terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ilegalidades da street art



Entrevista com o grafiter português VHILS

por Mickaël C. de Oliveira (*)

« Nas mãos do VHILS, o vandalismo torna-se um ato de criação ». É assim que Marc e Sara Schiller definem a arte do português Alexandre Farto na revista Wooster Collective de Nova Iorque. Artista consciente, Alexandre Farto insiste em querer demonstrar nas suas obras as suas principais preocupações : a condição humana e a relação que os homens cultivam com o mundo urbano que os rodeia. Escava, constrói destruindo, cria. Trabalha com ácido, madeira, ou sprays. VHILS tem tudo do artista completo.
Das primícias aos 13 anos como grafiter aos dias de hoje já com 25, o natural do Seixal traz ainda nele os estigmas de uma infância marcada pelo período de transição que viveu Portugal, da ditadura salazarista à integração europeia e ao consumerismo. Poeta na alma, Alexandre Farto também participou em diversos projetos culturais para a inclusão social e continua muito ligado ao mundo musical português. Expôs na Galerie Magba Danysz no início de verão. Residente em Londres, é hoje considerado um dos maiores artistas portugueses da atualidade.



Como nasceu a sua paixão pela arte ?
Das primeiras memórias que guardo são os murais políticos que cobriam as paredes de Lisboa e arredores que tinham sido pintados depois do 25 de Abril, sentia um grande fascínio por eles, mesmo se já decadentes. Depois comecei a pintar graffiti com cerca de 10 anos e comecei a prestar mais atenção ao que se passava no meio urbano em termos visuais: os murais decadentes, a proliferação da publicidade, o graffiti. Foi através do graffiti que cheguei ao mundo da arte, foi essa prática de desenhar e pintar na rua que me suscitou interesse pela área de criação visual, e com isso o interesse pela arte em geral.

A street art sempre teve um lado incisivo e revelou-se um dos principais fenómenos de contestação depois do punk. Essa arte podia existir sem a atual sociedade de consumo?
A arte urbana é contestatária por natureza, emergiu com o intuito de tentar mudar percepções, questionar, fazer reflectir, é ousada o suficiente para questionar o status quo e com isso tentar alterar o sistema e o meio no qual emergiu. Mas faz parte dele, surgiu como oposição, como reacção a ele. Sem ele não faria sentido – seria apenas uma arte livre. Todos os fenómenos contestatários fazem parte do mesmo meio que os gera, é uma das dinâmicas contraditórias deste meio em que vivemos: de dar origem a anti-corpos que alargam as fronteiras e depois mais tarde são absorvidos pela cultura dominante. A grande diferença entre um fenómeno contracultural como o Punk e a street art é que esta última é ilegal, e como tal pode ser absorvida e comercializada em certa medida nas galerias e museus, mas a sua dinâmica no exterior não se deixa manipular, continua livre.
  
Como vê a situação portuguesa atual? Acha que  o país caiu numa ditadura mais violenta (por ser menos visível) do que a o período salazarista?
A questão é complexa. A tentação actual é dizer que sim, devido a essa invisibilidade, mas sem ter vivido antes de 1974 é difícil de comparar. São realidades diferentes. No entanto, apesar das diferenças entre sistemas, há semelhanças entre as formas de controlo social aplicadas. As democracias europeias são muito parecidas nesta questão. Uma das diferenças que vemos em relação a formas de controlo social repressivas do passado é a do controlo sobre o acesso à informação: se antigamente era altamente restritivo, hoje em dia é o oposto, mas a sua liberalização trouxe a mesma consequência, o excesso de informação banal acaba por ter o mesmo efeito perverso de nos inundar com futilidades. A educação crítica continua ausente, a crítica social é tolerada mas não incentivada, alternativas sociais, económicas ou políticas não são levadas a sério – não há investimento no testar de outros modelos. Temos um sistema de impossibilidades: diz que permite a diferença mas o único investimento que faz é para o conformismo. O mesmo modelo é aplicado em regiões do mundo muito diferentes, por exemplo, não há investimento em procurar alternativas regionais para adaptar estes modelos políticos e económicos. Na Europa estamos a atravessar um período de consequência deste tipo de políticas: as fissuras entre uma Europa do Sul e outra do Norte estão a ficar novamente visíveis. Mas um modelo económico, social, político que foi imposto na direcção Norte-Sul, originário de contextos completamente diferentes sem levar variações regionais e culturais em conta, só podia ter dado nisto.


Tem tido algumas colaborações com o mundo da música portuguesa (Chullage, Orelha Negra), de que géneros se sente mais próximo ?
Gosto de todos os géneros, tudo me suscita interesse, nem que seja para conhecer. No caso dessas colaborações, Chullage é um amigo próximo que teve uma grande influência na minha formação; Orelha Negra são mestres naquilo que fazem e naquilo que conseguiram até agora. Tem sido um prazer trabalhar com estes e outros músicos, está tudo ligado.

Haveria um street art fundamentalmente português?
Creio que hoje em dia com o processo de comunicação aberta criado pela internet as particularidades nacionais têm se esbatido um pouco. No entanto há traços específicos do carácter nacional e cultural que acabam por vir ao de cima, como em qualquer outra forma de arte. Em determinadas regiões isso é mais evidente, como no caso do Brasil ou do Chile, que cunharam estilos muito próprios antes de terem sido ligados ao resto do mundo, mas também em Portugal, em França, na Ucrânia, México e outros países encontramos traços genuinamente exclusivos. Mas, depois, tem muito a ver com a individualidade de cada artista ou criador. De um modo geral é mais seguro seguir a obra do indivíduo ou do colectivo do que tentar fazer uma abordagem por país.

Que relações vê entre o poder da imagem da street art e o da publicidade ? A street art teria, também, uma mensagem a inculcar a «clientes» potenciais?  
95% do meu trabalho tem fins artísticos, por isso mesmo quando me é comissionada uma peça não os vejo como clientes. Faço uma vez por outra trabalhos de natureza comercial, mas são encarados sob outra perspectiva. Quanto à produção artística, esta tem duas vertentes: uma quando é feita na rua de forma livre, e outra quando é comissionada, seja para galerias ou para intervenções no espaço urbano. Ambas diferem radicalmente de uma produção para fins comerciais, seja na forma ou no conteúdo. A publicidade impõe conteúdos de ordem ideológica ou comportamental, não é uma prática inocente. Na criação livre de rua, pelo contrário, o objectivo é a partilha de algo com os cidadãos, não pretende inculcar nada em ninguém, e se impõe algo é apenas a sua imagem visual, a sua presença no espaço urbano. Estamos a dar algo à cidade e a quem a vê, a humanizar o espaço urbano, torná-lo mais habitável – nada tem a ver com a prossecução de fins comerciais, não vai ao bolso de ninguém.


A fugacidade do tempo e a caducidade das coisas constituem questões fundamentais na sua obra?
Certamente; creio que a grande diferença reside no facto de que não só assumo a natureza efémera das matérias, como procuro instigá-la, catalisá-la e torná-la parte das peças em que trabalho. O meu objectivo é o de trabalhar com a natureza; se tudo muda com o tempo, quero incorporar isso no meu trabalho – assumir que essa mudança, essa deterioração inevitável faz parte do trabalho e, consequentemente, que uma peça não está nunca completa, mas vai-se completando com essa transformação ao longo do tempo.

A ruína  permeia uma boa parte de seus trabalhos. Como se faz a escolha dos “materais” e dos “suportes” ? 
Há definitivamente um elemento profundamente poético no modo como a matéria se mostra frágil face ao desenrolar do tempo, e o meu trabalho tem procurado explorar e interagir com essa dimensão. A ruína mostra a fragilidade da cidade, das suas estruturas edificadas, de algo que tomamos como garantido, sólido, imutável. É algo que já teve o seu tempo, cumpriu talvez o seu propósito, algo que já teve interesse e já não tem. A realidade está dependente de ciclos de criação e destruição, uns mais longos e outros mais curtos. O processo destrutivo pode ser igualmente visto como um dos elementos do processo criativo. O meu trabalho valoriza essa interacção, cria através de processos e ferramentas destrutivas, joga com os dois elementos na mesma equação. Por outro lado, o uso dos espelhos na peça do Elevador da Bica em Lisboa foi uma reflexão sobre e uma homenagem às pessoas que vivem aquela realidade que se transformou num pólo turístico e raramente são valorizadas. Os espelhos reflectem a vivência do espaço à volta do funicular, as pessoas, as marcas nas paredes, o graffiti e demais elementos, formando uma composição que se altera com o movimento do suporte.

O que significa, finalmente,  dar rostos «anónimos» aos muros da cidade?
Creio que uma leitura atenta da realidade dos meios urbanos nos permite concluir que as cidades são um meio de contrastes, reflectem e trazem ao cimo tanto o melhor como o pior da espécie humana. São ambientes complexos por natureza, mas de uma forma geral a sua criação e gestão não reflecte preocupação ou interesse na potencialização do indivíduo no meio social. O crescimento urbano desenfreado, aglomerado, sem planeamento virado para a realização do indivíduo resulta sempre em espaços excessivamente desumanizados. A arte no meio público pode em parte assumir essa função, de embelezar e devolver algo às pessoas, tornar os espaços mais aprazíveis, mas não só – precisamos igualmente de áreas de lazer e espaços verdes, de uma gestão mais próxima dos cidadãos, de políticas de integração social e de valorização das pessoas, entre muitas outras coisas. Dar rostos às paredes e muros é um acto simbólico de recuperação dessa dimensão humana, é uma forma de chamar a atenção das pessoas para essa realidade, assumo inteiramente essa intenção. E para mim, num presente saturado e obcecado com a imagem pública, com o culto da celebridade, faz todo o sentido que se volte a sublinhar a importância do indivíduo anónimo. De enaltecer as qualidades que nos fazem humanos sem artificialismos movidos por interesses económicos, sem estereótipos, sem a photoshopização da figura humana que encontramos na publicidade, que fala uma linguagem cega aos interesses dos indivíduos.

Sites para consulta: 
Site oficial do artista 



(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne Paris-IV, sempre teve como objetivo principal a divulgação das artes portuguesas, mas, sobretudo, a promoção de artistas emergentes ou simplesmente não conhecidos. Colaborador para o LusoJornal em Paris, o blogue BandCom consagrado à nova música portuguesa em Lisboa, e também para o website francês Chronofoot, pretende estimular e criar laços entre mundo lusófono e francófono. Neste espaço, consagrado às culturas urbanas, o Mickaël pretende mais dar voz aos que não têm uma projeção mediática ao nível do seu talento. Mickaël C. de Oliveira é também escritor e colaborapara o Blog Estudos Lusófonos. Para outras informações e contatos, consultem os links :  








2 comentários:

  1. Passando para conhecer o blog, muito interessante a proposta e o conteúdo!

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