quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Tinha uns iranianos me vendo


Bahman Kiarostami
Tinha uns iranianos me vendo

Por Elvira Vigna

No que eu pensava antes de entrar na "Pulso iraniano", exposição de fotos e vídeos de artistas contemporâneos iranianos (Sesc-Vila Mariana, São Paulo):
1) vou ver espaços de tensão entre a) exigências locais de  auto identificação de uma cultura milenar e pouco flexível e b) um  cosmopolitismo, exigência do público a que a exposição se destina.  Vou ver isso em uns não-lugares - vias expressas, aeroportos, shoppings;
2) ou então serão "paisagens naturais" (como se tal coisa existisse!) de desertos. Umas tendas e tal, com direito a pastores, ovelhas, muita areia e mulheres dentro de seus sacos escuros.
Resumindo: um drama transcultural ou intercultural.
Quebrei a cara.
Quer dizer, é tudo isso, mas é mais próximo. São um eu, eles. Ou assim a muito boa curadoria do francês Marc Pottier os/nos apresenta.
Começando pelo vídeo do Bahman Kiarostami, filho do Abbas. Muito simples. Uma plateia de cinema filmada de frente durante a duração de um filme. Só isso. Eles olham para o que seria a tela e que é a câmera de vídeo. Eles olham para você. Fui  lá ver iranianos? Tinha uns iranianos me vendo.
Prestei atenção no plano escolhido para o enquadramento, na ausência de decupagem. Foi uma constante, isso, na exposição inteira. Fotos em composições de linhas horizontais e verticais, clássicas, calmas. Figuras centradas. Distância média. Vídeos praticamente sem trabalho de montagem, também em plano médio, parados, sem travelling.
(Há um escritor brasileiro que faz a mesma coisa em seu último livro. Ricardo Lísias em "O céu dos suicidas". Frases curtas e diretas, poucos adjetivos, drama nenhum, personagem principal banal. E uma derrocada fenomenal de tudo e de todos.)
A derrocada que a exposição dos iranianos mostra é a de uma formação identitária rígida face a mudanças, entendidas como destruição.
Copiei um poema que a curadoria pôs na parede. É de Ahmad Shamlou:

"Nesta vereda para o litoral de Amou Daria
correu um ribeirão que já não existe.
Um rio que há muito
dissipou-se e perdeu-se na memória.
Um rio que secou e foi varrido pelo vento.
Nessas ondas que chegavam ao rio Indo
navegou uma embarcação que já não existe.
Um barco que durante algum tempo permaneceu na memória de alguém
e então abruptamente caiu num precipício e foi destruído."

Morteza Ahmadvand fez uma instalação com nove vídeos compondo uma única tela. São nove momentos diferentes de um voo de canário. O canário está preso em uma gaiola. O voo é curto, frustrado.
Mehran Mohajer fotografa sombras de pessoas no chão, pés de pessoas andando na rua. Sua câmera não vai mais alto que um joelho. Exceção: bandeiras nacionais ao alto tremulando ao vento. Sem chão.
Jalal Sepehr faz uma comparação visual entre pesados tapetes persas e a água, sempre fluida, adaptável, movente.
Sadegh Tirafkan
Sadegh Tirafkan traz instantâneos de gente que cobre a própria cara ou que tem a cara coberta sem o desejar por objetos na sua frente.
Shirin Neshat tem dois vídeos concomitantes, um na frente do outro. A sala dele é escura. Se trata,  pois, de convite a um mergulho em mundo ou tempo diferente do "real". Num deles, um conjunto de velhinhos. No outro, um conjunto de velhinhas. Falam de namoros de juventude. De como era bom "antes".
Shirin Neshat

Peyman Hoosmandzadeh fotografa seus personagens sempre de cabeça para baixo. Encostados em muro, dentro do metrô ou no corredor vazio de uma casa. Um mundo de cabeça para baixo.
Amirali Ghasemi documenta uma festinha. Bebidas, música, risadas. Só que os convivas não tem cara. Todos os rostos estão recortados na foto, em branco.
Bahman Jalali é mais externo. A violência não é psicológica, é social. Seu espaço é a rua. A burka que passa na frente de uma arquitetura urbana arrojada; vitrines de joias que são o único ponto iluminado de um beco escuro; cruzamento com pedestre em vestimenta tradicional, carro caindo aos pedaços e cartaz publicitário, bem atual, de detergente de pia; terreno baldio na frente de edifício-sede de banco internacional; quintal modesto com cesta de basquete, ícone de uma cultura ... americana.
Bahman Jalali

Shadi Ghadirian é mais panfletária. Vai para o simbolismo. Botas militares manchadas de sangue e sapatos femininos de salto altíssimo no mesmo vermelho sanguíneo. Fiquei na dúvida de quem mata quem na visão da artista.
Um eu não gostei. Arash Hanaei. Mora em Paris. Estetizou a guerra. Fotos pequenas de soldados e armas. Personagens na contraluz, a silhueta em preto, e fundo amarelo-laranja-vermelho. Mais publicitário impossível.
A exposição faz a contabilidade de uma perda, o que qualquer programa jornalístico de TV também faria. A diferença é a proximidade com o assunto tratado. O curador evita a tentação usual de tomar posse do assunto para "vendê-lo" como catarse a seu público ocidental. Não há busca por comoções, o que retiraria sua eficácia estética. Há a tensão frente à quebra das estruturas e as próprias estruturas, tão claras, de linhas horizontais e verticais, estáveis, lá presentes como fantasmas do que não mais existe.
E há a recusa de colocar o tema como objeto passivo do olhar do outro. A exposição diz, na documentação de um cotidiano banal, que a derrocada também é de quem vê.
Os espaços exibidos nas fotos e roteiros escolhidos resistem à  narrativa de roteiros pré-estabelecidos. Há um jogo entre quem habita esses espaços, quem os documenta e quem vai lá vê-los. É mais difícil do que eu pensava, certo. Mas há outra dificuldade. Está no que a curadoria e seus artistas não mostram.
Falei de uma formação identitária rígida. O que está na exposição é o embate entre a rigidez e a mudança. Não fala da rigidez. Não fala da lei da sharia que se considera acima das leis nacionais de outros países, instituindo "tribunais" clandestinos e criminosos.
No livro do Lísias, o narrador também não fala sobre o caminho que leva seu amigo ao suicídio. Qual foi o beco sem saída. O narrador, tal qual o fruidor da exposição dos iranianos, também é afetado, também faz parte. Também ele se verá incluído na derrocada que à primeira vista seria só do outro. Mas o processo de exclusão impiedosa de possibilidades que levaria a isso, os "eus" oprimidos pela não flexibilização de uma normatividade entendida, se não como divina, pelo menos fora de um mundo "real" que não a influencia (uma metafísica aqui também), isso não é mostrado.
Um trechinho do livro:

"A gente tentava ajudá-lo, mas ele estava incontrolável. A vida tinha que continuar. Ele depois pediu para vir à minha casa. Ficou uns poucos dias e transtornou tudo, quebrou tudo. Eu o flagrei cortando a pele das mãos com o canivete. Fiquei muito nervoso e gritei. Ele se levantou com o canivete. Peguei uma cadeira. - Se você vier, te acerto, você não pode comigo, André, - Lembro direitinho: - Nunca vou te fazer mal, Ricardo. Ele foi embora nesse momento. Acho que no dia seguinte, ou uns dois dias depois, ele me ligou: - Ricardo, vou me internar de novo, fica de olho em tudo e me ajuda. - André, eu não aguento mais, foi isso que respondi. Então acho que se passaram mais uns dois dias e me telefonaram dizendo que ele tinha se enforcado."




Lista dos artistas da "Pulso iraniano":
Morteza Ahmadvand, Shirin Aliabadi, Gohar Dashti, Siamak Filizadeh, Shadi Ghadirian, Amirali Ghasemi, Ghazel, Arash Hanaei, Peyman Hoosmandzadeh, Bahman Jalali, Rana Javadi, Abbas Kiarostami, Bahman Kiarostami, Mehran Mohajer, Zadoc Nava, Shirin Neshat, Jalal Sepehr, Mitra Tabrizian, Jinoos Taghidazeh, Newsha Tavakolian e Sadegh Tirafkan.

Referência bibliográfica:
LÍSIAS, Ricardo. O céu dos suicidas. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2012. p. 143/4.


Elvira Vigna
Setembro de 2012

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  : 

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confira no link: 




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