terça-feira, 4 de setembro de 2012

Literatura brasileira contemporânea em foco

© Raoul Hausmann, "Regard dans le miroir", 1930, photomontage, 19x13,5 cm, coll. Musée départemental d'art contemporain de Rochechouart.

A literatura brasileira contemporânea em foco.

Ciclo de cursos livres oportuniza debates entre professores convidados e estudantes

Por Natasha Centenaro

            As atividades recomeçaram no segundo semestre de 2012 movimentadas, com a garantia de descobertas, trocas de experiências, provocações e amplo debate na Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Fale / PUCRS). Durante o mês de agosto aconteceu um ciclo de cursos livres promovido pelo Programa de Pós-Graduação (PPG - Letras) e organizado pelo professor Doutor Ricardo Barberena (PUCRS) em parceria com o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (GELBC), do Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) e o Departamento de Estudos Lusófonos da Universidade da Sorbonne ( Paris IV)
Entre os dias 8 e 10, a professora Doutora Regina Dalcastagnè (UnB) ministrou o curso “O romance brasileiro contemporâneo” e, no período de 20 a 22, o professor Doutor José Leonardo Tonus (Université de Paris Sorbonne – Paris IV) apresentou “A escrita extremada de Samuel Rawet”. Desses encontros, os resultados foram imediatos: desde a aproximação com um escritor ainda pouco conhecido e estudado como Rawet à efetivação de um grupo de pesquisa sobre o romance contemporâneo no Rio Grande do Sul inserido na pesquisa coletiva do GELBC.

Quem escreve? Para quem? Sobre quem? - Características e reflexões do romance brasileiro contemporâneo na apresentação de Regina Dalcastagnè

            Amor, morte ciúmes são temas universais? Representados por uma literatura também universal? O que é o universal? Qual é a perspectiva desses temas abordada pela literatura? As vivências das pessoas são iguais? E são representadas da mesma forma pela mesma literatura? Que literatura?
            Questionamentos, desconfortos, inquietações. Regina Dalcastagnè iniciou sua exposição a partir da premissa de literatura como representação de temas universais e da busca de identificação e reconhecimento no livro, a vida que é do outro e também é minha.  E as experiências particulares? E a identidade coletiva? Antes, porém, faz-se necessário desvincular o conceito de representação apenas como mimese e relacioná-lo com a construção (e consequente reprodução) do discurso. Ao se pensar em uma perspectiva social e política, pergunta-se qual é a autoridade e a legitimidade da obra literária? Qual é o lugar de fala no interior da narrativa e de quem é essa voz? Como estão representados os grupos? Quando a literatura, sob um viés cultural elitista e arbitrário, persiste em escamotear, renegar, isolar, esquecer, ocultar mulheres, negros, pobres, homossexuais (restritos em guetos sociais), percebe-se que essa representação passa longe de ser real e legítima frente à sociedade brasileira, sobretudo, plural.
            Para ampliar a discussão foram citados os conceitos e as definições teóricas do filósofo francês Pierre Bordieu de campo, campo literário, produção e agentes literários, as relações entre o mundo literário e o universo social, a comunicação desse mundo com o campo do poder, a perspectiva e a legitimidade do discurso da exclusão. Dalcastagnè apresentou a metodologia, os procedimentos de realização e os resultados da pesquisa vasta e minuciosa desenvolvida sob sua coordenação que mapeou o romance brasileiro contemporâneo no período de 1990 até 2004, com destaque para as personagens (protagonistas e narradores) e os autores. O método foi quantitativo, o recorte do corpus se fixou nas três principais editoras (através de critérios de seleção reputacional) Record, Companhia das Letras e Rocco. Após a leitura, foram preenchidas as fichas no software Sphinx Lexica para o tratamento estatístico.
            Resultado: 258 obras publicadas por essas três editoras nesse período. Os dados provenientes levantam o debate sobre quem faz, para quem e qual literatura é feita. Quem escreve é homem (72,7%), branco (93,9%), com curso superior (78,8%), nascido predominantemente nos estados de Rio de Janeiro (36,4%), São Paulo (13,3%), Rio Grande
do Sul (12,7%) ou Minas Gerais (10,9%), residente em capital (90,3%, sendo que mais de 60% em São Paulo ou Rio de Janeiro) e com data de nascimento entre 1940 até 1960. A maioria das narrativas estão situadas no tempo a partir da redemocratização (1985) até o presente e têm como cenário uma grande cidade (82,6%).
Foram identificadas 1245 personagens importantes, desses 773 (62,1%) são homens e somente 471 (37,8%) mulheres. E, por incrível que possa parecer, em 41 romances (15,9%), as mulheres estão ausentes. Ao se pensar na voz, personagens femininas são narradoras em 31,7%  e protagonistas em 28,9% contra 68,3% de narradores e 71,1% de protagonistas masculinos. Quando se fala em orientação sexual, apenas 3,9% são homossexuais. Enquanto os personagens homens são, na maioria, escritores, as mulheres são donas de casa. E, 79,8%, personagens brancos (só 7,9% são negros).
Esse é o panorama da Literatura Brasileira. Outra pesquisa realizada posteriormente se concentrou em romances no período entre 1969 e 1975. Os resultados não foram muito diferentes, evidenciando-se, cada vez mais, o silenciamento de vozes, ausência de representatividade de indivíduos de diferentes grupos, dificuldade em representar o outro e a perpetuação de modelos estereotipados e o mesmo padrão cultural estabelecido.
As exceções  (representar a periferia e o lugar de fala das minorias na narrativa)  à regra (campo literário dominante) surgem quando lemos na capa de um livro autores como Carolina Maria de Jesus (Quarto de despejo, Diário de Bitita e Provérbios e pedaços da fome – “É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”),  na década de 1960; Paulo Lins (Cidade de Deus) e Ferréz (Capão pecado e Ninguém é inocente em São Paulo), na atualidade. Além das manifestações de rap, hip hop, funk, grafite e outros movimentos artísticos e culturais que garantem voz e representatividade à periferia. Voz autêntica e não estereotipada. Representação social, política, cultural e individualizada, porque a negra da favela também tem a sua história para contar (não apenas como exemplo de um grupo social, mas como mulher que vivencia relações pessoais, profissionais, existenciais).
            Como (re)pensar essa literatura brasileira? É chegado (tardiamente) o momento da autocrítica? E nós, como estudantes de Literatura, como professores, como escritores (e perpassa a autorreflexão desta narradora a se assumir autodiegética –  eu estou repensando  leitura, percepção e escrita), como (re)produtores de discurso, como vamos entender e analisar, e de que forma perpetuar ou modificar, esses números refletidos em páginas de livros? As provocações foram lançadas para mais de cinquenta pessoas, entre estudantes de Pós-Graduação, Graduação, de outras instituições de ensino e público em geral, presentes nos três dias de curso.

De autor pouco conhecido ao ingresso no embaralhado universo de extremos e errâncias – Leonardo Tonus aborda a literatura de Samuel Rawet

            Para adentrar ao universo da escrita extremada de Samuel Rawet, não bastasse ler as obras selecionadas, fez-se necessário a imersão nesse espaço arquitetado pelo escritor. O guia da viagem foi o professor José Leonardo Tonus. Apesar de curta duração, a intensidade correspondeu às expectativas surgidas nas leituras e discussões prévias. O autor ainda era quase desconhecido, até dias antes de o curso ter início, e a correria em bibliotecas e livrarias em busca de contos e ensaios rawetianos.
 Assimilar essas histórias de exclusão e personagens complexas, apaixonadas, excessivas, à condição apenas de integrantes de grupos sociais marginalizados é entender e categorizar de maneira redutora e limitada. Ademais, não é possível restringir a narrativa como ferramenta para mapear tais grupos. Pois, acontece, sobretudo, o não-pertencimento e a não-identificação, como causa e consequência dessa marginalização, desse ocultamento, dessa abnegação, enquanto conjunto minoritário de indivíduos. Assim ocorre com os homossexuais; assim vivenciam os judeus, imigrantes. Excluídos.
Imigração faz parte do contexto do autor Samuel Rawet, cuja obra literária foi objeto de pesquisa de doutorado de Tonus, a partir do enfoque da exclusão – a representação, a poética e a ética do não-pertencimento. Rawet nasceu em uma família de origem judaica que imigrou da Polônia para o Brasil, viveu parte de sua vida no Rio de Janeiro e, posteriormente, em Brasília, quando participou, como engenheiro de cálculos, da construção da então nova capital federal. Para Tonus, o escritor dos paradoxos é menos conhecido por sua literatura e mais por sua fama construída em cima da figura de esquizofrênico e, por isso, carece de outros estudos acerca de sua escrita com características de errância (narrador espacial), excesso e traição.
            O curso centrou-se em determinados caminhos (abertos) e chaves (portas semicerradas) para compreender o universo desarticulado de inquietações do autor que tem mais de dez livros entre antologia de contos e novelas publicados, além de diversos ensaios (organizados no livro Samuel Rawet: ensaios reunidos) e textos para teatro, estes ainda inéditos. Uma estrada de curvas, interpretações diversas. A não-identificação e o não-pertencimento como judeu, imigrante, a repulsa pela condição do “ser judeu”, a judeidade estilhaçada, o judaísmo como destruidor do indivíduo, estão refletidos em contos como “Judith” e “O Profeta”, do livro Contos do imigrante (1956).
A identidade silenciada, a negação, o espaço enrustido de gays e pederastas, ou o seu contrário, a espetacularização e a teatralidade, em paródias ou pastiches, de travestis, bichas e michês no mundo homossexual. Mundo construído como patologia e ambiente social, da revolta, da violência, da crueldade, da obscenidade, da exclusão, da marginalidade, do excesso, do limiar da consciência como sujeito e o seu reconhecimento perante o outro, em contos como “O riso do rato” e “Nem mesmo um anjo é entrevisto no terror” de Que os mortos enterrem seus mortos (1981), “Fé do ofício” de Os sete sonhos (1967) e “A fuga”, de Diálogo (1963).
Tonus estabeleceu algumas possibilidades de diálogo presentes na escrita de Rawet. A questão do judaísmo pode ser lida em contraponto ao pensamento do filósofo judeu Martin Buber que pensava a relação entre o Eu-Tu, a intersubjetividade e o diálogo oportuno, descartados por Rawet. Essa impossibilidade da relação de conversação e de entendimento mútuo também pode ser conferida na obra literária da escritora brasileira contemporânea Elvira Vigna, assim como o narrador espacial, a representação do outro como eu – eu mesmo, e as incertezas e os constrangimentos ao leitor causados por esse narrador.
O viés existencialista de Jean Paul Sartre e Albert Camus, o reconhecimento do mal absoluto, o desaparecimento do outro e o ódio como identificação, tal qual as escrituras de Marcel Proust sobre o homossexualismo (a definição de sodomitas, de Sodoma e Gomorra, por exemplo) também refletem as influências do escritor dos paradoxos. Outra indispensável fonte de constante diálogo, leitura e interpretação é a obra do francês Jean Genet.
            O curso foi finalizado com a abordagem do texto e da linguagem traidores de Rawet. A ruptura em não estabelecer o pacto, contrato, com o leitor evidente na escrita labiríntica e repleta de digressões, correções e citações. Como se percebe no trecho do ensaio Kafka e a mineralidade judaica ou a tonga da mironga do kabuletê (1977): “Estou farto de pathos, farto de ahhs!, ohhs!, uhhs!, arreganhos de dentes, deboches, berros boçais e manhas irônicas, ou pseudo-irônicas, porque ironia significa um certo grau de humor, e o único humor judaico que conheço é o macabro. Desinfetem!”.
            Na ocasião, o professor José Leonardo Tonus também ministrou uma palestra sobre o autor amazonense Milton Hatoum, na noite do dia 21, intitulada “A lisualidade em O relato de um certo oriente, de Milton Hatoum”. Compareceram ao auditório da Faculdade de Letras da PUCRS, cerca de oitenta pessoas, entre estudantes de Graduação, Pós e público externo. Aspectos como elementos imagéticos, simbólicos e exóticos presentes na obra e a estrutura de romance tradicional do século XIX foram discutidos.



Natasha Centenaro
Mestranda em Letras –
área de concentração Escrita Criativa / PUCRS
Porto Alegre – Agosto de 2012


(*)Natasha Centenaro é mestranda em Letras, área de concentração Escrita Criativa, da PUCRS. Jornalista graduada pela Famecos / PUCRS, com atuação, sobretudo, na área de cultura - teatro, literatura e cinema. Escreve conto, poesia e dramaturgia, tendo participado de antologias. Atualmente, desenvolve o projeto de uma obra literária híbrida, um romance-peça, a ser apresentado como trabalho final.



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