecia, certamente. Os tempos da desconfiança haviam passado. Nenhuma daquelas mulheres parecia notar minha presença ali no meio delas, cada uma encerrada dentro de seu próprio mundo de preces e de lembranças. Eu não entendia uma palavra das orações que faziam, nem dos cânticos, cujas melodias monótonas, lentas, eram marcadas por um por uma mel tom que parecia buscar caminhos nos territórios da alma e ali instalar uma dor ancestral. Dor que atravessara séculos, percorrera países nos quatro cantos da Terra. E eu buscava as palavras que nos longes de minha infância alguém lera para mim, ou pronunciara em meio a um sermão que eu não entendia, um homem vestido de negro: “far-te-ei uma grande nação. E também: sereis como as estrelas do céu, como as areias do mar, que não se podem contar. Em ti serão benditas todas as famílias da Terra.”

 Eu achava lindo, aquelas comparações, aquelas palavras me fascinavam, mas minha mãe explicara que se referiam a judeus, ao povo judeu. Os judeus que eu conhecia eram esquisitos, feios até, mal-vestidos, muitos cheiravam mal. Andavam cabisbaixos, com semblantes tristes, discretos, davam a impressão de se esconder, de querer passar despercebidos. Enquanto as estrelas, brilhantes, colocadas no mais alto dos céus, no imenso firmamento, pareciam vaidosas, orgulhosas de serem vistas, admiradas. Como se dissessem olhem para nós, e para as ver era preciso erguer os olhos, esquecer a Terra. Mas os judeus, os judeus...  Do mesmo modo, as areias do mar eram claras, lavadas todos os dias, cheiravam a coisa limpa. À noite, quando as crianças brincávamos na rua, eu gostava de me deitar na calçada e olhar as estrelas. Meu pai se sentava ao meu lado, me dizia seus nomes, explicava que muitas delas levavam anos para chegar até nós. Eu aceitava, entre mim e as estrelas um entendimento se fazia, elas me falavam, me dirigiam mensagens que só eu compreendia. Anos depois, quando já não acreditava que estrelas falassem, descobri que um poeta as escutava, abria a janela pálido de espanto e aconselhava: Amai para entendê-las, pois só quem ama pode ter ouvidos capaz de ouvir e de entender estrelas. Um certo matemático também me mostrara outros caminhos,  me levou a refletir, a temer: le silence de ces espaces infinis m’effraie.  E vim a pensar que era da mesma natureza o silêncio dos homens com quem eu cruzava pelas ruas de minha cidade ou de Paris, o silêncio das mulheres, que eu cotejava na sinagoga, e o silêncio das estrelas. De fato, o que se escondia por trás do seu silêncio?

 Eu era uma historiadora. Fizera uma escolha na vida: descobrir, ressuscitar, buscar e entender vozes adormecidas em velhos documentos no fundo de estantes. Após um dia inteiro de mergulho em papéis do passado, carinhosamente guardados na Biblioteca, vetustos jornais e revistas relatando feitos da humanidade, do que haviam deixado os antepassados, todos agora dormindo, o ambiente escuro da sinagoga, os cantos, a fala monótona do rabino me ofereciam sutilmente a correspondência de que necessitava para voltar ao presente, me reinserir no mundo dos vivos.  Tornava atuais os tempos pretéritos que me haviam atraído, meu objeto de estudo.

Eu olhava aqueles rostos de mulheres ao meu lado, os vultos de homens nas cadeiras ao rés do chão, as cabeças coroadas por um solidéu negro. Imaginava suas vidas, as paisagens que a memória havia guardado, lembranças que carregavam, ocultavam, desejavam talvez esquecer, eram judeus, tinham fugido. Eu pensava nas florestas que haviam atravessado, escuras, sinistras, mas que protegiam dos olhares, dos perseguidores.  Quando a neve cobria o mundo, eles se escondiam: cavavam a espuma branca, até encontrar a terra, ali estendiam um manto e se esquentavam, deitados uns sobre os outros, calados em meio ao silêncio que a neve imprimia nas coisas.  Então, nem um canto nem um pio de pássaro, nem uma pegada de animal: todos se escondiam dos homens, inimigos permanentes, eles também fugitivos sempre. Judeus.

Alguns links

Moisés Neto entrevista a escritora Luzilá Gonçalves

Luzilá Gonçalves Ferreira, uma apaixonada pelas Letras, por Moisés Neto e Fátima Amara

Interpoética, por Raimundo de Moraes, janeiro de 2008.

Artigo de Ângela Maria Garcia dos Santos Silva e Cibele Beirith Figueiredo Freitas, “Os rios turvos : ecos do feminismo no Brasil Colônia”.

Enciclopédia Nordeste.com

Voltar a Palermo, de Luzilá Gonçalves Ferreira
Resenha de Amanda Polotow Geraldo, Daniel I. Mesojedovas  eKarina Nanci de Souza C. Pereira

Artigo de Márcia Cavendish Wanderley, “O Amante do Vulcão: Comparatismo e metaficção historiográfica”, in : Revista eutomia.

Tese de Doutorado de Maria Eloisa Rodrigues Nunes, Romance histórico contemporâneo: com a palavra, a mulher. PUCRS, Porto Alegre : 2011


Produção Literária.

Livros de contos, romances, crônicas:

O espaço do teu rosto, contos, ed.Pirata, Recife, 1982.
Muito além do corpo, romance, Ed.Scipione, S.P. 1987.
Os rios turvos, romance, editora Rocco,R.J  1993. Sexta edição em 2009.
A Garça Mal Ferida, romance, ed.Lê, B.Horizonte, 1993.
A Garça malferida, editora Nova Presença, Recife,. 2002.
Voltar a Palermo, romance, ed.Rocco, RJ 2003.
No tempo frágil das horas, romance, ed.Rocco.RJ. 2004.
Deixa ir meu povo, ed. Caliban, R.J.2010.
Pedaços, editora Bagaço, Recife, 2010.

Contos publicados em revistas ou em coletâneas
-Uma terna maneira de ir morrendo, in Cadernos Culturais, Recife, 1978.
 A carta, in Revista Nova,R.J.1978.
-Inútil Primavera, in Encontros com a Civilização Brasileira. N. 20, R.J. 1979.
- O enterro de João, in Panorama do Conto Pernambucano, ed. Escrituras-IMC. S.P.  2007.
O Duelo, in Quartas Histórias, ed.Garamond. S.P. 2006.

Biografias
-Cinzas no jardim, biografia de Lou Andréas Salomé, Coleção Encanto Radical, ed. Brasiliense, S.P. 1982.
-Dentro da vida,à margem da história, matriarcas de Pernambuco- Coleção Papéís Avulsos, ed. do Centro Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos da Escola de Comunicação(CIEC)  da UFRJ, R.J,1989.
-Humana,demasiado humana,ed. Rocco, R.J. 2000.
-Presença Feminina. Biografias das deputadas pernambucanas no século XX, ed. Assembléia Legislativa de Pernambuco, Recife, 2002.

Ensaios literários
- O tempo sem remédio na farmácia, uma leitura da obra de Mauro Mota, ed. Cátedra-INL, R.J.1982.
- A anti-poesia de Alberto Caeiro, Associação de Estudos Portugueses, Recife, 1989.
-Tantas vozes, literatura brasileira para o vestibular, com Antonio Viana, ed.Companhia Pacífica (1ª edição) e Nova Presença( 2ª.ed.)Recife, 1999, 2001.

Artigos ou ensaios em livros ou coletâneas
Lou Salomé a Paixão viva, in Os sentidos da Paixão, ed. Companhia das Letras, S.P.1987.
-Florbela e Louise, entre o amor e a palavra, in Estudos sobre Florbela Espanca, ed.Associação de Estudos Portugueses Jordão Emerenciano, Recife 1995.
-Mulheres e Abolição, in Desafios da Identidade. ed.,da Universidade Federal do Pará, Belém.1998.
-La parole volée, in Les Femmes dans la ville, Presses de l’Université de Paris, Sorbonne, 1996.
-Poesia e Abolição, in Olhares & Diversidades, ed. Redor e GEPM, Belém,1999.
- Thargélia Barreto de Menezes. Francisca Izidora Gonçalves da Rocha, Ursula Garcia.In Escritoras Brasileiras do século XIX,vol.I e II, Edunisc Florianópolis, 2003,2004.
Mulheres e padres em Pernambuco, um discurso enviesado. In Gênero e Representação, ed.UFMG 2002.
-A história de uma paixão, in Relendo o Recife de Nassau,ed.  Bagaço, Recife 2003.
-Mulheres de Canudos, in O Clarim e Oração, ed. Geração Editorial, S.P.2002. 
- Constructing the Place of Woman  Brazil’s Northeastern, no livro Literary Cultures of Latin América, a Comparative History. In Repensando a Literatura Latinoamericana Publicado pela Univ.de Oxford em 2004.
- Desfazendo os mitos do amor, in O Amor nos trópicos, ed. Casa de José de Alencar, UFC,Fortaleza,2005.
- O romance histórico, in A ficção de Luzilá Gonçalves Ferreira, de Anamélia Maciel, ed.UFPE, Recife 2008.






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